quarta-feira, 11 de novembro de 2015

ELEFANTE BRANCO

ELEFANTE BRANCO (Elefante blanco, 2012, Borsalino Productions/Canal + España, 105min) Direção: Pablo Trapero. Roteiro: Alejandro Fadel, Martín Mauregui, Santiago Mitre, Pablo Trapero. Fotografia: Guillermo Nieto. Montagem: Andrés P. Estrada, Nacho Ruiz Capillas, Pablo Trapero. Música: Michael Nyman. Figurino: Marisa Urruti. Direção de arte/cenários: Juan Pedro de Gaspar/Antonella Pasini. Produção executiva: Alejandro Cacetta, Pablo Trapero. Produção: Alejandro Cacetta, Juan Pablo Galli, Juan Gordon, Pablo Trapero, Juan Vera. Elenco: Ricardo Darín, Jérémie Renier, Martina Gusman. Estreia: 17/5/12

Uma favela habitada por cerca de 30 mil pessoas é convulsionada pela violência decorrente da luta pelo poder entre traficantes de droga e conta com a ajuda de dois bem-intencionados padres para manter a paz e a dignidade mesmo quando a burocracia do governo impede ações que podem transformar sua triste realidade. Parece sinopse de um filme nacional, mas não é. "Elefante branco" é a prova inconteste de que a realidade argentina não difere muito dos problemas sociais brasileiros. Dirigido por Pablo Trapero, um cineasta antenado com um cinema de viés social, o filme estrelado por Ricardo Darín e o belga Jérémie Renier - o ator preferido dos irmãos Dardenne - também mostra a riqueza temática da cinematografia do país, em franca ascensão desde o início dos anos 2000.

Apesar de uma certa lentidão em estabelecer sua história e seus personagens - o roteiro leva uns bons quinze minutos antes de entrar pra valer no assunto - Trapero tem a seu favor o carisma de seus atores e a urgência do tema, que não demora a envolver o espectador assim que põe suas cartas na mesa. Padre Julián (Ricardo Darín) é um dedicado pároco que mora no prédio da obra inacabada de um hospital (o Elefante Branco do título) localizado dentro de uma favela. Incansável em sua luta para evitar que as crianças abracem o tráfico de drogas e servindo como intermediário entre o arcebispado e o governo na problemática construção de uma série de casas populares, ele conta com a ajuda da assistente social Luciana (Martina Gusman), que, a despeito de seu ateísmo, colabora de forma ativa com o objetivo coletivo. Preocupado em encontrar alguém que dê continuidade a seu trabalho, ele reencontra um antigo pupilo, o belga Nicolás (Jérémie Renier), que chega ao país depois de uma traumática experiência no Amazonas. Se acostumando aos poucos com a dura realidade argentina, Nicolás ainda precisa lidar com um problema pessoal tão grave quanto: a atração imprópria que sente por Luciana.


Recheando seu filme com longos planos-sequência que empurram o espectador para dentro da ação sem piedade, Trapero - que assinou o contundente "Abutres", também com Darín como protagonista - divide sua narrativa entre cenas de crueza visual extremamente apropriada e momentos de delicada calma. Enquanto acompanha Julián e Nicolás pelo labirinto de ruas e becos da favela - um cenário impressionante tratado como mais um personagem da trama - a câmera do cineasta esquadrinha também suas personalidades distintas e suas aflições: enquanto Julián acredita no diálogo e evita confrontos diretos com os violentos donos do poder do local, Nicolás prefere agir com base no imediatismo e na coragem de olhar nos olhos do monstro. Seus embates ideológicos, embora tratados sem aquela ênfase que colocaria o filme no terreno perigoso do panfletarismo estéril, são interessantes e bem defendidos por seus atores, e até mesmo a aproximação romântica entre Nicolás e Luciana não soa um artifício forçado. Infelizmente, apesar de todas as suas qualidades, falta ao filme um algo mais que poderia transformar-lhe em uma pequena obra-prima.

Por não aprofundar-se em algumas subtramas que poderiam enriquecer ainda mais o painel sócio-político que deseja retratar, Trapero deixa de lado algumas possibilidades bastante interessantes, como a discussão a respeito dos possíveis milagres do Padre Mugica - personagem real, morto em 1974 e a quem o filme é dedicado e que é citado em alguns momentos - e a doença que incentiva Julián a buscar a ajuda de Nicolás. Esses dois pequenos caminhos que o roteiro apenas esboça mas deixa de percorrer de forma satisfatória deixa no ar a sensação de algo incompleto, e é impossível não perceber como isso afeta o resultado final. Ainda assim, "Elefante branco" cumpre muito de suas promessas e é um filme de relevância social indiscutível. Mais um belo exemplar do cinema argentino.

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