segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

O FILHO ETERNO

O FILHO ETERNO (O filho eterno, 2016, RT Features, 82min) Direção: Paulo Machline. Roteiro: Leonardo Levis, livro de Cristóvão Tezza. Fotografia: Carlos Firmino. Montagem: Olivia Brenga. Música: Guilherme Garbato, Gustavo Garbato. Figurino: Maria Barbalho. Direção de arte: Rodrigo Alonso, Isabelle Bittencourt. Produção executiva: Ana Kormanski, Marisa Merlo, Raphael Mesquita, Daniel Pech. Produção: Rodrigo Teixeira. Elenco: Marcos Veras, Débora Falabella, Pedro Vinícius. Estreia: 11/10/16

Sucesso de vendas nas livrarias e êxito de público com sua adaptação teatral, "O filho eterno", do escritor catarinense Cristóvão Tezza apresenta uma história difícil, triste e sofrida. Mas, acima de tudo, encontra na redenção, no amor incondicional entre pai e filho e no amadurecimento pessoal, uma luz brilhante e reconfortante diante de um cenário de angústia e desesperança. Dirigida pelo mesmo Paulo Machline que levou às telas a trajetória do carnavalesco mais conhecido do país, em "Trinta", a versão para o cinema do livro de Tezza mantém, graças ao roteiro de Leonardo Levis, a essência da obra original: sua sobriedade e falta de sentimentalismo ao tratar de um assunto que poderia facilmente render um legítimo arranca-lágrimas. Sob o ponto de vista de Roberto, um escritor que precisa lidar com a notícia de que seu filho recém-nascido é portador da Síndrome de Down, a narrativa de Levis e Machline jamais escorrega no piegas, em boa parte graças à inusitada escolha de Marcos Veras para o papel principal.

Mais conhecido por seus trabalhos no terreno do humor, Veras surpreende em um papel dramático que exige mais do que simplesmente imprimir seriedade a uma trama suficientemente comovente. Sem exagerar nas tintas - com a possível exceção do clichê visual da fumaça de cigarro envolvendo invariavelmente seus momentos profissionais - e com a ingrata missão de não deixar que seu personagem soe um tanto monstruoso, o ator entrega um desempenho admirável e desprovido de quaisquer vícios. Melhor ainda, ele consegue tornar humanas e compreensíveis suas atitudes, por mais chocantes que pareçam a princípio - e elas são realmente inacreditáveis: assim que sabe que seu bebê é portador da deficiência, por exemplo, Roberto encontra alívio na expectativa de que se cumpra um vaticínio médico que encontra em suas pesquisas pessoais, que diz que crianças nascidas com esse problema "morrem cedo". Seu misto de decepção e revolta com o destino que lhe é imputado com a inesperada condição de seu filho - nascido em meio à euforia da Copa do Mundo de 1982, uma metáfora esportiva interessante mas que acaba por perder-se no decorrer da história - é o pilar de sustentação do filme, e Veras não hesita em emprestar toda a sua garra em honrar o material que tem em mãos.


Com algumas modificações pontuais em relação ao livro, "O filho eterno" talvez tenha na presença de Débora Falabella a principal delas: enquanto nas páginas a mãe do pequeno Fabrício é praticamente esquecida pelas digressões do escritor/narrador/protagonista, no filme de Machline ela não apenas ganha um nome (Cláudia) como serve como uma âncora ao turbilhão emocional de Roberto. Ainda que praticamente esteja em cena como contraponto aos sentimentos negativos do marido - é tranquila, amorosa, paciente e dedicada - a personagem oferece à Falabella um de seus melhores momentos no cinema, principalmente por conseguir expandir as limitações de coadjuvante e ser dona de uma das mais emocionantes cenas do longa, em uma dolorosa conversa em que revela seu amor incondicional ao filho. É um dos raros momentos em que o filme se permite, ainda que rapidamente, mostrar um lado menos racional - e é onde, de certa forma, começa uma transformação radical no relacionamento entre pai e filho.

Sucinto e infelizmente superficial em alguns momentos, "O filho eterno" sofre pela pressa do roteiro em resolver suas questões, privando o espectador de mergulhar mais a fundo na emoção de uma história que poderia render uma obra inesquecível. A própria transformação de Roberto - que passa de revoltado e desgostoso a um pai amoroso e apaixonado - surge de forma pouco orgânica na tela, quase repentina e sem maior verossimilhança, apesar dos esforços do elenco. Sua relação extra-conjugal tampouco oferece respiro à sufocante trama central, servindo apenas como uma espécie de desvio da rota principal e que, apesar das consequências, não chega a atingir todo o seu potencial dramático. Essa ansiedade do roteiro em solucionar seus problemas sem examiná-los a fundo é o grande calcanhar de Aquiles do filme, de resto dono de qualidades admiráveis. Do elenco bem escalado - o encantador Pedro Vinícius sai-se muito bem como o pequeno Fabrício - à produção caprichada, com direito à reconstituição de época sutil mas detalhista, "O filho eterno" é mais uma prova de que é possível fazer bom cinema no Brasil mesmo nadando contra a corrente do que é considerado comercialmente eficaz. Uma boa polida no roteiro e uma construção mais firme dos personagens e seria um grande filme. Como está, é louvável, mas não excepcional.

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