sábado

CINDERELA EM PARIS


CINDERELA EM PARIS (Funny face, 1957, Paramount Pictures, 103min) Direção: Stanley Donen. Roteiro: Leonard Gershe. Fotografia: Ray June. Montagem: Frank Bracht. Figurino: Edith Head, Givenchy. Produção: Roger Edens. Elenco: Audrey Hepburn, Fred Astaire, Kay Thompson. Estreia: 13/02/57

4 indicações ao Oscar: Fotografia, História e Roteiro Originais, Figurino, Direção de Arte

Em 1952, Stanley Donen co-dirigiu "Cantando na chuva", que, estrelado por Gene Kelly, legou ao mundo alguns dos mais encantadores momentos da história dos musicais no cinema. Cinco anos depois, foi a vez de comandar outro ícone absoluto da dança, Fred Astaire. Enquanto "Cantando" homenageava com humor e sarcasmo os bastidores do cinema, "Cinderela em Paris" alfinetava - de leve como convinha - o mundo da moda. Ao contrário do primeiro filme, no entanto, que intercalava cenas hilariantes com números de dança excitantes, a colaboração de Donen e Astaire não empolga tanto quanto deveria. E isso que, além de Astaire, o filme tem como protagonista a fulgurante Audrey Hepburn.

A ideia de juntar Hepburn - então no auge do sucesso - e Astaire - um símbolo da velha guarda dos musicais - não é nada má. Audrey já tinha ganho um Oscar por "A princesa e o plebeu" e fascinado as plateias com "Sabrina" e o bom e velho Fred ainda era adorado pela audiência. Mas na verdade a parceria quase não aconteceu. O primeiro nome cotado para viver a protagonista foi a da habitual parceira de Astaire, Cyd Charisse. No entanto, logo depois de ler o roteiro, a própria Audrey se interessou pelo projeto, mesmo contra seu agente da época. Para convencer os astros a assinarem os contratos, os produtores então utilizaram uma velha tática: asseguraram a atriz que Astaire já havia assinado com o filme e fizeram o mesmo com ele. Contratos assinados, era correr pro abraço. E não deu outra: o filme fez um grande sucesso, mesmo que não resista tão bem ao tempo quanto "Cantando na chuva".

A comparação de "Cinderela" com "Cantando" não é arbitrária. Além do diretor e do gênero, os dois filmes dividem a mesma intenção: contar uma história de amor tendo como pano de fundo um universo de glamour e sofisticação. E sofisticação é o que não falta quando o assunto é Audrey Hepburn. Aqui, ela vive Josephine Stockton, uma simples vendedora de livros, fascinada por filosofia e absolutamente desinteressada por tudo que se relaciona à moda e beleza. Um belo dia, durante o trabalho, acaba despertando o interesse do fotógrafo Dick Avery (Astaire), que vê nela tudo que é necessário para torná-la o rosto da mais nova campanha da revista onde trabalha ao lado da poderosa Maggie Prescott(Kay Thompson): personalidade, inteligência e charme. Para convencê-la a aceitar o trabalho, ele a convida para ir com a equipe para a capital francesa - onde ela pretende conhecer o líder de um movimento filosófico chamado "enfaticalismo" (uma sacada bastante engraçada). Lá, sob um cenário deslumbrante, entre visitas à Torre Eiffel e ao Arco do Triunfo, os dois, como era de se esperar, acabam se apaixonando.


"Cinderela em Paris" é adorável quando foca sua atenção no rosto absurdamente belo de Audrey Hepburn (vestida mais uma vez pelo estilista Givenchy), mas torna-se um tanto aborrecido em diversos momentos, quando abandona a engraçada crítica à moda e ao existencialismo francês (em voga na época) para apresentar intermináveis números musicais. É preciso ser fã das coreografias elaboradíssimas de Astaire para envolver-se completamente com o filme, uma vez que boa parte de sua duração é preenchida com seus passos de dança (sozinho, com Hepburn, com Thompson). Ainda que seja uma delícia de vê-lo desafiando as leis da gravidade em cenários bonitos por natureza, não deixa também de ser um pouco cansativo, uma vez que, ao invés de ajudar a contar a história, tais cenas apenas servem para demonstrar os dotes do ator e dançarino.

Fosse um pouco mais curto e um pouco mais parcimonioso em seus excessivos números musicais, "Cinderela em Paris" poderia ser tão delicioso quanto "Cantando na chuva". Mas, mesmo com seus pequenos defeitos (principalmente para aqueles que não são entusiastas do gênero), é inesquecível graças ao carisma de seus atores principais. Afinal, quem resiste ao rosto choroso de Audrey Hepburn vestida de noivo em um belo cenário campestre em Paris?

sexta-feira

O HOMEM ERRADO


O HOMEM ERRADO (The wrong man, 1956, Warner Bros., 105min) Direção: Alfred Hitchcock. Roteiro: Maxwell Anderson, Angus MacPhail. Fotografia: Robert Burks. Montagem: George Tomasini. Música: Bernard Herrmann. Elenco: Henry Fonda, Vera Miles, Anthony Quayle. Estreia: 22/12/56

Está certo que Norman Bates, o protagonista de "Psicose" (1960) é inspirado em Ed Gein, que realmente existiu na década de 50. Mas, levando-se em consideração que o roteiro do filme se baseava no livro de Robert Bloch - por sua vez uma obra de ficção - não é incorreto afirmar que "O homem errado" é o único filme de Alfred Hitchcock baseado em uma história real. Aliás, baseado apenas não. Em um fato inédito em sua carreira, o mestre do suspense realizou filmagens em alguns dos verdadeiros locais onde a história ocorreu e, mais impressionante ainda, utilizou algumas das testemunhas do caso em pequenas participações. Apesar de soar como um documentário, no entanto, "O homem errado" está bem longe disso, sendo um dos filmes mais contundentes e sérios de Hitch.

Aqui, Henry Fonda é o ator principal. Ele usa seu rosto anguloso e expressivo para dar vazão à toda angústia e perplexidade que toma conta de sua personagem, envolvida inesperadamente em um pesadelo kafkiano dos mais aterradores. Ele vive Christopher Emmanuel Balestrero, um músico casado, pai de dois filhos pequenos e em dificuldades financeiras que vê sua vida virar do avesso quando é preso inesperadamente, acusado de assalto à mão armada. Reconhecido por várias testemunhas e incapaz de fornecer um álibi concreto, ele acaba sendo julgado por um crime que não cometeu, enquanto sua mulher, Rose (Vera Miles) passa a sofrer de um sério desequilíbrio emocional.

Hitchock não brinca em serviço em "O homem errado". Ao deixar de lado as cores elegantes de seus filmes imediatamente anteriores, ele conta com a sombria fotografia de Robert Burks para dar ênfase ao turbilhão pessoal de Balestreros, que, ao mesmo tempo em que tenta provar sua inocência, percebe que tudo parece ser inútil. É exemplar a maneira com que o cineasta filma a prisão e os primeiros momentos do protagonista como prisioneiro. Como Balestreros está sentindo-se humilhado e desrespeitado em seus direitos como cidadão, a câmera focaliza quase que apenas o chão, os pés, as algemas (como se estes estivessem sendo realmente focalizados pelos olhos da personagem). O clima de claustrofobia presente nas cenas após a prisão do protagonista é acentuado por close-ups intimidantes e uma música discreta mas retumbante de Bernard Herrmann. O olhar apavorado de Henry Fonda e sua delicadeza fisica (sua figura esguia, seus modos delicados) ajudam a aproximá-lo do público, que, sabendo de antemão de sua inocência, sofre junto com ele (um golpe de mestre de Hitchcock).


Criticado por não decidir-se entre as linguagens de ficção e documentário, "O homem errado", no entanto, é um dos mais consistentes dramas de Hitchcock. O roteiro (que não foi escrito por John Michael Hayes, colaborador habitual do cineasta por questões financeiras) não dá espaço para o corriqueiro senso de humor de sua filmografia, recorrendo ainda a elementos e simbolismos católicos para atingir seus objetivos de prender a atenção da audiência e alertar para uma história tão chocante quanto verdadeira. Talvez seu esforço em dar vida a uma trama tão intensa tenha sido o responsável para que logo em seguida ele embarcasse em um projeto tão profundo quanto: "Um corpo que cai", uma de suas maiores obras-primas.

quarta-feira

PALAVRAS AO VENTO


PALAVRAS AO VENTO (Written on the wind, 1956, Universal Pictures, 99min) Direção: Douglas Sirk. Roteiro: George Zuckerman, baseado em romance de Robert Wilder. Fotografia: Russell Metty. Montagem: Russell F. Schoengarth. Música: Frank Skinner. Produção: Albert Zugsmith. Elenco: Rock Hudson, Lauren Bacall, Robert Stack, Dorothy Malone. Estreia: Dezembro/56

3 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Robert Stack), Atriz Coadjuvante (Dorothy Malone), Canção Original ("Written on the wind")
Vencedor do Oscar de Atriz Coadjuvante (Dorothy Malone)


Em 2002, o cineasta Todd Haynes dirigiu "Longe do paraíso", um dramalhão à moda antiga que deu à Julianne Moore uma indicação ao Oscar de melhor atriz. Elogiadíssimo pela crítica, o filme foi esnobado pelo público, provavelmente porque - assim como a comédia romântica "Abaixo o amor", estrelado por Renée Zellweger e Ewan McGregor - exigia da plateia um entendimento de sua proposta mais do que seu resultado final. Enquanto "Abaixo" homenageava os romances bobinhos de Rock Hudson e Doris Day, a obra de Haynes emulava os melodramas de Douglas Sirk, que, nos anos 50, serviu ao público americano uma série de filmes com histórias que, sob uma aparência de folhetins telenovelescos, escondia uma contundente crítica à sociedade hipócrita e preconceituosa da época.

