terça-feira, 17 de janeiro de 2017

COM A MALDADE NA ALMA

COM A MALDADE NA ALMA (Hush... hush, sweet Charlotte, 1964, 20th Century Fox, 133min) Direção: Robert Aldrich. Roteiro: Henry Farrell, Lukas Heller, estória de Henry Farrell. Fotografia: Joseph Biroc. Montagem: Michael Luciano. Música: De Vol. Figurino: Norma Koch. Direção de arte/cenários: William Glasgow/Raphael Bretton. Produção: Robert Aldrich. Elenco: Bette Davis, Olivia de Havilland, Joseph Cotten, Agnes Moorehead, Mary Astor, Victor Buono. Estreia: 15/12/64

7 indicações ao Oscar: Atriz Coadjuvante (Agnes Moorehead), Fotografia em P&B, Montagem, Trilha Sonora Original, Canção ("Hush... Hush, Sweet Charlotte), Figurino em P&B, Direção de Arte/Cenários em P&B
Vencedor do Golden Globe de Atriz Coadjuvante (Agnes Moorehead) 

Depois do estrondoso sucesso de "O que terá acontecido a Baby Jane?" (62), todo mundo em Hollywood estava ansioso por um reencontro entre suas duas protagonistas, Bette Davis e Joan Crawford. Todo mundo exceto Robert Aldrich, o diretor do filme, que teve de lidar com a célebre e amplamente conhecida rivalidade entre elas durante as (e depois das) filmagens. Aldrich preferia qualquer coisa no mundo a ter de passar novamente pelo pesadelo de domar as duas megeras, mas como em Hollywood quem manda é o vil metal, em 1964 ele estava outra vez diante do desafio de dominar o furacão: com o objetivo puro e simples de capitalizar em cima da tendência inaugurada por "Baby Jane" - filmes de terror estrelados por grandes nomes da era de ouro do cinema, como "Almas mortas", que manteve Crawford em alta mesmo nos anos 60 - Aldrich aceitou o desafio de realizar "Com a maldade na alma", que seguiria à risca todos os mandamentos do gênero, com direito a cabeças rolando, suspense psicológico de almanaque e reviravoltas nem tão surpreendentes assim. A grande questão é que nem mesmo o cineasta - já devidamente escolado em bastidores problemáticos - poderia prever que a produção, criada como veículo para Bette e Joan, acabasse desfalcado de uma das estrelas e chegasse às telas com apenas metade do apelo comercial.

Chegando à locação prevista para o filme e já entrando em crise com Bette Davis - que fazia questão de ostentar uma situação mais confortável durante as filmagens - a pouco delicada Joan Crawford acabou não esquentando banco: depois de algumas semanas, nem precisou utilizar-se da cláusula que lhe desobrigava de participar das campanhas publicitárias do filme ao lado da colega de cena e foi demitida por Aldrich... e só ficou sabendo através dos jornais, devidamente avisados por Davis. É óbvio que tal situação não ajudou em nada a já complicada trajetória do filme - rebatizado como "Hush... Hush, Sweet Charlotte" depois que o original "O que terá acontecido à prima Charlotte" dava à produção um indisfarçável ar de caça-níqueis (o que na verdade ela era). Para substituir Crawford foi chamada Olivia de Havilland - que já havia ficado com um papel seu em "A dama enjaulada", do mesmo ano, e que tornou-se amiga inseparável de Bette Davis, a ponto de brindarem com Coca-cola toda manhã - vale lembrar que Joan fazia parte da diretoria da Pepsi à época. A entrada de Olivia no filme pode ter deixado os bastidores menos tensos (ou divertidos, dependendo do ponto de vista), mas certamente prejudicou o resultado final: "Com a maldade na alma" não tem a metade da inventividade, crueldade e do irresistível tom de decadência de "Baby Jane".


É lógico que um filme estrelado por Bette Davis já é, por si só, imperdível, uma vez que a grande atriz invariavelmente dá um show, mesmo quando tem em mãos um papel com possibilidades limitadas. Porém, "Com a maldade na alma" esbarra em um roteiro que se pretende cheio de reviravoltas quando, na verdade, apenas se estende desnecessariamente em uma trama muitas vezes enfadonha. O começo, é preciso que se diga, é sensacional: no final dos anos 20, um grandioso baile oferecido por um dos fazendeiros mais ricos de Baton Rouge, no sul dos EUA é abalado pelo cruel e violento assassinato de um homem, que tem a cabeça e uma das mãos decepadas com um cutelo. Imediatamente a culpa recai sobre a filha do dono da casa, Charlotte Hollis (Bette Davis), cujos planos de fugir com a vítima (casada) foram interrompidos pela covardia do rapaz. Décadas mais tarde, Charlotte vive sozinha na vasta propriedade da família, depois da morte do pai, e passa por dificuldades devido à desapropriação da fazenda para construção de uma ponte. Acreditando cegamente que quem está por trás da situação é a viúva de seu ex-amante, Jewel Mayhew (Mary Astor), ela fica aliviada com a chegada de uma prima há muito distante, Miriam Deering (Olivia de Havilland). Porém, Miriam, que antigamente era o interesse amoroso do médico de Charlotte, Drew Bayliss (Joseph Cotten), não chega para ajudar a prima a resolver a questão das terras e sim para ajudá-la na transição para uma nova vida, distante de onde ela foi criada. É o que basta para a sanidade mental de Charlotte começar a dar sérios sinais de declínio.

Sem o duelo de interpretações proporcionado por Davis e Crawford em "Baby Jane", "Com a maldade na alma" se sustenta basicamente no admirável talento da primeira em tirar leite de pedra. O roteiro parece não se decidir entre o trash e o suspense psicológico, mesclando cenas puramente camp com momentos em que busca soar como Alfred Hitchcock - inspiração óbvia desde o sucesso comercial de "Psicose" (60). Nem sempre funciona, mais por culpa de uma história bastante previsível do que pela direção de Aldrich (sempre tentando encontrar a maneira menos fácil de enxergar uma cena) ou pela atuação de seus atores, ainda que Olivia de Havilland nunca tenha parecido tão canastrona. A reviravolta da trama tampouco entusiasma ou surpreende aos espectadores mais escolados e somente Agnes Moorehead (de "A feiticeira") consegue sobressair-se, com um trabalho premiado com o Golden Globe e indicado ao Oscar - por incrível que pareça, o filme obteve uma recepção bem mais calorosa da Academia do que "Baby Jane", sendo indicado a sete estatuetas no ano em que "My fair lady" sagrou-se o grande campeão. Na pele da leal e corajosa empregada da solitária solteirona, Moorehead é a única que chega a ameaçar roubar a cena de Bette Davis, que, como sempre, entrega-se de corpo e alma a um filme, mesmo que ele não esteja entre seus melhores. É Davis, sempre ela, que faz "Com a maldade na alma" valer a pena. Nem que seja para assistir-se a mais um de seus shows particulares.

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