quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

LOVING

LOVING (Loving, 2016, Raindog Films/Big Beach Films, 123min) Direção e roteiro: Jeff Nichols. Fotografia: Adam Stone. Montagem: Julie Monroe. Música: David Wingo. Figurino: Erin Benach. Direção de arte/cenários: Chad Keith/Adam Willis. Produção executiva: Jared Ian Goldman, Brian Kavanaugh-Jones, Jack Turner. Produção: Nancy Buirski, Ged Doherty, Colin Firth, Sarah Green, Peter Saraf. Elenco: Joel Edgerton, Ruth Negga, Will Dalton, Alano Miller, Chris Greene, David Jensen, Nick Kroll, Matt Malloy, Michael Shannon. Estreia: 16/5/16 (Festival de Cannes)

Indicado ao Oscar de Melhor Atriz (Ruth Negga)

Vai entender a Academia: no mesmo ano em que colocou na seleta lista dos indicados a melhor filme o formulaico "Estrelas além do tempo", praticamente ignorou o poderoso "Loving", também uma história real sobre preconceito racial e infinitamente mais tocante e corajoso em suas denúncias. Inspirado em documentário de 2011 chamado "The Loving Story" - dirigido por Nancy Buirski - e ovacionado de pé no Festival de Cannes de 2016, o filme de Jeff Nichols arrebatou uma solitária indicação ao Oscar (melhor atriz), o que não reflete sua qualidade e delicadeza. Conduzido com seriedade e respeito pelo cineasta, cujo currículo inclui os independentes "O abrigo" (2011) e "Amor bandido" (2012), a história de amor e sofrimento de um casal cujo único crime foi se amar e construir uma família emociona sem escorregar no dramalhão, contando apenas com as devastadoras atuações de seu par central de atores, Joel Edgerton e Ruth Negga, para conquistar a plateia.

A história começa em 1958, quando o pedreiro Richard Loving (Joel Edgerton em desempenho indicado ao Golden Globe e injustamente ignorado pelo Oscar) e sua namorada grávida, Mildred (Ruth Negga) saem de sua pequena cidade da Virginia para oficializarem sua relação em Washington. A alegação do rapaz é que na capital do país a burocracia é menor, mas a verdade é que em 24 estados americanos, o casamento interracial ainda era considerado crime - inclusive em sua região. Mesmo tentando esconder seu novo estado civil por medo de represálias, o casal é descoberto através de uma denúncia, e depois de passar dias na cadeia sem direito à fiança que libertou seu marido logo após a prisão, Mildred é condenada a um ano de prisão - pena que pode ser suspensa se ela concordar em ficar longe do estado por um mínimo de 25 anos. Acuado, o casal decide viver em Washington para evitar a pena, mas, acostumado a conviver em uma zona rural, sofre para adaptar-se a um novo estilo de vida. É somente anos mais tarde - e depois de um acidente com um dos seus três filhos - que Mildred resolve desafiar a lei e voltar para casa. Os anos 60 já estão sendo marcados pela luta pelos direitos civis, e ela conta com a ajuda do advogado Bernie Cohen (Nick Kroll) para ir até a Suprema Corte e garantir a igualdade prevista na Constituição.


O tom impresso por Jeff Nichols em seu filme é de sobriedade e discrição, um quase sussurro que reflete com exatidão a serenidade com que os protagonistas enfrentam seus dissabores. Apostando bem mais no silêncio do que em diálogos exaltados, o roteiro do próprio diretor encontra sustentação no trabalho fabuloso de seus atores. Vivendo personagens com dificuldade de expressar através de palavras todo o turbilhão que se passa em seu interior, tanto Joel Edgerton quanto Ruth Negga dão aulas de sutileza e expressão corporal a cada cena. Ele - no melhor trabalho de sua carreira - transmite toda a dor e impotência de seu Richard através de seu olhar triste e frustrado, que se transforma em fonte de coragem e carinho sempre que está ao lado da esposa. Ela, indicada ao Oscar com justiça, constrói uma Mildred Loving minuciosamente, utilizando o corpo e a voz para dar vida a uma mulher cuja coragem afrontou o preconceito da sociedade escorada unicamente no amor que sentia pelo marido e na certeza de que estava lutando por seus direitos. É interessante como Nichols respeita a personalidade dos dois protagonistas, não cobrindo-os de laivos heroicos ou tratando-os como pessoas maiores que a vida: o casal Loving era formado por um homem e uma mulher normais, com baixo grau de instrução e de uma classe social que lhes proporcionava apenas o essencial, mas lutou com unhas e dentes por seu amor e sua liberdade. Esse heroísmo é o que interessa ao cineasta, um heroísmo cotidiano que se torna, graças a seu olhar generoso, material de um filme essencial.

Filmado e editado de forma convencional, "Loving" é um filme que se torna grandioso não por sua linguagem, mas por seu tema e seus personagens. Confiando totalmente na história que tinha em mãos e em sua dupla de atores centrais - e sendo muito bem recompensado por isso - Jeff Nichols oferece à plateia um filme simples, mas jamais simplório, a respeito de um assunto que nunca se tornará ultrapassado, especialmente em tempos sombrios como os atuais, em que a sombra do fascismo e da xenofobia se debruçam sobre parte do Ocidente. A inspiradora história do casal Loving deu origem a um dos mais importantes filmes da temporada 2016, valorizado pela dedicação de seu elenco e pela delicadeza de retratar sem pieguices ou lições de moral um dos mais importantes capítulos da história dos Direitos Civis nos EUA. Bravo!

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