Dentre seus filmes, um dos mais significativos - e dos mais bem-sucedidos em suas intenções estéticas e ideológicas - é justamente "Palavras ao vento", baseado em um romance de Robert Wilder. Em um tom absolutamente melodramático, Sirk conta a trágica história de uma família incapaz de lidar com seus problemas de ordem pessoal e sentimental, o que leva todos a uma tragédia que deixaria qualquer grego de orelhas em pé.

O filme centra seus dramas em quatro personagens envolvidos em um quadrilátero amoroso: Kyle Hadley (Robert Stack, que décadas depois faria "Apertem os cintos, o piloto sumiu" e assumiria de vez sua veia de canastrão) é um jovem milionário inseguro que nutre um misto de admiração e inveja por seu melhor amigo, Mitch Wayne (Rock Hudson, no auge da carreira, em talento e beleza). Por julgar-se inferior ao amigo de infância - a quem julga mais merecedor do amor de seu pai, inclusive - ele se entregou à bebida, fazendo da garrafa sua companhia mais constante. Tentando mudar de vida, ele se casa com a bela Lucy Moore (Lauren Bacall), mesmo desconfiando que Mitch é apaixonado por ela. O casamento dos dois é fadado ao fracasso, uma vez que Kyle nem ao menos tenta manter uma relação madura. Mesmo tentando manter-se fiel ao marido, Lucy acaba se aproximando de Mitch, o que desperta o ciúme doentio de Marylee (Dorothy Malone), irmã caçula de Kyle que passa seus dias envolvendo-se sexualmente com desconhecidos mas que nutre uma paixão doentia por Mitch. Quando ela começa a desconfiar que seu amado está envolvido com a cunhada, ela não hesita em criar uma intriga que os leva à violência e à morte.

A impressão que se tem quando se assiste a "Palavras ao vento" é que a trama é apenas um pequeno elemento dentre todo um conjunto de estilo do cineasta. Quase grotescamente fake, os cenários, os figurinos e até mesmo a trilha sonora contribuem para o clima opressivamente pré-fabricado que cerca suas personagens. Nada no filme soa real ou verossímil, estando sempre a um passo do exagero quase caricatural. Não deixa de ser um paradoxo bastante interessante, no entanto, que seu elenco atue assumindo valentemente sua condição de dramalhão, ou seja, as emoções parecem verdadeiras, ainda que vividas em um cenário claramente de mentira. Sirk parece querer dizer que em sua época as pessoas sofrem, sim, mas escondem seu sofrimento em um castelo de plástico lindamente decorado. Não é de se admirar que até mesmo o cineasta tenha deixado de lado o "detalhe" da homossexualidade latente de Kyle, bastante clara no livro e inexistente no filme - ao menos no sentido mais óbvio.

"Palavras ao vento" é mais que um filme, é uma experiência de estilo. Alguns adoram, outros rechaçam violentamente. Mas é inegável que tem importância capital dentro da história do cinema americano, uma vez que pode ser considerado quase um precursor de obras-primas como "Beleza americana", que também desvendava a fragilidade das aparências em relação aos sentimentos. Visto por esse ângulo, é um filme que merece ser conhecido e admirado, além de reconhecido como uma inteligente crítica aos valores morais de sua sociedade.

domingo

ASSIM CAMINHA A HUMANIDADE


ASSIM CAMINHA A HUMANIDADE (Giant, 1956, Warner Bros., 201min) Direção: George Stevens. Roteiro: Fred Guiol, Ivan Moffat, baseado no romance de Edna Ferber. Fotografia: William C. Mellor. Montagem: William Hornbeck. Música: Dimitri Tiomkin. Produção: Henry Ginsberg, George Stevens. Elenco: Elizabeth Taylor, Rock Hudson, James Dean, Mercedes McCambridge, Dennis Hopper, Carroll Baker, Sal Mineo. Estreia: 24/11/56

10 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (George Stevens), Ator (James Dean e Rock Hudson), Atriz Coadjuvante (Mercedes McCambridge), Roteiro Adaptado, Montagem, Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte
Vencedor do Oscar de Melhor Diretor (George Stevens)


Mais que um Estado americano, o Texas é um estado de espírito. Pelo menos é isso que depreende-se de "Assim caminha a humanidade", terceiro e derradeiro capítulo do que foi convencionado pela crítica chamar de "trilogia" e que dava seguimento a "Um lugar ao sol" e "Os brutos também amam". São necessárias muitas elocubrações intelectualóides e psicossociais para tentar entender a razão de alocá-los em um mesmo conjunto ideológico, mas não é preciso pensar muito para ter uma certeza absoluta: cada um, dentro de seu gênero e de suas ambições, é uma obra-prima indiscutível.

Seguindo um rumo oposto à quase instrospecção visual e psicológica de "Um lugar ao sol", "Assim caminha a humanidade" - baseado em um livro de Edna Ferber - é um épico grandioso, imponente e ambicioso, narrando a vida de uma família texana através de 25 anos, confrontando-a com problemas racias, a guerra e a mudança de mãos de poder e de dinheiro - graças, no caso, à exploração de petróleo. Contando com a vasta paisagem do Texas como uma personagem a mais em sua narrativa, Stevens criou uma saga fascinante, que, a despeito de sua longa duração (mais de três horas) em nenhum momento se torna cansativa, desnecessária e/ou anacrônica. Ao contrário de muitos dos filmes feitos em sua época, "Assim caminha..." ainda mantém intactas suas principais qualidades: o roteiro forte, a contundente crítica social e principalmente o notável elenco, em atuações impecáveis.

Último filme que James Dean fez antes de espatifar seu Porsche em uma estrada da Califórnia, "Assim caminha a humanidade" deu ao ator sua segunda indicação póstuma ao Oscar, que ele disputou com seu colega de elenco, Rock Hudson, então entrando no auge de sua carreira (no mesmo ano ele estaria em "Palavras ao vento" e começaria em breve uma bem-sucedida parceria com Doris Day em uma série de comédias românticas). E se Elizabeth Taylor já estava na estrada há tempos, uma vez que começou sua carreira ainda criança, aqui ela atinge a maturidade necessária para firmar-se como atriz adulta (e levaria seu primeiro Oscar em 4 anos, por "Disque Butterfield 8"). Juntos, eles dão a exata noção de porque ainda são considerados mitos absolutos da sétima arte. Lutando pelo amor da estonteante Liz Taylor através de mais de duas décadas, o gigantesco Hudson e o diminuto Dean se imortalizaram na retina e no coração de legião de fãs. É impossível desviar o olhar da tela quando qualquer um deles está em cena. E levando-se em consideração que os três são os protagonistas absolutos do longa-metragem, são 200 minutos de puro deleite, com o que de melhor Hollywood poderia oferecer em 1956, em termos de espetáculo e conteúdo.


A afirmação inicial deste texto, de que o Texas é um estado de espírito, é a primeira conclusão de Leslie Lynton (Taylor), uma quase dondoca sofisticada e de temperamento forte quando chega à casa do marido, o rústico Jordan Benedict II (Hudson). Dono de uma fazenda gigantesca, Reata, que dirige ao lado da irmã solteirona, Luz (Mercedes McCambridge, indicada ao Oscar de atriz coadjuvante), Benedict tem ideias muito próprias a respeito de como tratar as mulheres, os amigos e principalmente os empregados, quase todos mexicanos e tratados com quase desprezo. Indignada com o que presencia, Leslie aos poucos passa a tentar mudar o pensamento do marido, buscando tratar os criados com delicadeza, respeito e dando-lhes o mínimo de assistência médica. Seus atos incomodam seu marido, mas a aproximam de Jett Rink (Dean), que trabalha na fazenda graças à proteção de Luz, que o tem como um filho. Quando Luz morre depois de um acidente e deixa um pedaço de terra a Jett a relação entre ele e Jordan (chamado carinhosamente de Bick pela esposa) fica ainda mais difícil, chegando a ficar insustentável depois que Jett descobre petróleo em sua propriedade. Muitos anos depois, novos problemas ameaçam a estabilidade da família Benedict. Enquanto Jett fica a cada dia mais rico, Bick é obrigado a lidar com os fatos de que seu único filho homem (Dennis Hopper) pretende cursar medicina e cuidar das famílias carentes da região - além de casar-se com uma mexicana - e que sua caçula, Luz II (Carroll Baker) está interessada romanticamente no seu maior inimigo.

