terça-feira, 3 de janeiro de 2017

FEMME FATALE

FEMME FATALE (Femme fatale, 2002, Quinta Communications, 114min) Direção e roteiro: Brian De Palma. Fotografia: Thierry Arbogast. Montagem: Bill Pankow. Música: Ryuichi Sakamoto Figurino: Olivier Beriot. Direção de arte/cenários: Anne Pritchard/Françoise Benoit-Fresco. Produção executiva: Mark Lombardo. Produção: Tarak Ben Ammar, Marina Gefter. Elenco: Rebecca Rojmin-Stamos, Antonio Banderas, Peter Coyote. Estreia: 30/4/02 

Dizer que Brian De Palma é o maior discípulo de Alfred Hitchcock produzido por Hollywood é limitar e diminuir a carreira de um dos mais interessantes cineastas norte-americanos contemporâneos, capaz tanto de obras impecáveis, como "Os intocáveis" (87), quanto de desastres monumentais - como bem podem testemunhar aqueles que tiveram de encarar a tenebrosa adaptação de "A fogueira das vaidades" (90), do romance de TomWolfe. Nem sempre feliz na escolha de seus projetos, De Palma foi obrigado a encarar um período bastante complicado em sua trajetória quando, depois do grande sucesso comercial de "Missão: impossível" (96), passou a acumular fracassos críticos e de bilheteria que minaram sua credibilidade junto ao público e aos estúdios - foi nessa época que ele enfileirou os horrorosos "Olhos de serpente" (98) e "Missão Marte" (2000), dois fiascos retumbantes. Renegado pela indústria, o diretor acabou encontrando consolo em terras estrangeiras, mais precisamente na França: recuperando-se da má fase profissional em Paris, o diretor teve a ideia daquele que se tornaria seu próximo filme, um suspense recheado de erotismo e com uma protagonista feminina das mais fortes de sua filmografia, a ousada, corajosa e sexy Laurie Ash, interpretada com nítida satisfação pela bela Rebecca Romijn-Stamos (a Mística dos filmes "X-Men").

Depois de considerar Jennifer Lopez e Uma Thurman para o papel central -Thurman abandonou o projeto por causa da gravidez - e convencer Antonio Banderas a assumir o principal papel masculino (com a ajuda da então esposa do ator, Melanie Griffith, com quem havia trabalhado em "Dublé de corpo" e "A fogueira das vaidades"), De Palma entregou à plateia do Festival de Cannes 2002 um de seus filmes mais pessoais, recheado de algumas de suas mais marcantes características como cineasta. Em pouco menos de duas horas de duração, o espectador vê diante de si longas sequências silenciosas, movimentos de câmera criativos e surpreendentes, personagens amorais, uma edição inteligente e umas duas boas reviravoltas capazes de pegar de surpresa até o mais atento fã de cinema. Homenageando a sétima arte desde sua abertura - cenas do clássico "Pacto de sangue", de Billy Wilder, dando o tom da trama - até de forma mais explícita - com o início da história acontecendo em pleno Festival de Cannes (com direito até mesmo a participações especiais do cineasta Régis Wargnier e da atriz Sandrine Bonnnaire) - "Femme fatale" é um filme que brinca com as aparências e com as expectativas do público, emendando uma história na outra de maneira quase imperceptível, até um desfecho inesperado que comprova o talento de seu criador em romper com o trivial quando se trata de contar uma história que envolva o público.


E é impossível não se deixar envolver pelo roteiro criado por De Palma, que já começa mostrando a que veio: em suas primeiras cenas, a belíssima Laurie Ash, se aproveitando de seu status de fotógrafa credenciada pelo Festival de Cannes, seduz a acompanhante de um dos candidatos à Palma de Ouro e, com a ajuda de um grupo de comparsas, supostamente rouba as joias da atraente modelo. Supostamente. A partir do momento em que as coisas saem do controle dos mentores do golpe, o filme inicia sua jornada em conduzir o público por caminhos que trafegam sem medo pela violência, pelo erotismo e pela absoluta falta de regras. Em poucos minutos Laurie se transforma em outra mulher, mais sofisticada e ainda mais misteriosa, que vê seu passado criminoso ameaçar vir à tona pelas mãos do paparazzo Nicolas Bardo (Antonio Banderas) - um homem dividido entre a ambição de ser reconhecido profissionalmente e a atração irresistível que sente pelo alvo de sua câmera. Ele busca o sucesso e o dinheiro; ela procura salvar a pele de revelações aterradoras que podem destruir seu casamento com um homem poderoso (Peter Coyote): juntos, eles irão, despudoradamente, tentar alcançar seus objetivos, mesmo que tais sejam potencialmente contrários um ao outro. No meio desse caminho, o roteiro dá conta de esfregar na cara da plateia cenas de grande tensão sexual (Rojmin nunca esteve tão sensual e desejável) e alguns momentos puramente cinematográficos que são sua assinatura (com direito a tela repartida e ângulos inusitados).

Se existe uma falha no desenho dos personagens de "Femme fatale" - que se comportam mais como personagens do que gente de verdade, o que de certa forma é coerente com a proposta do filme - ela é plenamente compensada com a técnica empregada por Brian De Palma para grudar o espectador na cadeira até os minutos finais da sessão. Econômico na hora de dar detalhes a respeito de seus protagonistas, ele os contorna com tons fortes e simplesmente os utiliza como matéria-prima de uma profusão de sequências muito interessantes visualmente, que mantém o suspense em constante ritmo enquanto prepara um final provocativo e que deixa no ar a sensação quase tangível de desconforto. Pode não ser o melhor Brian De Palma, mas só o fato de tirar a plateia da zona de conforto já faz de "Femme fatale" um programa acima da média - um programa valorizado pela beleza e o talento fascinante de Rebecca Rojmin (ainda Stamos à época), que mostra que pode ir muito além de uma violenta mutante.

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