sexta-feira, 9 de abril de 2010

O HOMEM ERRADO


O HOMEM ERRADO (The wrong man, 1956, Warner Bros., 105min) Direção: Alfred Hitchcock. Roteiro: Maxwell Anderson, Angus MacPhail. Fotografia: Robert Burks. Montagem: George Tomasini. Música: Bernard Herrmann. Elenco: Henry Fonda, Vera Miles, Anthony Quayle. Estreia: 22/12/56

Está certo que Norman Bates, o protagonista de "Psicose" (1960) é inspirado em Ed Gein, que realmente existiu na década de 50. Mas, levando-se em consideração que o roteiro do filme se baseava no livro de Robert Bloch - por sua vez uma obra de ficção - não é incorreto afirmar que "O homem errado" é o único filme de Alfred Hitchcock baseado em uma história real. Aliás, baseado apenas não. Em um fato inédito em sua carreira, o mestre do suspense realizou filmagens em alguns dos verdadeiros locais onde a história ocorreu e, mais impressionante ainda, utilizou algumas das testemunhas do caso em pequenas participações. Apesar de soar como um documentário, no entanto, "O homem errado" está bem longe disso, sendo um dos filmes mais contundentes e sérios de Hitch.

Aqui, Henry Fonda é o ator principal. Ele usa seu rosto anguloso e expressivo para dar vazão à toda angústia e perplexidade que toma conta de sua personagem, envolvida inesperadamente em um pesadelo kafkiano dos mais aterradores. Ele vive Christopher Emmanuel Balestrero, um músico casado, pai de dois filhos pequenos e em dificuldades financeiras que vê sua vida virar do avesso quando é preso inesperadamente, acusado de assalto à mão armada. Reconhecido por várias testemunhas e incapaz de fornecer um álibi concreto, ele acaba sendo julgado por um crime que não cometeu, enquanto sua mulher, Rose (Vera Miles) passa a sofrer de um sério desequilíbrio emocional.

Hitchock não brinca em serviço em "O homem errado". Ao deixar de lado as cores elegantes de seus filmes imediatamente anteriores, ele conta com a sombria fotografia de Robert Burks para dar ênfase ao turbilhão pessoal de Balestreros, que, ao mesmo tempo em que tenta provar sua inocência, percebe que tudo parece ser inútil. É exemplar a maneira com que o cineasta filma a prisão e os primeiros momentos do protagonista como prisioneiro. Como Balestreros está sentindo-se humilhado e desrespeitado em seus direitos como cidadão, a câmera focaliza quase que apenas o chão, os pés, as algemas (como se estes estivessem sendo realmente focalizados pelos olhos da personagem). O clima de claustrofobia presente nas cenas após a prisão do protagonista é acentuado por close-ups intimidantes e uma música discreta mas retumbante de Bernard Herrmann. O olhar apavorado de Henry Fonda e sua delicadeza fisica (sua figura esguia, seus modos delicados) ajudam a aproximá-lo do público, que, sabendo de antemão de sua inocência, sofre junto com ele (um golpe de mestre de Hitchcock).


Criticado por não decidir-se entre as linguagens de ficção e documentário, "O homem errado", no entanto, é um dos mais consistentes dramas de Hitchcock. O roteiro (que não foi escrito por John Michael Hayes, colaborador habitual do cineasta por questões financeiras) não dá espaço para o corriqueiro senso de humor de sua filmografia, recorrendo ainda a elementos e simbolismos católicos para atingir seus objetivos de prender a atenção da audiência e alertar para uma história tão chocante quanto verdadeira. Talvez seu esforço em dar vida a uma trama tão intensa tenha sido o responsável para que logo em seguida ele embarcasse em um projeto tão profundo quanto: "Um corpo que cai", uma de suas maiores obras-primas.

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