segunda-feira

CRASH, NO LIMITE


CRASH, NO LIMITE (Crash, 2004, LionsGate Films, 112min) Direção: Paul Haggis. Roteiro Paul Haggis, Bobby Moresco. Fotografia: J. Michael Munro. Montagem: Hughes Winborne. Música: Mark Isham. Figurino: Linda Bass. Direção de arte/cenários: Laurence Bennett/Linda Sutton-Doll. Produção executiva: Marina Grasic, Jan Korbelin, Tom Nunan, Andrew Reimer. Produção: Don Cheadle, Paul Haggis, Mark R. Harris, Bobby Moresco, Cathy Schulman, Bob Yari. Elenco: Sandra Bullock, Brendan Fraser, Don Cheadle, Matt Dillon, Ryan Phillipe, Terrence Howard, Thandie Newton, Michael Peña, Loretta Devine, Jennifer Esposito, William Fichtner. Estreia: 21/4/05

6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Paul Haggis), Ator Coadjuvante (Matt Dillon), Roteiro Original, Montagem, Canção ("In the deep")
Vencedor de 3 Oscar: Melhor Filme, Roteiro Original, Montagem 

Era uma vez um filme convencional, repleto de clichês, com um elenco pretendendo ser levado a sério e com vontade de parecer profundo que, por causa da hipocrisia dos membros de mentalidade fechada da Academia de Hollywood ganhou o Oscar de Melhor Filme no mesmo ano em que a história de amor e preconceito entre dois cowboys gays levou todos os prêmios confiáveis distribuídos pelo mundo graças a sua qualidade e sensibilidade. Esse filme - o que em tese era corajoso por tratar de racismo e diferenças sociais em uma Los Angeles que servia de microcosmo do país - se chama "Crash, no limite" e, a despeito de algumas qualidades, não passa de um telefilme com grande elenco e roteiro superficial.

Co-escrito e dirigido por Paul Haggis - que despontou para a fama quando escreveu o roteiro do premiadíssimo "Menina de ouro", de Clint Eastwood - "Crash" é mais um filme que se utiliza da velha estrutura de histórias paralelas para disfarçar a falta de profundidade de suas personagens, todas elas construídas de forma mais a servir à narrativa do que qualquer outra coisa. Em comédias românticas o artifício funciona; em um filme que se propõe a discussões sérias é um pecado bastante grave, especialmente quando o assunto é palpitante e polêmico quanto aqui. No final, tudo se resume a uma tese ambiciosa, mas sem maiores fundamentos que a possam sustentar. Felizmente, nem tudo são pedras. Existem flores no meio do caminho e - apesar de não justificarem os elogios rasgados e tampouco o Oscar de melhor filme - elas conseguem ao menos tornar a missão de assistir ao filme de Haggis um passatempo no mínimo fluente.



Seguindo o estilo que Robert Altman consagrou em filmes como "Nashville" e "Short Cuts" - e com o qual não teve a mesma sorte em "Pret-à-porter" - "Crash" narra várias histórias que tem em comum os fatos de se passarem em Los Angeles e serem focadas no racismo (em várias nuances). Aos poucos o público é apresentado aos policiais Tom Hansen (Ryan Phillipe) - que está em vias de perder parte de sua inocência profissional - e John Ryan (Matt Dillon, inexplicavelmente indicado a um Oscar de coadjuvante) - que em menos de 24 horas tem a chance de se redimir diante da esposa (Thandie Newton) de um produtor de TV (Terrence Howard, excelente) com quem teve um comportamento reprovável. Também é apresentado à audiência o casal de ricaços Jean e Rick Cabot (Sandra Bullock e Brendan Fraser) - que depois de um assalto passam a desconfiar de qualquer um que não seja branco, anglo-saxão e protestante -, o trabalhador latino Daniel (Michael Peña) - que encontra dificuldades por ser de uma raça considerada "inferior" pelos moradores de sua cidade - e o detetive Graham Waters (Don Cheadle no melhor papel do filme), que precisa lidar com o irmão marginal e a mãe doente. Ao redor deles, outras personagens compõem um mosaico de preconceito e hipocrisia.

O roteiro de Haggis e Bobby Moresco apresenta suas personagens e tramas de maneira ágil e direta, mas
pecam por ter medo de ir até os limites do drama. Não há nenhum momento catártico em sua história, nenhum choque que tire o espectador de sua zona de conforto - como o faz "A outra história americana", por exemplo. Quando isso está perto de acontecer - em uma cena tensa entre Daniel, sua filha pequena e um cliente insatisfeito - os roteiristas preferem o caminho da espiritualidade e frustram a expectativa do público em testemunhar o que poderia ser um grande momento dramático. E quando tem a coragem de matar uma personagem fazem uma escolha pouco ousada - ainda que isso dê a Don Cheadle a chance de explorar o papel menos superficial de toda a trama.

Não é que "Crash, no limite" seja absurdamente ruim ou algo que o valha. É que levanta questões importantes sem discutí-las a contento e promete muito mais do que cumpre. Condena o que é realmente condenável mas não passa de um mero observador quase covarde. E nem é tão brilhantemente dirigido a ponto de fazer de Sandra Bullock e Ryan Phillipe atores convincentes. Sua falta de contundência é seu maior - e fatal - pecado. E, convenhamos, talvez tenha sido essa militância rasa que tanto encantou aos obtusos (para não dizer tacanhos) e os fez abraçar um filme apenas ok como melhor do que o extremamente superior "O segredo de Brokeback Mountain".

quarta-feira

MAR ADENTRO

MAR ADENTRO (Mar adentro, 2004, Espanha, 125min) Direção: Alejandro Amenabar. Roteiro: Alejandro Amenabar, Mateo Gil. Fotografia: Javier Aguirresarobe. Montagem e música: Alejandro Amenabar. Figurino: Sonia Grande. Direção de arte/cenários: Benjamin Fernandez/Emilio Ardura. Produção: Alejandro Amenabar, Fernando Bovaira. Elenco: Javier Bardem, Belén Rueda, Lola Dueñas, Mabel Rivera, Celso Bugallo, Tamar Novas. Estreia: 04/9/04 (Festival de Veneza)

2 indicações ao Oscar: Melhor Filme Estrangeiro, Maquiagem
Vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro
Vencedor do Golden Globe de Melhor Filme Estrangeiro

No mesmo ano em que "Menina de ouro" levou os Oscar de filme e diretor, uma outra realização que falava de um de seus assuntos foi o vencedor na categoria de Melhor Filme Estrangeiro: dirigido pelo chileno Alejandro Amenabar, "Mar adentro" comoveu os eleitores da Academia com seu belo discurso sobre o direito à morte com dignidade e de quebra mais uma vez levantou a polêmica sobre eutanásia. Baseado em uma história real e contando com o estupendo Javier Bardem no papel central, o filme escapa facilmente do dramalhão para firmar-se como um dos mais contundentes produtos sobre o tema na história do cinema.