É difícil acreditar que "Assim caminha a humanidade" tenha perdido o Oscar de Melhor Filme para "Volta ao mundo em 80 dias". Aliás, é difícil acreditar que, de suas dez indicações, apenas George Stevens tenha levado um prêmio pra casa. Ainda que absolutamente merecida, sua estatueta não reflete com exatidão a qualidade insuperável do filme (não que ganhar Oscar seja garantia de alguma coisa, com bem o sabem os fãs de bom cinema). Fotografada com precisão por William C. Mellor (que dá à vastidão quase desértica do Texas a importância de um quarto protagonista), a saga da família Benedict é pontuada ainda com uma belíssima trilha sonora de Dimitri Tiomkin e com uma edição enxuta (ainda que seja bastante extenso, o filme não desperdiça nenhuma cena, utilizando cada enquadramento para fortalecer suas ideias). Até mesmo seu posicionamento a favor da tolerância racial soa moderno nos politicamente corretos dias de hoje, sem que apele em momento algum para a emoção fácil ou force uma empatia com qualquer das personagens.

E o que dizer das personagens? Poucas vezes se viu um épico com as proporções de "Giant" com tanto cuidado no desenvolvimento de suas personagens. Leslie Lynton, Jett Rink e Bick Benedict são tão críveis em seu amadurecimento (ou não, no caso de Rink, que nunca consegue abandonar o sentimento de inferioridade, mesmo com todo o dinheiro que ganha) que é difícil não envolver-se com seus dilemas, suas dúvidas e até mesmo com suas certezas. Leslie é uma mulher criada no conforto que precisa adaptar-se a um mundo novo depois de casar-se - e se sai admiravelmente bem! Jett Rink precisa encarar as próprias limitações que sua origem social lhe impusera para subir na vida e sentir-se "digno" do amor da mulher por quem é apaixonado (mesmo que décadas depois isso tenha que vir com a filha dela). E Bick Benedict se vê forçado a engolir seu preconceito e racismos incutidos pela mentalidade arcaica de sua família quando percebe que não conseguirá deter o destino e que seus filhos aceitariam morrer por ele... mas não viver por ele!

Apesar do cuidado do roteiro e da direção com as personagens secundárias (e isso inclui principalmente a irmã de Bick, a solitária Luz), é em seu elenco principal que "Assim caminha a humanidade" se sustenta. Irradiando carisma, garra e sex-appeal, Rock Hudson, James Dean e Elizabeth Taylor provam sem espaço para dúvidas que para se fazer um épico é preciso mais do que ambição: é imprescindível que se tenha talento.

sábado

OS DEZ MANDAMENTOS


OS DEZ MANDAMENTOS (The ten commandments, 1956, Paramount Pictures, 220min) Direção e produção: Cecil B. DeMille. Roteiro: Aeneas McKenzie, Jesse Lasky Jr., Jack Gariss, Fredric M. Frank. Fotografia: Loyal Griggs. Montagem: Anne Bauchens. Música: Elmer Bernstein. Elenco: Charlton Heston, Yul Brinner, Anne Baxter, Edward G. Robinson, Yvonne de Carlo, John Derek, Vincent Price, Nina Foch. Estreia: 05/10/56

7 indicações ao Oscar: Melhor filme, Fotografia, Montagem, Figurino, Direção de Arte, Som, Efeitos Visuais
Vencedor do Oscar de Efeitos Visuais


"Os dez mandamentos" é um exagero! Exagero de intenções, de tempo de duração (mais de três horas e meia), de tempo de filmagem (cerca de cinco anos), de elenco (mais de 70 personagens com falas) e de orçamento (U$ 13 milhões em 1956). É também a despedida de seu diretor e produtor Cecil B. DeMille do cinema e o seu legado para as gerações posteriores. Pro bem e pro mal, é o filme que melhor representa o estilo grandiloquente da obra do cineasta, e só isso já o torna obrigatório para os fãs de cinema.

Com os dois pés fincados na estética kitsch - provavelmente antes mesmo que o termo passasse a ser usado em referência à cinema -, deMille construiu, em "Os dez mandamentos" quase uma ópera religiosa, fugindo das atuações naturalistas que ameaçam enterrar a "velha Hollywood". Em cena, diálogos empolados, quase teatrais, contrastam com os maneirismos que atores como Marlon Brando, James Dean e Montgomery Clift começavam a tornar populares. É difícil crer que "Os dez mandamentos" tenha sido lançado praticamente junto com "Juventude transviada", tamanha a distância entre suas intenções e resultados. Em comparação com o que o cinema americano começava a almejar - falar sobre problemas sociais, aproximar-se da realidade de seu público, por exemplo - o filme de DeMille chega a ser um retrocesso, tanto em termos plásticos quanto políticos. Beira a cafonice em vários momentos, e sua religiosidade levada quase ao limite do fanatismo (culpa do catolicismo exarcebado do diretor) incomodam justamente porque o filme não parece ser um produto de seu tempo. Se soava antiquado em 1956, imaginem agora.

Deixando de lado suas implicações sociais, políticas e/ou religiosas, é impossível negar que "Os dez mandamentos" tem algumas qualidades redentoras. Se os efeitos visuais - premiados com o Oscar da categoria - hoje parecem fakes, é preciso lembrar que na década de 50, eles ainda estavam engatinhando, buscando seu lugar ao sol na indústria do cinema. E são eles - mais do que qualquer outro aspecto do filme - é que são lembrados hoje em dia pela maioria do público. Cenas como aquela em que o Mar Vermelho se abre para a passagem dos hebreus em direção à Terra Prometida não deixam de ser impressionantes, principalmente se levado em conta o fato de que foram realizadas quase meio século antes do advento da computação gráfica. Isso também pode ser dito e louvado quando se percebe a multidão arrebanhada por DeMille em algumas de suas cenas: aquelas pessoas realmente estavam ali e não foram adicionadas na pós-produção, como normalmente se faz hoje em dia. Admirável, no mínimo!

No entanto, "Os dez mandamentos" sofre - e muito - com a megalomania de seu diretor. Uns bons 90 minutos poderiam tranquilamente ter sido deixados na mesa de edição, especialmente quando se percebe que o cineasta preferiu dar importância exagerada ao romance entre Josué (John Derek) e Lilia (Debra Paget), ao invés de concentrar-se em fatos determinantes da história - as pragas que assolam o Egito são apenas citadas em off quando deveriam ter sido mostradas. E pensando bem, a história só começa realmente depois de mais de 2 horas de projeção, quando finalmente Moisés (Charlton Heston, se preparando para ganhar o Oscar por "Ben-hur", três anos depois) assume seu posto como o Libertador do povo judeu e começa a desafiar o poder de Ramsés (Yul Brynner). Até então, é impossível negar que o filme é um tanto aborrecido, forçado, antigo mesmo. Não foi à toa que, apesar de seu sucesso de bilheteria, dividiu a crítica e nem teve o êxito que se esperava nas cerimônias de premiação do ano - indicado ao Oscar de Melhor Filme (mas não de Diretor), saiu apenas com a estatueta de Efeitos Visuais, um raro acerto da Academia, que nesse mesmo ano, esnobou "Assim caminha a humanidade", dando o prêmio máximo a "A volta ao mundo em 80 dias".

Gostar de "Os dez mandamentos" de forma incondicional diz muito sobre seu caráter religioso. Como cinema, impressiona em alguns momentos e decepciona em outros tantos. Como discurso teológico emociona os convertidos, mas dificilmente convence ateus. É uma bela história, sem dúvida, contada com tanto luxo que chega às raias do brega. Mas é também um bocado arrastado, com um ritmo lento e algumas atuações bastante antiquadas. É um filme que se pretendia uma obra-prima, mas que ficou no meio do caminho rumo a suas intenções. Ainda assim, é o testamento de um cineasta dos mais importantes da história do cinema.

quinta-feira

O HOMEM QUE SABIA DEMAIS


O HOMEM QUE SABIA DEMAIS (The man who knew too much, 1956, Paramount Pictures, 120min) Direção e produção: Alfred Hitchcock. Roteiro: John Michael Hayes. Fotografia: Robert Burks. Montagem: George Tomasini. Música: Bernard Herrman. Figurino: Edith Head. Elenco: James Stewart, Doris Day, Daniel Gélin, Christopher Olsen, Brenda De Banzie, Bernard Miles. Estreia: 16/5/56

Vencedor do Oscar de melhor canção ("Que será, será")

Em 1934, ainda na sua fase inglesa, Alfred Hitchcock lançou um filme chamado "O homem que sabia demais". Mais de vinte anos depois, já consagrado em Hollywood, ele achou que podia contar novamente a mesma história, desta vez "como profissional". Contando com seu amigo pessoal James Stewart no papel principal, assim como com todos os seus colaboradores habituais (Robert Burks na fotografia, George Tomasini na edição e John Michael Hayes como roteirista), o cineasta britânico partiu então para o Marrocos e para Londres, para realizar um de seus filmes mais famosos - e ele estava absolutamente certo quando declarou que a nova versão não era mais coisa de amador.

