quinta-feira, 12 de novembro de 2015

ALÉM DA FRONTEIRA

ALÉM DA FRONTEIRA (Out in the dark, 2012, Channel 10/Israel Film Fund, 96min) Direção: Michael Mayer. Roteiro: Michael Mayer, Yael Shafrir. Fotografia: Ran Aviad. Montagem: Maria Gonzales. Música: Mark Holden, Michael Lopez. Figurino: Hamada Atallah. Direção de arte: Sharon Eagle. Produção: Michael Mayer, Lihu Roter. Elenco: Nicholas Jacob, Michael Aloni, Jameel Khoury, Alon Pdut. Estreia: 07/9/12 (Festival de Toronto)

Houve um tempo em que o cinema de temática homossexual preocupava-se unicamente em levantar sua bandeira, como um ato de repúdio a um preconceito que existia até mesmo dentro da própria indústria do entretenimento. Com a relativa liberdade adquirida com os ares do século XXI, o risco que muitos atores corriam ao interpretar personagens gays foi-se transformando em uma forma de chamar a atenção para um nicho de mercado que gritava por atenção - e também como atalho para certa cobiçada estatueta dourada. Mas não apenas Hollywood descobriu que histórias sobre "o amor que não ousa dizer seu nome" de que falava Oscar Wilde são um campo rico de possibilidades. Filmes das mais variadas nacionalidades começaram a chegar às telas, retratando diversas realidades ligadas ao assunto, ainda que nem sempre de forma satisfatória. Um exemplo feliz, mesmo que pouco festejado junto à crítica e ao público é "Além da fronteira", uma produção israelense que acrescenta um explosivo ingrediente ao tema: a violenta rivalidade entre judeus e palestinos.

Nimr Mashrawi (Nicholas Jacob) é um jovem palestino que estuda Psicologia em Israel, graças a um Passe Estudantil que permite seu trânsito entre os dois países. Roy Schaefer (Michael Aloni) é um advogado tentando estabelecer sua carreira com a ajuda do pai, um respeitável e influente profissional. Os dois rapazes de apaixonam perdidamente apesar das diferenças culturais que contrapõem seus países de origem e do fato de Nimr esconder sua sexualidade da família - o irmão mais velho, a mãe viúva e a irmã em idade de arranjar um marido de acordo com os preceitos da religião. O relacionamento relativamente tranquilo entre os dois - que nem mesmo o preconceito velado dos aparentemente informados pais de Roy - sofre um abalo quando o passe de Nimr é repentinamente cancelado pelo Serviço Secreto Israelense, que ameaça desmascará-lo diante de sua família se ele não servir de informante em relação a atos terroristas em Tel Aviv. Separados, eles tentam encontrar uma solução para seu dilema, mas o que Roy nem desconfia é que Nimr está na verdade protegendo seu irmão, Nabil (Jameel Khoury), que esconde armas em sua casa. Tal segredo - e suas consequências - irá por em xeque o amor entre os dois.

Mesmo que não se aprofunde a contento em questões que poderiam elevar seu filme a um nível menos romântico e mais politicamente relevante, o cineasta Michael Mayer, também coautor do roteiro, consegue um feito e tanto. Sem apelar para cenas de sexo além das estritamente necessárias, ele estabelece o tom correto da relação entre seus protagonistas, centrada na admiração mútua e no carinho. É uma história de amor madura e honesta, com personagens que fogem do estereótipo gay festivo mas que também não tentam forjar uma virilidade ostensiva que escancaria um preconceito ao contrário. Na vida diária, Nimr e Roy são homens comuns, com suas vidas e desejos profissionais bem definidos e, principalmente no caso de Roy, bem resolvidos quanto à sua sexualidade. Juntos, se completam e rejeitam todas as forças que os podem separar. O roteiro faz questão de não criar entre eles nenhum tipo de conflito excessivo, como prova da confiança na potência do principal problema que eles irão enfrentar no ato final da trama, que joga a plateia em meio a uma sequência de acontecimentos que conduzem a um final corajosamente inesperado.

Fugindo à tentação de criar uma história de amor gay fofinha ou arrebatadoramente sexy, Mayer merece crédito também por discutir, ainda que superficialmente, um assunto ainda não devidamente explorado pelo cinema: a violência contra gays palestinos, vítimas frequentes de assassinatos pelas próprias famílias ou discriminados a ponto de expulsão do país. O roteiro apenas pincela de leve tais questões, preferindo focar-se na ameaça específica em relação ao casal central, mas já faz refletir e causa uma indignação que deve fazer aparecer, em breve, alguma história ainda mais contundente. "Além da fronteira" peca por não aprofundar seus personagens - a relação entre Nimr e a família poderia render muito mais, assim como o preconceito velado dos pais de Roy em relação à origem de Nimr - mas em momento algum os desrespeita ou os trata com condescendência. É honesto, é direto e é forte o bastante para envolver o espectador. É o que se espera de bom cinema, independente de suas ideias ou bandeiras.

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