quarta-feira, 11 de março de 2015

GATTACA - EXPERIÊNCIA GENÉTICA

GATTACA - EXPERIÊNCIA GENÉTICA (Gattaca, 1997, Columbia Pictures, 105min) Direção e roteiro: Andrew Niccol. Fotografia: Slawomir Idziak. Montagem: Lisa Zeno Churgin. Música: Michael Nyman. Figurino: Colleen Atwood. Direção de arte/cenários: Jan Roelfs/Nancy Nye. Produção: Danny DeVito, Michael Shamberg, Stacey Sher. Elenco: Ethan Hawke, Uma Thurman, Alan Arkin, Jude Law, Gore Vidal, Loren Dean, Xander Berkeley, Elias Koteas, Blair Underwood, Ernest Borgnine, Tony Shalhoub. Estreia: 07/9/97 (Festival de Toronto)

Indicado ao Oscar de Melhor Direção de Arte/Cenários

Em um futuro não muito distante, a imensa maioria dos bebês da Terra serão gerados através de inseminação artificial, possibilitando a seus pais que gerem filhos perfeitos, sem doenças ou qualquer tipo de desvio genético. Nesse mundo, aqueles que, por infelicidade, nascerem de forma natural, são relegados a um destino menos auspicioso, sendo tratados como seres inferiores e portanto impossibilitados de uma vida profissional e pessoal plena. Um desses "filhos da fé" é Vincent Freeman (Ethan Hawke), que, nascido fora dos padrões científicos de sua época, sofre com as chances de desenvolver uma doença cardíaca que pode matá-lo aos trinta anos de idade. Sonhando viajar para o espaço - mesmo sabendo que isso é impossível devido à sua condição genética - ele ainda se tortura ao perceber no irmão caçula (gerado conforme as regras) toda a pureza que sempre quis. Decidido a provar a todos que é capaz de vencer na vida mesmo com suas limitações, ele sai de casa em busca de romper com a inércia de seu dia-a-dia e arruma emprego na Gattaca - uma empresa aeroespacial que provê viagens para fora do planeta. É trabalhando lá que ele descobre uma maneira de burlar o sistema, se passando por outra pessoa para realizar o seu sonho.

Assim começa "Gattaca, experiência genética", brilhante ficção científica escrita e dirigida pelo mesmo Andrew Niccol que criou um dos contos mais contundentes dos anos 90, "O show de Truman, o show da vida" - pelo qual foi indicado ao Oscar de roteiro original. Ao inserir uma clássica história policial em um universo distópico (ou seria utópico?) tão asséptico que soa como um pesadelo orwelliano, Niccol misturou dois gêneros queridos pelo público e cimentou-os com uma saudável discussão sobre os limites da ciência e a obsessão pela perfeição, temas pulsantes e inteligentes que transformam o que poderia ser apenas um competente entretenimento em um dos filmes mais interessantes de seu tempo - ainda que, como a maior parte das obras realmente relevantes dos anos 90, tenha sido um fracasso de bilheteria. Visualmente impactante - com um cenário seco e opressivo que transmite com exatidão a neutralidade impessoal do enredo e concorreu merecidamente ao Oscar - "Gattaca" acaba sendo mais lembrado, porém, por uma história de bastidores do que por seus méritos cinematográficos: foi durante suas filmagens que Uma Thurman e Ethan Hawke se tornaram um casal, em um relacionamento que durou até 2003.


Quando "Gattaca" começa, Vincent já está em vias de ser mandado à sua primeira viagem espacial, depois de anos trabalhando na empresa - e sendo devidamente testado diariamente com exames de sangue e urina. Homem de confiança de um dos diretores da missão, Josef (o escritor Gore Vidal em participação mais do que especial), Vincent esconde de todos um segredo que pode acabar com sua trajetória vitoriosa: ele assumiu a identidade de Jerome Morrow (Jude Law), um atleta geneticamente perfeito que ficou paraplégico depois de um acidente e que cede a ele, diariamente, todos os elementos necessários para que ele não seja descoberto. Assim, com o nome de Jerome, o jovem Vincent leva uma vida sempre no limiar do perigo, sendo obrigado a livrar-se constantemente de todos os resquícios corporais de sua antiga vida. Às vésperas de sua viagem, porém, seu segredo passa a correr o grande risco de ser revelado: um dos diretores da empresa é violentamente assassinado e um cílio de Vincent, encontrado em uma das salas do prédio o aponta como principal suspeito. Sua corrida passa a ser então para esconder sua identidade, provar sua inocência e esconder tudo da mulher por quem está apaixonado, a colega de trabalho Irene (Uma Thurman), que também tem um segredo a esconder de todos.

Fotografado com precisão por Slawomir Idziak (de "A liberdade é azul") - que tira de cada cena o máximo em informações e poesia - e editado como um filme policial cerebral dos anos 70, "Gattaca" foge dos clichês da ficção científica em apostar em um híbrido de gêneros, sendo bem-sucedido em todos eles. A inteligência de sua premissa central encontra eco em um roteiro com ritmo cadenciado, um desenho de produção impecável (a escada da casa de Jerome é em formato de uma espiral de DNA), uma direção discreta e um elenco formidável, no qual se destaca Ethan Hawke no papel principal e Jude Law como seu duplo - um personagem semelhante ao que Law desempenharia pouco tempo depois, em "O talentoso Ripley", que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de coadjuvante e um belo empurrão na carreira. Elegante, sóbrio e acima de tudo extremamente pertinente à época em que foi realizado, o filme de Niccol é um dos melhores filmes subestimados dos anos 90.

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