quinta-feira

ANTES DA MEIA-NOITE

ANTES DA MEIA-NOITE (Before midnight, 2013, Castle Rock Entertainment, 109min) Direção: Richard Linklater. Roteiro: Richard Linklater, Ethan Hawke, Julie Delpy, personagens criados por Richard Linklater, Kim Krizan. Fotografia: Christos Voudouris. Montagem: Sandra Adair. Música: Graham Reynolds. Figurino: Vassilia Rozana. Produção executiva: Liz Glotzer, Jacob Pechenik, Martin Shafer, John Sloss. Produção: Christos V. Konstantakopoulos, Richard Linklater, Sara Woodhatch. Elenco: Ethan Hawke, Julie Delpy, Walter Lassaly, Ariane Labed, Panos Koronis, Athina Rachel Tsangari, Xenia Kalogeropoulou. Estreia: 20/01/13 (Festival de Sundance)

Indicado ao Oscar de Roteiro Adaptado

"Ouça-me bem, amor, preste atenção: o mundo é um moinho. Vai triturar seus sonhos, tão mesquinho, vai reduzir as ilusões a pó..." Certamente o cineasta Richard Linklater não conhece Cartola e uma de suas mais famosas composições, mas de certa forma os versos de "O mundo é um moinho" se encaixam com perfeição quase cirúrgica em "Antes da meia-noite", capítulo final de uma trilogia iniciada em 1995 com "Antes do amanhecer" e que prosseguiu em 2004 com "Antes do pôr-do-sol". Substituindo as altas doses de romantismo dos primeiros filmes por um tom mais amargo - e portanto mais realista - Linklater conseguiu uma proeza cada vez mais rara no cinema americano: contar uma história de amor que não soa artificial ou banal, e que não trata seus personagens (e a plateia) com paternalismo ou julgamentos morais.

Despojado de qualquer artifício do tradicional cinema romântico americano, "Antes da meia-noite" se beneficia de sua simplicidade técnica, concentrando-se, mais uma vez, nos inteligentes diálogos do roteiro escrito por Linklater e seu casal de atores centrais, Ethan Hawke e Julie Delpy - assim como aconteceu com "Antes do pôr-do-sol", os três foram indicados ao Oscar da categoria. Calcado basicamente nas longas conversas entre os personagens - dessa vez chegando até mesmo a uma dolorida e quase cruel discussão - o filme novamente convida o espectador a uma sessão de voyeurismo, em que ele assume o papel de testemunha de uma fase crítica na vida do casal que, diante dos olhos dos públicos, se conheceu em uma viagem de trem e só se reencontrou quase uma década mais tarde, ainda apaixonados. Se nos dois primeiros capítulos o amor era o principal ingrediente da receita, no encerramento da trilogia (ao menos até que um novo projeto surja no horizonte, o que é pouco provável) existe um vasto espaço para o ressentimento e o desânimo.


"Antes da meia-noite" encontra seus protagonistas, Jesse e Celine, passando, acompanhados de suas pequenas filhas gêmeas, seus últimos dias de férias em uma ensolarada ilha grega. Morando em Paris, eles aproveitam as belas paisagens a convite de um veterano escritor (interpretado pelo diretor de fotografia alemão Walter Lassaly, premiado com o Oscar por "Zorba, o grego") e sua família. Depois do retorno do filho mais velho de Jessie à casa da mãe - que mora em Chicago e mantém uma relação hostil com o ex-marido - os problemas começam a aparecer: enquanto Celine está em vias de aceitar um emprego que pode lhe recolocar satisfatoriamente no mercado de trabalho, seu marido pensa na possibilidade de reaproximar-se do filho, que ele julga precisar de sua atenção. Logicamente essa diferença de objetivos passa a atormentar ao casal, que aproveita a noite em um quarto de hotel oferecido de presente por amigos - e afastado das crianças - para por a relação em pratos limpos e despejar, um no outro, suas inseguranças, frustrações e anseios (sentimentais e sexuais).

Sem medo de estender-se em extensos diálogos - bem escritos e dotados de uma inteligência admirável - Linklater mais uma vez não deixa que artifícios desnecessários interfiram no desenrolar de seu filme. Sua câmera é discreta e quase invisível, deixando que todo o fascínio de sua obra fique a cargo de seu casal de protagonistas, cada vez mais afiado - e com direito até mesmo a uma inédita cena de nudez, mesmo que ela esteja longe de buscar o erotismo. Mantendo-se fiel à marca registrada da trilogia - a simplicidade visual equilibrando a profundidade dramática - "Antes da meia-noite" só irá decepcionar àqueles que esperam que Jesse e Celine tenham parado no tempo, sem os problemas que costumam acometer todos os casais de verdade. É empolgante que um cineasta como Linklater - que voltaria a brincar com a narrativa temporal no ainda mais ousado "Boyhood, da infância à juventude" - tenha conseguido criar personagens que amadureceram junto com seu público fiel. Em uma jornada que se estende por quase vinte anos, Jesse e Celine tornaram-se uma espécie de casal de amigos, e embora seja por vezes doloroso ver as fissuras que o tempo e a rotina podem causar em uma relação apaixonada, é um mérito dos envolvidos não deixar que a fantasia enterre a verossimilhança. "Antes da meia-noite" é realista, é verdadeiro e é, apesar de tudo, extremamente romântico. Um desfecho à altura para uma das melhores trilogias da história do cinema.

quarta-feira

COMO NÃO PERDER ESSA MULHER

COMO NÃO PERDER ESSA MULHER (Don Jon, 2013, Voltage Pictures/HitRecord Films, 90min) Direção e roteiro: Joseph Gordon-Levitt. Fotografia: Thomas Kloss. Montagem: Lauren Zuckerman. Música: Nathan Johnson. Figurino: Leah Katznelson. Direção de arte/cenários: Meghan C. Rogers/Cindy Coburn. Produção executiva: Nicolas Chartier, Ryan Kavanaugh, Tucker Tooley. Produção: Ram Bergman. Elenco: Joseph Gordon-Levitt, Scarlett Johansson, Julianne Moore, Tony Danza, Glenne Headley, Brie Larson. Estreia: 18/01/13 (Festival de Sundance)

Em "Sintonia de amor", a personagem central, vivida por Meg Ryan, reclamava dos estragos causados pelo cinema romântico hollywoodiano, que faz com que as mulheres busquem histórias de amor ilusórias em detrimento da realidade. Clássico do cinema pejorativa e erroneamente chamado de "filme de mulherzinha", a obra de Nora Ephron encontra em "Como não perder essa mulher" sua versão masculina, guardadas as devidas proporções. Estreia como diretor do ator Joseph Gordon-Levitt, que também interpreta o papel central, o filme substitui os romances de plástico de Hollywood por filmes pornográficos, as mocinhas sonhadoras por um bartender hedonista e transmuta o santo graal dos protagonistas de um amor verdadeiro em uma satisfatória vida sexual.

Jon, o protagonista que Gordon-Levitt escreveu para Channing Tatum - que faz uma participação afetiva e bastante engraçada ao lado de Anne Hathaway - e depois pegou para si, é um jovem bartender que divide suas noites em um curso profissionalizante e noitadas em baladas que sistematicamente acabam em insatisfatórias relações sexuais. Conquistador inveterado, ele não hesita em reconhecer a si mesmo - e ao padre com que frequentemente se confessa - que prefere masturbações frequentes diante de filmes pornográficos do que sexo propriamente dito. Segundo sua concepção, as mulheres são sempre desapontamentos, por não realizarem na vida real o que os filmes adultos prometem em suas cenas pra lá de quentes. Seu vício em pornografia não se revela problemático, porém, até que ele conhece e cai de amores por Barbara (Scarlett Johansson, vivendo pela enésima vez a mulher sexy). Aparentemente um vulcão, Barbara se revela uma mulher extremamente conservadora, que mais uma vez frustra suas expectativas de orgias alucinantes. Surge então Esther (Julianne Moore), uma mulher mais velha, com uma trágica história de vida, que acaba lhe mostrando um outro caminho a seguir.