Bardem, em uma atuação consagradora injustamente desprezada pelo Oscar, vive Ramon Sanpedro, um homem que vive há 26 anos preso a uma cama, consequência de um mergulho mal-calculado que lhe causou uma tetraplegia. Dependente total dos cuidados de sua família - pai, irmão mais velho, cunhada e um sobrinho - ele decide que não quer mais viver e, para isso, procura a ajuda de uma organização não governamental chamada "Morte com dignidade". Através de uma de suas integrantes, ele conhece a advogada Julia (Belén Rueda), que sofre de uma doença degenerativa e vai aos tribunais lutar por seu direito à morte. Enquanto isso, ele também inicia uma relação de confiança e afeto com Rosa (Lola Dueñas), mãe solteira de dois meninos que se apaixona por sua personalidade cativante mas se recusa a colaborar com seus planos de acabar com a própria vida.



Talvez o maior mérito do roteiro do diretor Alejandro Amenabar - escrito em parceria com Mateo Gil - seja nunca ser condescendente com seu protagonista. Ao mesmo tempo em que é apaixonante e sedutor, Ramons também consegue ser cruel e racionalmente seco na luta por seus direitos. Enquanto ele consegue convencer o público de que Ramon tem razão em desejar por fim a seu sofrimento, também mostra o lado de alguns de seus familiares, que não aceitam as razões que o levam a querer morrer.

Tocante, emocionante, verdadeiro e extremamente contundente, "Mar adentro" é um filme como poucos, que faz pensar ao mesmo tempo em que conta uma história sobre pessoas comuns envolvidas em situações extremas. De aplaudir de pé enquanto se enxuga as lágrimas!

terça-feira

O FANTASMA DA ÓPERA

O FANTASMA DA ÓPERA (The phantom of the Opera, 2004, Warner Bros, 143min) Direção: Joel Schumacher. Roteiro: Andrew Lloyd Webber, Joel Schumacher, musical de Andrew Lloyd Webber, romance de Gaston Leroux. Fotografia: John Mathieson. Montagem: Terry Rawlings. Figurino: Alexandra Byrne. Direção de arte/cenários: Anthony Pratt/Celia Bobak. Produção executiva: Jeff Abberley, Julia Blackman, Keith Cousins, Louise Goodsill, Paul Hitchcock, Ralph Kamp, Austin Shaw. Produção: Andrew Lloyd Webber. Elenco: Gerard Butler, Emmy Rossum, Patrick Wilson, Minnie Driver, Miranda Richardson, Ciaran Hinds, Simon Callow. Estreia: 22/12/04

3 indicações ao Oscar: Fotografia, Canção Original ("Learn to be lonely"), Direção de arte/cenários

Tinha tudo pra dar certo. A versão da Broadway já fazia parte do inconsciente coletivo mundial desde sua estreia, em 1986. O gênero musical estava em alta com o sucesso de filmes como "Moulin Rouge" e "Chicago". O orçamento milionário chegou aos 70 milhões de dólares. O diretor Joel Schumacher - apesar de vários tropeços na carreira - era o preferido do compositor Andrew Lloyd Weber desde o início do projeto. E, da ideia de levar o musical às telas até sua estreia propriamente dita, nomes como os de Kevin Spacey, John Travolta e Antonio Banderas foram cotados para o papel central. Então por que "O fantasma da ópera" - uma marca forte e amplamente reconhecível - deu com os burros n'água, ao contrário do que se esperava?

Tudo bem que a bilheteria mundial de 150 milhões de dólares não é nada desprezível, mas é inegável que a Warner esperava muito mais quando finalmente tirou do papel um projeto há muito acalentado. Baseado no romance de Gaston Leroux, o musical de Andrew Lloyd Weber - feito pelo compositor como presente para sua então esposa Sarah Brightman - não teve no cinema a mesma sorte do que sua trajetória nos palcos. Ao contrário do que Rob Marshall fez em "Chicago" - utilizar as canções em favor de sua história e abusar da linguagem cinematográfica em proveito da trilha sonora - Joel Schumacher não soube aproveitar a matéria-prima que tinha em mãos. Estendendo demais a duração de seu filme - quase duas horas e meia de projeção sem um ritmo adequado - e contando com um elenco mal escalado, Schumacher acabou realizando um musical enfadonho que nem mesmo o belíssimo visual ajuda a aguentar sem várias pausas e inúmeros bocejos.



Tudo começa muito bem, com a imponência que se espera de um musical. Na primeira sequência, um leilão na Ópera de Paris faz com que um misterioso milionário viaje mentalmente para o ano de 1870, quando a jovem Christine (Emmy Rossum, péssima) assume o papel central de uma superprodução do teatro, para despeito da estrela da companhia, Carlotta (Minnie Driver). Apaixonada por um amigo de infância, Raoul (Patrick Wilson), ela acaba sendo sequestrada por um misterioso ser que habita os subterrâneos do lugar (Gerard Butler). Escondido por trás de uma máscara por ter o rosto desfigurado e conhecido como "O Fantasma da Ópera", ele inspira Christine desde a infância e tem a obsessão de transformá-la em uma estrela com um musical composto por ele mesmo.

Visualmente exuberante, com uma fotografia deslumbrante de John Mathieson e uma reconstituição de época absolutamente perfeita, "O fantasma da ópera" se ressente basicamente de sua falta de ritmo e empatia com seus atores principais. O trio de protagonistas não conquista o espectador, nem consegue fazer com que a audiência se importe com seu destino. Se Gerard Butler é jovem demais para ser o fantasma do título, ao menos consegue se desimcumbir com relativa competência de seu desafio. Patrick Wilson é bonito e tem carisma, mas seu Raoul é chato e apático e Emmy Rossum (vista anteriormente como a filha assassinada de Sean Penn em "Sobre meninos e lobos") assumiu o papel que quase ficou nas mãos de Anne Hathaway mas não tem nem metade do carisma da futura Mulher-Gato. Salva-se Miranda Richardson, como a única personagem que sabe de toda a origem do fantasma.

