sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

JACK

JACK (Jack, 1996, American Zoetrope/Hollywood Pictures/Great Oaks, 113min) Direção: Francis Ford Coppola. Roteiro: James DeMonaco, Gary Nadeau. Fotografia: John Toll. Montagem: Barry Malkin. Música: Michael Kamen. Figurino: Aggie Guerard-Rodgers. Direção de arte/cenários: Dean Tavoularis/Armin Ganz, Barbara Munch. Produção executiva: Doug Claybourne. Produção: Francis Ford Coppola, Fred Fuchs, Ricardo Mestres. Elenco: Robin Williams, Diane Lane, Jennifer Lopez, Bill Cosby, Fran Drescher, Brian Kerwin, Adam Zolotin, Todd Bosley. Estreia: 09/9/96

Entre obras-primas incontestáveis ("O poderoso chefão"), projetos pessoais "("A conversação"), produções ambiciosas e complicadas ("Apocalypse now") e filmes sob encomenda ("Vidas sem rumo"), Francis Ford Coppola às vezes surpreende o público e a indústria de cinema com coisas como "Jack", um delicado e sincero conto infanto-juvenil que substitui a pretensão comercial e artística normalmente contidas em sua filmografia pela ambição pura e simples de contar uma história - que, afinal de contas é o cerne do cinema desde sua invenção. É de se questionar se o imenso talento cabe em obras tão minimalistas, mas o fato é que sempre é uma delícia se deixar entreter por alguém que sabe exatamente o que está fazendo. "Jack" pode não ser um filme extraordinário - está longe disso, aliás - mas dentro que se propõe, é um sopro de ar fresco em um cinema tão violento e inconsequente quanto o de Hollywood. Apenas uma dúvida persiste em seu final: é um filme infanto-juvenil com alma adulta, ou um filme adulto com alma juvenil?

"Jack" se aproveita de uma condição médica real chamada Sìndrome de Werner para, exagerando-a com fins dramáticos, contar a história de um menino de dez anos, Jack Powell, que, crescendo quatro vezes mais do que o normal, entra na escola pela primeira vez com a aparência de um homem de 40 anos. As angústias, situações cômicas e momentos de extrema emoção provenientes de tal situação são o recheio do roteiro de uma obra que usa e abusa de artifícios questionáveis para conquistar a plateia infantil - piadas sobre excrementos, escatologia visual - e esquece com frequência da outra parcela de sua audiência, que precisa contentar-se com situações nem sempre tão engraçadas como poderiam - as que envolvem a mãe de um dos colegas de Jack, que o confunde com o diretor da escola e é vivida pela ótima Fran Drescher, da série de TV "The Nanny" - e alguns momentos de emoção genuína que valem o filme, especialmente quando valorizadas pela atuação caprichada de Diane Lane como a mãe do protagonista, uma mulher tentando da melhor maneira possível lidar com a grande surpresa que o destino lhe fez.


"Jack" começa já mostrando de forma inteligente a peculiaridade de seu protagonista: a bela Karen Powell (Lane) está se divertindo em uma festa à fantasia, ao lado do marido, quando começa a sentir violentas contrações, incoerentes com seus meros dois meses de gravidez. Para sua surpresa, porém, ao chegar ao hospital, ela dá à luz um bebê saudável, forte e de tamanho condizente com um recém-nascido normal. Logo depois os médicos explicam a ela e a seu marido, Brian (Brian Kerwin), que Jack sofre de uma condição rara que o fará apresentar um crescimento celular desproporcional à sua idade. Preocupados, os pais de primeira viagem tomam a decisão de educar o menino dentro de casa, com um professor particular, o dedicado Dr. Woodruff (Bill Cosby). Dez anos depois, porém, eles não conseguem mais impedir seu filho - um menino tímido e solitário, que é vítima do falatório das crianças da vizinhança - se esconda do mundo, e, a pedido dele mesmo, o matriculam em uma escola normal. Lá, ele tem a proteção da professora, Miss Marquez (Jennifer Lopez) e, depois de sofrer certa discriminação por algum tempo, faz amizade com Louie (Adam Zolotin), um aluno-problema que lhe mostra as alegrias de ser criança.

É inegável o foco de Coppola na relação entre Jack e sua turma de novos amigos, um grupo de meninos endiabrados que vivem uma infância como aquelas de antigamente - com casa na árvore e rituais de passagem incluídos no pacote - em detrimento de um crescimento mais condizente com a época em que se passa a trama. Essa nostalgia (e não anacronia como possa parecer) dá um encanto a mais ao filme, permitindo ao espectador uma viagem à inocência da infância, aos sabores de um amadurecimento não mais permitido em um período tão repleto de tecnologia e individualismo (mesmo que a maior parte do filme se passe em 1996, ou seja, pré-uso massivo de celulares e internet, é impossível deixar de perceber o carinho do cineasta pela época em que crianças brincavam entre si e não apenas com seus computadores. Talvez não seja o ponto principal do roteiro, mas a ideia fica ainda mais clara hoje em dia).

E se as boas intenções do roteiro - e sua sensibilidade doce que se enfatiza no terço final - já são motivo o bastante para uma espiada em "Jack", ainda existe seu maior trunfo: a escalação de seu ator central. Poucos atores em Hollywood seria opção mais acertada do que Robin Williams, um adulto com alma de criança que já havia deixado a indústria de joelhos com os sucessos consecutivos de "Aladim" - no qual dublou com perfeição absoluta o Gênio da Lâmpada - e "Uma babá quase perfeita" - que encheu os cofres da 20th Century Fox. Na pele do inquieto Jack, ele não apenas recria as atitudes e maneirismos de uma criança de dez anos de idade: ele se transforma em uma, da mesma forma como Tom Hanks já havia feito com maestria em "Quero ser grande", que lhe valeu uma indicação ao Oscar. Williams não foi lembrado pela Academia dessa vez (só seria premiado dois anos depois, como coadjuvante por "Gênio indomável"), mas provou, mais uma vez, que era um ator extraordinário, capaz de fazer brilhar os roteiros mais simples que lhe caíssem às mãos. Ele é o maior motivo para se assistir a esse pequeno Francis Ford Coppola.

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