A ideia do roteiro de Gordon-Levitt é ótima, afinal de contas falta ao cinema hollywoodiano filmes com pontos de vista masculinos a respeito de relações amorosas. O problema é que falta a ele um pouco mais de profundidade, em especial na relação entre Jon e Esther, que poderia ter sido explorada com menos pressa - o que poderia inclusive ter dado à sempre ótima Julianne Moore maior oportunidade de brilhar. O jovem ator demonstra personalidade em sua direção, fazendo uso inteligente da edição e da trilha sonora e demonstrando bom senso estético - além de proporcionar à Glenne Headley ótimos diálogos na pele de sua mãe desesperada por uma nora e conseguir se dividir entre a direção e a protagonização com segurança de veterano: a transformação de seu Jon, que em mãos menos talentosas poderia soar patética, com ele não é apenas crível, mas também encantadora. Ajuda muito, é claro, que ele seja um ator carismático e bastante talentoso.

Dividindo sua carreira em produções independentes - como a deliciosa "(500) dias com ela" - e filmes de enorme visibilidade - "A origem" e "Batman, o Cavaleiro das Trevas ressurge" - Gordon-Levitt passou sem traumas do status de adolescente promissor a um dos mais requisitados jovens astros de Hollywood. Fugindo de um possível estigma de galã adolescente, ele passou a fazer escolhas ousadas - o polêmico "Mistérios da carne", de Gregg Araki, o mostra em um personagem do qual muitos colegas de geração fugiriam apavorados - até conquistar o respeito dos colegas e a admiração da plateia. Sua decisão em estrear como diretor, como mostra "Como não perder essa mulher" (um título nacional, diga-se de passagem, constrangedor) não foi apenas fruto de egocentrismo: seguro e dotado de ritmo, seu trabalho aponta para uma nova e auspiciosa carreira. Uma comédia romântica atípica, seu filme pode não agradar a todas as plateias - talvez o público feminino se sinta um tanto incomodado com os frequentes (mas contextualizados) frames de mulheres nuas e cenas pornográficas - mas é, sem dúvida, uma estreia digna de nota.

terça-feira

CAÇA AOS GÂNGSTERES

CAÇA AOS GÂNGSTERES (Gangster squad, 2013, Warner Bros/Village Roadshow Pictures, 113min) Direção: Ruben Fleischer. Roteiro: Will Beall, livro de Paul Lieberman. Fotografia: Dion Beebe. Montagem: Alan Baumgarten, James Herbert. Música: Steve Jablonsky. Figurino: Mary Zophres. Direção de arte/cenários: Maher Ahmad/Gene Serdena. Produção executiva: Bruce Berman, Ruben Fleischer, Paul Lieberman. Produção: Dan Lin, Kevin McCormick, Michael Tadross. Elenco: Sean Penn, Josh Brolin, Ryan Gosling, Emma Stone, Nick Nolte, Mireille Enos, Anthony Mackie, Giovanni Ribisi, Robert Patrick, Troy Garity, Michael Peña. Estreia: 07/01/13

A estreia de "Caça aos gângsteres" - baseado no livro de Paul Lieberman que reunia seus artigos para o Los Angeles Times a respeito da luta dos policiais da cidade para acabar, no final da década de 40, com o império do crime comandado por Mickey Cohen - estava marcada para o início de setembro de 2012, coincidindo com o lançamento do trabalho do jornalista nas livrarias. Porém, o destino, na forma de uma inesperada chacina ocorrida em um cinema do Colorado, mudou os planos da Warner Bros, que acertadamente tirou da montagem final uma sequência semelhante ao massacre. Com o roteiro reescrito, cenas adicionais filmadas e quatro meses o separando da data original de lançamento, o filme de Ruben Fleischer finalmente ganhou as telas em janeiro de 2013. Porém, mesmo com um elenco recheada de grandes nomes - Sean Penn, Josh Brolin, Nick Nolte, Ryan Gosling e Emma Stone - a produção de 60 milhões de dólares só saiu do vermelho graças ao mercado internacional. Não pode-se dizer que tenha sido um resultado injusto.

A princípio, "Caça aos gângsteres" lembra bastante o sensacional "Los Angeles, cidade proibida", baseado em romance de James Ellroy e lançado em 1997. A trama central - uma equipe secreta de policiais incorruptíveis dedicada a promover a queda de um poderoso senhor do crime - lembra também o inesquecível "Os intocáveis", estrelado por Kevin Costner em 1987. O problema maior é que o cineasta Ruben Fleischer - cujo maior crédito até então era a comédia "Zumbilândia" - não tem o mesmo talento que Curtis Hanson e Brian DePalma, diretores dos filmes citados. Mesmo que apresente algumas ideias visuais interessantes, falta a ele a segurança para conduzir uma narrativa que tenha a capacidade de empolgar um público cada vez mais acostumado com cenas de ação impecáveis sem deixar de dar atenção ao desenho dos personagens. Em parte por culpa de um roteiro que não parece se preocupar em aprofundar as relações humanas - e quando faz isso escorrega aflitivamente pelos mais deslavados clichês - e em parte devido à falta de experiência de seu diretor, o filme acaba sendo apenas um pastiche do gênero. Até diverte em alguns momentos, mas no geral é quase chato.

A história começa em 1949, quando Mickey Cohen (Sean Penn prejudicado por uma maquiagem tenebrosa), um ex-boxeador judeu tornado gângster, resolve expandir seus negócios ilícitos, tomando Los Angeles e ambicionando chegar à Chicago. Violento e amoral, ele tem nas mãos policiais, juízes e quem mais aceitar seu dinheiro sujo. Decidido a dar fim a seu reinado, o Chefe de Polícia Parker (Nick Nolte) resolve montar um time de oficiais acima de qualquer suspeita para que, por baixo dos panos e sem o apoio oficial do departamento, destruam sistematicamente seus esquemas criminosos. Escolhido como líder do grupo, o Sargento John O'Mara (Josh Brolin), um veterano da II Guerra, conta com a ajuda da esposa grávida, Connie (Mireille Enos), para definir os demais integrantes do esquadrão. São chamados, então, o quase cínico Sargento Jerry Wooters (Ryan Gosling), o policial Coleman Harris (Anthony Mackie), o experiente atirador Max Kennard (Robert Patrick), seu protegido Navidad Ramirez (Michael Peña) e, como cérebro do time, o calado pai de família Conwell Keeler (Giovanni Ribisi).

O roteiro de Will Beall é tão previsível que é possível adivinhar cada cena a quilômetros de distância, o que prejudica de forma irreparável o suspense tão necessário a um filme policial. Por exemplo, a relação entre Wooters e a bela Grace Faraday (Emma Stone) - que tem um caso também com Cohen - parece existir mais para satisfazer a necessidade de acrescentar algumas cenas românticas à história do que para empurrar a narrativa pra frente. E nem é preciso ser consumidor compulsivo do gênero para adiantar o destino de cada um dos personagens, felizmente interpretados por atores tão bons que deixam a experiência menos penosa. Sean Penn e Josh Brolin - repetindo a inimizade de "Milk, a voz da igualdade" dessa vez em lados opostos do bem e do mal - estão visivelmente se esforçando em dar consistência a um texto pouco favorável. Ryan Gosling e Emma Stone - que já fizeram par romântico no delicioso "Amor à toda prova" - repetem a boa química, mesmo com pouco material em mãos. E Nick Nolte pouco tem a fazer com suas cenas, sendo subaproveitado, assim como à Mireille Enos (da série "The killing") cabe o ingrato papel de esposa do herói.

