segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

AS HORAS

AS HORAS (The hours, 2002, Paramount Pictures, 114min) Direção: Stephen Daldry. Roteiro: David Hare, romance de Michael Cunningham. Fotografia: Seamus McGarvey. Montagem: Peter Boyle. Música: Philip Glass. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Maria Djurkovic/Philippa Hart. Produção executiva: Mark Huffam. Produção: Robert Fox, Scott Rudin. Elenco: Meryl Streep, Nicole Kidman, Julianne Moore, Ed Harris, Stephen Dillane, John C. Reilly, Toni Colette, Miranda Richardson, Jeff Daniels, Claire Danes, Allison Janney. Estreia: 25/12/02

9 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Stephen Daldry), Atriz (Nicole Kidman), Ator Coadjuvante (Ed Harris), Atriz Coadjuvante (Julianne Moore), Roteiro Adaptado, Montagem, Trilha Sonora Original, Figurino
Vencedor do Oscar de Melhor Atriz (Nicole Kidman)
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Melhor Atriz/Drama (Nicole Kidman)

O livro pareceia infilmável. Com uma prosa densa e intimista e utilizando-se frequentemente do famigerado fluxo de consciência que torna qualquer adaptação literária para o cinema um pesadelo para os roteiristas, o romance "As horas", escrito por Michael Cunningham corria o sério risco de virar um filme hermético e pseudointelectual, daqueles que agradam à crítica mas que jamais ultrapassam seu potencial dramático. Felizmente, para a felicidade geral dos fãs, "As horas" não apenas manteve a qualidade arrasadora do romance vencedor do Pulitzer como atingiu um patamar altíssimo em termos de adaptações literárias. Dirigida por Stephen Daldry - elogiadíssimo por sua estreia no belo "Billy Elliot" - e com um elenco formado pelo melhor do melhor em Hollywood, a transposição do livro de Cunningham para as telas não poderia ter sido mais feliz.

Na verdade, o filme é tão bom que vale por três. São três histórias, sobre três mulheres em momentos cruciais de suas vidas, interligadas por sentimentos de melancolia, solidão acompanhada e insatisfação. São três existências que muitas vezes não demonstram todo o turbilhão que lhes machuca a alma. E são três atrizes espetaculares em momentos mágicos de suas carreiras, entregando atuações tão avassaladoras quanto as personagens que interpretam. Somente Nicole Kidman levou um Oscar, mas não seria nada injusto que dividisse a estatueta com suas colegas de elenco Meryl Streep e Julianne Moore. E alguém tem dúvidas de que, apesar de suas qualidades, o vencedor do ano, "Chicago" não tem 1/10 de seu impacto emocional e artístico?

 

"As horas" conta um dia de três mulheres divididas pelo tempo mas unidas por detalhes coincidentes (mostrados com maestria pela edição inteligente de Peter Boyle). Em 1923, em uma pequena cidade do interior para onde foi para tratar de uma forte depressão, a escritora Virginia Woolf (Nicole Kidman, irreconhecível) começa a escrever seu novo romance, intitulado "Mrs. Dalloway", que conta a história de uma mulher de aparente controle emocional que está organizando uma grande festa. Quem tem aparente controle emocional e está preparando um bolo para o marido aniversariante em 1951, em Los Angeles, é a dona de casa Laura Brown (Julianne Moore, que disputou um polêmico Oscar de coadjuvante mesmo sendo tão protagonista quanto Kidman). Grávida do segundo filho, ela está lendo e se identificando com o livro deWoolf e com sua personagem-título, a tal ponto de planejar o suicídio em um quarto de hotel. E em 2001, em Nova York, a editora Clarissa Vaughan (Meryl Streep, espetacular como sempre), que vive confortavelmente com a esposa Sally (Allison Janney) - e que ganhou na juventude a alcunha de Mrs. Dalloway por causa do romance de Virginia - também está em vias de homenagear o melhor amigo e ex-amante Richard (Ed Harris), poeta e escritor premiado por sua obra. A partir dessa similaridade dramática, o roteiro delicado de David Hare tece uma teia de sutilezas comentada pela trilha sonora impiedosa de Philip Glass e por coadjuvantes nunca menos que brilhantes.

Ed Harris chegou perto de ganhar seu Oscar de coadjuvante por seu trabalho como o poeta soropositivo e com tendências suicidas que abala a estrutura de sua amiga Clarissa - "Você, Mrs. Dalloway, sempre dando festas para encobrir o silêncio!", ele afirma em determinado momento. Claire Danes vive a filha de Clarissa, Julia, que, apesar de ter uma história mais interessante no livro tem a função de situar a mãe em um momento de crise. E Jeff Daniels brilha como Louis Waters, que envolveu-se com ele na juventude e tenta recuperar sua jovialidade iniciando um caso com um jovem aluno. No núcleo de Laura Brown, John C. Reilly exercita seu estilo cool de interpretação como o marido paciente e amoroso e Toni Collette deita e rola em uma única cena que mostra todo o seu talento, na pele de Kitty, a vizinha cuja doença aciona os mecanismos de tristeza da protagonista. E Nicole Kidman tem a valiosa companhia luxuosa de Stephen Dillane e Miranda Richardson, como o marido e a irmã de Virginia, que a tiram de seu transe criativo para mudar os rumos de sua obra-prima.

 


Na verdade, a versão cinematográfica de "As horas" é tão repleta de acertos que é difícil escolher um destaque. O roteiro conciso, poético e construído com linhas de ouro pelo dramaturgo David Hare é fiel ao estilo intelectual de Cunningham sem nunca deixar de ser também extremamente emocional. A música de Philip Glass é arrepiante, dando sustentação aos silêncios doloridos. Os diálogos são fascinantes, assim como a ideia por trás de toda a trama - que envolve assuntos tabu como suicídio, AIDS, homossexualidade sem fazer julgamentos morais. E a direção de Daldry é, talvez, uma das mais injustiçadas da história do Oscar: perder para Roman Polanski por "O pianista" chega a ser quase piada - ainda mais se pensarmos que o filme também tirou sua estatueta de roteiro adaptado.

Falar de "As horas" e de todas as suas implicações dramáticas e ideológicas - além dos elogios infindos que merecem suas atrizes centrais - nunca seria demais. Mas é fato indiscutível que é uma das melhores e mais sensacionais adaptações literárias já feitas por Hollywood. Um filme raro e inesquecível, que fica para sempre na alma do espectador.

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