É inegável que a maior qualidade de "O fantasma da ópera" - sua música grandiloquente e poderosa - ainda se mantém na versão cinematográfica, com algumas canções capazes de arrepiar aos fãs da obra original. Mas é muito pouco diante de tudo que o filme poderia ser. Mais um passo em falso na carreira de Joel Schumacher.

segunda-feira

MENINA DE OURO

MENINA DE OURO (Million dollar baby, 2004, Warner Bros, 132min) Direção: Clint Eastwood. Roteiro: Paul Haggis, livro "Rope burns", de FX Toole. Fotografia: Tom Stern. Montagem: Joel Cox. Música: Clint Eastwood. Figurino: Deborah Hopper. Direção de arte/cenários: Henry Bumstead/Richard C. Goddard. Produção executiva: Robert Lorenz, Gary Lucchesi. Produção: Clint Eastwood, Paul Haggis, Tom Rosenberg, Albert S. Ruddy. Elenco: Clint Eastwood, Hilary Swank, Morgan Freeman, Jay Baruchel, Anthony Mackie, Lucia Rijker, Michael Peña, Bryan O'Byrne, Margo Martindale. Estreia: 15/12/04

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Clint Eastwood), Ator (Clint Eastwood), Atriz (Hilary Swank), Ator Coadjuvante (Morgan Freeman), Roteiro Adaptado, Montagem
Vencedor de 4 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Clint Eastwood), Atriz (Hilary Swank), Ator Coadjuvante (Morgan Freeman)
Vencedor de 2 Golden Globe: Melhor Diretor (Clint Eastwood), Atriz/Drama (Hilary Swank)
Vencedor de 2 Screen Actors Guild Awards: Atriz (Hilary Swank), Ator Coadjuvante (Morgan Freeman)

No mesmo ano em que "O aviador" - mastodôntica produção sobre o milionário Howard Hughes, dirigida por Martin Scorsese e protagonizada por Leonardo DiCaprio - surgiu como favorito ao Oscar devido a seu tamanho e imponência, um filme de orçamento pequeno e estrelado por uma atriz que tentava a volta por cima depois de uma inesperada estatueta da Academia e produções fracassadas apareceu do nada e, surpreendendo a todos foi o grande vitorioso na cerimônia do Oscar de 2005. Dirigido e estrelado pelo veterano Clint Eastwood, o emocionante "Menina de ouro" pode ter custado muito menos do que "O aviador" e não ter tido a mesma divulgação que o projeto de Scorsese, mas tem algo que seu maior rival não mostrou ter: um coração. A trágica história da amizade entre uma garçonete em busca do sonho de tornar-se boxeadora e seu treinador alquebrado pelo tempo e por decepções constantes comoveu milhares de pessoas pelo mundo e principalmente os eleitores da Academia, que o presentearam com quatro estatuetas: filme, diretor, atriz e ator coadjuvante, para o sempre competente Morgan Freeman.


Baseado em contos do livro do escritor F.X. Toole - todos eles versando sobre o universo do boxe - o roteiro escrito por Paul Haggis - que no ano seguinte chegaria novamente ao Oscar com "Crash, no limite" - narra a história de Maggie Fitzgerald (uma assombrosa Hilary Swank, merecidamente premiada com uma segunda estatueta), uma garçonete solitária e batalhadora que sonha vencer no mundo do boxe. Apesar de não estar mais na idade de começar um treinamento, ela convence o experiente Frank Dunning (Clint Eastwood), dono de uma academia, a lhe ajudar a realizar seu sonho. Decepcionado com seu último pupilo - que o deixou por um treinador mais agressivo e ambicioso - Dunning torna-se o mestre da garota, que em pouco tempo começa a demonstrar que merece sua dedicação e confiança. No entanto, um acidente durante uma importante luta internacional põe em cheque a força e a amizade entre mestre e discípula.

 
Na verdade, "Menina de ouro" surpreende seu público por levar a trama por caminhos inesperados, distantes do que seu início pressupõe. Ao contrário do que se poderia imaginar, a trajetória de Maggie rumo à fama não se dá como em "Rocky, um lutador": a fábula da vitória do mais fraco contra as convenções não tem lugar no mundo criado por Eastwood e companhia. A melancolia e a sensação de fracasso que permeiam o filme acentuam-se a cada cena e o final feliz parece mais distante do que nunca quando a saúde da protagonista torna-se mais e mais frágil, até o avassalador desfecho, de arrancar lágrimas de pedra.

O tom de tristeza adotado por Eastwood - e que sua delicade e sutil trilha sonora corrobora acertadamente - fica claro na narração de Morgan Freeman, na pele de um lutador aposentado, cego de um olho, que acompanha a evolução da relação entre Maggie e Dunning - um homem amargo, com um relacionamento problemático com a única filha e um ateu convicto que se diverte provocando o pároco local com discussões teológicas - como um espectador privilegiado. Dunning encontra na solitária e carente garçonete uma substituta para sua filha, e a moça vê nele um pai, uma imagem familiar bem diferente daquela que ela tem e que a decepciona constantemente.

Difícil não gostar de "Menina de ouro", uma pequena obra-prima construída com sangue, suor e sentimentos e realizada com uma paixão que salta aos olhos. As lágrimas são inevitáveis, mas esquecer da saga de Maggie Fitzgerald é tarefa das mais inglórias.

sexta-feira

O AVIADOR

O AVIADOR (The aviator, 2004, Miramax Films, 170min) Direção: Martin Scorsese. Roteiro: John Logan. Fotografia: Robert Richardson. Montagem: Thelma Schoonmaker. Música: Howard Shore. Figurino: Sandy Powell. Direção de arte/cenários: Dante Ferretti/Francesca LoSchiavo. Produção executiva: Chris Brigham, Colin Cotter, Leonardo DiCaprio, Rick Schwartz, Bob Weinstein, Harvey Weinstein, Rick Yorn. Produção: Sandy Climan, Charles Evans Jr., Graham King, Michael Mann. Elenco: Leonardo DiCaprio, Cate Blanchett, Kate Beckinsale, Alan Alda, Alec Baldwin, John C. Reilly, Ian Holm, Danny Huston, Jude Law, Adam Scott, Frances Conroy, Gwen Stefani. Estreia: 14/12/04

11 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Martin Scorsese), Ator (Leonardo DiCaprio), Ator Coadjuvante (Alan Alda), Atriz Coadjuvante (Cate Blanchett), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Figurino, Direção de arte/cenários, Mixagem de Som
Vencedor de 5 Oscar: Atriz Coadjuvante (Cate Blanchett), Fotografia, Montagem, Figurino, Direção de Arte/cenários
Vencedor de 3 Golden Globe: Melhor Filme/Drama, Ator/Drama (Leonardo DiCaprio), Trilha Sonora

O projeto sobre Howard Hughes já vagava em Hollywood há anos quando Martin Scorsese entrou em cena. E, ao finalmente transportar para as telas a história de um dos maiores visionários dos primórdios da sétima arte, o veterano diretor chegou pertinho de seu primeiro Oscar. "O aviador" concorreu em dez categorias e venceu em cinco: fotografia, montagem, figurino, direção de arte e atriz coadjuvante, para uma irrepreensível Cate Blanchett na pele de Katharine Hepburn, uma atuação quase mediúnica.