"Caça aos gângsteres" não é um filme ruim. Tem muita gente boa envolvida para ser uma perda de tempo total. Mas peca muito em não imprimir personalidade em sua narrativa, tem um roteiro preguiçoso e prefere o caminho do banal ao contar uma história que, por ser tão parecida com tantas outras, merecia uma ousadia maior. Para os fãs do gênero é imperdível. Mas está longe de ser tão bom quanto poderia.

domingo

O QUARTETO

O QUARTETO (Quartet, 2012, Headline Pictures/BBC Films, 98min) Direção: Dustin Hoffman. Roteiro: Ronald Harwood, peça teatral de sua autoria. Fotografia: John de Borman. Montagem: Barney Pilling. Música: Dario Marianelli. Figurino: Odile Dicks-Mireaux. Direção de arte/cenários: Andrew McAlpine/Sarah Wittle. Produção executiva: Christoph Daniel, Jamie Laurenson, Xavier Marchand, Marc Schmidheiny, Thorsten Schumacher, Dickon Stainer, Dario Suter. Produção: Finola Dwyer, Stewart Mackinnon. Elenco: Maggie Smith, Tom Courtenay, Pauline Collins, Michael Gambon, Billy Connolly, Gwyneth Jones, Sheridan Smith. Estreia: 09/9/12 (Festival de Toronto)

Um dos maiores atores de sua geração, Dustin Hoffman tem seu nome nos créditos de alguns dos filmes fundamentais da história do cinema, como "A primeira noite de um homem", "Sob o domínio do medo", "Todos os homens do presidente", "Tootsie" e dezenas de outros - isso sem contar nas duas produções que lhe deram o Oscar, "Kramer X Kramer" e "Rain Man". Com isso em vista, é difícil acreditar que somente em 2012 ele tenha finalmente utilizado toda a experiência adquirida em décadas de carreira para fazer sua estreia na direção. Porém, quando se assiste a seu primeiro filme, "O quarteto", é impossível não pensar que essa demora foi providencial. Dotado de uma maturidade profissional que o impede de cometer excessos ou cair na armadilha do egocentrismo, Hoffman entrega à plateia uma deliciosa ode à arte, à experiência e à amizade, embalada por uma trilha sonora à base de clássicos absolutos e estrelada por um elenco de veteranos visivelmente à vontade em seus papéis.

O roteiro de Ronald Harwood - premiado com o Oscar por "O pianista" - é baseado em uma peça teatral de sua própria autoria e, nas sensíveis mãos de Hoffman, vira uma declarada homenagem a todos os artistas que, mesmo longe dos palcos, ainda tem a música e o dom no coração e na alma. Assim são os moradores da Beecham House, uma casa de repouso para artistas aposentados que, como sempre acontece com lugares assim, sofre com a constante falta de patrocínio para manter-se. Para arrecadar um dinheiro que pode aliviar as finanças por um bom tempo, os moradores costumam realizar um concerto anual - no dia do aniversário de Giuseppe Verdi - e assim conquistar a simpatia e a atenção do público em geral. A paz e a tranquilidade comuns à rotina da casa são perturbados, no entanto, com a chegada de Jean Horton (Maggie Smith, fantástica mais uma vez), uma festejada cantora lírica afastada dos holofotes há décadas para manter a aura de diva. Sua entrada em cena entusiasma seus antigos colegas, que resolvem convidá-la para juntar-se a eles em uma apresentação de "Rigoletto". A recusa de Jean em tomar parte da programação, porém, não diz respeito somente a seu medo de fracassar em público, e sim a seu reencontro com Reggie (Tom Courtenay), com quem foi brevemente casada no passado e por quem ainda nutre fortes sentimentos.


Contando sua história de forma serena - com a ajuda da trilha sonora da melhor qualidade - Dustin Hoffman faz uso exemplar dos diálogos ora sardônicos ora sensíveis do roteiro de Harwood, deixando que cada ator os transforme em pequenas pérolas. Pauline Collins quase rouba a cena como a doce Cissy Robson - uma artista delicada e à beira da demência - e Billy Connolly tira proveito da personalidade dionisíaca de seu Wilf Bond para deitar e rolar com tiradas engraçadíssimas a respeito do ato de envelhecer e perder toda a libido da juventude. Tom Courtenay é o mais contido do quarteto, principalmente porque seu Reggie serve como o contraponto sensato do grupo, e suas cenas com Maggie Smith (indicada ao Golden Globe por seu desempenho) banham de humanidade e sensibilidade uma trama que tem nesses elementos sua principal qualidade. Sem apelar para piadas vulgares ou dramas forçados, o filme de Hoffman conquista principalmente pelo otimismo.

Assim como "O exótico Hotel Marigold" jogava luz sobre personagens cujo perfil etário é o oposto do que reina em Hollywood, "O quarteto" tem orgulho do histórico de seus atores e personagens. Hoffman faz questão de homenagear, nos créditos finais, todos os artistas aposentados que fazem parte do elenco de apoio de seu filme, como uma forma de enfatizar ainda mais sua admiração por sua obra. Falando de velhice, nostalgia e arte sem recorrer à melancolia, Dustin Hoffman faz de sua estreia na cadeira de diretor uma ensolarada e carinhosa cortesia à experiência e ao talento. "O quarteto" é uma delícia de se assistir e revela que o "pequeno grande homem" parece ser tão bom atrás das telas quanto diante delas. Bravo!

sábado

A ESCOLHA PERFEITA

A ESCOLHA PERFEITA (Pitch perfect, 2012, Brownston Pictures/Gold Circle Films, 112min) Direção: Jason Moore. Roteiro: Kay Cannon, romance de Mickey Rapkin. Fotografia: Julio Macat. Montagem: Lisa Zeno Churgin. Música: Christophe Beck, Mark Kilian. Figurino: Salvador Perez. Direção de arte/cenários: Barry Robison/David Hack. Produção executiva: Scott Niemeyer. Produção: Elizabeth Banks, Paul Brooks, Max Handelman. Elenco: Anna Kendrick, Skylar Astin, Elizabeth Banks, Ben Platt, Brittany Snow, Anna Camp, Rebel Wilson, Alexis Knapp, Ester Dean, Adam Devine, John Michael Higgins. Estreia: 28/9/12

Sabe aquela tarde chuvosa em que só dá vontade de assistir a um filme bem boboca pra relaxar e ficar de bem com a vida? Pois é justamente para dias assim que foi feito "A escolha perfeita", uma deliciosa comédia musical que, quase do nada, tornou-se um grande sucesso de bilheteria nos EUA, arrecadando mais de 60 milhões de dólares contra um orçamento relativamente baixo de apenas 17 milhões - e dando origem a uma sequência, lançada em 2015. Lembrando em vários momentos a bem-sucedida série de TV "Glee", o filme do estreante Jason Moore - que comandou episódios de "Dawson's Creek" e "Brothers and sisters", entre outros seriados - é engraçado, leve e não tem medo de abraçar velhos clichês do gênero "filme de faculdade", transformando-os em trunfos ao invés de deixá-los se tornarem problemas.

Escrito por Kay Cannon, roteirista de "30 rock" - o que já dá uma pequena ideia do tipo de humor do filme - e baseado em um livro do jornalista Mickey Rapkin (que acompanhou uma disputa semelhante a que acontece na trama), "A escolha perfeita" une uma trilha sonora antenada e alto-astral a um elenco afiado e diálogos ácidos, que o distingue tanto de seu irmão televisivo quanto da maioria das produções musicais que vem chegando às telas com frequência desde que "Moulin Rouge" revitalizou o gênero, em 2001. Mas que não se espere um musical tradicional, daqueles em que as personagens começam a cantar do nada. Em "A escolha perfeita" a música é mais uma protagonista do que um acompanhamento - o que deixa tudo ainda mais divertido.