Tudo começa no Marrocos, onde a tradicional família McKenna está passando alguns dias, aproveitando uma viagem a trabalho de seu chefe, o médico Benjamin (James Stewart). Fascinados com os costumes locais, logo eles fazem amizade com outro casal ocidental, os Drayton (Brenda De Banzie e Bernard Miles), e com o misterioso francês Louis Bernard (Daniel Gèlin). O que era para ser uma viagem tranquila, no entanto, passa a assumir a forma de um pesadelo quando Bernard morre assassinado em pleno mercado público, não sem antes revelar a Benjamin que um importante líder de estado será assassinado em Londres. A ideia de Benjamin é contar tudo à polícia, mas os responsáveis pela morte de Bernard e pela conspiração descoberta por ele sequestram seu filho pequeno, Hank (Christopher Olsen), para impedí-lo de fazer qualquer denúncia. Sentindo-se desprotegidos, o médico e sua mulher, a ex-cantora Josephine (Doris Day) partem para Londres, dispostos a reaver o filho e evitar a tragédia prevista pelo francês, que eles descobrem que trabalhava para o FBI.

"O homem que sabia demais" é uma obra típica de Hitchcock, onde ele, mais uma vez, volta a tratar de pessoas comuns sendo obrigadas a lidar com situações adversas e das quais não conseguem sair de maneira convencional. Dessa vez, ao invés de apenas um homem jogado no centro do furacão, ele vai ainda mais longe, fazendo tremer as estruturas de uma família inteira (e uma família cuja mãe é Doris Day, a epítome do mainstream, do suburbano, do trivial). Aliada a James Stewart (escolhido por Hitchcock principalmente por representar o homem comum), Day cria um núcleo familiar com o qual qualquer espectador pode tranquilamente se identificar. E é justamente essa identificação com o público médio que leva "O homem..." a uma esfera quase inédita na obra do diretor. Na grande maioria de seus filmes anteriores, os protagonistas lutavam sozinhos, e para salvar a própria pele. Aqui, há muito mais em jogo: a união da família, a sobrevivência e até mesmo a possibilidade de salvar a vida de um importante líder.


Apesar das elocubrações estilísticas e psicológicas, no entanto, o que vale em "O homem que sabia demais" é o gênio de Hitchcock em construir exemplarmente grandes sequências de suspense. Desde as primeiras cenas, quase idílicas, de uma família em viagem de férias, há um clima de tensão sutil. Sob o comando de Hitchcock, até mesmo coisas simples assumem um ar de claustrofobia - e para isso também contribui magistralmente seu inegável talento em escolher visuais marcantes para os coadjuvantes: ninguém no elenco de "O homem que sabia demais" tem um rosto trivial. Todos parecem saídos de um sonho ruim, felliniano, sufocante, o que contrasta ainda mais com os saudáveis rostos americanos de Stewart e Doris Day.

E isso que nem vale a pena citar a sequência de doze minutos, quase sem diálogos, que se passa em um concerto no Albert Hall (com a luxuosa participação especial do compositor Bernard Herrman como ele mesmo). Hitchcock constrói meticulosamente a tensão crescente que precede o atentado ao Primeiro-ministro inglês de forma impecável, onde cada minuto exerce, sobre o espectador, exatamente o efeito que ele deseja exercer. Se isso não é o domínio absoluto de seu ofício, então o que seria?

"O homem que sabia demais" foi praticamente ignorado na cerimônia do Oscar de 1957. Sua única indicação - que foi convertida em estatueta, diga-se de passagem - foi para canção original. Doris Day detestava a música, "Que será, será", cantada em um momento crucial do filme, mas ela acompanhou-a por toda sua carreira, sendo uma de suas mais populares marcas registradas. Logo em seguida ela começaria uma extremamente bem-sucedida série de comédias românticas com Rock Hudson e se tornaria uma das mais requisitadas estrelas de Hollywood, até tornar-se tão "fora de moda quanto o charleston", como diria Nelson Rodrigues. Mas sua colaboração com o mestre Hitchcock comprova que, se não lhe davam papéis mais consistentes, isso era problema dos produtores. E do público, que não teve a oportunidade de acompanhar a maturidade de seu talento dramático.

quarta-feira

RASTROS DE ÓDIO


RASTROS DE ÓDIO (The searchers, 1956, 119min) Direção: John Ford. Roteiro: Frank S. Nugent, baseado no romance de Alan LeMay. Fotografia: Winton C. Hoch. Montagem: Jack Murray. Música: Max Steiner. Produção executiva: Merian C. Cooper. Elenco: John Wayne, Jeffrey Hunter, Natalie Wood, Vera Miles, Henry Brandon. Estreia: 13/3/56

Gênero americano por excelência, o western tinha no cineasta John Ford seu representante máximo e no ator John Wayne sua imagem absoluta. Apesar de terem trabalhado juntos por diversas vezes, é "Rastros de ódio", lançado em 1956, que mantém-se como a obra máxima de sua colaboração. Acusado de racista à época de seu lançamento, é hoje considerado a obra-prima de Ford, o diretor mais vezes premiado com o Oscar da categoria (quatro vitórias, nem todas por faroestes, mas todas por filmes unanimemente incensados por crítica e público).

"Rastros de ódio" já começa antológico. A porta de um rancho se abre, a silhueta de uma mulher é recortada contra um belo pôr-do-sol e Ethan Edwards (John Wayne) entra em cena. Estamos no Texas em 1868 e apesar da Guerra de Secessão já ter acabado uns bons anos antes recém o soldado da Confederação está regressando para a família. A família, no caso, é seu irmão, Aaron (Walter Coy), a cunhada Martha (Dorothy Jordan, esposa do produtor Merian C. Cooper), as duas sobrinhas Debbie e Lucy e Martin Pawley (Jeffrey Hunter), um mestiço cherokee que ele mesmo salvou depois do massacre de sua tribo. Logo depois de seu retorno, no entanto, uma tragédia acontece: a casa de seu irmão é incendiada, suas sobrinhas sequestradas e o casal violentamente morto. Ele tem certeza de que foram índios comanches que perpetraram tamanha desgraça e resolve partir em busca de vingança. A princípio junto com um grupo de soldados e depois contando apenas com Pawley, ele passa anos em busca da única sobrevivente da chacina, sua sobrinha Debbie. Seu objetivo, no entanto, não é resgatá-la e sim, matá-la, por considerar que ela já assumiu a personalidade de uma índia.


Levando em consideração as intenções de Ethan e seus pensamentos bastante preconceituosos, se vistos com os olhos de hoje, as acusações de racismo até fazem certo sentido. Mas quem há de negar que o ranço politicamente correto que hoje contamina a produção cinematográfica vem emburrecendo e deixando de tocar em assuntos pertinentes por medo de ser crucificada pelo povo médio? Em 1868, ano em que a história do filme começa (logo após a Guerra de Secessão que opôs o norte abolicionista e o sul escravagista) não havia melindres de nenhum tipo - negros eram negros, índios eram índios e os conceitos de masculinidade eram bem definidos (taí a imagem intocada de Wayne como exemplo de uma virilidade talvez anacrônica hoje em dia, mas extremamente valorizada em um Oeste selvagem e violento).

É inegável o cuidado de Ford com o visual de sua obra. A fotografia espetacular de Winton C. Hoch (ajudada pela beleza natural do famoso Monument Valley e pelas paisagens de Alberta, no Canadá) é quase uma personagem a mais da trama, acompanhando a odisséia de Ethan e Pawley em sua busca desenfreada por justiça (ou vingança, qualquer adjetivo aqui é acertado). O uso exemplar de tomadas à distância e da música grandiloquente de Max Steiner colaboram em criar o clima de épico que "Rastros" esbanja em cada fotograma. E o roteiro, adaptado de um romance de Alan LeMay, ainda encontra espaço para aliviar a tensão da caçada, com uma subtrama que envolve um namoro à distância entre o jovem Pawley e a bela Laurie (Vera Miles). Apesar de engraçado no início, esse desvio do rumo principal é o responsável pela única quebra de ritmo do filme (a briga entre Pawley e seu rival toma diversos e preciosos minutos, em uma desnecessariamente longa sequência).

