segunda-feira, 12 de setembro de 2011

TRAFFIC

TRAFFIC (Traffic, 2000, USA Films, 147min) Direção: Steven Soderbergh. Roteiro: Stephen Gaghan, minissérie escrita por Simon Moore. Fotografia: Steven Soderbergh (como Peter Andrews). Montagem: Stephen Mirrione. Música: Cliff Martinez. Figurino: Louise Frogley. Direção de arte/cenários: Philip Messina/Kristen Toscano Messina. Produção executiva: Cameron Jones, Graham King, Andreas Klein, Mike Newell, Richard Solomon. Produção: Laura Bickford, Marshall Herskovitz, Edward Zwick. Elenco: Michael Douglas, Benicio Del Toro, Catherine Zeta-Jones, Dennis Quaid, Steven Bauer, Miguel Ferrer, Albert Finney, Clifton Collins Jr., Jacob Vargas, Erika Christensen, Amy Irving, Topher Grace, Salma Hayek, Luiz Guzman, Don Cheadle, James Brolin. Estreia: 27/12/00

5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Steven Soderbergh), Ator Coadjuvante (Benicio Del Toro), Roteiro Adaptado, Montagem
Vencedor de 4 Oscar:Diretor (Steven Soderbergh), Ator Coadjuvante (Benicio Del Toro), Roteiro Adaptado, Montagem 
Vencedor de 2 Golden Globes: Ator Coadjuvante (Benicio Del Toro), Roteiro

Concorrer consigo mesmo na disputa pelo Oscar não é trabalho para qualquer cineasta, mas Steven Soderbergh não pode ser considerado um qualquer. No mesmo ano em que entregou ao público e à crítica o correto e quadradinho (mas ainda assim bom) “Erin Brockovich”, ele voltou às origens independentes de seu promissor início – vencedor da Palma de Ouro em Cannes com “sexo, mentiras e videotape” – com “Traffic”, um trabalho ousado, corajoso e ambicioso, que tinha como objetivo traçar um painel sobre o tráfico de drogas nos EUA e na sua fronteira com o México. Com base em uma minissérie de TV, adapatada com sucesso por Steve Gaghan, Soderbergh levou aos cinemas uma obra de impacto, que relembra seu inegável talento como cineasta visceral. Não à toa, venceu a si mesmo na disputa do Oscar de diretor – categoria na qual também concorria por “Erin Brockovich”.

A grande sacada do diretor foi a de contar três histórias diferentes, interligadas por pequenos detalhes mas que nunca chegam a se cruzar diretamente, como em outros filmes de sua época. Para não confundir a plateia com tantas personagens que passam pela tela, ele conta cada uma das histórias com um visual diferente, com uma fotografia em cores distintas. A trama que se passa no México, onde o policial Javier Rodriguez Rodriguez (Benicio Del Toro impecável e merecido vencedor do Oscar de ator coadjuvante) tenta resistir ao mar de corrupção que o cerca tem uma tonalidade quente, sufocante, quase em sépia. A luta de Robert Wakefield (um Michael Douglas sério e compenetrado) - juiz da Suprema Corte americana nomeado chefe do combate às drogas - em salvar sua própria filha adolescente do vício (a estreante Érika Christensen) é fotografada em tons azulados. E o drama da socialite Helena Ayala (Catherine Zeta-Jones grávida de verdade durante as filmagens), que tem seu marido – um influente traficante de drogas vivido por Steven Bauer – preso, é narrado sob uma fotografia naturalista. Com uma edição arrojada de Stephen Mirrione (também premiada com uma estatueta da Academia) e um roteiro que em nenhum momento se deixa tornar confuso e/ou redundante, o panorama traçado por Soderbergh choca, angustia e faz pensar.



“Traffic” faz parte de uma estirpe rara de produções cinematográficas. Inteligente, forte e com muito a contar, o filme de Steven Soderbergh e companhia é um entretenimento adulto, para um público sofisticado, que procura substância em meio a um cinema cada vez mais superficial e cínico. Ao expor a enorme teia de interesses escusos que move o tráfico de drogas – e por meio da família do juiz vivido por Michael Douglas aproximá-la do cotidiano da plateia – o roteiro de Gaghan foge do tradicional modelo de contrapor vilões e mocinhos. No mundo retratado pelo filme, cada atitude das personagens é movida por molas outras que não apenas um caráter estereotipado. O juiz que vira czar anti-drogas não consegue deixar que o tóxico entre em sua casa pela porta da frente. O policial incorruptível se deixa amolecer para garantir um futuro menos trágico para os seus. E a socialite fútil torna-se uma mulher forte e ferina para defender seus interesses e de sua família, mesmo que isso a obrigue a ir contra a lei.

“Traffic” é um grande filme. Perdeu o Oscar principal para “Gladiador”, um super-espetáculo grandioso e perfeito em seu objetivo de entreter pura e simplesmente, mas as personagens escritos por Steve Gaghan – dolorosamente reais e humanas – vão permanecer na mente dos espectadores por muito tempo.

2 comentários:

Hugo disse...

Grande filme, que explora personagens realistas nestas três história extremamente atuais.

Abraço

renatocinema disse...

Grande roteiro que me pegou de calça curta.

Quando assisti não esperava que fosse algo tão bem elaborado.

Ótimo filme, com grandes atuações.