Quem lidera o elenco é a ótima Anna Kendrick - que equilibra no currículo a sofrível saga "Crepúsculo" e uma merecida indicação ao Oscar de coadjuvante por "Amor sem escalas". Ela vive Beca, uma aspirante a DJ que entra na universidade com o objetivo único de agradar ao pai, professor de Literatura Comparada. Assim que chega - e arruma um trabalho como assistente da rádio local - ela acaba indo parar em um grupo de alunas que tem por missão vencer o concurso nacional de música a capella depois de um vexame no ano anterior. Ao lado das patricinhas Chloe (Brittany Snow) e Aubrey (Anna Camp) e de várias outras colegas menos favorecidas fisicamente - como a divertida Fat Amy (Rebel Wilson), Beca tenta transformar o repertório rígido do grupo em algo mais empolgante e acaba se envolvendo com Jesse (Skylar Astin), que faz parte do grupo rival - o que é terminantemente proibido pelas regras impostas por suas líderes.

Mesmo que nem ao menos tente aprofundar suas personagens - em especial as coadjuvantes, que tem como função quase única divertir o espectador com diálogos inteligentes e sarcásticos que não poupam o universo popular jovem contemporâneo- o roteiro de Cannon tem a seu favor o perfeito equilíbrio entre música e humor, entre o moderno e o nostálgico (representado pela bela homenagem ao já clássico "Clube dos cinco", de John Hughes). Funciona em todos os níveis a que se propõe, entretendo sem exigir mais de seu público do que o desejo de duas horas de diversão. Perfeito para uma tarde tediosa ou para escapar do calor em uma sala com ar-condicionado.

sexta-feira

TERAPIA DO SEXO

TERAPIA DO SEXO (Thanks for sharing, 2012, Class 5 Films/Olympus Pictures, 112min) Direção: Stuart Blumberg. Roteiro: Stuart Blumberg, Matt Winston. Fotografia: Yaron Orbach. Montagem: Anne McCabe. Música: Christopher Lennertz. Figurino: Peggy Schnitzer. Direção de arte/cenários: Beth Mickle/Lisa K. Nilsson. Produção executiva: Edward Norton. Produção: Miranda de Pencier, David Koplan, William Migliore, Leslie Urdang, Dean Vanech. Elenco: Mark Ruffalo, Gwyneth Paltrow, Tim Robbins, Josh Gad, Joely Richardson, Alecia Moore (Pink), Patrick Fugit, Carol Kane, Emily Meade. Estreia: 08/9/12 (Festival de Toronto)

Uma pista para se descobrir o que se pode esperar da comédia dramática "Terapia do sexo" é o nome de seu diretor e corroteirista Stuart Blumberg. Indicado ao Oscar de roteiro original por "Minhas mães e meu pai" - que escreveu com a diretora do filme, Lisa Cholodenko - Blumberg parece ter com seus personagens um carinho e um respeito que torna quase impossível à plateia ser-lhes indiferente. Ao construir sua trama em torno de três viciados em sexo em estágios diferentes do problema, ele não apenas fala de um assunto ainda pouco explorado no cinema como humaniza os protagonistas, aproximando cada um deles, com seus erros e acertos, de qualquer espectador. Esse cuidado é que faz toda a diferença: seu filme de estreia pode não ser uma obra-prima, mas é agradável, despretensioso e, o que não é nada desprezível, conta com um elenco acima de qualquer suspeita.

Mark Ruffalo - que concorreu ao Oscar de coadjuvante por "Minhas mães e meu pai" - é, de certa forma, o centro da história. Ele interpreta Adam, um viciado em sexo que comemora o quinto aniversário de sobriedade mantendo absoluto controle sobre as tentações que o cercam (não assiste televisão, não tem acesso à Internet e ainda frequenta as reuniões de seu grupo de apoio). Seu padrinho é Mike (Tim Robbins), que superou os vícios em sexo e álcool mas não consegue manter uma relação saudável com o filho Danny (Patrick Fugit), que se afastou da família por causa das drogas e retorna afirmando estar limpo há oito meses. Ao contrário dos dois, porém, o jovem Neil (Josh Gad) ainda está nos primeiros passos do tratamento: médico que tem sua carreira prejudicada por seu vício, ele tem dificuldades de abandonar sua rotina de masturbação compulsiva e assédios no metrô. Seguindo esses três personagens, a trama acompanha também suas vitórias e derrotas pessoais, sem esquecer de outras personagens que lhes servem de apoio.


Sentindo-se confiante em recomeçar sua vida, Adam conhece e se apaixona por Phoebe (Gwyneth Paltrow), sobrevivente de um câncer de mama que dedica seus dias à alimentação saudável e aos treinos para um triatlo. Mike conta com a compreensão incondicional de Katie (Joely Richardson), a esposa que o perdoou pelos erros do passado e tenta lidar com sua dificuldade de expressar afeto pelo único filho. E Neil encontra em outra paciente do grupo de apoio, Dede (a cantora Pink, creditada como Alecia Moore), uma relação calcada na amizade e no companheirismo que ajuda a ambos a superar seus problemas e descobrir uma nova forma de viver com eles. Todas essas relações - familiares, amorosas, de amizade - mostram que é a ajuda dos outros que faz de cada um uma pessoa melhor. E é esse otimismo outro ponto positivo de "Terapia do sexo".

Optando por fugir da densidade psicológica de "Shame" - dirigido por Steve McQueen, estrelado por Michael Fassbender e que também tinha o vício em sexo como tema central - Stuart Blumberg tempera seu filme com pitadas de humor (em especial na relação entre Josh Gad e Pink), referências à cultura popular contemporânea e um visual claro e ensolarado que contrasta com o peso que o drama de seus personagens exige. O elenco acerta o tom proposto pelo diretor - nem um dramalhão sofrido nem uma comédia rasgada - e tira de letra todas as nuances dos protagonistas, que, como afirmado anteriormente, soam como pessoas reais, com todas as idiossincrasias a que tem direito. Não é um grande filme - nem tem pretensões quanto a isso - mas é um entretenimento honesto e bem realizado, que demonstra o talento de Blumberg em contar histórias sobre gente como a gente. Que venham as próximas!

quinta-feira

ALÉM DA FRONTEIRA

ALÉM DA FRONTEIRA (Out in the dark, 2012, Channel 10/Israel Film Fund, 96min) Direção: Michael Mayer. Roteiro: Michael Mayer, Yael Shafrir. Fotografia: Ran Aviad. Montagem: Maria Gonzales. Música: Mark Holden, Michael Lopez. Figurino: Hamada Atallah. Direção de arte: Sharon Eagle. Produção: Michael Mayer, Lihu Roter. Elenco: Nicholas Jacob, Michael Aloni, Jameel Khoury, Alon Pdut. Estreia: 07/9/12 (Festival de Toronto)

Houve um tempo em que o cinema de temática homossexual preocupava-se unicamente em levantar sua bandeira, como um ato de repúdio a um preconceito que existia até mesmo dentro da própria indústria do entretenimento. Com a relativa liberdade adquirida com os ares do século XXI, o risco que muitos atores corriam ao interpretar personagens gays foi-se transformando em uma forma de chamar a atenção para um nicho de mercado que gritava por atenção - e também como atalho para certa cobiçada estatueta dourada. Mas não apenas Hollywood descobriu que histórias sobre "o amor que não ousa dizer seu nome" de que falava Oscar Wilde são um campo rico de possibilidades. Filmes das mais variadas nacionalidades começaram a chegar às telas, retratando diversas realidades ligadas ao assunto, ainda que nem sempre de forma satisfatória. Um exemplo feliz, mesmo que pouco festejado junto à crítica e ao público é "Além da fronteira", uma produção israelense que acrescenta um explosivo ingrediente ao tema: a violenta rivalidade entre judeus e palestinos.