"Rastros de ódio" é a quintessência do western, a fórmula do gênero em seu máximo grau de qualidade e forma. É também um perfeito exemplo de entretenimento sério e, a despeito das suas hoje equivocadas maneiras de ver os índios e as mulheres, o maior legado da dupla Ford/Wayne ao cinema.

terça-feira

JUVENTUDE TRANSVIADA


JUVENTUDE TRANSVIADA (Rebel without a cause, 1955, Warner Bros., 111min) Direção: Nicholas Ray. Roteiro: Stewart Stern, baseado em uma ideia de Nicholas Ray adaptada por Irving Schulman. Fotografia: Ernest Haller. Montagem: William Ziegler. Música: Leonard Rosenman. Figurino: Moss Mabry. Produção: David Weisbert. Elenco: James Dean, Natalie Wood, Sal Mineo, Jim Backus, Ann Doran, Edward Platt, Corey Allen, Frank Mazzolla, Dennis Hopper, Marietta Canty. Estreia: 27/10/55

3 indicações ao Oscar: Ator coadjuvante (Sal Mineo), Atriz Coadjuvante (Natalie Wood), História Original

No início de 1955, James Dean ainda não era James Dean, pelo menos na concepção de sua imagem que temos hoje em dia. "Vidas amargas", seu primeiro filme, ainda não havia estreado e tudo o que se sabia dele é que era mais um adepto do "método" do Actors Studio (ainda que o tenha abandonado depois de poucas aulas), que era um obcecado por Marlon Brando e que havia enervado seu diretor Elia Kazan e seu co-astro Raymond Massey durante as filmagens de "Vidas". No final de outubro do mesmo ano, quando seu filme seguinte, "Juventude transviada" estreou, James Dean já era James Dean. Louvado como ator e idolatrado como símbolo de uma juventude rebelde, ele tinha mais um filme pronto para estrear (ao lado de Rock Hudson e Elizabeth Taylor) e já tinha deixado sua marca na história do cinema. Tinha 24 anos. E estava morto.

James Dean morreu em um acidente de carro em 30 de setembro de 1955 e não pode aproveitar todo o sucesso que fez. Talvez nem mesmo quisesse. Dono de uma personalidade que, segundo aqueles que o conheceram, poderia ir da doçura à agressividade em questão de segundos, ele era a antítese do astro de cinema (talvez inspirado por Brando, talvez por escolha própria). Um tanto excêntrico, um bocado desregrado e pouco disposto a seguir os caminhos que os estúdios insistiam em lhe mostrar, Dean era a voz que os jovens queriam ouvir naquela época pré-nuclear, onde o rock ainda engatinhava e os adolescentes não tinham um espelho onde mirar-se. Nada mais natural que ele fosse o protagonista do filme que mudaria para sempre a maneira com que Hollywood via seus jovens. Influente até hoje, 55 anos depois de seu lançamento, "Juventude transviada" fixou a imagem de James Dean como símbolo máximo da rebeldia juvenil e, mesmo visto nos cínicos dias atuais, ainda mantém intacta sua aura de transgressor. Agradeça a seu diretor Nicholas Ray.

Incensado na década de 60 pela revista francesa "Cahiers du Cinèma" como um cineasta autoral, Ray mostrou, durante a feitura de "Juventude" que mereceu carregar esse título. Lutando incansavelmente contra a Warner para manter seus pontos de vista e batalhando contra o calendário (e o amadorismo de seu elenco de jovens), o cineasta é o maior responsável pelo resultado final do filme, cujas origens remontam a uma luta pessoal consigo mesmo. Segundo o livro "Live fast, die young: the wild ride of making Rebel without a cause", de Lawrence Frascella e Al Weisel (que dissecam cada aspecto da realização do filme), a primordial intenção de Ray ao iniciar a produção era tentar um contato com a geração imediatamente posterior à sua (que incluia principalmente seu filho mais velho, com quem ele cortou relações ao flagrá-lo dormindo com sua mulher...). Ao assistir-se ao filme percebe-se claramente que ele o conseguiu.


"Juventude transviada" começa quando o jovem Jim Stark (vivido com naturalidade e garra por Dean) vai preso por bebedeira, logo que chega a Los Angeles, para onde mudou-se com os pais disfuncionais (Jim Backus e Ann Doran). Na delegacia, ele tem seu primeiro contato com a problemática Judy (Natalie Wood), que vive uma relação de conflito com o pai (vivido pelo filho da colunista de fofocas Hedda Hopper) e com o carente Plato (Sal Mineo), praticamente criado pela empregada doméstica (Marietta Canty). Os três estudam na mesma escola, Dawson High (cujo nome inspirou Kevin Williamson a batizar seu seriado "Dawson's Creek"), mas são tão distantes quanto semelhantes. Logo que chega à escola, Jim arruma briga com o valentão Buzz (Corey Allen), líder de uma gangue de jovens delinquentes e, em consequência disso, acaba aceitando o desafio de participar de uma "chickie run". Em outras palavras, ele topa participar de uma espécie de racha, onde perde quem saltar por último de um carro em movimento, rumo a um precipício. Um trágico acidente mata Buzz e, temendo que Jim os denuncie à polícia, o grupo de rebeldes passa a perseguir o novato, que se esconde, junto a Judy e Plato, em uma mansão abandonada. Perseguidos pela gangue e pela polícia, os três descobrem uma nova forma de família enquanto tentam escapar de um destino trágico.

Aparentemente, em uma análise superficial, "Juventude transviada" pode parecer apenas mais um filme feito para adolescentes (ainda que seja muito superior em temática e resultado final aos seus congêneres da época). Mas basta uma olhada mais atenta para que certos aspectos sejam percebidos e admirados. Não deixa de ser absolutamente inovador (e corajoso) unir Jim, Judy e Plato como um novo núcleo familiar (hoje em dia todos sabem que os adolescentes tem seus amigos como uma nova família). Também é surpreendente como, em plenos repressores anos 50, um filme tenha tido a coragem de colocar, como um de seus protagonistas, um adolescente cuja sexualidade é evidentemente dúbia, em uma atuação marcante de Sal Mineo, que carregou o peso do papel pelo resto de sua carreira encerrada violentamente em 1976. E até mesmo a relação entre Judy e seu pai tem ecos freudianos, mais uma prova da tentativa de Ray em empurrar ao máximo os limites impostos pela mesmice dos produtos dirigidos ao público jovem da época. Nem mesmo aquelas consideradas suas falhas (a pretensa superficialidade das personagens mais velhas, por exemplo) chegam a incomodar, uma vez que o show aqui é da juventude, em um elenco escolhido a dedo pelo diretor.

Analisar todos os aspectos de "Juventude transviada" é tarefa inglória, especialmente depois da leitura do livro de Frascella e Weisel. Cada cena do filme tem tantas nuances, tantas camadas e tantas leituras que fica difícil escolher uma vertente para comentá-las. O jeito é assisti-lo e admirar-se com seu CinemaScope grandioso, com sua coragem em lidar com alguns temas espinhosos, com a química impressionante entre Dean, Natalie Wood e Sal Mineo e com seu final melancólico e por isso mesmo inesquecível. E suspirar pela grande perda ocorrida no dia 30 de setembro de 1955, quando Dean saiu da vida pra entrar na história.

PS - Assim como aconteceu com "Casablanca" também tive a oportunidade de assistir a "Juventude transviada" no cinema, em tela grande... Experiência inesquecível! Me senti, eu juro, como se estivesse em 1955...

segunda-feira

LADRÃO DE CASACA


LADRÃO DE CASACA (To catch a thief, 1955, Paramount Pictures, 106min) Direção e produção: Alfred Hitchcock. Roteiro: John Michael Hayes, baseado em um romance de David Dodge. Fotografia: Robert Burks. Montagem: George Tomasini. Música: Lyn Murray. Figurino: Edith Head. Elenco: Cary Grant, Grace Kelly, Jessie Royce Landis, John Williams, Brigitte Aubert. Estreia: 03/8/55

3 indicações ao Oscar: Fotografia, Direção de Arte e Figurino
Vencedor do Oscar de Fotografia (Cores)


Em uma cena de "Ladrão de casaca", de Alfred Hitchcock, a atriz francesa Brigitte Aubert, na pele de sua personagem Danielle Foussard, em um ataque de ciúmes em relação ao homem por quem é apaixonada, faz piadas em relação ao fato de ser bem mais jovem do que sua rival (a estonteante Grace Kelly). A grande ironia da cena nem advém do fato de que seu objeto de desejo, Cary Grant, tinha 50 anos quando fez a personagem (que tinha 35) mas sim da verdadeira idade de Aubert durante as filmagens: apesar de sua aparência jovial, ela era mais velha que Kelly. Pouco mais velha, é verdade (pouco mais de um ano), mas o suficiente para que essa pequena anedota de bastidores ficasse registrada como mais uma das ironias que marcaram a última colaboração de Kelly com o cineasta inglês.

Baseado em um romance de David Dodge, "Ladrão de casaca" é talvez um dos filmes mais leves e inconsequentes de Hitchcock, deixando de lado implicações psicológicas e /ou religiosas que o cineasta vinha utilizando em seus trabalhos imediatamente anteriores. Provavelmente o fato de ter sido filmado nas belíssimas paisagens da Riviera Francesa (lindamente fotografadas pelo habitual colaborador do diretor Robert Burks, que levou o Oscar da categoria) tenha ajudado no objetivo de sair dos claustrofóbicos "Disque M para matar" e "Janela indiscreta" para algo mais arejado, divertido e quase fútil. "Ladrão de casaca", ao contrário do que normalmente se esperaria de uma obra de Hitchcock, é menos um filme de suspense e mais uma aventura romântica com toques de mistério. Não é por acaso que suas melhores cenas sejam justamente aquelas em que Cary Grant e Grace Kelly estão juntos, com uma química invejável, a despeito de sua considerável diferença de idade.