Howard Hughes (Leonardo DiCaprio) é um milionário de herança que tem três paixões na vida, não necessariamente nessa ordem: aviões, cinema e mulheres. Visionário e perfeccionista, ele resolve unir seus três amores no mesmo projeto e produz e dirige um ambicioso filme sobre a primeira guerra, utilizando aviões de verdade e lançando a carreira da atriz Jean Harlow (a cantora Gwen Stefani em aparição-relâmpago). Mesmo indo contra seus contadores - a cada dia mais apavorados - ele demora anos para finalmente estar satisfeito com a obra e lançá-la nos cinemas. Nesse meio-tempo, Hughes envolve-se com as atrizes Katharine Hepburn (Cate Blanchett) e Ava Gardner (Kate Beckinsale), com os poderosos membros da Panam, com um senador ambicioso e mau-caráter (Alan Alda, surpreendentemente indicado ao Oscar de coadjuvante masculino) e, depois de um grave acidente aéreo, com um sério problema de transtorno obsessivo-compulsivo, contra o qual lutará até o fim de sua vida.



"O aviador" tem inúmeras e inegáveis qualidades: todos os Oscar que recebeu foram justíssimos, e até mesmo Leonardo DiCaprio deixa de ser um astro para voltar a ser o ator com o talento com o qual acenava em "Gilbert Grape, aprendiz de sonhador" e que parecia ter perdido em filmes como "A praia". A complexa personagem que defende é repleta de armadilhas e o jovem ator sai-se admiravelmente bem na maioria delas, esbarrando apenas na questão etária: apesar de bom ator, ele não aparenta a idade que é necessária em certos momentos. Até mesmo sua relação com Cate Blanchett em cena fica comprometida devido a essa questão fundamental.

A parte técnica de "O aviador" é admirável, como se espera de um filme com a assinatura de Martin Scorses. A reconstituição de época é formidável, a fotografia de Robert Richardson parece ter vida própria e a música de Howard Shore combina perfeitamente com o clima pretendido pelo cineasta. O elenco, além de DiCaprio e Blanchett, conta com um Alan Alda venal e odioso, um Alec Baldwin cada vez melhor e Jude Law e Gwen Stefani em pontas luxuosas. Por que, então, o filme não é a obra-prima que poderia ter sido?

A única razão que pode-se apontar é a falta de emoção do resultado final. "O aviador" carece de emoção real, verdadeira. É dono de um belíssimo visual, tem uma equipe impecável e uma história forte e emocionante, mas parece não ter coração. Apesar do esforço de todo o elenco, por exemplo, somente Cate Blanchett parece ter uma personagem humana em mãos. O próprio Hughes aparenta uma frieza que provavelmente prejudica sua empatia com o público. Talvez por isso Scorsese tenha perdido o Oscar para Clint Eastwood, uma vez que "Menina de ouro" - o filme vencedor do ano - apelava muito mais para os sentimentos do que para os olhos, ao contrário dessa superprodução suntuosa mas quase insensível.

Ainda assim, é flagrante que "O aviador" é um dos grandes filmes de Scorsese, infinitamente superior ao seu antecessor "Gangues de Nova York" e digno dentrar na lista de seus maiores sucessos.

quinta-feira

CLOSER, PERTO DEMAIS

CLOSER, PERTO DEMAIS (Closer, 2004, Columbia TriStar, 104min) Direção: Mike Nichols. Roteiro: Patrick Marber, peça teatral de sua autoria. Fotografia: Stephen Goldblatt. Montagem: John Bloom, Antonia Van Drimmelen. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Tim Hatley/John Bush. Produção executiva: Celia D. Costas, Robert Fox, Scott Rudin. Produção: Cary Brokaw, John Calley, Mike Nichols. Elenco: Julia Roberts, Jude Law, Clive Owen, Natalie Portman. Estreia: 03/12/04


2 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Clive Owen), Atriz Coadjuvante (Natalie Portman)
Vencedor de 2 Golden Globes: Ator Coadjuvante (Clive Owen), Atriz Coadjuvante (Natalie Portman)

Qualquer drama romântico/sensual forjado por Hollywood frequentemente esbarra na superficialidade, na vulgaridade e muitas vezes no sentimentalismo barato. Quando acontece um filme como "Closer - perto demais", então, o choque é nunca menos do que desconcertante: forte, contundente, real e longe de qualquer concessão ao tradicional final feliz, o filme de Mike Nichols - diretor do aclamado e igualmente poderoso "Quem tem medo de Virginia Woolf?" - é um dos dramas adultos mais impactantes realizados pelo cinema americano no início do século XXI e um dos raros a mostrar relações humanas vividas por personagens que realmente parecem humanos e não criações fictícias.


Sem delongas e conversas desnecessárias, o público é jogado diretamente na trama logo nos primeiros acordes da belíssima canção "The blower's daughter", do inglês Damien Rice - que de certa forma é a quinta personagem da história de amor, traição, vingança e sexo que se desenrolará a partir dali: recém chegada a Londres, a bela e sensual americana Alice (interpretada com fúria e entrega por uma Natalie Portman irrepreeensível) conhece e se apaixona pelo jornalista e aspirante a escritor Daniel Woolf (Jude Law, deixando de lado a persona sexy e quase arrogante com que vinha conduzindo sua carreira até então). O romance dos dois poderia correr sempre às mil maravilhas se o rapaz não se sentisse atraído pela fotógrafa Ana (Julia Roberts em uma performance corajosa e desprovida de glamour), que, mesmo envolvida por ele inicia um romance com o dermatologista Larry (Clive Owen no grande papel de sua carreira). Durante alguns anos os destinos dos quatro irão permanecer ligados em uma corrente de desejo, dependencia e até amor verdadeiro.


Na verdade, grande parte dos méritos de "Closer" deve ser creditado ao roteirista Patrick Marber, também autor da peça teatral que deu origem ao filme (e que chegou a ser montada no Brasil). São de Marber os diálogos corantes, ácidos e secos declamados pelos atores - todos eles em grande momento de suas carreiras - e é de sua autoria a trama, que apresenta personagens vulneráveis em seus desejos e fortes em suas obsessões. Com o texto forte em mãos, coube ao veterano Mike Nichols conduzir a história sem ceder
ao lugar-comum. A edição jamais é previsível, a fotografia de Stephen Goldblatt é elegante e a trilha sonora é discreta mas fundamental. Nem mesmo as frases menos sutis do roteiro soam grosseiras e sim reais, graças principalmente à empatia das personagens e das situações propostas.