Nimr Mashrawi (Nicholas Jacob) é um jovem palestino que estuda Psicologia em Israel, graças a um Passe Estudantil que permite seu trânsito entre os dois países. Roy Schaefer (Michael Aloni) é um advogado tentando estabelecer sua carreira com a ajuda do pai, um respeitável e influente profissional. Os dois rapazes de apaixonam perdidamente apesar das diferenças culturais que contrapõem seus países de origem e do fato de Nimr esconder sua sexualidade da família - o irmão mais velho, a mãe viúva e a irmã em idade de arranjar um marido de acordo com os preceitos da religião. O relacionamento relativamente tranquilo entre os dois - que nem mesmo o preconceito velado dos aparentemente informados pais de Roy - sofre um abalo quando o passe de Nimr é repentinamente cancelado pelo Serviço Secreto Israelense, que ameaça desmascará-lo diante de sua família se ele não servir de informante em relação a atos terroristas em Tel Aviv. Separados, eles tentam encontrar uma solução para seu dilema, mas o que Roy nem desconfia é que Nimr está na verdade protegendo seu irmão, Nabil (Jameel Khoury), que esconde armas em sua casa. Tal segredo - e suas consequências - irá por em xeque o amor entre os dois.

Mesmo que não se aprofunde a contento em questões que poderiam elevar seu filme a um nível menos romântico e mais politicamente relevante, o cineasta Michael Mayer, também coautor do roteiro, consegue um feito e tanto. Sem apelar para cenas de sexo além das estritamente necessárias, ele estabelece o tom correto da relação entre seus protagonistas, centrada na admiração mútua e no carinho. É uma história de amor madura e honesta, com personagens que fogem do estereótipo gay festivo mas que também não tentam forjar uma virilidade ostensiva que escancaria um preconceito ao contrário. Na vida diária, Nimr e Roy são homens comuns, com suas vidas e desejos profissionais bem definidos e, principalmente no caso de Roy, bem resolvidos quanto à sua sexualidade. Juntos, se completam e rejeitam todas as forças que os podem separar. O roteiro faz questão de não criar entre eles nenhum tipo de conflito excessivo, como prova da confiança na potência do principal problema que eles irão enfrentar no ato final da trama, que joga a plateia em meio a uma sequência de acontecimentos que conduzem a um final corajosamente inesperado.

Fugindo à tentação de criar uma história de amor gay fofinha ou arrebatadoramente sexy, Mayer merece crédito também por discutir, ainda que superficialmente, um assunto ainda não devidamente explorado pelo cinema: a violência contra gays palestinos, vítimas frequentes de assassinatos pelas próprias famílias ou discriminados a ponto de expulsão do país. O roteiro apenas pincela de leve tais questões, preferindo focar-se na ameaça específica em relação ao casal central, mas já faz refletir e causa uma indignação que deve fazer aparecer, em breve, alguma história ainda mais contundente. "Além da fronteira" peca por não aprofundar seus personagens - a relação entre Nimr e a família poderia render muito mais, assim como o preconceito velado dos pais de Roy em relação à origem de Nimr - mas em momento algum os desrespeita ou os trata com condescendência. É honesto, é direto e é forte o bastante para envolver o espectador. É o que se espera de bom cinema, independente de suas ideias ou bandeiras.

quarta-feira

ELEFANTE BRANCO

ELEFANTE BRANCO (Elefante blanco, 2012, Borsalino Productions/Canal + España, 105min) Direção: Pablo Trapero. Roteiro: Alejandro Fadel, Martín Mauregui, Santiago Mitre, Pablo Trapero. Fotografia: Guillermo Nieto. Montagem: Andrés P. Estrada, Nacho Ruiz Capillas, Pablo Trapero. Música: Michael Nyman. Figurino: Marisa Urruti. Direção de arte/cenários: Juan Pedro de Gaspar/Antonella Pasini. Produção executiva: Alejandro Cacetta, Pablo Trapero. Produção: Alejandro Cacetta, Juan Pablo Galli, Juan Gordon, Pablo Trapero, Juan Vera. Elenco: Ricardo Darín, Jérémie Renier, Martina Gusman. Estreia: 17/5/12

Uma favela habitada por cerca de 30 mil pessoas é convulsionada pela violência decorrente da luta pelo poder entre traficantes de droga e conta com a ajuda de dois bem-intencionados padres para manter a paz e a dignidade mesmo quando a burocracia do governo impede ações que podem transformar sua triste realidade. Parece sinopse de um filme nacional, mas não é. "Elefante branco" é a prova inconteste de que a realidade argentina não difere muito dos problemas sociais brasileiros. Dirigido por Pablo Trapero, um cineasta antenado com um cinema de viés social, o filme estrelado por Ricardo Darín e o belga Jérémie Renier - o ator preferido dos irmãos Dardenne - também mostra a riqueza temática da cinematografia do país, em franca ascensão desde o início dos anos 2000.

Apesar de uma certa lentidão em estabelecer sua história e seus personagens - o roteiro leva uns bons quinze minutos antes de entrar pra valer no assunto - Trapero tem a seu favor o carisma de seus atores e a urgência do tema, que não demora a envolver o espectador assim que põe suas cartas na mesa. Padre Julián (Ricardo Darín) é um dedicado pároco que mora no prédio da obra inacabada de um hospital (o Elefante Branco do título) localizado dentro de uma favela. Incansável em sua luta para evitar que as crianças abracem o tráfico de drogas e servindo como intermediário entre o arcebispado e o governo na problemática construção de uma série de casas populares, ele conta com a ajuda da assistente social Luciana (Martina Gusman), que, a despeito de seu ateísmo, colabora de forma ativa com o objetivo coletivo. Preocupado em encontrar alguém que dê continuidade a seu trabalho, ele reencontra um antigo pupilo, o belga Nicolás (Jérémie Renier), que chega ao país depois de uma traumática experiência no Amazonas. Se acostumando aos poucos com a dura realidade argentina, Nicolás ainda precisa lidar com um problema pessoal tão grave quanto: a atração imprópria que sente por Luciana.


Recheando seu filme com longos planos-sequência que empurram o espectador para dentro da ação sem piedade, Trapero - que assinou o contundente "Abutres", também com Darín como protagonista - divide sua narrativa entre cenas de crueza visual extremamente apropriada e momentos de delicada calma. Enquanto acompanha Julián e Nicolás pelo labirinto de ruas e becos da favela - um cenário impressionante tratado como mais um personagem da trama - a câmera do cineasta esquadrinha também suas personalidades distintas e suas aflições: enquanto Julián acredita no diálogo e evita confrontos diretos com os violentos donos do poder do local, Nicolás prefere agir com base no imediatismo e na coragem de olhar nos olhos do monstro. Seus embates ideológicos, embora tratados sem aquela ênfase que colocaria o filme no terreno perigoso do panfletarismo estéril, são interessantes e bem defendidos por seus atores, e até mesmo a aproximação romântica entre Nicolás e Luciana não soa um artifício forçado. Infelizmente, apesar de todas as suas qualidades, falta ao filme um algo mais que poderia transformar-lhe em uma pequena obra-prima.

Por não aprofundar-se em algumas subtramas que poderiam enriquecer ainda mais o painel sócio-político que deseja retratar, Trapero deixa de lado algumas possibilidades bastante interessantes, como a discussão a respeito dos possíveis milagres do Padre Mugica - personagem real, morto em 1974 e a quem o filme é dedicado e que é citado em alguns momentos - e a doença que incentiva Julián a buscar a ajuda de Nicolás. Esses dois pequenos caminhos que o roteiro apenas esboça mas deixa de percorrer de forma satisfatória deixa no ar a sensação de algo incompleto, e é impossível não perceber como isso afeta o resultado final. Ainda assim, "Elefante branco" cumpre muito de suas promessas e é um filme de relevância social indiscutível. Mais um belo exemplar do cinema argentino.