Quando fez "Ladrão de casaca", Grant estava voltando ao cinema, depois de um voluntário exílio (em parte por achar-se anacrônico em um panorama cinematográfico que estava maravilhado com o "método" de atores como Marlon Brando e em parte por sentir-se ultrajado pela maneira com que Hollywood havia tratado Charlie Chaplin - este havia sido praticamente expulso dos EUA por suspeitas de simpatia ao comunismo). No filme, ele vive John Robie, também conhecido pela alcunha de "O Gato", um ladrão de jóias aposentado que volta a sofrer pressão da polícia depois que vários outros roubos cometidos com seu "modus operandi" voltam a acontecer. Para provar sua inocência ele decide investigar por conta própria, antecipando-se ao criminoso e contando com a ajuda de H.H. Hughson (John Williams, sempre ótimo), que, no papel de investigador de uma companhia de seguros, tem uma lista dos mais prováveis alvos do gatuno. Em Cannes, Robie conhece uma dessas potenciais vítimas, a excêntrica americana Jessie Stevens (Jessie Royce Landis) e sua jovem filha Frances (Grace Kelly). Enquanto tenta descobrir a identidade do ladrão, ele é assediado tanto pela bela Frances quanto por Danielle Foussard (Brigitte Aubert), filha de um de seus antigos comparsas.

Assim como normalmente acontece na filmografia de Hitchcock, a história - ou a identidade verdadeira do criminoso - é o que menos conta. O que interessa é a maneira como se chega até o final da história. Aqui, o mestre opta por um tom bem menos sombrio e grave, possibilitando ao espectador deliciar-se com a beleza natural de Cannes e de Kelly, com os diálogos saborosos de John Michael Hayes, com o charme imbatível de Cary Grant e com 106 minutos de uma diversão despretensiosa e ligeira. Isso não o impede, no entanto, de proporcionar algumas cenas que beiram o genial. Um exemplo? Na cena em que as personagens de Kelly e Grant estão assistindo a uma explosão de fogos de artifício pela janela do hotel onde estão hospedados, só o que é iluminado na atriz é seu pescoço, ornado por um enorme colar de diamantes. Enquanto ela fala, fica impossível desviar os olhos da jóia, como se o público estivesse vendo através de John Robie. Golpe de mestre!

"Ladrão de casaca" pode não ser tão bom quanto "Janela indiscreta" - ou alguns de seus filmes posteriores - mas é difícil resistir ao apelo de tantos ingredientes sofisticados. É, sem dúvida, o mais chique dentre todos os Hitchcocks.

PS - Outra das ironias presentes no histórico de "Ladrão de casaca" não deixa de ser trágica: a estrada onde foi rodada a perseguição automobilística em que Robie e Frances escapam da polícia é a mesma estrada onde, em 1982, a atriz sofreu seu fatal acidente de carro. E foi durante as filmagens de "Ladrão" que ela conheceu o Príncipe Rainier de Mônaco, com quem se casaria em breve, abandonando o cinema.

sábado

O PECADO MORA AO LADO


O PECADO MORA AO LADO (The seven year itch, 1955, 20th Century Fox, 105min) Direção: Billy Wilder. Roteiro: Billy Wilder e George Axelrod, baseado na peça de teatro homônima de George Axelrod. Fotografia: Milton Krasner. Montagem: Hugh S. Fowler. Música: Alfred Newman. Produção: Billy Wilder e Charles K. Feldman. Elenco: Tom Ewell, Marilyn Monroe, Evelyn Keyes. Estreia: 01/6/55

Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator Comédia/Musical (Tom Ewell)

Em uma cena de "Sabrina", lançado em 1954, o protagonista Linus Larrabee, vivido por Humphrey Bogart pede a sua secretária que compre dois ingressos para o teatro, onde irá acompanhado da personagem-título, interpretada por Audrey Hepburn. A peça que ele assiste (ainda que seja apenas mencionada) é "The seven year itch", então um grande êxito de bilheteria nos palcos da Broadway. O que parecia apenas uma menção ocasional a um sucesso do momento era na verdade um marketing esperto e criativo do diretor do filme, Billy Wilder. Seu próximo projeto era justamente a adaptação para o cinema da peça, que, ao estrear, em 1955, forjaria definitivamente a imagem de Marilyn Monroe como o maior símbolo sexual feminino da história do cinema.

Batizado no Brasil como "O pecado mora ao lado", o filme do austríaco Wilder (que já havia inclusive ganho um Oscar de direção por "Farrapo humano", em 1945) foi definido, na época de seu lançamento, como uma "comédia sexual", apelando principalmente para o apelo erótico de sua estrela, Marilyn Monroe, então com 28 anos de idade e no auge de sua fama. Recém-casada com o esportista Joe DiMaggio (um casamento que durou apenas 9 meses e azedou de vez durante as filmagens), a atriz acabou tornando-se, graças a seu carisma, o centro do filme, mesmo que sua personagem seja secundária.

O real protagonista de "O pecado mora ao lado" (um título nacional no mínimo equivocado, haja visto que no filme o "pecado" não exatamente mora ao lado e sim no andar de cima...) é Richard Sherman, executivo de uma editora de livros de bolso que, assim como centenas de outros homens comuns, fica sozinho no período de verão, quando manda a esposa (Evelyn Keyes) e o filho pequeno para o litoral. Casado há sete anos (período em que, segundo um dos livros que estuda para publicar, acontece a temida "coceira"), ele passa a sentir uma irresistível atração pela jovem que está passando uma temporada no apartamento acima do seu, pertencente a um casal de amigos. Sentindo-se culpado por seus pensamentos pecaminosos, ele deixa sua imaginação atingir altos níveis, enquanto se divide entre a tentação do adultério com sua deliciosa vizinha e a manutenção de seu casamento. Na pele de Tom Ewell (que defendeu o papel nos palcos e por isso teve a chance de ficar com ele também nas telas, ainda que Wilder preferisse o novato Walter Matthau), Sherman é o típico homem comum, o que o aproxima mais facilmente do espectador (conseguindo o efeito desejado pela produção, que rejeitou Gary Cooper para o papel por ele ser bonito demais). Falando diretamente para o público, Sherman o tem como cúmplice (mas, pensando bem, quem não teria, tendo Marilyn Monroe como nada obscuro objeto do desejo?).

Na verdade, a adaptação do texto de George Axelrod (feita por ele mesmo ao lado de Wilder) sofreu com a censura ferrenha do Código Hayes, que freava toda e qualquer manifestação que pudesse macular a moral e os bons costumes. No palco, o adultério de Sherman é consumado e é justamente seu sentimento de culpa pela traição que motivava a maior parte das piadas criadas pelo autor. No momento em que, por imposição do estúdio (a 20th Century Fox para onde o diretor foi após o término de seu contrato com a Paramount), não há traição na história, Wilder e Axelrod tiveram que suar a camisa para que a trama não ficasse vazia a ponto de desaparecer. Levando em consideração tal dificuldade, é impossível não louvar o resultado final, que consegue ser engraçado sem ser vulgar e, de quebra, apresenta a atuação mais "quente" de Monroe. E quente aqui serve para várias interpretações.

A interpretação mais óbvia e fácil é a da temperatura, mesmo: a história se passa em um escaldante verão nova-iorquino, o que justifica algumas passagens clássicas do mito Monroe: sua personagem (sem nome) afirma guardar as calcinhas no congelador, toma banho de banheira, dorme no apartamento do vizinho que tem ar-condicionado e, se não fosse o calor, provavelmente ela não seria protagonista de uma das cenas mais imitadas, citadas, homenageadas e conhecidas de sua trajetória (e de qualquer outra atriz): atire a primeira pedra quem não conhece a famosa imagem de Marilyn tendo sua saia levantada pelo vento que sai do bueiro, causado pela passagem do metrô. Essa cena, filmada na rua (mas que teve que ser refeita em estúdio, uma vez que ficou inutilizada pelo barulho causado pelos felizardos espectadores) foi, provavelmente, a pá de cal no relacionamento da estrela com DiMaggio, que não ficou particularmente feliz em ver sua esposa (que ele sonhava ver como dona-de-casa, dá pra imaginar??) sendo objeto de desejo de todo o planeta. Se o jogador não gostou, problema dele. O mundo adorou e transformou a antiga Norma Jean Baker no mais duradouro mito sexual da história. Tem como julgar o pobre Richard Sherman?

