quarta-feira, 7 de abril de 2010

PALAVRAS AO VENTO


PALAVRAS AO VENTO (Written on the wind, 1956, Universal Pictures, 99min) Direção: Douglas Sirk. Roteiro: George Zuckerman, baseado em romance de Robert Wilder. Fotografia: Russell Metty. Montagem: Russell F. Schoengarth. Música: Frank Skinner. Produção: Albert Zugsmith. Elenco: Rock Hudson, Lauren Bacall, Robert Stack, Dorothy Malone. Estreia: Dezembro/56

3 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Robert Stack), Atriz Coadjuvante (Dorothy Malone), Canção Original ("Written on the wind")
Vencedor do Oscar de Atriz Coadjuvante (Dorothy Malone)


Em 2002, o cineasta Todd Haynes dirigiu "Longe do paraíso", um dramalhão à moda antiga que deu à Julianne Moore uma indicação ao Oscar de melhor atriz. Elogiadíssimo pela crítica, o filme foi esnobado pelo público, provavelmente porque - assim como a comédia romântica "Abaixo o amor", estrelado por Renée Zellweger e Ewan McGregor - exigia da plateia um entendimento de sua proposta mais do que seu resultado final. Enquanto "Abaixo" homenageava os romances bobinhos de Rock Hudson e Doris Day, a obra de Haynes emulava os melodramas de Douglas Sirk, que, nos anos 50, serviu ao público americano uma série de filmes com histórias que, sob uma aparência de folhetins telenovelescos, escondia uma contundente crítica à sociedade hipócrita e preconceituosa da época.

Dentre seus filmes, um dos mais significativos - e dos mais bem-sucedidos em suas intenções estéticas e ideológicas - é justamente "Palavras ao vento", baseado em um romance de Robert Wilder. Em um tom absolutamente melodramático, Sirk conta a trágica história de uma família incapaz de lidar com seus problemas de ordem pessoal e sentimental, o que leva todos a uma tragédia que deixaria qualquer grego de orelhas em pé.

O filme centra seus dramas em quatro personagens envolvidos em um quadrilátero amoroso: Kyle Hadley (Robert Stack, que décadas depois faria "Apertem os cintos, o piloto sumiu" e assumiria de vez sua veia de canastrão) é um jovem milionário inseguro que nutre um misto de admiração e inveja por seu melhor amigo, Mitch Wayne (Rock Hudson, no auge da carreira, em talento e beleza). Por julgar-se inferior ao amigo de infância - a quem julga mais merecedor do amor de seu pai, inclusive - ele se entregou à bebida, fazendo da garrafa sua companhia mais constante. Tentando mudar de vida, ele se casa com a bela Lucy Moore (Lauren Bacall), mesmo desconfiando que Mitch é apaixonado por ela. O casamento dos dois é fadado ao fracasso, uma vez que Kyle nem ao menos tenta manter uma relação madura. Mesmo tentando manter-se fiel ao marido, Lucy acaba se aproximando de Mitch, o que desperta o ciúme doentio de Marylee (Dorothy Malone), irmã caçula de Kyle que passa seus dias envolvendo-se sexualmente com desconhecidos mas que nutre uma paixão doentia por Mitch. Quando ela começa a desconfiar que seu amado está envolvido com a cunhada, ela não hesita em criar uma intriga que os leva à violência e à morte.

A impressão que se tem quando se assiste a "Palavras ao vento" é que a trama é apenas um pequeno elemento dentre todo um conjunto de estilo do cineasta. Quase grotescamente fake, os cenários, os figurinos e até mesmo a trilha sonora contribuem para o clima opressivamente pré-fabricado que cerca suas personagens. Nada no filme soa real ou verossímil, estando sempre a um passo do exagero quase caricatural. Não deixa de ser um paradoxo bastante interessante, no entanto, que seu elenco atue assumindo valentemente sua condição de dramalhão, ou seja, as emoções parecem verdadeiras, ainda que vividas em um cenário claramente de mentira. Sirk parece querer dizer que em sua época as pessoas sofrem, sim, mas escondem seu sofrimento em um castelo de plástico lindamente decorado. Não é de se admirar que até mesmo o cineasta tenha deixado de lado o "detalhe" da homossexualidade latente de Kyle, bastante clara no livro e inexistente no filme - ao menos no sentido mais óbvio.

"Palavras ao vento" é mais que um filme, é uma experiência de estilo. Alguns adoram, outros rechaçam violentamente. Mas é inegável que tem importância capital dentro da história do cinema americano, uma vez que pode ser considerado quase um precursor de obras-primas como "Beleza americana", que também desvendava a fragilidade das aparências em relação aos sentimentos. Visto por esse ângulo, é um filme que merece ser conhecido e admirado, além de reconhecido como uma inteligente crítica aos valores morais de sua sociedade.

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