terça-feira

A BELA QUE DORME

A BELA QUE DORME (Bella addormentata, 2012, Rai Cinema, 115min) Direção: Marco Bellocchio. Roteiro: Marco Bellocchio, Veronica Raimo, Stefano Rulli, estória de Marco Bellocchio.  Fotografia: Daniele Ciprì. Montagem: Francesca Calvelli. Música: Carlo Crivelli. Figurino: Sergio Ballo. Direção de arte/cenários: Marco Dentici/Laura Casalini. Produção executiva: Franco Bevione, Fabio Massimo Cacciatori. Produção: Marco Chimenz, Giovanni Stabilini, Riccardo Tozzi. Elenco: Toni Servillo, Isabelle Huppert, Alba Rohrwacher, Michele Riondino, Maya Sansa, Brenno Placido, Pier Giorgio Bellocchio. Estreia: 05/9/12 (Festival de Veneza)
 
Um dos cineastas europeus mais polêmicos do final dos anos 80 - seu "Diabo no corpo" provocou furor internacional graças à famigerada cena de sexo explícito em um tribunal de júri - o italiano Marco Bellocchio foi amansando com o tempo, deixando de lado a provocação gratuita para concentrar-se em filmes que chamassem mais a atenção por suas qualidades dramáticas do que por escândalos desnecessários. Um dos destaques dessa nova fase foi o elogiado "Vincere" (2009), que conta a história de uma amante secreta de Mussolini e do filho que tiveram juntos. Porém, mesmo longe do estilo provocador de outrora, Bellocchio não deixa de lado totalmente sua necessidade de suscitar controvérsia, como prova "A bela que dorme", lançado no Festival de Veneza de 2012, de onde saiu com um prêmio especial de direção - e que também conquistou os jurados do Festival Internacional de Cinema de São Paulo. Partindo da história real da jovem Eluana Englaro, que dividiu seu país em 2009 com uma violenta discussão sobre eutanásia, o diretor construiu um painel de pequenas tramas paralelas que se desenvolvem a seu redor. O resultado nem sempre funciona, mas permite questionamentos interessantes.

Em 2009, Eluana Englaro tornou-se manchete de todos os jornais da Itália: em coma vegetativo há 17 anos, ela transformou-se em ícone de duas vertentes opostas de opinião quando sua família optou por desligar seus aparelhos. De um lado, ativistas pelos direitos da vida clamavam pela continuidade do tratamento que a mantinham viva; do outro, humanistas exigindo que ela pudesse finalmente descansar em paz, com uma morte digna e tranquila. No meio disso tudo, até senadores e o presidente Silvio Berlusconi se viram obrigados a tomar partido, através de uma votação que convulsionou a sociedade do país. Utilizando o drama de Eluana como pano de fundo, Bellocchio narra, então, quatro estórias ligadas tenuamente a ele. A primeira diz respeito às dúvidas do Senador Uliano Beffardi (Toni Servillo) em relação à questão: ainda traumatizado com a morte da esposa em situação semelhante, ele considera ir contra a decisão de seu partido e apoiar a família da jovem. Sua única filha, Maria (Alba Rohrwacher), não acredita em suas intenções e se envolve romanticamente com Roberto (Michele Riondino), cujo irmão violento e desequilibrado tem convicções opostas às dela.


Enquanto isso, a atriz Divina Madre (Isabelle Huppert) vive um drama pessoal bastante parecido com o de Eluana: sua filha Rosa também vive em estado vegetativo há anos, o que fez com que ela abandonasse uma consagrada carreira para dedicar-se a novenas e cuidados médicos. Sua escolha é a causa dos conflitos com o filho, Federico (Brenno Placido), que estuda para ser ator como os pais mas não compreende a devoção cega da mãe a uma situação irremediável. Por fim, o jovem médico Pallido (Pier Georgio Bellocchio) tenta impedir que a desiludida Rossa (Maya Sansa) cometa suicídio, mesmo que para isso tenha que ficar em constante vigília em seu quarto - o que acaba gerando uma candente discussão sobre esperança e a gratuidade da vida nos mesmos corredores onde Eluana espera a decisão judicial sobre seu destino.

O roteiro de "A bela que dorme" não procura a emoção que o tema pode sugerir. Ao contrário, muitas vezes soa bastante frio e cerebral em excesso. Quando se desvia de tal frieza consegue conquistar a plateia - em especial graças à atuação precisa de Toni Servillo - mas na maior parte do tempo passa apenas a impressão de estar sempre preparando um clímax que jamais acontece. Nem mesmo Isabelle Huppert, uma das maiores atrizes de sua geração, tem grandes chances de brilhar, presa a uma personagem que nunca se revela por inteiro - quando ela, dormindo, recita inconscientemente um trecho de "Macbeth", a potência de Huppert surge, mas desaparece em poucos minutos, em uma história cuja conclusão fica à cargo de um público que nunca teve a real oportunidade de encantar-se por ela. É um problema e tanto, que enfraquece muito um filme cuja potencialidade infelizmente não é atingida totalmente. Uma pena, já que o tema poderia render uma obra inesquecível.

segunda-feira

FRANCES HA

FRANCES HA (Frances Ha, 2012, RT Features/Pine Discrict Pictures, 86min) Direção: Noah Baumbach. Roteiro: Noah Baumbach, Greta Gerwig. Fotografia: Sam Levy. Montagem: Jennifer Lame. Direção de arte: Sam Lisenco. Produção executiva: Fernando Loureiro, Lourenço Sant'anna. Produção: Noah Baumbach, Scott Rudin, Rodrigo Teixeira, Lila Yacoub. Elenco: Greta Gerwig, Mickey Sumner, Michael Esper, Adam Driver, Grace Gummer. Estreia: 01/9/12 (Festival de Telluride)

Woody Allen encontra a Nouvelle Vague. O que parece no mínimo improvável é o que acontece em "Frances Ha", do cineasta independente Noah Baumbach, conhecido pelos dramas familiares "A lula e a baleia" e "A família Savage". Dessa vez com uma abordagem menos densa - mas nem por isso menos melancólica sob sua superfície descolada - Baumbach usa vários elementos do movimento do cinema francês dos anos 60 para contar a história de uma jovem comum buscando seu lugar no mundo - uma das principais diretrizes das obras de cineastas como Truffaut e Godard, que viravam suas câmeras para anti-heróis que tinham como principal qualidade a normalidade. Frances, a protagonista interpretada pela corroteirista Greta Gerwig, é simples em suas atitudes, mas conquista a simpatia do espectador justamente por isso.

Trabalhando em uma companhia de dança - na qual pretende se estabelecer como professora, apesar de não ter talentos especiais para isso - e dividindo um apartamento com a melhor amiga, Sophie (Mickey Sumner), com quem mantém uma relação de adoração e plena confiança, Frances não é espetacularmente dotada, não é linda, luta com suas finanças e é quase frustrada profissionalmente. Depois de terminar um namoro não particularmente caloroso por não querer abandonar Sophie, ela vê sua rotina alterada quando é a amiga que lhe deixa sozinha, preferindo morar em outro bairro. Enquanto pula de casa em casa tentando encontrar um lugar para encaixar-se, ela busca também encontrar-se como pessoa, nunca perdendo, porém, seu jeito próprio e leve de encarar os problemas.


Fotografado em um preto-e-branco que tanto cria a nostalgia buscada pelo diretor como remete mais uma vez à nouvelle vague, "Frances Ha" tem na simplicidade uma de suas maiores qualidades. O roteiro é direto, fácil e objetivo, com um senso de humor inteligente e sutil, mesmo quando entra no terreno complexo dos relacionamentos interpessoais - daí a comparação ao cinema de Woody Allen. Frances é engraçada, desajeitada e romântica em sua busca quixotesca por uma felicidade que nem ela mesma sabe onde está, o que facilita muito a empatia do público. Interpretada por uma promissora Greta Gerwig - que usa em sua personagem muito de sua própria personalidade, como a cidade natal - é uma personagem encantadora como há muito o cinema americano não apresentava e a indicação de Gerwig ao Golden Globe de melhor atriz em comédia/musical foi apenas o primeiro passo em direção a uma carreira que tem tudo para ser bem-sucedida em um futuro próximo.

