quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

DESCONSTRUINDO HARRY

DESCONSTRUINDO HARRY (Deconstructing Harry, 1997, Sweetland Films, 96min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Carlo Di Palma. Montagem: Susan E. Morse. Figurino: Suzy Benzinger. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/Susan Kaufman, Elaine O'Donnell. Produção executiva: J. E. Beaucaire. Produção: Jean Doumanian. Elenco: Woody Allen, Judy Davis, Kristie Alley, Elisabeth Shue, Demi Moore, Robin Williams, Billy Cristal, Tobey Maguire, Bob Balaban, Mariel Hemingway, Julia-Louis Dreyfus. Estreia: 26/8/97 (Festival de Veneza)

Indicado ao Oscar de Roteiro Original

Woody Allen sabe que, por mais que ele negue inspirar-se em si mesmo, seu público insiste em procurá-lo em todo e qualquer protagonista de seus filmes. Essa obsessiva busca por semelhanças entre criador e obra teve mais um prodigioso capítulo com "Desconstruindo Harry", onde o veterano cineasta nova-iorquino narra as aventuras de um bem-sucedido escritor que afasta todas as pessoas que o amam justamente porque as utiliza como personagens de seus livros - normalmente enfatizando ou até mesmo inventando seus defeitos. Harry Block, o escritor criado por Allen - e que ele em vão tentou que fosse interpretado por outros atores que não ele, como Elliot Gould e Albert Brooks, exatamente para não aumentar ainda mais a confusão do público - é, provavelmente, o mais desagradável vivido por ele nas quase três décadas que o separam de seu primeiro filme ("O que que há, gatinha?", de 1968), mas é, também, um dos mais engraçados e interessantes de sua carreira como roteirista.

Partindo de uma ideia que emula Ingmar Bergman e seu "Morangos silvestres", Allen põe Block a caminho de uma homenagem que sua antiga faculdade lhe fará, mesmo tendo-o expulso em seu tempo de estudante. Acompanhado de um dos poucos amigos que lhe restam (Bob Balaban), uma prostituta que ele conheceu na noite anterior e seu filho pequeno - sequestrado porque sua ex-mulher não permitiu que ele se juntasse ao passeio - o escritor faz, no trajeto, um pequeno inventário de sua vida amorosa, equilibrando sua memória entre o que realmente aconteceu, a forma como as situações foram retratadas em sua obra e em pequenas histórias que interligam os fatos sem necessariamente fazerem parte de sua vida pessoal. É assim, por exemplo, que surgem na tela personagens geniais, como o ator (Robin Williams) que se descobre fora de foco e quer que todos se ajustem à nova situação e o jovem vendedor de sapatos (Tobey Maguire) que tem um inesperado encontro com a morte (ela mesma, de foice em punho e tudo a que tem direito no imaginário popular).


Brincando com a edição e com as possibilidades que a trama oferece, Woody Allen constrói um roteiro com a medida certa de ironia, que discute a quase misantropia de seu protagonista sem torná-lo um cafajeste no sentido mais literal do termo. Mesmo que Block não tenha escrúpulos em ter um caso com a cunhada ou iniciar um romance com uma jovem estudante paciente de sua mulher - e utilizar essas situações como matéria-prima de seus romances - é difícil não simpatizar com ele e quase perdoá-lo, principalmente porque Allen não pretende demonizar seu personagem, revestindo-o de um irresistível verniz de sarcasmo e auto-crítica que não poupa nem mesmo suas origens judaicas - na figura da irmã de Harry (interpretada por Caroline Aaron) que o culpa por não seguir as tradições, depois que se casa com um judeu ortodoxo.

Com um desfile de estrelas na tela - que vão de Demi Moore e Elisabeth Shue até Billy Cristal e Mariel Hemingway - "Desconstruindo Harry" faz rir sem precisar fazer muita força, além de fazer uma crítica aos escritores que alcançam a genialidade na arte mas são medíocres na vida real. Há quem possa fazer paralelos entre Block e Woody Allen, e culpá-los quem há de?

Um comentário:

Anônimo disse...

Achei bom. Alguns personagens são super engraçados.