"O pecado mora ao lado" não é, nem de longe, o melhor filme de Billy Wilder (sua próxima colaboração com Marilyn, no sensacional "Quanto mais quente melhor" é mil vezes mais divertido e transgressor). Visto hoje, é de uma inocência quase pueril. Mas só o fato de ter criado a icônica e definitiva imagem de Monroe como símbolo sexual (pro bem e pro mal) já o torna mais que obrigatório.

quinta-feira

VIDAS AMARGAS


VIDAS AMARGAS (East of Eden, 1955, Warner Bros., 115min) Direção: Elia Kazan. Roteiro: Paul Osborn, baseado no romance de John Steinbeck. Fotografia: Ted McCord. Montagem: Owen Marks. Música: Leonard Rosenman. Elenco: James Dean, Julie Harris, Raymond Massey, Jo Van Fleet, Richard Davalos. Estreia: 09/3/55

4 indicações ao Oscar: Diretor (Elia Kazan), Ator (James Dean), Atriz Coadjuvante (Jo Van Fleet), Roteiro Adaptado
Vencedor do Oscar de Atriz Coadjuvante (Jo Van Fleet)

Vencedor do Golden Globe de Melhor Filme/Drama

Reza a lenda - e não há porque ser apenas uma lenda - que o escritor John Steinbeck, quando conheceu James Dean, antes do início das filmagens da adaptação de sua obra-prima "A leste do Éden" por Elia Kazan, disse para quem quisesse ouvir: "Este É Cal!", referindo-se a um dos protagonistas da obra. E se o próprio criador da personagem o afirmou com tanta segurança, discordar quem há de? Mesmo porque, basta se assistir aos primeiros minutos de "Vidas amargas" (como foi batizado em português o filme de Kazan) para que qualquer dúvida a respeito da certeza do escritor se dissipe rapidamente. Até mesmo aqueles que nunca leram o livro no qual o filme é baseado (o que não deixa de ser um pecado, uma vez que o livro é FABULOSO!!!!) não podem deixar de concordar que poucas vezes um ator e sua personagem tiveram um casamento tão perfeito. James Dean realmente É Cal Trask. Duvida?

"Vidas amargas" se passa em 1917, às vésperas da I Guerra Mundial, na pequena cidade agrícola de Salinas. Lá, vive o religioso e rígido Adam Trask (Raymond Massey), que criou sozinho os dois filhos depois da morte da esposa, por quem era loucamente apaixonado. Seu alto grau de exigência em relação aos filhos acaba sempre colocando-o em rota de colisão com o caçula, Caleb (James Dean), cuja relação com preceitos religiosos e regras pré-estabelecidas não é das melhores. O eterno conflito entre os dois naturalmente faz com que Adam tenha uma afinidade muito maior com o mais velho, Aron (Richard Davalos), um rapaz sério, trabalhador e ciente de seus deveres familiares, religiosos e sociais. Sentindo-se sempre rejeitado (não sem uma certa razão), Cal busca desesperadamente conquistar a admiração e o amor do pai, nem sempre utilizando de métodos ortodoxos para isso. O ápice de sua luta pelo carinho paterno acontece quando ele descobre que sua mãe na verdade não morreu - ela abandonou a família e montou um bem-sucedido bordel na cidade vizinha - e pede a ela dinheiro emprestado para repor a pequena fortuna que seu pai perdeu em um negócio equivocado. Incompreendido por todos à sua volta, resta a Cal apenas a amizade (amor?compreensão?) de Abra (Julie Harris), a noiva de seu irmão.

Por que James Dean É Cal Trask? Biógrafos e psicanalistas de plantão poderiam dar mil razões (todas elas provavelmente acertadas), mas o que mais salta aos olhos é a similaridade entre a relação pai/filho entre Cal e Adam e Dean e seu próprio genitor. Praticamente abandonado por Winston Dean depois da morte da mulher, o pequeno Jimmy foi criado por tios e nunca teve um relacionamento feliz e estável com seu pai, a quem tentava agradar mais do que a todos no mundo. Winston queria que James seguisse uma carreira mais "séria" e em nenhum momento se deixou orgulhar-se do filho (pelo menos enquanto este estava vivo). Sabendo desse detalhe da vida do jovem ator fica difícil não emocionar-se ainda mais com suas cenas ao lado de Raymond Massey. O que está em cena não é apenas uma personagem batalhando pela aceitação e admiração do pai: é James Dean (pouco) disfarçado buscando o amor de seu familiar mais próximo e ao mesmo tempo mais distante.


Hoje sabe-se que Elia Kazan - que não tornou-se um dos maiores fãs de Dean depois de trabalhar com ele - incentivava, nos bastidores, a discórdia entre o iniciante ator e o veterano Raymond Massey, que não gostava do "método" com que Dean trabalhava. Dean, fã de Marlon Brando quase às raias da obsessão, tentava imitar-lhe (ou seja, falava com uma dicção quase ininteligível, improvisava, buscava mais a emoção do que a técnica) e incomodava Massey. Kazan não tentava apaziguar os ânimos, utilizando a hostilidade entre eles como matéria-prima de suas cenas mais emocionais. Quem pode dizer que não deu certo? Alguém pode reclamar de algumas das melhores cenas da carreira do diretor, como a discussão à mesa de jantar quando Cal recusa-se a ler a Bíblia da maneira com que Adam deseja ou a decepção do rapaz ao ver seu presente de aniversário rejeitado? James Dean e Raymond Massey em cena soltavam faíscas. E quem ganhou foi o público.

Mas "Vidas amargas" não é somente James Dean. Ainda que seja praticamente impossível tirar os olhos do ator quando ele está em cena (assim como acontecia com seu ídolo Marlon Brando), o filme de Elia Kazan tem méritos que seriam suficientes para fazê-lo sobreviver ao tempo mesmo que seu elenco fosse outro (e quase foi!! Marlon Brando mesmo foi cotado para o papel de Cal, ao lado de Montgomery Clift como Aron). O próprio John Steinbeck supervisionou o processo de filmagem, e aprovou o resultado final - vale lembrar que o filme adaptou apenas a segunda parte do extenso (644 páginas na edição mais recente pela Record) romance do autor, centrando-se na disputa dos dois irmãos pelo amor do pai (uma clara alusão à história de Caim e Abel). A bela fotografia em Technicolor de Ted McCord e a música de Leonard Rosenman contribuem lindamente para o resultado final e Jo Van Fleet, como Kate, a mãe de Cal e Aron, levou um Oscar de atriz coadjuvante por sua atuação (ainda que apareça bem pouco, suas cenas são cruciais para o desenvolvimento da ação).

"Vidas amargas" não é o melhor filme de Elia Kazan nem tampouco de James Dean. Kazan é dono de obras-primas como "Sindicato de ladrões" e "Uma rua chamada pecado" e Dean, mesmo morrendo seis meses após a estreia do filme ainda deixaria sua marca em dois outros grandes clássicos: "Juventude transviada" (que firmaria sua imagem icônica de rebeldia) e "Assim caminha a humanidade" (que daria um respeito póstumo a seu trabalho como ator). Mas é um filme dramaticamente forte e realizado com o brilhantismo habitual de Kazan. Ainda que esbarre em alguns pequenos problemas de ritmo e tenha um elenco coadjuvante um tanto quanto anêmico (Julie Harris e Richard Davalos são o melhor exemplo), "Vidas amargas" é a respeitável adaptação de um dos maiores romances do século. Convenhamos que não é pouca coisa!

segunda-feira

SABRINA


SABRINA (Sabrina, 1954, Paramount Pictures, 113min) Direção e produção: Billy Wilder. Roteiro: Billy Wilder, Samuel Taylor e Ernest Lehman, baseado na peça teatral "Sabrina fair", de Samuel Taylor. Fotografia: Charles Lang Jr. Montagem: Arthur Schmidt. Música: Friedericj Hollander. Figurino: Edith Head. Elenco: Humphrey Bogart, Audrey Hepburn, William Holden, John Williams, Walter Hampden. Estreia: Outubro de 1954

6 indicações ao Oscar: Diretor (Billy Wilder), Atriz (Audrey Hepburn), Roteiro Adaptado, Fotografia em P&B, Figurino e Direção de arte.
Vencedor do Oscar de Figurino

Vencedor do Golden Globe de Melhor Roteiro

Em 1973 o autor Lauro César Muniz lançou, no horário das 19h da Rede Globo, a novela "Carinhoso", estrelada pela dupla mais popular de então - Regina Duarte e Cláudio Marzo. Apesar do sucesso momentâneo, a novela não ficou na memória dos espectadores (chegou a ser encurtada devido à gravidez de Regina, que deu à luz em 1974 a hoje atriz Gabriela). O que pouca gente deve ter notado na época - e tampouco importa hoje, quando a novela nem mais é lembrada - é que sua trama principal era descaradamente inspirada em "Sabrina", filme de Billy Wilder por sua vez inspirado em uma peça de teatro de Samuel Taylor. Lançado em 1954, o filme foi o trabalho de Audrey Hepburn seguinte a seu Oscar por "A princesa e o plebeu" e comprova seu carisma, talento e classe. Unida a um texto ácido de Wilder (que, ao lado de Ernest Lehman e do próprio autor da peça nunca deixa que seu romantismo caia na vala do piegas ou do lugar-comum), Hepburn mais uma vez brilha em um papel feito sob medida - mas que quase foi parar nas mãos de Lauren Bacall, que era a primeira escolha do ator principal do filme, Humphrey Bogart (não por acaso, seu marido).