No final das contas é impossível não se deixar seduzir pela beleza singela e delicada de "Frances Ha", uma pequena - menos de 90 minutos - mas intensa pérola que é o melhor filme de Baumbach justamente por não ter grandes pretensões. Forjando como sempre uma história sobre gente como a gente, o cineasta faz um gol de placa com um filme simples como a vida deveria ser. E tem como não simpatizar com um filme que se utiliza de "Modern love", o hino de David Bowie, como parte fundamental da narrativa?

domingo

MAGIC MIKE

MAGIC MIKE (Magic Mike, 2012, Iron Horse Entertainment, 110min) Direção: Steven Soderbergh. Roteiro: Reid Carolin. Fotografia: Peter Andrews (Steven Soderbergh). Montagem: Mary Ann Bernard (Steven Soderbergh). Figurino: Christopher Peterson. Direção de arte/cenários: Howard Cummings/Barbara Munch Cameron. Produção: Reid Carolin, Gregory Jacobs, Channing Tatum, Nick Wechsler. Elenco: Matthew McConaughey, Channing Tatum, Olivia Munn, Alex Pettyfer, Matt Bomer, Adam Rodriguez. Estreia: 24/6/12

Quando surgiu, no final da década de 90, Steven Soderbergh chamou a atenção por ter feito seu "sexo, mentiras e videotape" com uma ideia na cabeça, uma câmera na mão, um roteiro forte e inteligente e alguns trocados. Aos poucos foi se tornando mainstream - com filmes bem-sucedidos comercialmente como a trilogia "Onze homens e um segredo" e um Oscar por "Traffic" - e volta e meia desafia seus fãs a encontrarem alguma qualidade em filmes fraquíssimos como "Full frontal" ou apenas corretos, como "Contágio". Mas justamente em um de seus trabalhos mais populares, até mesmo os mais entusiastas membros de seu fã-clube não conseguiram encontrar muito o que elogiar.  A despeito de sua bilheteria generosa nos EUA - mais de 100 milhões de dólares de arrecadação, o que mais do que justificou em termos financeiros uma continuação tão fraca quanto - "Magic Mike" chega a ser quase constrangedor.

Segundo a lenda de bastidores, a ideia do filme surgiu do fato do ator Channing Tatum - que também tem crédito de produtor - ter sido um dançarino de strip-tease antes de tornar-se famoso. Suas histórias a respeito dessa fase de sua vida deram origem, então, a uma sinopse que, a despeito da falta de originalidade, poderia ao menos render um entretenimento razoável. Falta, no entanto, um roteiro que consiga dar um pouco mais de substância a uma sucessão de cenas de um bando de homens sarados dançando seminus em cima de um palco (ainda que provavelmente esse seja o motivo pelo qual o público acorreu aos cinemas). Carregado dos clichês mais batidos da história do cinema e contando com um elenco que nem mesmo Soderbergh consegue fazer soar convincente - e isso que ele arrancou até de Jennifer Lopez uma atuação decente, no ótimo "Irresistível paixão", de 1998 -  o filme é um desfile de erros em um belo embrulho (mas que mesmo assim é capaz de agradar somente a um público feminino ou gay).


A história - se é que se pode chamar assim - é centrada no jovem Adam (Alex Pettyfer), que, sem rumo profissional na vida, encontra um bico consertando telhados e conhece Mike (Channing Tatum, sem o timing cômico demonstrado em "Anjos da lei"), que junta dinheiro dançando em um clube de mulheres de propriedade de um ex-performer chamado Dallas (Matthew McConaughey), que ainda faz seus shows ocasionais. Aos poucos Mike vai ensinando Adam a melhorar suas apresentações, assim como apresenta a ele o glamour de um modo de vida calcado no prazer e na sensualidade. Enquanto Adam começa a aproveitar os bons momentos - e também a sofrer a pressão de Dallas, que o escolhe para trabalhos ilegais - Mike tenta conquistar o amor de sua irmã, Joanna (a péssima Olivia Munn). No meio disso tudo, coreografias pouco inspiradas e diálogos de fazer corar os roteiristas de "Malhação". Nem mesmo Matthew McConaughey - rumo ao Oscar por "Clube de Compras Dallas", que lhe daria respeitabilidade como ator - está particularmente bem, apesar de algumas críticas terem destacado sua interpretação.

Fosse um filme dirigido por um cineasta sem talento - ou alguém precisando pagar a hipoteca - "Magic Mike" seria apenas mais um lixo cinematográfico a aportar nas salas de exibição. O problema é tentar descobrir como um nome como Soderbergh pode entrar em uma barca tão furada. Nada no resultado final lembra a criatividade e a inteligência de seus melhores filmes. O roteiro fraco, a edição preguiçosa (que nem torna as cenas musicais tão atraentes quanto poderia) e o elenco no piloto automático só sublinham a incompetência da realização como um todo. Só vai agradar a quem for procurar unica e exclusivamente belos corpos masculinos em danças sensuais. E mesmo assim pode ser que decepcione, já que não há nada que não tenha sido mostrado antes. Sorte de Channing Tatum que, entre coisas assim, ele ainda consiga destacar-se como ator em filmes de maior prestígio, como "Foxcatcher, o crime que chocou o mundo", ou mais divertidos, como a continuação de "Anjos da lei". Apesar da bilheteria, "Magic Mike" é sofrível.

sábado

A CAÇA

A CAÇA (Jagten, 2012, Danmarks Radio/Eurimages/Det Danske Filminstitut, 115min) Direção: Thomas Vinterberg. Roteiro: Thomas Vinterberg, Tobias Lindholm. Fotografia: Charlotte Bruus Christensen. Montagem: Janusz Billeskov Jansen, Anne Osterud. Música: Nikolaj Egelund. Figurino: Manon Rasmussen. Direção de arte/cenários: Torben Stig Nielsen/Rasmus Balslev-Olesen. Produção executiva: Meredith King. Produção: Sisse Graum Jorgensen, Morten Kaufman, Thomas Vinterberg, Elenco: Mads Mikelsen, Thomas Bo Larsen, Annika Wedderkop, Lasse Fogelstrom, Susse Wold, Anne Louise Hassing, Lars Ranthe, Alexandra Rapaport. Estreia: 20/5/12 (Festival de Cannes)

Indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro
Vencedor da Palma de Ouro de Melhor Ator no Festival de Cannes (Mads Mikelsen) 

Fãs de um cinema mais denso, com ambições mais profundas do que simples entretenimento já conhecem Thomas Vinterberg. Dinamarquês nascido em 1969, ele foi um dos criadores do malfadado Dogma 95 - que, nos anos 90 tentou mudar a forma de se fazer cinema, com uma sucessão de regras que aboliam artifícios externos na narrativa, como trilha sonora e efeitos visuais. Fez enorme sucesso entre os intelectuais com "Festa de família", mas depois seu trabalho ficou restrito a festivais e mostras internacionais. Com "A caça", que deu a Mads Mikkelsen o prêmio de melhor ator no festival de Cannes de 2012, ele demonstra que seu êxito na polêmica obra de 1998 não foi mero golpe de sorte. Forte e angustiante, seu novo trabalho merece crédito por quebrar logo de cara o velho paradigma que diz que as crianças são sempre sinceras, mas seu desenvolvimento, seco e cruel, também é digno de aplausos, por tornar impossível ao espectador que ele fique incólume ao que passa diante de seus olhos.

A criança de "A caça" - uma menina de aparência angelical e modos delicados - não apenas mente como sua mentira destrói a vida de um homem inocente, a quem ela prejudica (talvez sem ter a plena consciência das possíveis consequências de seu ato, mas ainda assim de maneira irresponsável) quando o acusa de abuso sexual. Solitário e discreto, o professor Lucas (vivido por Mikkelsen, agora conhecido por sua interpretação como o psiquiatra canibal da série "Hannibal") tem sua vida abalada quando a menina, filha de um de seus melhores amigos e sua aluna, o denuncia para a diretora da escola. Transtornado pela acusação, Lucas imediatamente se vê privado da confiança dos colegas, sem trabalho e com a suspeita de tal ato pendendo inclemente sobre sua cabeça. Tratado com violência pelos conterrâneos e humilhado publicamente, a ele resta apenas o carinho do filho único - plenamente convicto da inocência do pai -  e sua consciência limpa.


