terça-feira, 2 de novembro de 2010

THE DOORS

THE DOORS (The Doors, 1991, Carolco Pictures, 140min) Direção: Oliver Stone. Roteiro: Oliver Stone, J. Randal Johnson. Fotografia: Robert Richardson. Montagem: David Brenner, Joe Hutsching. Figurino: Marlene Stewart. Direção de arte/cenários: Barbara Ling/Cricket Rowland. Casting: Risa Bramon, Billy Hopkins. Produção executiva: Nicholas Clainos, Brian Grazer, Mario Kassar. Produção: Bill Graham, Sasha Harari, A. Kitman Ho. Elenco: Val Kilmer, Meg Ryan, Kyle MacLachlan, Frank Whaley, Kevin Dillon, Michael Madsen, Billy Idol, Kathleen Quinlan, Debi Mazar, Mimi Rogers, Crispin Glover. Estreia: 23/02/91

Só mesmo um cineasta como Oliver Stone conseguiria realizar um filme como "The Doors". Ainda cheio de moral devido ao sucesso de seus filmes sobre a guerra do Vietnã, Stone conseguiu convencer os produtores a bancarem um projeto de quase 40 milhões de dólares sobre um roqueiro polêmico, sem um grande astro como chamariz de bilheteria e, pior ainda, com grandes possibilidades de desagradar os fãs e os familiares do protagonista. Quando finalmente o filme estreou, no início de 1991, algumas das previsões se mostraram corretas: o filme não pagou seu custo dentro dos EUA, a família de Pamela Courson (namorada da personagem principal) não gostou do resultado final (assim como Ray Manzarek, integrante do grupo) e a crítica se dividiu perante a visão do diretor sobre Jim Morrison e sua banda. Apenas um  fator foi quase unanimidade entre crítica, público e fãs ocasionais: o trabalho meticuloso de Val Kilmer como Morrison.

Na pele de Jim Morrison - o vocalista, líder e sex-symbol da banda de rock "The Doors", que morreu de ataque cardíaco aos 27 anos em 1971 - Kilmer apresenta a atuação de sua vida. Dedicado ao extremo ao papel, a ponto de viver como Morrison por quase um ano antes mesmo do início das filmagens, o ator de coisas tão díspares quanto "Top Secret" (1984) e "Willow, na terra da magia" (1988) praticamente metamorfoseou-se no cantor. O jeito de andar, de falar, de dançar e de se movimentar de Morrison está todo na interpretação de Kilmer. O problema maior de tudo é que, para os não-fãs da banda em particular, em dado momento, todo esse perfeccionismo acaba tornando-se um pouco chato por um motivo bastante simples: Jim Morrison não era uma pessoa exatamente agradável - ao menos é o que depreende-se do filme de Stone - e àqueles para quem os Doors não representam nada mais do que um grupo de rock como os outros as mais de duas horas de projeção beiram uma tortura.

Tudo começa quando Morrison ainda é uma criança e testemunha um acidente de carro que vitima um grupo indígena. Não seria importante se anos depois, já famoso como líder da banda "The Doors" - assim batizada em homenagem a Adouls Huxley e suas "Portas da percepção" - ele não assumisse, vez ou outra, um espírito xamânico (ou seja, entrava em um transe que lhe permitia ter contato com a natureza, seres de outras dimensões, etc e tal). Apresentado a esse mundo pela jornalista Patricia Kennealy (Kathleen Quinlan), de quem torna-se amante, Morrison o utiliza em sua arte. Ex-estudante de Cinema na Universidade da Califórnia, ele une-se a Ray Manzarek (Kyle MacLachlan), Robby Krieger (Frank Whaley) e John Densmore (Kevin Dillon) para formar sua própria banda de rock. Porém, conforme o sucesso do grupo vai aumentando, o total desprezo de seu líder pelo convencional e pelo pré-determinado começa a minar a união entre eles. Alcóolatra, drogado, mulherengo e com tendências auto-destrutivas, Morrison escandaliza a sociedade americana dos anos 60, mesmo estando ela em plena efervescência cultural pré-Woodstock, inclusive sendo preso durante um show, acusado de comportamento obsceno.



A forma com que Oliver Stone conduz sua homenagem a um grupo que idolatra é bastante coerente com a própria obra da banda. O visual imposto por Stone e seu diretor de fotografia Robert Richardson é perfeito no que se propõe, dando a nítida impressão do psicodelismo e da distância da realidade com que Morrison vivia sua trajetória errática. Apesar de cansar em alguns pontos - e até diminuir o impacto de algumas cenas, como a que Jim quase mata a namorada Pam (Meg Ryan) queimada - a forma encontrada pelo diretor de traduzir em imagens distorcidas a mente de seu protagonista não deixa de ser criativa e admirável - ainda que ele tenha alcançado resultado melhor em "Assassinos por natureza" (1994). E ao dar importância suprema a Val Kilmer e seu show particular, Stone relega a segundo plano algumas atuações que mereciam um pouco mais de atenção.


Meg Ryan, por exemplo, é pouco lembrada por seu trabalho como Pamela Courson, a namorada de longo prazo e muitas aventuras de Jim Morrison. Quando fez "Em carne viva", em 2003, a imprensa logo fez questão de destacar sua nudez e sua coragem em romper com a imagem de "namoradinha da América" que havia construído em suas comédias românticas. No entanto, em "The Doors", ela já demonstrava que é capaz de bem mais do que fazer caras e bocas ao lado de Tom Hanks. Não é uma atuação sensacional, mas que prova que o brilho intenso de Kilmer no filme fez sombra a todas as qualidades do filme.

E "The Doors" tem inúmeras delas. Desde a parte técnica impecável (a edição caprichada já é marca registrada de Stone) até a trilha sonora apropriada (Doors do início ao fim, sempre com a música certa na hora certa) tudo no filme funciona para os aficcionados da banda, que não se cansam de assistí-lo. No entanto, para quem não nutre o mesmo entuasiasmo por Morrison e seus companheiros, é apenas um filme bem realizado, apaixonado e criativo, que parece longo demais.

3 comentários:

renatocinema disse...

The Doors não é um filme sobre a banda The Doors. É O FILME. Imperdível, obrigatório, inesquecível.

Hugo disse...

A atuação de Val Kilmer é sensacional, entra para lista das melhores transformações da história do cinema.

Até mais

! Marcelo Cândido ! disse...

Val Kilmer impressiona, só acho que teve um certo exagero ao mostrar o lado "viril" demais, mas voltando a música, é perfeito !