Na verdade, o próprio Bogart não foi o primeiro ator escolhido para viver o sério, sisudo e impenetrável Linus Larrabee, um homem que vive do trabalho burocrático nas milionárias empresas da família. Cary Grant foi o primeiro nome a ser cotado para o papel, mas acabou saindo do filme, sendo substituído por um Bogart que não suportava nem Hepburn (a quem considerava má atriz) nem seu colega de cena William Holden (que se apaixonou por Hepburn durante as filmagens, em um romance que terminou quando ela descobriu que ele não queria ter mais filhos).

A Sabrina do título é uma jovem doce, romântica e sonhadora apaixonada por David Larrabee (Holden), um playboy irresponsável, três vezes divorciado e mulherengo. O grande problema dessa paixão é que ele não faz a menor ideia da existência da moça, filha de seu motorista (vivido com delicadeza pelo ótimo John Williams). No início do filme, desiludida de amor, Sabrina pensa em suicídio, mas é impedida por Linus, o irmão mais velho de David, que, conforme dito acima, é sério, sisudo e impenetrável, vivendo em função de números e contratos. Sem esperanças de conquistar o amor de David, Sabrina viaja a Paris para fazer um curso de gastronomia. Dois anos depois, ela retorna ao quarto de empregada onde morava com o pai, mas, belíssima, elegante e cosmopolita, não passa mais incólume ao sedutor David, que se apaixona por ela, arriscando uma negociata de milhares de dólares vinculada a seu iminente casamento com uma socialite. Para impedir que o casal fique junto e estrague os planos milionários da empresa, Linus se aproveita de um pequeno acidente de David para separá-los. O que ele não contava, no entanto, era se apaixonar também por Sabrina.


É impossível negar que o maior mérito de "Sabrina" é o talento enorme de Billy Wilder em transformar até mesmo uma história de amor sem maiores novidades em um filme inesquecível. Apesar da trama do filme não ser das mais geniais ou surpreendentes, seu roteiro esperto e divertido conquista pela sutileza, pelo humor suave e pelo romantismo na medida certa. O timing cômico de Wilder é evidente em pequenos detalhes - em especial nas cenas com o hilário Walter Hampden, como o patriarca Larrabee - mas o cineasta, espertamente, nunca deixa que o romantismo da trama principal deixe de ser o centro do interesse do espectador. Seu uso exemplar do humor serve apenas como um alívio cômico para uma trama quase banal, ainda que contada com tanto zelo e cuidado que chega a arrebatar em seus momentos mais sentimentais.

Uma das críticas mais frequentes a "Sabrina" é o fato de Humphrey Bogart ser muito mais velho do que Hepburn, e realmente a química entre os dois não é das mais fascinantes. No entanto, é fácil acreditar no amor que nasce entre os dois, em parte devido ao talento dos dois atores, em parte devido ao clima proporcionado pela bela fotografia de Charles Lang Jr. (indicada ao Oscar). A trilha sonora (que inclui a própria atriz entoando uma versão de "La vie en rose") colabora com o ritmo suave que envolve o espectador sem exigir dele mais do que o desejo de ser entretido com categoria e inteligência.

Mas, sem sombra de dúvida, além do roteiro eficaz, do clima contagiante e do elenco de astros, o que sobressai de "Sabrina" é Audrey Hepburn. Pelo seu talento e pela sua postura elegante (apesar do Oscar de figurino ter ficado nas mãos de Edith Head as roupas usadas pela atriz são do estilista Givenchy - que confundiu-a primeiramente com Katharine Hepburn e depois tornou-se grande amigo e colaborador), Audrey é o rosto e a alma do filme. Tanto sua estampa tornou-se a imagem máxima do filme que, quando Sydney Pollack fez um desnecessário remake do filme, em 1995, colocou a sem-sal Julia Ormond no papel-título e amargou um merecido fracasso. "Sabrina" É Audrey Hepburn.

sexta-feira

JANELA INDISCRETA



JANELA INDISCRETA (Rear window, 1954, Paramount Pictures, 112min) Direção: Alfred Hitchcock. Roteiro: John Michael Hayes, baseado em um conto de Cornell Woolrich. Fotografia: Robert Burks. Montagem: George Tomasini. Música: Franz Waxman. Figurino: Edith Head. Elenco: James Stewart, Grace Kelly, Wendell Corey, Thelma Ritter, Raymond Burr. Estreia: 01/8/54

4 indicações ao Oscar: Diretor (Alfred Hitchcock), Roteiro Adaptado, Fotografia em cores, Som

Se o cinema é a arte do voyeurismo, então "Janela indiscreta" é cinema em sua mais pura essência. Baseado em um conto de Cornell Woolrich (recentemente republicado no Brasil pela Cia das Letras), um dos clássicos mais famosos de Alfred Hitchcock (e um dos poucos que o mestre do suspense não renega fervorosamente, como várias de suas criações) é também um dos filmes seminais do gênero, utilizando elegância, ironia e até mesmo um certo olhar carinhoso sobre as pessoas em geral para contar uma história de assassinato onde o crime, no final das contas, é o que menos interessa.

A primeira cena de "Janela indiscreta" já é um primor de concisão e uma prova do talento inconteste de Hitchcock em falar muito em pouco tempo: um único movimento de câmera e o espectador já percebe que a ação se passará em um verão bastante quente e que seu protagonista é um fotógrafo profissional que sofreu um acidente durante um trabalho e está com uma das pernas engessadas. O tal fotógrafo é L.B. Jefferies (James Stewart), que, entedidado com sua falta de opções de lazer passa os dias bisbilhotando as vidas dos vizinhos do prédio em frente ao seu. Munido de um binóculo e de uma luneta, ele acompanha as aventuras românticas de uma mulher solitária, a lua-de-mel de um jovem casal, as noites animadas de uma bela dançarina, etc. As únicas exceções a seu programa solitário são as visitas de sua tagarela massagista/enfermeira Stella (Thelma Ritter) e de sua namorada, a bela socialite Lisa Carol Fremont (Grace Kelly), que tenta convencê-lo, inutilmente, a abandonar a vida de solteiro para casar-se com ela. Sua pasmaceira é sacudida, no entanto, quando ele passa a desconfiar que um de seus vizinhos, Lars Thornwald (Raymond Burr), matou a esposa e esquartejou o corpo para escondê-lo da polícia. A princípio desacreditado inclusive por seu amigo policial (Wendell Corey), logo Jefferies passa a convencer a todos de sua certeza, uma vez que inúmeras evidências apontam para a culpa de Thornwald.


"Janela indiscreta" é uma aula de cinema. Conciso e direto, o roteiro de John Michael Hayes não perde tempo com cenas desnecessárias à estória que conta: tudo que é mostrado através da lente de Jefferies é extremamente importante para o desenrolar de alguma ramificação da trama - se não para levar adiante as desconfianças do protagonista em relação ao assassinato, ao menos para convidar o público a acompanhar os inúmeros dramas humanos mostrados pelo cineasta. O prédio observado pela personagem de James Stewart não deixa de ser um microcosmo da vida - pelo menos em seu lado mais humano, sentimental e sensível. Enquanto renega um envolvimento mais sério com a namorada, o fotógrafo tem à sua vista inúmeros exemplos de relações bem ou mal resolvidas - e logicamente a mais extrema (que resulta em homicídio) é a que mais lhe interessa.

No entanto, por mais que a trama principal seja justamente a que envolve sangue e violência, são as pequenas histórias cotidianas contadas praticamente sem diálogos por Hitchcock e sua equipe que conquistam pela simplicidade e delicadeza: o casal sem filhos que transmite todo o amor a um cachorro, a solteirona que é salva do suicídio pela música composta pelo vizinho compositor e a bela mulher que é casada com um soldado nada atraente são, entre outros, protagonistas de sua própria história, cada uma delas coadjuvante de uma trama maior, tecida com a ironia e a elegância do mestre inglês.

E por falar em elegância, seria injusto não citar a presença grandiosa de Grace Kelly. Vestida por Edith Head, a futura princesa de Mônaco brilha intensamente em cada cena em que está (sua primeira aparição - em um close quando se inclina para beijar seu namorado adormecido - merece figurar em qualquer antologia dos momentos mais sexies do cinema). E não deixa de ser irônico que ela desperte a paixão do protagonista justamente quando sai de sua vida "cor-de-rosa" das colunas sociais para enfrentar o monstro assassino, transformando-se, assim, de mocinha indefesa e fútil em mulher determinada e corajosa.

Uma das melhores obras da carreira de Alfred Hitchcock, "Janela indiscreta" é o tipo de filme que quanto mais vezes é assistido melhor fica. Graças ao número imenso de pequenos detalhes lançados pelo cineasta em cena (que aparece arrumando um relógio no apartamento do compositor) é praticamente impossível não descobrir mais qualidades a cada revisão. Uma obra-prima indiscutível!

O PREÇO DA TRAIÇÃO

  O PREÇO DA TRAIÇÃO (Chloe, 2009, StudioCanal/Sony Pictures Classic, 96min) Direção: Atom Egoyan. Roteiro: Erin Cressida Wilson, roteiro ...