A intenção de Vinterberg - também um dos atores do roteiro - não é esmiuçar as investigações a respeito da denúncia infantil, nem tampouco fornecer à plateia um estudo voyeurista da decadência de um homem comum que tem seu mundo chacoalhado por uma mentira contada por alguém aparentemente incapaz de faltar com a verdade. O que "A caça" apresenta é o desenho melancólico de um homem que tem tirado de si a dignidade, a confiança e o respeito. Para isso, conta com uma atuação fantástica de Mads Mikkelsen, que faz de seu Lucas a encarnação perfeita de alguém cuja perplexidade impede de tomar quaisquer atitudes. E é justamente essa quase apatia do protagonista que talvez seja o calcanhar de Aquiles da obra de Vinterberg: o público assiste, atônito, um cidadão ser acusado, achincalhado, humilhado e agredido por algo que não cometeu e permanecer quieto, quase como uma personagem bíblica, disposta a oferecer a outra face. Nem ao menos um advogado Lucas chama para defendê-lo, o que soa no mínimo incoerente. Esse sofrimento - que rivaliza com os calvários das personagens femininas de Lars Von Trier, colega de Vinterberg no Dogma 95 - encontra eco no roteiro coeso e que evita apontar dedos e julgar qualquer personagem (esteja ele de que lado for na situação) e no elenco coadjuvante, que dá suporte ao trabalho impecável de seu protagonista.

"A caça" é uma mostra definitiva do talento de Vinterberg e de sua inteligência em jamais deixar que um tema tão forte e denso como o tratado em seu filme descambe para o sensacionalismo barato. É cinema em estado bruto, conforme enfatizam a fotografia em tons secos também premiada em Cannes e a trilha sonora, discreta e pontual. Um filme marcante e tecnicamente superior à sua mais famosa obra. Talvez seja o filme do amadurecimento artístico de um cineasta que tem muito a dizer.

sexta-feira

QUAL É O NOME DO BEBÊ?

QUAL É O NOME DO BEBÊ? (Le prénom, 2012, Chapter 2/Pathé/TF 1 Films Production, 109min) Direção: Alexandre de La Patellière, Matthieu Delaporte. Roteiro: Matthieu Delaporte, Alexandre de La Patellière, peça teatral de sua autoria. Fotografia: David Ungaro. Montagem: Célia Lafitedupont. Música: Jérôme Rebotier. Figurino: Anne Schotte. Direção de arte: Marie Cheminal. Produção: Dimitri Rassan, Jérôme Seydoux. Elenco: Patrick Bruel, Valérie Benguigui, Charles Berling, Guillaume de Tonquedec, Judith El Zein. Estreia: 25/4/12

Uma comédia francesa - isto é, longe do humor pasteurizado do cinema hollywoodiano - baseada em uma peça de teatro - ou seja, calcada basicamente em diálogos longos e ininterruptos - com personagens intelectual e socialmente bem postos na vida - em outras palavras, predispostos a salpicar suas conversas com referências culturais as mais diversas, especialmente sobre literatura. Quem não se deixar levar pelo preconceito que tais características podem suscitar merece um prêmio, e esse prêmio surgirá em sua frente como um dos mais inteligentes, divertidos e sarcásticos filmes do cinema europeu dos últimos anos: "Qual é o nome do bebê?", adaptado de um espetáculo lançado nos palcos em 2010 e escrito por Alexandre de La Patellière e Matthieu Delaporte, diretores de sua transposição para as telas. Mantendo na versão cinematográfica o elenco dos palcos quase em sua totalidade - apenas Guillaume de Tonquedec não defendeu seu personagem no teatro - os dramaturgos/roteiristas/cineastas conseguem um feito notável: prender a atenção do espectador do primeiro ao último minuto graças unicamente ao roteiro esperto e os desempenhos exemplares de atores em dias de grande inspiração.

Ao contrário do que faz supor sua primeira sequência - uma espécie de prólogo que usa elementos de sucessos como "O fabuloso destino de Amélie Poulain", como a narração em off e a edição ágil - toda a trama de "Qual é o nome do bebê?" se passa dentro de um único cenário: o confortável mas levemente abarrotado apartamento do casal Pierre (Charles Berling) e Élisabeth (Valérie Benguigui), dois professores de literatura que tem orgulho de sua vida familiar e profissional. Com claras tendências políticas de esquerda e pais de dois filhos com personalidades bem distintas - a menina mais velha discute "Madame Bovary" com o pai, apesar da pouca idade e o menino anda às voltas com um psicólogo infantil cuja competência divide a opinião do casal - eles começam o filme se preparando para receber informalmente um grupo de amigos para o jantar. O primeiro a chegar é Claude (Guillaume de Tonquedec), trompetista clássico que é amigo de infância de Élisabeth e íntimo da família desde sempre. Educado, gentil e incapaz de tomar partidos que possam ferir outras pessoas - o que lhe vale o apelido de "Suíça" - Claude também é discreto quando se trata de sua vida pessoal, escondendo até mesmo de sua melhor amiga detalhes românticos.


Em seguida, o irmão de Élisabeth chega, com sua empáfia e autoconfiança tomando conta do ambiente: Vincent (Patrick Bruel) é um bem-sucedido corretor imobiliário cujo sucesso financeiro contrasta com a ideologia da irmã e do cunhado, de quem também é amigo desde criança. Em vias de ser pai, é ele quem irá acender a chama da discórdia, quando resolve anunciar a todos o nome que escolheu para seu filho: Adolphe. Chocados com a escolha - que a todos remete à Hitler, mas que ele insiste ser em homenagem a um herói da literatura francesa - os anfitriões e Claude tentam demovê-lo de tal ideia, que consideram uma apologia ao genocídio. Defendendo sua escolha com unhas e dentes, Vincent provoca uma candente discussão que ultrapassa os limites da ideologia e chega perigosamente ao nível pessoal. A chegada de sua esposa, Anna (Judith El Zein) - com quem vive uma relação repleta de arestas a serem aparadas - não ajuda em nada. Aos poucos, segredos veem à tona, ressentimentos surgem com força e lealdades são impiedosamente postas à prova e o jantar transforma-se em uma gigantesca lavagem de roupa suja que não poupa nem mesmo outros membros da família que nem ao menos estão presentes no local.

Personagens aparentemente normais que desnudam suas reais angústias e partem para o ataque não é novidade no teatro, sendo a base de alguns textos clássicos, como "Quem tem medo de Virginia Woolf?", de Edward Albee (filmado por Mike Nichols em 1966) e o recente "O deus da carnificina", de Yasmina Reza (transformado em filme por Roman Polanski em 2011). Porém, o que La Patellière e Delaporte conseguem em "Qual é o nome do bebê?" é digno de todos os aplausos. Fugindo do tom de excessivo intelectualismo e da verborragia que poderia transformar seu filme em um mais um exemplar do temido gênero "teatro filmado", os diretores conquistam a plateia com personagens consistentes e piadas constantes, que tornam a experiência de assistir ao filme um prazer dos maiores, entendam-se as referências ou não (e elas nem chegam a incomodar os menos entusiastas de literatura, graças ao ritmo impecável dos diálogos). Interpretados por atores que os tomam para si com uma energia palpável, todos os personagens tem seu momento de brilho - e é triste saber que a ótima Valérie Benguigui, vencedora do César de atriz coadjuvante por seu desempenho, morreu poucos meses depois da premiação, vítima de câncer no seio. É a única nota a se lamentar em relação a uma das melhores comédias das últimas décadas, capaz de arrancar gargalhadas até do mais renitente detrator da cinematografia francesa.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...