Dolorosamente real, "Closer" é um filme para se ver e rever, nem que seja para ter a convicção de que nenhum relacionamento é um mar de rosas e que qualquer pessoa, por mais amor que julgue estar sentindo ainda é apenas uma pessoa em busca de algo novo, de mais felicidade e mais amor. Dói, mas é necessário.

quarta-feira

O CLÃ DAS ADAGAS VOADORAS

O CLÃ DAS ADAGAS VOADORAS (Shi mian mai fu, 2004, China, 119min) Direção: Zhang Yimou. Roteiro: Feng Li, Bin Wang, Zhang Yimou. Fotografia: Xiaoding Zhao. Montagem: Long Cheng. Música: Shigeru Umebayashi. Figurino: Emi Wada. Direção de arte/cenários: Tingxiao Huo. Produção executiva: Weiping Zhang. Produção: William Kong, Zhang Yimou. Elenco: Takeshi Kaneshiro, Andy Lau, Ziyi Zhang. Estreia: 19/5/04 (Festival de Cannes)

Indicado ao Oscar de Fotografia

Depois do sucesso de "Herói", que chegou a ser indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, Zhang Yimou voltou a encantar o Ocidente com "O clã das adagas voadoras", em que mais uma vez utiliza de seu inegável talento em criar cenas de enorme impacto visual. Ao contrário de "Herói", no entanto, em que a forma era o principal atrativo em detrimento da história não exatamente empolgante, aqui o cineasta prefere dar mais atenção à trama, o que enriquece ainda mais o conjunto final. As cenas de seu novo filme podem não ser tão impressionantes quanto as belíssimas imagens do filme anterior, mas servem a uma história de amor e traição de grande ressonância emocional.

A trama de "O clã das adagas voadoras" se passa na China do século IX, quando a popularidade do Imperador estava em baixa, a ponto de ser questionada pela população, em especial por grupos rebeldes, como o clã do título. Quando o filme começa o líder do grupo está morto e, segundo lendas, está sendo substituído por sua filha, cuja identidade todos desconhecem. Para tentar chegar ao nome da nova líder da dissidência, um jovem capitão da polícia é escalado para seduzir a bela dançarina Mei (Ziyi Zhang) e assim chegar até os cabeças da revolução. Escoltando a estonteante bailarina - que é cega - ele acaba se apaixonando por ela, mas várias reviravoltas ainda atravessarão seu caminho antes que eles possam encontrar a felicidade. Entre as surpresas, surge um terceiro elemento no romance, que complica ainda mais sua atípica história de amor.



Pode até parecer ingênuo, mas "O clã das adagas voadoras" logo conquista a audiência com uma mistura equilibrada de belas coreografias de luta e cenas românticas realizadas com sensibilidade e grande senso de verossimilhança. O amor entre os protagonistas, nascido de maneira inesperada, convence graças a seus intérpretes, que dizem mais com seus olhares apaixonados do que páginas e páginas de discursos inflamados que surgem sistematicamente nos romances de plástico de Hollywood. E é impossível não empolgar-se com o terço final da obra, cuja beleza plástica e emocional apenas confirma o talento aparentemente inesgotável de Zhang Yimou.

terça-feira

BATMAN BEGINS

BATMAN BEGINS (Batman begins, 2005, Warner Bros, 140min) Direção: Christopher Nolan. Roteiro: Christopher Nolan, David S. Goyer, estória de David S. Goyer, personagens criadas por Bob Kane. Fotografia: Wally Pfister. Montagem: Lee Smith. Música: James Newton Howard, Hans Zimmer. Figurino: Lindy Hemming. Direção de arte/cenários: Nathan Crowley/Paki Smith, Simon Wakefield. Produção executiva: Benjamin Melniker, Michael E. Uslan. Produção: Larry Franco, Charles Roven, Emma Thomas. Elenco: Christian Bale, Katie Holmes, Gary Oldman, Liam Neeson, Morgan Freeman, Michael Caine, Cillian Murphy, Tom Wilkinson, Rutger Hauer, Ken Watanabe, Linus Roache. Estreia: 15/6/05

Indicado ao Oscar de Fotografia

Depois do verdadeiro fiasco de "Batman & Robin", dirigido por Joel Schumacher em 1997 - e que praticamente enterrou as possibilidades do super-heroi - muita gente acreditava que a franquia do homem-morcego (tão rentável nas mãos de Tim Burton) estava acabada de vez. Foi preciso uma recauchutagem geral para que o Cavaleiro das Trevas, criado por Bob Kane nos anos 30 voltasse às boas graças do público e da crítica. Com o criativo e talentoso Christopher Nolan - recém saído do sucesso "Amnésia" e do prestigiado "Insônia" - no comando, "Batman begins" tem a inteligência de ignorar a série cinematográfica lançada em 1989 e partir do princípio da história, das origens do heroi mascarado, que viu seus pais morrerem assassinados quando ainda era uma criança.

Escalar o inglês Christian Bale (lançado por Steven Spielberg em "Império do sol", de 1987) como protagonista foi o acerto primordial de Nolan. Frio nas horas certas e com o físico adequado para o papel, Bale apaga em poucos minutoso trauma deixado por Michael Keaton, Val Kilmer e George Clooney (ainda que este último não tenha sido o responsável pela derrocada da série). Na pele do milionário Bruce Wayne, o jovem ator consegue ser o super-heroi que todos desejavam ver sem apelar para o escapismo tradicional mas bastante fake dos filmes anteriores. Wayne, depois da tragedia que testemunhou, foi embora da mansão de sua família, foi preso, fez um treinamento quase ninja e volta à Gotham City com a missão de salvá-la da sua destruição total pela violência. Contando com a ajuda do Comissário Gordon (um Gary Oldman envelhecido mas ainda brilhante) e da assistente de promotoria que foi sua namorada na infância (a inapropriada Katie Holmes no único erro de escalação do elenco), ele parte para o ataque contra os bandidos que querem transformar sua cidade em ruínas.



Christopher Nolan é um exímio diretor de atores, o que faz toda a diferença na transformação da sombria saga de Batman de um ralo filme de ação em um drama de personagens, mesmo que às vezes eles sejam um tanto superficiais. O romance entre Wayne e sua namorada, por exemplo, nunca empolga (culpa talvez da constante apatia de Katie Holmes). A ideia genial de Batman fazer a sua primeira (e triunfal) aparição somente depois de meia-hora de projeção, no entanto, dá vida nova e inteligente ao roteiro. Michael Caine, Morgan Freeman, Ken Watanabe, Liam Neeson e Tom Wilkinson - todos já indicados ao Oscar - são coadjuvantes de luxo em uma diversão de primeira, que prova que filmes-pipoca podem e devem ser espertos e não tratar o público como crianças. A edição, repleta de idas e voltas - que no começo até atrapalham um pouco - também ajuda o filme a fugir do óbvio, e a bela fotografia de Wally Pfister (dona de sua única indicação ao Oscar) dá o tom exato da bela obra de Nolan.

"Batman begins" pode não ter rendido tanto dinheiro quanto os primeiros filmes do heroi, mas arrebanhou prestígio suficiente para dar o pontapé inicial em uma nova e bem-sucedida série e preparar a audiência para
seu extraordinário segundo capítulo, "Batman, o cavaleiro das trevas", que deixaria o mundo de queixo caído.

segunda-feira

ÁGUA NEGRA

ÁGUA NEGRA (Dark water, 2005, Touchstone Pictures, 105min) Direção: Walter Salles. Roteiro: Rafael Yglesias, roteiro original de Hideo Nakata, Takashige Ichise, romance de Kôji Suzuki. Fotografia: Affonso Beato. Montagem: Daniel Rezende. Música: Angelo Badalamenti. Figurino: Michael Wilkinson. Direção de arte/cenários: Thèrése DePrez/Nick Evans, Clive Thomasson. Produção executiva: Ashley Kramer. Produção: Doug Davison, Roy Lee, Bill Mechanic. Elenco: Jennifer Connelly, John C. Reilly, Tim Roth, Pete Postletwhaite, Dougray Scott, Camryn Manheim, Ariel Gade. Estreia: 27/6/05

Ainda parte de uma onda que adaptava filmes de terror orientais para o paladar do público (em especial o americano), este "Água negra" é o primeiro filme hollywoodiano do brasileiro Walter Salles depois da boa receptividade de "Diários de motocicleta" (que chegou a levar um Oscar de melhor canção). No entanto, a boa vontade da crítica ianque e do público em geral não se repetiu dessa vez. Refilmagem livre de uma obra japonesa, o filme naufragou nas bilheterias e ainda amargou uma rejeição inexplicável da imprensa de modo quase geral.


Quase inexplicável, na verdade. Levando-se em consideração o quanto obtusa a crítica americana pode ser em algumas ocasiões, o dito fracasso de "Água negra" era até esperado. Afinal de contas, um filme de terror quase sem sustos, com um clima opressivo e claustrofóbico mas sem nada, absolutamente nada de sangue e com uma protagonista torturada por um passado traumático que não envolve psicopatas mascarados só podia mesmo dar com os burros n'água. O diretor Walter Salles e o roteirista Alfredo Yglesias nadaram contra a corrente dos filmes de horror que insistiam em lotar as salas de exibição. E por isso mesmo criaram uma dos melhores e mais angustiantes obras do gênero a surgir em muito tempo.



Lembrando constantemente o clássico "O bebê de Rosemary", de Roman Polanski - principalmente devido a seu clima e sua preferência em focar o psicológico em detrimento do físico - o filme começa quando a jovem Dahlia Williams (Jennifer Connelly, bela e melhor atriz como nunca), recém divorciada, se muda com a filha pequena Ceci (a ótima atriz miriam Ariel Gade) para um prédio soturno, distante alguns minutos de Manhattan. O apartamento onde elas vão morar tem um vazamento no teto e, enquanto Dahlia briga na justiça pela guarda da menina, ele começa a aumentar cada vez mais, na mesma medida em que ela volta a ter pesadelos com sua mãe relapsa. Quando sua filha passa a falar de uma amiga imaginária chamada Natasha, Dahlia entra em colapso.

A ambientação lúgubre do filme de Salles funcina quase como uma personagem em si. O prédio, cada vez mais úmido a medida em que Dahlia entra em suas crises psicológicas, a fotografia escura e sombria do brasileiro Affonso Beatto e a trilha sonora de Angelo Badalamenti (colaborador frequente de David Lynch) colaboram de forma impecável com todo o clima de angústia e solidão proposto pelo roteiro. Ao invés de assustar a audiência a cada cinco minutos, "Água negra" prefere apresentar um estudo sobre traumas do passado, sobre a depressão e sobre o terror que cada um carrega dentro de si. Não é à toa que fracassou. Mas é um filme excelente, digno de ser redescoberto e aplaudido pelos fãs de bom cinema.

sexta-feira

ETERNO AMOR

ETERNO AMOR (Un long dimanche de fiançailles, Warner Bros, 133min) Direção: Jean-Pierre Jeunet. Roteiro: Jean-Pierre Jeunet, Guillaume Laurant, romance de Sebastién Japrisot. Fotografia: Bruno Delbonnel. Montagem: Hervé Schneid. Música: Angelo Badalamenti. Figurino: Madeline Fontaine. Direção de arte/cenários: Aline Bonetto/Véronique Melery. Produção executiva: Bill Gerber, Jean-Louis Monthieux. Produção: Jean-Pierre Jeunet. Elenco: Audrey Tautou, Gaspard Ulliel, Marion Cottilard, Jodie Foster, Tcheky Karyo, Denis Levant, Dominique Pinon. Estreia: 27/10/04

2 indicações ao Oscar: Fotografia, Direção de arte/cenários

Depois do empolgante - e merecidíssimo - sucesso financeiro e de crítica de "O fabuloso destino de Amélie Poulain", o time reuniu-se novamente: o diretor Jean-Pierre Jeunet, o roteirista Guillaume Laurant, a estrela Audrey Tautou e a equipe técnica da inesquecível comédia romântica realizada em 2001 são os responsáveis por "Eterno amor", em que o visual acachapante, o roteiro repleto de camadas e o senso de humor sutil mas eficaz voltam a marcar presença. No entanto, dessa vez o público não abraçou com tanto entusiasmo essa nova empreitada do grupo. Injustamente, sem dúvida, mas plenamente compreensível: se em "Amelie" o clima era de constante alto-astral e bom humor, com um final feliz apontando em cada minuto de celulóide, a adaptação do livro de Sebastien Japrisot aposta em uma melancolia e uma tristeza palpáveis, misturadas com uma violência que, ainda que belissimamente fotografada, ainda é violência. E a plateia, que delirou com as aventuras românticas de Amelie Poulain não se encantou tanto assim com a nova personagem de Tautou, a esperançosa Mathilde.

"Eterno amor" começa depois da I Guerra Mundial. Há anos separada do seu grande amor - o jovem Manech (Gaspard Ulliel, que depois faria o protagonista de "Hannibal"), dado como morto em uma batalha - a romântica Mathilde não deixa de ter esperanças de que ele na verdade ainda está vivo. Utilizando todo o dinheiro que possui graças à herança deixada por seus pais, ela contrata detetives, põe a própria mão na massa e vai à luta em sua busca quase obsessiva. Devido a suas investigações, ela toma contato com diversas histórias quase insanas do conflito mundial, que envolvem desde prostitutas vingativas (a excelente Marion Cottilard antes da fama) até militares egoístas e um trágico triângulo amoroso (cujo vértice é uma surpreendente Jodie Foster falando um fluente francês).



Ficar indiferente a "Eterno amor" é missão quase impossível. A espetacular fotografia de Bruno Delbonnell faz de cada quadro uma obra de arte de tirar o fôlego e a reconstituição de época é um trabalho impecável. O roteiro, que utiliza elementos quase idênticos aos de "Amelie" - a saber: a visualização de todos os detalhes citados pelos diálogos - nunca deixa de ser extremamente interessante, ainda que por vezes chegue a ser confuso, devido ao número quase excessivo de personagens importantes à narrativa. Aliás, são esses coadjuvantes que acabam roubando a cena: em seu caminho em direção à verdade sobre o destino de Manech, Mathilde cruza com pessoas bem mais interessantes do que ela, que vivem histórias mais comoventes, irônicas ou trágicas. Essa importância dada às personagens secundárias - vividas por um elenco extraordinário com seus rostos expressivos - empalidece a protagonista, que não tem o mesmo carisma de Amélie, ainda que tenha motivações bem mais nobres.


O fato é que "Eterno amor" é um filme que cresce a cada revisão, tamanho é o número de informações impressas pelo diretor Jean-Pierre Jeunet em cada cena. Capaz de emocionar e encantar um público mais adulto e sofisticado do que seu antecessor, o novo trabalho da equipe de "Amelie" mantém o mesmo nível de qualidade, acrescentando-lhe profundidade e uma bem-vinda dose de beleza e tristeza.

quinta-feira

ALEXANDRE

ALEXANDRE (Alexander, 2004, Warner Bros, 175min) Direção: Oliver Stone. Roteiro: Oliver Stone, Christopher Kyle, Laeta Kalogridis. Fotografia: Rodrigo Prieto. Montagem: Yann Hervé, Gladys Joujou, Alex Marquez, Thomas J. Nordberg. Música: Vangelis. Figurino: Jenny Beavan. Direção de arte/cenários: Jan Roelfs/Jim Erickson. Produção executiva: Matthias Deyle, Pierre Grunstein. Produção: Moritz Borman, Jon Kilik, Thomas Schuly, Iain Smith, Oliver Stone. Elenco: Colin Farrell, Angelina Jolie, Val Kilmer, Jared Leto, Anthony Hopkins, Christopher Plummer, Rosario Dawson, Jonathan Rhys Meyers. Estreia: 16/11/04

Em 2004 dois filmes disputavam a primazia de contar a história de Alexandre, O Grande. A versão que seria dirigida por Baz Luhrmann e estrelada por Leonardo DiCaprio e Nicole Kidman, porém, acabou ficando apenas nos planos, enquanto uma outra visão da saga do conquistador macedônio chegou às telas, sob o comando do sempre polêmico Oliver Stone. Sem medo de tocar em assuntos delicados, como a bissexualidade de seu protagonista, Stone assinou um trabalho visualmente espetacular, mas frouxo em suas intenções. Mesmo contando com uma impressionante fotografia de Rodrigo Prieto, uma trilha sonora majestosa do grego Vangelis e uma impecável reconstituição de época, o épico do cineasta que sacudiu Hollywood com sua trilogia sobre a guerra do Vietnã - "Platoon", "Nascido em 4 de julho" e "Entre o céu e a terra" - acabou se tornando um retumbante fracasso de bilheteria.


Depois do assassinato de seu pai, o rei Filipe, o Caolho (em surpreendente atuação de Val Kilmer), o jovem Alexandre (Colin Farrell loiro e menos intenso do que de costume) assume o trono da Grécia e, inspirado pelo mito de Aquiles, decide conquistar todo o mundo então conhecido. Incentivado por sua ambiciosa e vingativa mãe, Olímpia (Angelina Jolie, belíssima mesmo na maturidade de sua personagem), ele utiliza seu fiel exército para dominar inclusive a Babilônia, de onde torna-se rei por direito. Controverso e dado a crises de paranoia, ele surpreende a todos quando, ao contrário do que se esperava, casa-se com Roxana (Rosario Dawson), uma mulher considerada de importância política nula. Cercado de traições e motins por todos os lados, Alexandre conta sempre com a presença de Hefestion (Jared Leto), seu grande amor de infância, para tornar-se o rei do mundo.

O roteiro de "Alexandre", escrito pelo próprio Stone - junto com Christopher Kyle e Laeta Kalogridis - passa ao largo de momentos importantes da história do conquistador e, paradoxalmente, narra algumas situações bastante dispensáveis. Cenas grandiloquentes e bem dirigidas não faltam, cortesia de tomadas aéreas deslumbrantes. O que falta no filme, no entanto, são emoções verdadeiras. O irlandês Colin Farrell tira de letra o desafio de encarar um papel com as dimensões de Alexandre, mesmo que esteja mais contido do que o habitual. Angelina Jolie desfila sua beleza impressionante e sua classe pela tela, mas fala com um sotaque inexplicável que diminiu o impacto de sua Olímpia, quase uma Lady Macbeth, ambiciosa e rancorosa. E é uma pena que atores do quilate de Anthony Hopkins estejam em cena como um mero e luxuoso narrador.

É inegável que "Alexandre" é um superespetáculo, um épico de grandes proporções, e como tal, agrada, impressiona e satisfaz. Como história, no entanto, deixa a desejar, em especial por se estender em demasia sem ter muito o que contar - a julgar pelo roteiro fraco. Ainda assim, é muito melhor do que boa parte da crítica americana - que tem enorme prazer em detonar Oliver Stone - quis fazer acreditar na época de seu lançamento.

quarta-feira

A QUEDA! OS ÚLTIMOS DIAS DE HITLER


A QUEDA! OS ÚLTIMOS DIAS DE HITLER (Downfall, 2004, Constantin Film, 156min) Direção: Oliver Hirshbiegel. Roteiro: Bernd Eichinger, livros de Joachim Fest e Traudl Junge/Melissa Muller. Fotografia: Rainer Klausman. Montagem: Hans Funck. Música: Stephan Zacharias. Figurino: Claudia Bobsin. Direção de arte/cenários: Bernd Lepel. Produção executiva: Christine Rothe. Produção: Bernd Eichinger. Elenco: Bruno Ganz, Alexandra Maria Lara, Corinna Harfouch, Thomas Krestchmann, Ulrich Matthes, Juliane Kohler, Heino Fersch. Estreia: 08/9/04 (Alemanha)

Indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro

Tarefa inglória a do diretor Oliver Hirshbiegel: dar profundidade e um tanto de humanidade a um dos maiores monstros forjados pela História do Mundo, o  Adolf Hitler. Personagem principal de um dos mais tristes e apavorantes períodos do século XX, o ditador alemão poucas vezes foi protagonista de uma produção de grande visibilidade, sendo sempre retratado de forma superficial. Baseando-se então nos livros escritos por Traudl Junge - secretária do fuhrer em seus últimos dias - e Joachim Fest, o filme "A queda! As últimas horas de Hitler" chegou às telas cercado de expectativa e - por que não? - uma certa dose de medo em relação à maneira com que a história seria retratada. No final das contas, porém, todo mundo ficou feliz: não só a adaptação é fiel em termos históricos como é também cinema de grande qualidade, valorizado pela avassaladora interpretação de Bruno Ganz no papel central.

Ganz, conhecido por seu papel como um dos anjos do incensado "Asas do desejo", de Wim Wenders, entrega uma soberba atuação como Hitler, dando ao infame ditador nuances nunca vistas em performances anteriores. Longe de fazer dele uma vítima - armadilha na qual cineastas e atores menos competentes poderiam facilmente cair - Ganz e o diretor Hirshbiegel utilizam-se de um formato de semi-documentário para narrar os últimos meses do regime nazista sob o ponto de vista da jovem Traudl (Alexandra Maria Lara), contratada como secretária em novembro de 1942. É dela o olhar do público, que acompanha, aterrado, a partir de 20 de abril de 1945 - aniversário de Hitler - os bastidores da queda do regime que dizimou milhares de judeus pelo mundo afora. Silenciosa, ela tem a posição privilegiada de testemunhar as discussões entre a alta cúpula do poder alemão, dividindo-se entre a lealdade a seu patrão e ao medo de transformar-se em vítima da vitória dos aliados.



É impressionante a maneira neutra com que Oliver Hirshbiegel conduz sua câmera, infiltrando-se em reuniões desesperadas entre Hitler e seus fiéis asseclas e nos momentos mais íntimos de seus protagonistas. Inclusive são nas cenas mais pessoais que o filme cresce e empolga. Se nos momentos políticos o interesse já é grande o bastante para qualquer pessoa interessada em História é impossível ficar impassível diante das sequências fortes que mostram as horas finais de todos os companheiros de Hitler. É fascinante, por exemplo, o trabalho sutil mas impactante de Corinna Harfouch como Magda Goebbels, capaz de matar os próprios filhos para impedir que eles convivam com a queda do regime no qual acredita fervorosamente. Tal como uma Medeia, ela retrata, de forma inequívoca, a força da fidelidade nazista. Assim como praticamente todo o elenco - irretocável do início ao fim - Harfouch pontua com competência o trabalho de Ganz, que transmite toda a fúria, o desespero e a angústia de uma personagem ingrata em um desempenho consagrador.

Indicado ao Oscar de filme estrangeiro, "A queda", logicamente, perdeu a estatueta - não se pode esquecer a predominância de eleitores judeus na Academia de Hollywood. Mas é forte, inteligente e realizado com um nível técnico acima de qualquer suspeita (fotografia, edição e reconstituição de época são extraordinárias). Um item obrigatório para fãs de bom cinema e História Mundial.

terça-feira

HERÓI

HERÓI (Hero, 2002, Miramax International, 99min) Direção: Zhang Yimou. Roteiro: Feng Li, Bin Wang, Zhang Yimou. Fotografia: Christopher Doyle. Montagem: Angie Lamm, Ru Zhai. Música: Tan Dun. Figurino: Zen Qing Chun. Direção de arte/cenários: Tingxiao Hu, Zhenzhou Yi. Produção executiva: Shoufang Dou, Weiping Zhang. Produção: Bill Kong, Zhang Yimou. Elenco: Jet Li, Tony Leung Chiu Wai, Maggie Cheung, Ziyi Zhang, Daoming Chen. Estreia: 24/10/02 (China)

Indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro

Desde que a quinta geração do cinema chinês aportou no Ocidente, no início dos anos 90, alguns nomes imediatamente tornaram-se reconhecíveis pelo público antenado. Um deles, Zhang Yimou, chamava a atenção principalmente pelo visual impecável de seus trabalhos, todos eles com um cuidado primoroso com a fotografia e a direção de arte. Mostrando que essa característica é uma constante em sua obra, Yimou deixou o mundo de queixo caído com a exuberância de seu deslumbrante “Herói”. Seguindo a tendência do megasucesso “O tigre e o dragão” – artes marciais coreografadas como balé diante de um visual estonteante – o longa do cineasta que assinou o belo “Lanternas vermelhas” conquistou público e crítica, além de ter arrebatado uma indicação ao Oscar de filme estrangeiro.

Tudo acontece na China feudal, quando o Rei de Qin, tencionando tornar-se o mais poderoso monarca de todo o território, se transforma no alvo de três perigosos assassinos. Seus temores de morrer violentamente acabam quando surge a notícia de que todos eles foram eliminados pelo mesmo homem, um misterioso guerreiro sem nome (vivido por um silencioso Jet Li). Impressionado, o rei chama a seu palácio o herói, que lhe conta, então, como deu fim aos inimigos de suas ambições políticas.


A história de “Herói”, no fim das contas, é o que menos interessa. O que mais chama a atenção no filme é sua deslumbrante concepção visual. Cada episódio de seu filme conta com a predominância de uma cor específica, dando o tom e o clima adequados. A fotografia abismal de Christopher Doyle transforma cada cena em uma pintura, enchendo os olhos do espectador a tal ponto de fazê-lo esquecer que, em determinados momentos, o roteiro tem sérios problemas de ritmo (e talvez seja um tanto superficial) – problemas estes que Yimou resolveria em seu trabalho seguinte, o igualmente belo “O clã das adagas voadoras”.

É impossível não se deixar seduzir pela beleza pictória de “Herói”. Desde a primeira cena até seu final surpreendente, a história prende a audiência por seu cuidado em jamais fugir de seus conceitos estéticos e por envolvê-la em uma trama que versa sobre heroísmo, lealdade e idealismo. O filme é um marco absoluto do cinema chinês do início do século XXI, imperdível tanto por suas qualidades técnicas por sua sensibilidade.

O PREÇO DA TRAIÇÃO

  O PREÇO DA TRAIÇÃO (Chloe, 2009, StudioCanal/Sony Pictures Classic, 96min) Direção: Atom Egoyan. Roteiro: Erin Cressida Wilson, roteiro ...