sexta-feira, 2 de setembro de 2011

CORPO FECHADO

CORPO FECHADO (Unbreakable, 2000, Touchstone Pictures, 106min) Direção e roteiro: M. Night Shyamalan. Fotografia: Eduardo Serra. Montagem: Dylan Tichenor. Música: James Newton Howard. Figurino: Joanna Johnston. Direção de arte/cenários: Larry Fulton/Gretchen Rau. Produção executiva: Gary Barber, Roger Birnbaum. Produção: Barry Mendel, Sam Mercer, M. Night Shyamalan. Elenco: Bruce Willis, Samuel L. Jackson, Robin Wright-Penn, Spencer Treat Clark. Estreia: 14/11/00


O pior fardo que um filme pode carregar é uma expectativa errônea a seu respeito. E o pior que pode acontecer à carreira de um cineasta cujo primeiro real filme rendeu mais de 600 milhões de dólares mundo afora é justamente frustrar essas expectativas - ainda que o faça com as melhores intenções. Pois foi exatamente isso que aconteceu a M. Night Shyamalan. Depois do impressionante êxito comercial e crítico de "O sexto sentido", todos esperavam que o cineasta fosse dar continuidade a seu estilo e fazer uma réplica de seu enorme sucesso. Para surpresa de todos, porém, ele lançou "Corpo fechado", no qual ele se reinventou brilhantemente. Contando com o mesmo Bruce Willis no papel principal, o filme estreou com uma pesadíssima carga nas costas e o resultado decepcionou aos mais afoitos, em termos de bilheteria. Com menos de 100 milhões arrecadados em território americano, não chegou nem perto do impacto causado pela história do menino que via gente morta. No entanto, apesar dos pesares, "Corpo fechado" ganhou fãs incondicionais ao redor do planeta. E se não for lembrado como o melhor filme de Shyamalan é por um simples motivo comercial: um marketing equivocado.

Vendido pelo estúdio quase como se fosse uma continuação de "O sexto sentido" - o mesmo diretor, o mesmo astro, o mesmo clima de suspense - "Corpo fechado" é, na verdade, um excelente filme de super-heroi, que conta as origens do mocinho e do bandido como qualquer boa história baseada em quadrinhos. Sim, não se vê Bruce Willis voando em uniformes berrantes e nem tampouco o vilão tem planos megalomaníacos de dominar o mundo - ainda que seja doentio o bastante para tentar manipular o destino. Mas, ao gerar suas personagens sobre-humanas em um universo cotidiano, o cineasta criou uma das tramas mais instigantes e fascinantes do gênero (e de quebra imprimiu a ele seu estilo particular e intrigante). Bruce Willis (em ótima fase) vive David Dunn, um homem aparentemente normal que realiza a façanha de ser o único sobrevivente de um desastre de trem carregado de centenas de passageiros. Mais impressionante ainda é o fato de ter saído do acidente sem um arranhão sequer. Tentando reconstruir a vida ao lado da esposa Audrey (Robin Wright-Penn em papel oferecido a Julianne Moore) e do filho pequeno, ele conhece o milionário Elijah Price (mais um extraordinário desempenho de Samuel L. Jackson), um empresário fanático por histórias em quadrinhos que o procura com uma séria questão: por que somente ele sobreviveu ao acidente? Buscando a resposta em seu passado, Dunn - que trabalha como segurança em um estádio de futebol - relembra que nunca ficou doente na vida e que talvez tenha uma missão muito importante no mundo.



Apesar da premissa um tanto nerd, "Corpo fechado" é, sem dúvida, um trabalho criativo e inteligente de Shyamalan, mais uma vez utilizando seu talento para construir climas e personagens verossímeis apesar de sua natureza fora do normal. O Elijah vivido por Jackson, por exemplo, é chamado de Mr.Glass devido a uma rara doença que lhe quebra facilmente os ossos do corpo - e que dá origem a uma das cenas de abertura mais impressionantes da década e culmina com um final surpresa coerente e empolgante. A construção visual de Jackson (e do filme como um todo) reitera de forma inequívoca o cuidado do cineasta com cada detalhe do filme, o que lembra mais uma vez o refinamento e a sutileza de Alfred Hitchcock - de quem o diretor rouba inclusive a notória característica de fazer uma ponta em seus trabalhos (aqui ele aparece como um traficante de drogas).

"Corpo fechado" é um típico exemplo de filme que foi injustamente criticado por ter despertado as tais expectativas errôneas. Com o tempo fica mais fácil perceber suas inúmeras qualidades dramáticas e admirá-lo pelo que ele realmente é: um produto pop com uma inteligência muito acima da média.

3 comentários:

renatocinema disse...

Falou tudo: "Vendido pelo estúdio quase como se fosse uma continuação de “O sexto sentido”".

Fui no cinema, na estréia, sem saber o que iria assistir.

Resultado: os meus amigos me xingaram e foram contra o filme. Eu, como fã de quadrinhos, adorei.

Acho um trabalho realmente criativo e concordo novamente com seu texto quando diz que foi um filme injustamente criticado.


Belo texto para um belo filme......apesar do que diz a maioria.

Thomás R. Boeira disse...

O último grande filme de M. Night Shyamalan.

Depois ele fez Sinais (que não é ruim, mas também não é grande coisa) e caiu, caiu e caiu.

Abraço,
Thomás
http://www.brazilianmovieguy.blogspot.com/

Cristiano Contreiras disse...

Filme incompreendido, eu gosto muito!