terça-feira, 26 de maio de 2015

EM CARNE VIVA

EM CARNE VIVA (In the cut, 2003, Pathe Productions, 119min) Direção: Jane Campion. Roteiro: Jane Campion, Susanna Moore, romance de Susanna Moore, colaboração de Stavros Kazantzidis. Fotografia: Dion Beebe. Montagem: Alexandre De Franchesci. Música: Hilmar Orn Hilmarsson. Figurino: Beatrix Aruna Pasztor. Direção de arte/cenários: David Brisbin/Andrew Baseman. Produção executiva: Effie T. Brown, François Ivernel. Produção: Nicole Kidman, Laurie Parker. Elenco: Meg Ryan, Mark Ruffalo, Jennifer Jason-Leigh. Estreia: 09/9/03 (Festival de Toronto)

Dentre as características da filmografia da cineasta australiana Jane Campion, duas se destacam nitidamente: o ritmo pouco ágil e a naturalidade com que ela encara a nudez e o sexo. Foi assim, por exemplo, em seu filme mais famoso, o multi-premiado "O piano", em que Holly Hunter e Harvey Keitel se envolviam em um romance nos confins da Nova Zelândia no começo do século XX. Tais características se repetem em "Carne viva", em que ela mergulha em um gênero inédito em sua carreira (o policial) e volta a explorar a sexualidade humana, dessa vez sob o véu de uma história recheada de violência e tensão. Baseada em um romance de Susanna Moore que desejava filmar desde seu lançamento em 1996, Campion mesclou o drama psicológico, o romance erótico e o suspense policial do livro em um filme que, apesar das expectativas, é frustrante nas três frentes: não é profundo o bastante em seu estudo sobre a psique humana, não intriga o suficiente em termos de mistério e só não chega a ser totalmente indiferente no erotismo por explorar, em cenas bastante ousadas, um lado ainda totalmente desconhecido de uma das atrizes mais populares dos anos 90, Meg Ryan.

Em um momento crítico de sua trajetória artística - depois do fracasso de bilheteria de "Prova de vida" e do fim do casamento com Dennis Quaid, resultado de um escandaloso romance com seu parceiro de cena Russell Crowe - Ryan aceitou o papel central de "Em carne viva" como uma forma de mostrar que, além de ser a rainha das comédias românticas da década anterior, também era uma atriz capaz de aventurar-se por gêneros e enredos mais sombrios. Ficando com a protagonização que seria de Nicole Kidman - que pulou fora por motivos pessoais relacionados a seu divórcio com Tom Cruise mas manteve-se no cargo de produtora - a estrela de "Harry & Sally, feitos um para o outro" assumiu a responsabilidade de romper com a imagem pudica e romântica com que cimentou seu sucesso e, apesar do fracasso financeiro do filme, mostrou fôlego para uma fase mais madura na carreira - fase essa que, infelizmente, não vingou, graças a sucessivos fiascos comerciais.


No filme de Campion, Ryan interpreta Frannie Avery, uma professora de literatura que, com o objetivo de escrever um livro sobre as gírias dos guetos nova-iorquinos, frequenta sem medo bairros, bares e boates pouco recomendáveis para a segurança. Solteira e atraente, ela acaba se envolvendo na investigação de um violento assassinato cometido em sua vizinhança (mais um em um série de homicídios semelhantes) e conhece o detetive encarregado do caso, Giovanni Malloy (Mark Ruffalo) - que desconfia que um aluno seu possa ser o culpado. Incentivada por sua meio-irmã Pauline (Jennifer Jason Leigh), Frannie inicia um intenso caso sexual com o policial, separado da esposa e pai de dois filhos pequenos cujo parceiro é tão violento quanto os criminosos que prende pelas ruas. Porém, apesar de estar extremamente atraída por Malloy, a professora não consegue entregar-se totalmente ao romance por desconfiar que ele seja o responsável pelas mortes: em um de seus passeios pelos bares barra-pesada que frequenta, ela viu a vítima fazendo sexo oral em seu provável assassino, que tem uma tatuagem idêntica à do investigador.

A busca pela identidade do assassino é o que menos importa no roteiro, co-escrito pela diretora e pela autora do livro que deu origem ao filme, servindo apenas como pano de fundo para um inventário superficial de paranoias, traumas e neuroses modernas que nem de longe desperta maior interesse em um público acostumado a consumir tudo isso em produções menos pedantes e enfadonhas. Em sua tentativa de cercar o filme de uma atmosfera sombria e claustrofóbica, a cineasta acaba pesando a mão em um suspense vazio, esquecendo de dar profundidade e clareza a seus personagens, que parecem jogados na trama, tendo como finalidade apenas servir como elementos gráficos de suas bem cuidadas cenas, que, justiça seja feita, são plasticamente interessantíssimas - em especial as tórridas cenas de sexo entre Meg Ryan e Mark Ruffalo, em um de seus primeiros papéis principais e já mostrando talento e desinibição de sobra. Fotografadas com bom gosto e enfatizando a naturalidade do ato, tais cenas acabam por se tornar a maior qualidade do filme, que de resto é apenas mais um policial mediano e pretensioso. Tem quem goste, mas para os demais é apenas chato e metido a profundo.

Nenhum comentário: