sexta-feira

MATADORES DE VELHINHA

 


MATADORES DE VELHINHA (The ladykillers, 2004, Touchstone Pictures, 104min) Direção: Ethan Coen, Joel Coen. Roteiro: Ethan Coen, Joel Coen, filme original de William Rose. Fotografia: Roger Deakins. Montagem: Roderick Jaynes (Ethan Coen, Joel Coen). Música: Carter Burwell. Figurino: Mary Zophres. Direção de arte/cenários: Dennis Gassner/Nancy Haigh. Produção: Ethan Coen, Joel Coen, Tom Jacobson, Barry Josephson, Barry Sonnenfeld. Elenco: Tom Hanks, Irma P. Hall, Marlon Wayans, J.K. Simmons, Tzi Ma, Ryan Hurst, George Wallace. Estreia: 26/3/2004

Poucos cineastas hollywoodianos - tão propensos à autocensura para melhor caberem nos ditames da indústria - são capazes de forjar seu estilo de forma tão marcante quanto Joel e Ethan Coen. Desde sua chegada ao mundo do cinema, com "Gosto de sangue" (1984), uma releitura original e criativa dos filmes noir, a dupla de irmãos transitou entre gêneros variados - comédia, policial, musical - sempre deixando em cada filme sua marca autoral, facilmente reconhecível por fãs e jornalistas. Como prova da força de seu estilo, em 2004 eles adentraram em uma nova seara - os remakes - sem abandonar nem por um minuto a personalidade de sua filmografia. Releitura da comédia britânica "Quinteto da morte", estrelado por Peter Sellers e Alec Guinness em 1955, "Matadores de velhinha" não chegou a ser uma unanimidade por parte da crítica mas tampouco decepcionou em termos de bilheteria mundial - rendeu mais que o premiado "Fargo" (1996), por exemplo. Contando com a presença de Tom Hanks (certamente um dos motivos de sua razoável receptividade) e abusando sem medo do humor sombrio que tanto lhes agrada, o filme não é um dos maiores destaques na carreira dos Coen, mas apresenta, em seus melhores momentos, tudo aquilo que faz deles os queridinhos de parte da plateia menos tradicional. 

O roteiro de "Matadores de velhinha" - escrito, como de costume, pelos próprios irmãos -, transfere a ação do filme original de Londres para uma pequena cidade do Mississipi, local de um cassino cuja renda é o objeto de desejo de uma gangue que planeja o crime perfeito. O líder do grupo é o excêntrico Goldthwaite H. Dorr (Tom Hanks), que bate à porta da devotada Marva Munson (Irma P. Hall) para pedir a ela que alugue seu amplo porão. Sob o pretexto de usar o lugar como espaço de ensaios para seu grupo musical, Dorr é aceito pela pouco paciente Sra. Munson, que nem de longe desconfia das reais intenções de seu inquilino e seus amigos. Sendo assim, a casa da velha senhora passa a ser frequentada por tipos no mínimo estranhos, cada um com sua missão dentro do plano criminoso: Lump (Ryan Hurst), um jovem e burro jogador de futebol americano; o General (Tzi Ma), experiente em túneis; Garth Pancake (J.K. Simmons), especialista em explosivos e Gawain (Marlon Wayans), que trabalha infiltrado no cassino para passar informações aos companheiros. Conforme a data do roubo vai se aproximando, porém, as coisas começam a dar errado - e eliminar a proprietária da casa passa a ser uma possibilidade real.

 

Trocando o fino humor inglês pela ironia quase absurda, o roteiro de "Matadores de velhinha" encontra na direção afiada dos Coen um de seus maiores trunfos. Apesar da demora em engrenar, a trama vai se tornando cada vez mais repleta de situações bizarras e inesperadas, um prato cheio para a criatividade dos cineastas. Se Tom Hanks soa um tanto exagerado - ainda que dentro da proposta do filme -, o elenco coadjuvante brilha sem muito esforço, em especial a ótima Irma P. Hall, que faz se sua Marva Munson uma personagem das mais surpreendentes. Explorando ao máximo a fotografia de seu colaborador habitual, Roger Deakins - que cria sequências ao mesmo tempo belas e extremamente eficientes em sua forma de contar a história -, os diretores parecem brincar com as expectativas do público ao mesmo tempo que demonstram pleno domínio de seu ofício ao conduzir a trama por caminhos cada vez mais inusitados. Nem tudo funciona - algumas (poucas) situações soam um tanto deslocadas -, mas é perceptível o cuidado com cada detalhe da produção, desde o visual impecável até a escalação do elenco, ao mesmo tempo coeso e heterogêneo. 

Dono de algumas sequências hilariantes e diálogos que exploram com inteligência as diferenças culturais e sociais entre seus personagens, "Matadores de velhinha" é um dos filmes menos celebrados de Ethan e Joel Coen, cujo trabalho seguinte, "Onde os fracos não tem vez" (2007), sairia da cerimônia do Oscar com quatro estatuetas - incluindo melhor filme, direção e roteiro. Ao imprimir sua assinatura mesmo na refilmagem de um clássico do humor britânico, os cineastas comprovaram, mais uma vez, uma personalidade rara dentro de uma indústria pouco afeita a novidades. Não é seu melhor filme, mas é muito acima da média do cinema comercial de Hollywood - e um dos menos celebrados desempenhos de Tom Hanks (corajosamente indo contra a sua imagem popular). E não envergonha, nem de longe, o legado da dupla.

quinta-feira

O ANJO MALVADO

 


O ANJO MALVADO (The good son, 1993, 20th Century Fox, 87min) Direção: Joseph Ruben. Roteiro: Ian McEwan. Fotografia: John Lindley. Montagem: George Bowers. Música: Elmer Bernstein. Figurino: Cynthia Flynt. Direção de arte/cenários: Bill Groom/George DeTitta Jr.. Produção executiva: Daniel Rogosin, Ezra Swerdlow. Elenco: Macaulay Culkin, Elijah Wood, David Morse, Wendy Crewson, Daniel Hugh Kelly, Jacqueline Brookes. Estreia: 15/9/93

Poucos astros de cinema eram tão poderosos, no começo dos anos 1990, do que Macaulay Culkin. Diminuto em tamanho mas gigante em termos comerciais desde que "Esqueceram de mim" rendeu inacreditáveis 476 milhões de dólares pelo mundo todo, o ator-mirim era um dos nomes mais quentes do mercado, capaz de tornar uma produção despretensiosa como "Meu primeiro amor" em um sucesso de bilheteria apenas por estar em seu elenco. Como nem tudo eram flores, no entanto, para contar com o garoto em seus filmes, os estúdios precisavam lidar com uma questão delicada (para dizer o mínimo) chamada Kit Culkin: pai do prodígio que encheu os cofres da 20th Century Fox (e do próprio clã) de dinheiro, Kit transformou-se, em poucos anos, em persona non grata dentro da indústria, devido a exigências descabidas, ganância e ataques de estrelismo. Para deixar que seu filho assinasse o contrato para uma sequência de "Esqueceram de mim", por exemplo, o pouco simpático pai de família exigiu que o estúdio desse a ele o papel principal de "O anjo malvado", suspense que seria dirigido por Michael Lehmann - de "Atração mortal" (1988) e "Feito cães e gatos" (1996). Ciosos de suas finanças, os executivos aceitaram a imposição, viram Lehmann abandonar o projeto por conflitos com Kit - e ser substituído por Joseph Ruben - e acabaram por não se queixar quando o filme fez uma razoável carreira nas salas de exibição graças à presença da criança mais popular da época. Na verdade, com sua estreia quase um ano depois de "Esqueceram de mim: perdido em Nova York", "O anjo malvado" tornou-se o último sucesso de Macaulay, que logo em seguida entrou em diversos projetos ambiciosos e fracassados - por obra e mérito de seu genitor, que viu sua galinha de ovos de ouro perder o brilho a cada nova polêmica. 

"O anjo malvado" é uma produção corriqueira e banal, que, não fosse a presença de Culkin no auge de sua popularidade, passaria em branco e se tornaria - como mais tarde aconteceu - um sucesso nas videolocadoras e nas sessões da madrugada nas emissoras de televisão. Apesar do final instigante, é um filme que não ousa nem em sua narrativa (simples e previsível) e tampouco vai fundo no que se propõe: talvez por medo de chocar o público cativo de Macaulay Culkin, a obra de Ruben jamais ultrapassa os limites mais básicos dos filmes do gênero, entregando apenas o que agrada ao espectador médio, que rejeita a violência extrema e se contenta com um susto ou outro sustentado pela trilha sonora - algo que o próprio Ruben já havia oferecido em outro êxito comercial eficiente mas esquecível, "Dormindo com o inimigo", estrelado por uma Julia Roberts em franca ascensão, em 1991. Ao fazer de seu vilão uma criança, o roteiro até tenta mudar um pouquinho as regras do jogo, mas esbarra justamente nas limitações éticas de tal escolha (não se pode esquecer de certa caretice do cinema de Hollywood, que jamais permitiria o aprofundamento do tema em uma produção claramente comercial) e, pasmem, é prejudicado por aquele que, em tese, seria seu maior trunfo: carismático e encantador em "Esqueceram de mim", Macaulay Culkin revela, em "O anjo malvado", que nem todo o carisma do mundo é capaz de disfarçar uma atuação apática. Perto de seu colega de cena, Elijah Wood, o arrimo da família Culkin demonstra, sem espaço para dúvidas, de que nem tudo que reluz é ouro.


O filme de Ruben começa com a precoce morte da mãe do pequeno Mark (Elijah Wood), que, logo em seguida, se vê sem a presença do pai, que viaja a negócios para o Japão. Hospedado na casa dos tios e ainda abalado com a inesperada perda, o garoto não demora a fazer amizade com o primo, Henry (Macaulay Culkin), com quem regula em idade. Aos poucos, porém, Henry começa a demonstrar um comportamento violento e dissimulado, capaz de atos que vão da maldade mais banal até a extrema periculosidade. Desconfiado de que o menino pode ter sido responsável até mesmo pela morte do irmão pequeno, afogado durante o banho, Mark tenta alertar todos à sua volta, mas seus avisos passam a ser considerados parte do trauma familiar - e, se utilizando de seu poder de manipulação infantil, Henry leva os pais a acreditarem que o primo tem um lado sombrio e perigoso. As coisas ficam ainda mais complicadas quando Mark chega à conclusão de que o ciúme doentio de Henry em relação à mãe podem levar a um desenlace trágico e irreversível.

Dirigido burocraticamente por Joseph Ruben - um cineasta sem nada de espetacular no currículo mas razoavelmente capaz de manter o interesse do público menos exigente -, "O anjo malvado" carece principalmente de profundidade. Por mais que o roteiro tente acrescentar camadas psicanalíticas à personalidade do psicopata mirim vivido por Macaulay Culkin, tudo soa pasteurizado e preso às limitações daquilo que é, na verdade, um produto com ambições mais comerciais do que artísticas. O elenco adulto - cujo nome mais reconhecível é o de David Morse - pouco tem a fazer com os diálogos recheados de clichês e personagens sem nenhum desenvolvimento além do básico. É chocante, diante disso, descobrir que por trás deles está Ian McEwan, brilhante escritor britânico que faria sucesso anos depois com o sublime "Reparação": uma prova inconteste de que, em muitos casos, Hollywood sufoca grandes talentos para que melhor caibam em seus objetivos medíocres.

quarta-feira

MAMMA MIA! LÁ VAMOS NÓS DE NOVO


MAMMA MIA! LÁ VAMOS NÓS DE NOVO (Mamma Mia: Here we go again, 2018, Universal Pictures, 114min) Direção: Ol Parker. Roteiro: Ol Parker, estória de Richard Curtis, Ol Parker, Catherine Johnson, personagens de Catherine Johnson. Fotografia: Robert D. Yeoman. Montagem: Peter Lambert. Música: Benny Andersson, Anne Dudley, Bjorn Ulvaeus. Figurino: Michele Clapton. Direção de arte/cenários: Alan MacDonald/Anita Dujic. Produção executiva: Benny Andersson, Nicky Kentish Barnes, Richard Curtis, Tom Hanks, Phyllida Lloyd, Bjorn Ulvaeus, Rita Wilson. Produção: Claudia Balboa, Judy Craymer, Raphael Benoliel, Gary Goetzman, Anna Sofia Morck. Elenco: Amanda Seyfried, Pierce Brosnan, Lilly James, Stellan Skarsgaard, Colin Firth, Dominic Cooper, Meryl Streep, Julie Walters, Christine Baranski, Andy Garcia, Cher, Jeremy Irvine, Alexa Davies, Jessica Keenan Wynn, Hugh Skinner, Josh Dylan, Celia Imrie. Estreia: 20/7/2018

Quando surgiu a ideia - aparentemente estapafúrdia - de uma continuação do musical "Mamma Mia!",  pouca gente levava fé no projeto. Não apenas porque todo mundo sabia que seria quase impossível repetir o impressionante êxito do primeiro filme - que arrecadou assombrosos 700 milhões de dólares em sua carreira nos cinemas -, mas porque havia a dificuldade extra de encontrar-se um roteiro coerente com o desfecho do original e, mais ainda, de encaixar nele canções do ABBA não utilizadas no primeiro capítulo. Porém, nenhum desafio é grande o bastante para um estúdio em busca de um sucesso de bilheteria, e poucos repertórios são tão fortes quanto o do grupo sueco - em que até mesmo as músicas menos conhecidas são capazes de empolgar. Com isso, "Mamma Mia: lá vamos nós de novo" não chegou a surpreender quando, dez anos depois da estreia do primeiro filme, encerrou sua carreira nas salas de exibição com uma respeitável renda de 365 milhões - nada mal para uma produção sem efeitos visuais dispendiosos, super-heróis devidamente testados e aprovados e uma campanha de marketing maciça. Mesmo com a ousadia de abdicar da presença marcante de Meryl Streep - aqui apenas em uma rápida participação especial -, o filme do britânico Ol Parker é divertido o bastante para não fazer feio diante da memória afetiva das plateias. 

De certa forma aprisionados pelo final redondinho do primeiro filme - cujo desfecho não abria espaço para novos desdobramentos -, os roteiristas de "Mamma Mia: lá vamos nós de novo" (dentre os quais está o experiente Richard Curtis) encontraram uma solução interessante ao intercalar presente e passado: Sophie (Amanda Seyfried) está passando por dias conturbados, já que a reinauguração do hotel de sua mãe, Donna (Meryl Streep), morta há um ano, está ameaçado por questões naturais (uma tempestade que pode atrapalhar as festividades) e por situações mais prosaicas, como uma possível crise em seu relacionamento com Sky (Dominic Cooper) e a ausência de dois de seus pais afetivos, envolvidos em projetos profissionais. Enquanto lida com tais atribulações, nunca deixa de lembrar da encorajadora história de Donna, que em 1979 (e vivida por Lilly James), saiu de sua zona de conforto para realizar seu sonho de viajar pelo mundo - e de quebra, viveu uma surpreendente história de amor/desejo/paixão/liberdade com o romântico Harry (Hugh Skinner), o sexy Bill (Josh Dylan) e o misterioso Sam (Jeremy Irvine). Contando com a ajuda de Rosie (Julie Walters) e Tanya (Christine Baranski) - fiéis escudeiras de sua mãe - e com o apoio do novo gerente do hotel, o charmoso Fernando Cienfuegos (Andy Garcia), Sophie descobre que o legado de Donna é maior do que simplesmente a bela propriedade na Grécia... e até mesmo sua excêntrica avó reaparece, para sua surpresa.

 

Com uma direção mais ágil e segura do que a do primeiro filme - e apresentando coreografias mais elaboradas que tornam as canções ainda mais energéticas - "Mamma Mia: lá vamos nós de novo" faz uso inteligente de flashbacks, que disfarçam o fiapo de história e a falta de conflitos relevantes. Cientes de que o mais importante do projeto eram as músicas e as personagens amadas pelo público, os roteiristas se dedicaram a criar uma nova trama de acordo com a trilha sonora - e acertaram em cheio ao dar prioridade à juventude de Donna em detrimento aos pouco interessantes problemas sentimentais e profissionais de Sophie: mesmo que Amanda Seyfried seja talentosa o suficiente para sustentar uma produção (como já fez em outras ocasiões), sua personagem quase desaparece diante da energia de Lilly James - mesmo que elas não dividam nenhuma cena, por razões óbvias. Centro do filme, James tira de letra o desafio de dividir um papel com Meryl Streep - e sua química com o elenco jovem aponta o talento do diretor Ol Parker, em sua primeira grande produção, depois dos pouco ambiciosos "Imagine eu e você" (2005) e "Agora e para sempre" (2012): sem o objetivo de aprofundar um estilo ou aparecer mais do que a história que deseja contar, Parker oferece ao público duas horas de diversão escapista, leve e alto-astral, que em nada mancha o legado do filme original - cujos maiores atrativos eram, a rigor, a trilha sonora e a presença ensolarada e rara (em um musical) de Streep. Se há algo a reclamar é apenas o pouco tempo em cena dos veteranos do "Mamma Mia!" original - em especial as excelentes Julie Walters e Christine Baranski. Mas, em compensação, há a surpresa da presença da sempre luminosa Cher, aqui no papel da apoteótica (como não poderia deixar de ser) Ruby, a bissexta avó de Sophie.

"Mamma Mia: lá vamos nós de novo" cumpre o que promete. É divertido, é despretensioso e é, acima de tudo, uma ode à alegria, ao amor e à amizade. Não tem o frescor do primeiro filme - e nem o carisma de Meryl Streeep a não ser em poucos minutos, no final -, mas não deixa a peteca cair em termos de energia e honestidade. Para o seu público-alvo é uma festa: dançante, contagiante e sem contra-indicações. Não é uma obra-prima e nem mudou a história do cinema, mas é um filme conforto dos mais agradáveis - exceto para quem busca produções cabeça ou repletas de testosterona pura e simples.

 

terça-feira

MELINDA E MELINDA


MELINDA E MELINDA (Melinda and Melina, 2004, Fox Searchlight Pictures, 99min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Vilmos Zsigmond. Montagem,: Alisa Lepselter. Figurino: Judy Ruskin Howell. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/Regina Graves. Produção executiva: Stephen Tenenbaum. Produção: Letty Aronson. Elenco: Radha Mitchell, Chloe Sevigny, Jonny Lee Miller, Will Ferrell, Amanda Peet, Wallace Shawn, Brooke Smith, Steve Carrell, Chiwetel Ejiofor, Josh Brolin. Estreia: 17/9/2004 (Festival de San Sebastian)

A carreira de Woody Allen é repleta de altos e baixos. Para cada "Noivo neurótico, noiva nervosa" e "Crimes e pecados", ele entrega produções pouco memoráveis como "Trapaceiros" e "Dirigindo no escuro" - que, por mais simpáticas que sejam, estão longe de seu auge criativo. "Melinda e Melinda", lançado em 2004, infelizmente faz parte do rol de seus trabalhos menos brilhantes. Com um roteiro pouco inspirado (escrito em um mês) e um elenco de bons atores subaproveitados, seu 33° longa falha tanto no drama quanto na comédia - e sim, sua estrutura é totalmente baseada nessa dicotomia que é, a rigor, o centro da obra do cineasta nova-iorquino. Prejudicado ainda pela falta de carisma de Radha Mitchell - que substituiu Winona Ryder em um momento complicado junto aos investidores -, o filme foi solenemente ignorado pelas cerimônias de premiação e, apesar do potencial de sua ideia central, é frustrante e apático (o que raramente pode ser dito de uma produção do diretor).

Como em quase todos os filmes de Allen, "Melinda e Melinda" usa e abusa de diálogos rápidos, com personagens que transitam no sofisticado mundo cultural e social de sua filmografia - mas que aqui soa um tanto pedante, sem a autocrítica de seus melhores trabalhos. O ponto de partida da trama é uma discussão aparentemente banal a respeito da superioridade do drama em relação à comédia - talvez uma cutucada do cineasta quanto à sempre relevante polêmica que relega produções mais leves ao limbo das premiações e do prestígio da indústria. Max (Larry Pine) é um dramaturgo especializado em tragédias e seu amigo, Sy (Wallace Shawn), é famoso por suas comédias. Durante um jantar ao lado de outros amigos, surge a questão sobre qual dos gêneros teatrais melhor sintetiza a natureza humana. Como uma espécie de exercício de imaginação, Al conta ao grupo a história de Melinda Robicheaux (Radha Mitchell), uma mulher problemática que surge inesperadamente à porta de um casal de amigos durante um importante jantar de negócios. Separada do homem por quem terminou um casamento e com um histórico de tentativas de suicídio, Melinda transforma, mesmo involuntariamente, a vida daqueles que entram em seu caminho, e não é diferente em sua nova fase. 

 

A chegada de Melinda ao lar de Laurel (Chloe Sevigny) e Lee (Jonny Lee Miller) acontece durante um jantar oferecido a um produtor teatral que pode escalar o jovem para uma de suas próximas peças. Passando a morar com o casal, Melinda tenta firmar-se na vida procurando emprego e um novo amor - que pode surgir na figura do músico Ellis Moonsong (Chiwetel Ejiofor), caso a própria Laurel não se descubra interessada no rapaz. Em outra versão da história, Melinda interrompe o jantar de seus vizinhos Hobie (Will Ferrell) e Susan (Amanda Peet) - uma cineasta que busca investidores para seu novo filme, no qual ela espera poder empregar o marido. Passando por uma crise no casamento, Hobie se vê atraído por Melinda - que, por sua vez, vê no bem-sucedido Greg Earlinger (Josh Brolin) a última chance de uma vida relativamente normal. Enquanto a primeira Melinda tem sua história contada por um viés dramático, a segunda é apresentada com um tom de humor - ainda que bastante sutil.

O principal problema de "Melinda e Melinda" é sua incapacidade de criar qualquer tipo de empatia por sua personagem central - uma questão que mina completamente sua ambição de emocionar ou fazer rir. Apesar de escolhida pelo próprio Woody Allen depois de seu trabalho em "Ten tiny love stories" (2002), Radha Mitchell não encontra o tom certo em seu desempenho, não oferecendo diferenças entre a Melinda dramática e a cômica - mesmo contando com atores como Will Ferrell e Steve Carell, seu timing de comédia fica muito aquém do esperado, o que torna sua personagem apenas desinteressante e cansativa. Conhecido também por conceber personagens coadjuvantes marcantes - e frequentemente premiados ou indicados ao Oscar -, dessa vez Allen falhou em criar papéis fortes o bastante para sustentar uma história frágil por si só. Para sua sorte (e dos fãs), seu projeto seguinte seria o extraordinário "Match point: ponto final", que lhe devolveria o prestígio e o sucesso de seus melhores filmes.

 

segunda-feira

MORRA, SMOOCHY, MORRA


MORRA, SMOOCHY, MORRA (Death to Smoochy, 2002, Warner Bros/FilmFour, 109min) Direção: Danny DeVito. Roteiro: Adam Resnick. Fotografia: Anastas N. Michos. Montagem: Jon Poll. Música: David Newman. Figurino: Jane Ruhm. Direção de arte/cenários: Howard Cummings/Enrico Campana. Produção: Andrew Lazar, Peter Macgregor Scott. Elenco: Robin Williams, Edward Norton, Catherine Keener, Danny DeVito, Jon Stewart, Pam Ferris, Harvey Weinstein. Estreia: 28/02/2002

A carreira de Danny DeVito como diretor trai, sem sombra de dúvida, um apreço pelo lado sombrio da vida. Foi assim em sua estreia, "Joga a mamãe do trem" (1987), no sucesso "A guerra dos Roses" (1989), e até mesmo no infantil "Matilda" (1996) - sem falar na cinebiografia "Hoffa: um homem, uma lenda" (1992), onde falou sério pela primeira vez em sua trajetória como diretor. Tendo em vista seu currículo e sua tendência ao humor mórbido, portanto, não chega a ser surpresa que ele tenha assinado "Morra, Smoochy, morra", o inusitado encontro entre Robin Williams e Edward Norton que fracassou nas bilheterias e desconcertou boa parte da crítica. Uma mistura nem sempre eficiente entre comédia e suspense, o filme ensaia uma crítica à indústria do entretenimento infantil e à obsessão pela fama, mas falha em seu principal objetivo: conquistar o espectador. Por vezes exagerado e desnecessariamente confuso - e quase indeciso em sua mescla de gêneros, o filme de DeVito parte de uma premissa interessante e parece não saber exatamente o que fazer com ela. Para sua sorte, conta com o talento mais do que comprovado de seus atores centrais (especialmente Norton, raramente visto em comédias).

Tudo começa quando Randolph Smiley (Robin Williams), popular apresentador de um programa de televisão direcionado ao público infantil, é demitido graças a seu recém descoberto costume de aceitar suborno para privilegiar algumas crianças em detrimento de outras. Sua saída da programação abre espaço, então, para a chegada de Sheldon Mopes (Edward Norton), contratado para, com seu personagem Smoochy - um rinoceronte cor-de-rosa -, preencher o horário na programação. Idealista, ingênuo e bem-intencionado, Sheldon nem de longe imagina que, apesar das promessas da emissora, ele não passa de uma peça em uma vasta engrenagem comercial. Enquanto tenta transmitir mensagens positivas e educativas em seu programa, nos bastidores ele é visto apenas como objeto de marketing - algo que a executiva Nora Wells (Catherine Keener) tenta esconder a todo custo. Não bastasse tal ruído na comunicação, Sheldon passa a ser o alvo de Randolph, que, obcecado por ter sido substituído, arma diversas formas de acabar com seu rival - nem que seja através de assassinato.

 

Considerado o pior filme de 2002 pelo respeitado crítico Roger Ebert, "Morra, Smoochy, morra" é, realmente, uma produção bastante problemática. Nem mesmo Robin Williams - que ficou com o papel depois que Jim Carrey preferiu fazer o igualmente pouco celebrado "Cine Majestic" - é capaz de dar consistência a um roteiro indeciso, que impede o público de ter qualquer tipo de empatia por seus protagonistas - seja ele qual for. Danny DeVito, que já alcançou bons resultados em produções anteriores, aqui demonstra ter perdido a mão em suas tentativas de fazer rir de situações aparentemente dramáticas e/ou trágicas, entregando soluções pouco efetivas para os conflitos e apostando em um visual carregado de cores que contrastam com o tom escuro da trama.e causam mais estranhamento que admiração. É perceptível, no entanto, a entrega de Edward Norton a um personagem atípico em sua carreira: na pele do ingênuo Sheldon Mopes - cujo otimismo e positividade chegam a irritar ao mais feliz dos seres humanos -, o ator consegue destacar-se mesmo estando ao lado de um craque do humor como Williams. E Catherine Keener também surpreende, dando dignidade a uma personagem cujos objetivos e reais intenções estão sempre no limiar entre a honestidade e o cinismo.

Tornado cult com o passar do tempo - algo que normalmente acontece quando uma produção encontra um público disposto a abraçá-la a despeito (ou justamente por causa) de seus equívocos -, "Morra, Smoochy, morra" passou à história como um passo em falso no currículo de seus astros, acostumados ao sucesso e ao prestígio de boa parte de suas trajetórias. Pouco lembrado mesmo pelos maiores fãs de Williams e Norton, também machucou a carreira de Danny DeVito - que só voltaria à cadeira de diretor cinco anos mais tarde com "Duplex" - mais um exemplar de seu humor sombrio, mas dessa vez iluminado pelas presenças de Ben Stiller e Drew Barrymore. Uma comédia que não consegue sustentar a contento sua piada única, "Morra, Smoochy, morra" mergulha no camp - mas não é capaz de assumir completamente sua aura trash.

 

quarta-feira

BENNY & JOON: CORAÇÕES EM CONFLITO

 


BENNY & JOON: CORAÇÕES EM CONFLITO (Benny & Joon, 1993, Metro Goldwyn Mayer, 98min) Direção: Jeremiah S. Chechik. Roteiro: Barry Berman, estória de Barry Berman, Leslie McNeil. Fotografia: John Schwartzman. Montagem: Carol Littleton. Música: Rachel Portman. Figurino: Aggie Guerard Rodgers. Direção de arte/cenários: Neil Spisak/Barbara Munch. Produção executiva: Bill Badalato. Produção: Susan Arnold, Donna Roth. Elenco: Johnny Depp, Mary Stuart Masterson, Aidan Quinn, Julianne Moore, Oliver Platt, William H. Macy, CCH Pounder, Dan Hedaya, Joe Grifasi. Estreia: 16/4/93

No começo dos anos 1990 o nome de Johnny Depp já era sinônimo de excentricidade em Hollywood - em boa parte devido ao sucesso de sua performance em "Edward Mãos de Tesoura", dirigido por seu amigo Tim Burton. Por isso, não foi surpresa para ninguém quando ele foi escalado para interpretar um dos papéis centrais do drama romântico "Benny & Joon: corações em conflito": na pele do esquisitão Sam, fã de Chaplin e Buster Keaton, calado, semianalfabeto e dono de uma grande capacidade de amar, Depp confirmou sua persona dentro da indústria (que exploraria seu estilo em outras produções de relativo êxito) e foi, provavelmente, o maior responsável pelas críticas positivas do segundo filme do diretor Jeremiah Chechik. Sensível, honesta e despretensiosa, a história de amor entre duas pessoas à margem da sociedade - e a forma com que tal romance afeta as pessoas a sua volta - não chegou a fazer grande barulho nas bilheterias, mas tornou-se cult justamente pela presença do ator, particularmente inspirado em seu desempenho. Discreto em sua forma de suscitar emoções - e evitando a todo custo o melodrama barato -, "Benny & Joon" é um pequeno grande filme, que encontrou em Depp (e no resto do elenco) sua tradução perfeita.  

Ao contrário do que o subtítulo em português dá a entender, Benny e Joon não formam a dupla romântica central do filme. Benjamin e Juniper Pearl são, na verdade, irmãos, que vivem uma vida quase medíocre em uma pequena cidade de Washington. Ele (vivido por Aidan Quinn) é um mecânico solitário que abdicou de qualquer tipo de relacionamento amoroso para cuidar dela (interpretada por Mary Stuart Masterson) desde a morte de seus pais, em um acidente de carro. Juniper (ou Joon, como é conhecida pelos amigos e vizinhos) é uma jovem com deficiência intelectual - e dom para as artes - e exige do irmão, mesmo involuntariamente, dedicação quase absoluta. Depois do abandono de várias cuidadoras - incapazes de lidar com a inconstância de seu comportamento -, ela corre o sério risco de ser posta em um lar especializado quando um acontecimento inesperado muda os rumos de sua existência. Depois de perder em um jogo de cartas, Joon é obrigada por um amigo a abrigar em sua casa o estranho Sam (Johnny Depp) e, para sua surpresa - e de um atônito Benny - os dois acabam se apaixonando.

 

Projeto relativamente antigo da MGM, "Benny & Joon" quase teve, liderando seu elenco, a dupla de astros Tom Hanks e Julia Roberts (ainda que hoje seja difícil imaginá-los nos papéis). Depois de tentar também o então casal Tim Robbins e Susan Sarandon (outro par inusitado), as coisas pareciam finalmente ter entrado nos eixos com a escalação de Depp e sua namorada, Winona Ryder (começando uma trajetória ascendente em Hollywood). O fim do namoro acarretou na saída de Winona, que foi substituída por Laura Dern (recém saída de uma indicação ao Oscar por "As noites de Rose") ao mesmo tempo em que Woody Harrelson assumia o papel de Benny. Porém, tudo mudaria mais uma vez graças a dois acontecimentos fortuitos: Dern não gostou de saber que seu nome estaria em terceiro lugar nos créditos, e Harrelson foi convidado pela Paramount para ser o marido de Demi Moore em "Proposta indecente" (1993). Com Depp ainda firme no projeto, surgiram os nomes de Mary Stuart Masterson e Aidan Quinn, ambos promissores e, como mostra o resultado final, extremamente adequados aos personagens. Com a direção pouco invasiva de Chechik (em seu segundo longa-metragem) e um roteiro delicado e repleto de uma honestidade cativante, o filme acabou por agradar em cheio aos fãs de Depp - e, por consequência, a todos que procuravam escapar dos clichês do gênero.

A maior qualidade de "Benny & Joon" - além do elenco escalado com precisão - é o modo discreto com que Jeremiah Chechik conduz sua trama, sem pressa e com uma delicadeza surpreendente vinda de quem começou sua carreira no cinema com o pouco sutil "Férias frustradas de Natal" (1989) e que chegou a ser indicado a um Framboesa de Ouro pelo medonho "Os vingadores" (1999). Com um ritmo que leva o espectador a acompanhar vidas simples e personagens com sentimentos reais, o cineasta abraça o prosaico como forma de encantar.e emocionar (porém sem apelar para o sentimentalismo barato). E, se não bastasse tal cuidado, ainda há uma das primeiras aparições de Julianne Moore no cinema, como a garçonete e ex-atriz que se envolve com Benny a despeito de seus problemas familiares. Um motivo a mais para conhecer uma produção das mais simpáticas de seu tempo.

terça-feira

BOSSA NOVA


BOSSA NOVA (Bossa nova, 2000, Columbia Pictures, 95min) Direção: Bruno Barreto. Roteiro: Fernanda Young, Alexandre Machado, conto "A senhorita Simpson", de Sérgio Sant'Anna. Fotografia: Pascal Rabaud. Montagem: Ray Hubley. Música: Eumir Deodato. Figurino: Emilia Duncan. Direção de arte: Cassio Amarante. Produção executiva: Bruno Barreto. Produção: Lucy Barreto, Luiz Carlos Barreto. Elenco: Amy Irving, Antônio Fagundes, Deborah Bloch, Drica Moraes, Alexandre Borges, Pedro Cardoso, Giovanna Antonelli, Rogério Cardoso, Sérgio Loroza, Stephen Tobolowski, Alberto de Mendoza. Estreia: 21/02/2000 (Festival de Berlim)

"Bossa nova", a comédia romântica dirigida por Bruno Barreto, se passa em um universo particular. Um ecossistema próprio, dotado uma trilha sonora suave com canções de Tom Jobim (a quem o filme é devidamente dedicado), paisagens idílicas de um Rio de Janeiro idealizado e personagens cuja maior função na vida é amar e ser amado - mesmo que ainda não saibam disso. Baseado no conto "Senhorita Simpson", de Sérgio Sant'anna (e adaptado pelo casal Fernanda Young e Alexandre Machado, criadores da série "Os Normais"), o filme de Barreto marca seu retorno ao cinema nacional depois de uma tentativa malograda em ser abraçado por Hollywood (com o pouco visto "Entre o dever e a amizade") e, apesar de não apresentar nada de novo ao gênero e forçar uma estética quase pasteurizada, consegue conquistar o público com uma trama despretensiosa e agradável, valorizada por um elenco de peso liderado por sua então mulher, Amy Irving. Leve, romântico e francamente ingênuo - com tudo que isso tem de positivo e negativo -, "Bossa nova" foge da tendência do cinema brasileiro da época de explorar o regionalismo (em produções como "O auto da Compadecida", "Eu, tu, eles" e "Tainá: uma aventura na Amazônia") e não tem medo de apelar para o escapismo.

O centro do roteiro - que aposta em diálogos rápidos e uma estrutura, em seus melhores momentos, de uma comédia de erros - é a solitária Mary Ann Simpson (Amy Irving), viúva americana que mora no Rio de Janeiro e vive de ensinar inglês para brasileiros interessados (pelos mais diversos motivos) em aprender a se comunicar no idioma. Sua amiga Nadine (Drica Moraes) precisa saber a língua para uma melhor relação com um namorado estrangeiro, a quem nunca viu pessoalmente mas acredita ser um artista plástico do SoHo. O jogador de futebol Acácio (Alexandre Borges) acaba de ser contratado por um time inglês e quer aprender a xingar (e seduzir) na língua de Shakespeare. E o advogado Pedro Paulo (Antonio Fagundes), ainda sem aceitar o fim do casamento com Tania (Deborah Bloch), está mais interessado na própria professora do que em novos conhecimentos - e não mede esforços para conquistá-la. Enquanto isso, seu meio-irmão, Roberto (Pedro Cardoso), cai de amores por sua estagiária, Sharon (Giovanna Antonelli), que, por sua vez, se sente atraída por Acácio quando ele procura o escritório para tratar de seu novo contrato.

 


Com uma narrativa simples que faz uso das paisagens naturais do Rio de Janeiro - fotografadas com destreza pelo francês Pascal Rabaud - como elemento dramático crucial, "Bossa nova" é assumidamente uma declaração de amor à cidade que lhe serve de cenário, assim como se mostra apaixonado pelo ritmo que lhe dá nome. Emoldurada pelas canções de Tom Jobim, a história de amor entre Mary Ann e Pedro Paulo se mostra plácida, envolvente e delicada como a obra do compositor - e se beneficia do carisma e do talento de seus intérpretes. Se Amy Irving serve como musa inspiradora do diretor e catalisadora de todo o quiproquó que a envolve, o charme maduro de Antonio Fagundes surge como a tradicional figura do galã maduro - status que não o impede de demonstrar um talento já devidamente consagrado. No elenco coadjuvante, Drica Moraes e Deborah Bloch brilham com um timing cômico impecável, que valoriza cada linha de diálogo, e é uma pena que o ótimo Pedro Cardoso seja tão pouco explorado: sua história de amor não correspondido pela bela Sharon é, talvez, a mais romântica de um roteiro que privilegia o humor (provavelmente pelo currículo de Young e Machado, sempre sagazes em suas observações sobre a natureza humana). Não deixa de ser irônico, no entanto, que a direção de Bruno Barreto seja mais interessante quando se volta ao amor do que ao riso - apesar de engraçadas, as situações propostas soam mais como um especial de televisão do que como cinema.

Visualmente atraente, delicadamente amoroso e engraçado como a melhor das comédias românticas, "Bossa nova" é o programa ideal para os fãs do gênero, ainda que nem sempre atinja todo o seu potencial. Tecnicamente impecável e dotado de uma honestidade encantadora, é uma prova (mais uma) das possibilidades infinitas do cinema nacional - ainda que sua estética seja mais próxima de Hollywood do que das produções brasileiras clássicas. Apesar de suas inegáveis qualidades, é impossível não ficar com a impressão de que se trata de um filme brasileiro para gringo ver - mas, em sua defesa, é uma propaganda sensível de uma das mais belas cidades do mundo. E talvez isso seja o suficiente para o público que deseja apenas desligar-se dos problemas enquanto assiste a uma bela história de amor.

segunda-feira

WALL STREET: PODER E COBIÇA

 


WALL STREET: PODER E COBIÇA (Wall Street, 1987, 20th Century Fox, 126min) Direção: Oliver Stone. Roteiro: Oliver Stone, Stanley Weiser. Fotografia: Robert Richardson. Montagem: Claire Simpson. Música: Stewart Copeland. Figurino: Ellen Mirojnick. Direção de arte/cenários: Stephen Hendrickson/Leslie Bloom, Susan Bode. Produção: Edward R. Pressman. Elenco: Michael Douglas, Charlie Sheen, Daryl Hannah, Martin Sheen, Hal Holbrook, Sean Young. Estreia: 11/12/87

Vencedor do Oscar de Melhor Ator (Michael Douglas)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator/Drama (Michael Douglas)

Logo depois de ter feito a festa na cerimônia do Oscar 1987 com seu "Platoon", que recebeu as estatuetas de melhor filme e diretor - além de outros prêmios técnicos -, Oliver Stone resolveu voltar suas lentes para um outro tipo de batalha, menos sangrento mas igualmente nocivo. Das selvas do Vietnã ao centro nervoso do mercado financeiro dos EUA, o polêmico cineasta fez uma longa viagem, mas não abandonou seu olhar aguçado e crítico. "Wall Street: poder e cobiça" pode não ter causado o mesmo impacto popular do filme anterior de Stone, mas mostrou a seus detratores que nem só de controvérsias era feita sua carreira, deu a Michael Douglas o Oscar de melhor ator e rendeu um personagem icônico (que voltou às telas em 2010, em uma sequência inesperada), dono de uma das frases mais memoráveis do cinema (a famigerada "greed is good"). Dedicado ao pai de Stone, corretor na bolsa de valores durante a Depressão, e inspirado em escândalos com títulos de alto risco e informações privilegiadas dos anos 1980, "Wall Street" estreou no auge do conservador governo Reagan, e com sua feroz crítica ao capitalismo e à ganância desenfreada, tornou-se um dos retratos mais fiéis de um período centrado no hedonismo e nos excessos de todos os tipos. Filmado às pressas para escapar de uma então iminente greve de diretores e - segundo o cineasta - lançado com pouco caso por seu estúdio (a 20th Century Fox), que preferiu apostar suas fichas em "Nos bastidores da notícia", "Wall Street" acabou rindo por último: enquanto a comédia dramática de James L. Brooks não conseguiu converter nenhuma de suas sete indicações ao Oscar, o filme de Oliver Stone saiu da cerimônia com a única estatueta a que havia sido indicada.

"Wall Street" se passa na primeira metade da década de 1980 e acompanha o caminho do jovem Bud Fox (Charlie Sheen), que trabalha como corretor na bolsa de valores de Nova York e tem como principal objetivo na vida chegar ao topo da pirâmide financeira e social. Disposto a qualquer artimanha para alcançar suas metas pessoais, ele trabalha incansavelmente para conquistar a atenção de um dos maiores especuladores do país, o ganancioso Gordon Gekko (Michael Douglas). Conhecido no mercado por seus métodos pouco ortodoxos (quando não criminosos), Gekko acaba por colocar Fox sob suas asas e, com o tempo, a explorar suas informações privilegiadas para obter vantagens. Mergulhado em um mundo sofisticado que contrasta com sua vida até então de poucos recursos, Fox passa a conviver com gente como a decoradora Darien (Daryl Hannah) - com quem se envolve romanticamente - e uma série de outros tubarões pouco afeitos à ética. Conforme vai subindo na vida, porém, o jovem vai se distanciando do universo classe média de seu pai, Carl (Martin Sheen), funcionário de uma empresa de aviação comercial que, devido às maquinações de Gekko, entra no caminho da falência.

Apesar de hoje em dia Michael Douglas ser considerado o intérprete ideal de Gordon Gekko - com uma atuação antológico que marcou definitivamente sua carreira -, seu nome não foi o primeiro a ser pensado para o papel (inclusive havia o temor, que mostrou-se infundado, de que ele poderia, devido a sua experiência como produtor premiado, tentar interferir nos bastidores). Antes que Douglas assumisse o desafio, astros consagrados como Al Pacino, Jack Nicholson, Robert DeNiro e Warren Beatty estiveram na mira de Stone (que pensou até mesmo em Richard Gere, conhecido mais como galã do que por seus dotes de ator sério). A escolha de Douglas, no entanto, foi o tiro mais certo da produção: até então mais respeitado como produtor (vencedor do Oscar por "Um estranho no ninho", de 1975), astro de produções comerciais como "Tudo por uma esmeralda" (1984) e "A joia do Nilo" (1985) e filho de Kirk Douglas, Michael aproveita cada momento em cena para demonstrar uma persona radicalmente oposta àquela que, no mesmo ano, havia oferecido às plateias como o adúltero atormentado pela ex-amante no sucesso "Atração fatal" - filmado concomitantemente e indicado a seis Oscar: cínico, amoral e por vezes cruel, Gordon Gekko encontrou nele sua mais perfeita tradução, a ponto de eclipsar o verdadeiro protagonista do filme, o jovem Bud Fox, cujo pacto mefistofélico é a base da narrativa e a fonte da moral da história - interpretado por um jovem Charlie Sheen, que ficou com um papel ambicionado por um então ascendente Tom Cruise.

Antes de consagrar-se com o papel principal de "Nascido em 4 de julho" (1989), também dirigido por Oliver Stone, Cruise demonstrou interesse em interpretar Bud Fox, mas acabou preterido por Charlie Sheen, cuja rigidez juvenil serviu como uma luva para as intenções do roteiro em retratar o personagem como alguém preso entre a ambição de tornar-se um milionário do mundo das finanças e os valores ensinados por seu pai sindicalista e de rígida moral (vivido pelo pai de Charlie, o veterano Martin Sheen). Mas se Charlie foi capaz de utilizar-se de sua quase inexperiência para atingir o objetivo de Stone o mesmo não pode ser dito de parte do elenco escolhido pelo cineasta (e que deu origem a dores de cabeça nos bastidores): tanto Daryl Hannah quanto Sean Young foram alvos de severas (e justas) críticas por parte da imprensa, que percebeu em ambas uma sensação de insegurança e deslocamento a ponto de terem suas cenas diminuídas na montagem final. Young - conhecida por ser de difícil convivência e pouco respeitada como atriz - queria o papel de Hannah e nunca fez questão de esconder seu desejo, tornando as filmagens um campo de batalha silencioso e tenso: sua relação difícil com Charlie Sheen não deixou as coisas melhores e seu comportamento pouco profissional acabou por eliminar uma trama paralela que ampliaria a importância de sua personagem. Não é de admirar, portanto, o quão pouco desenvolvidos são os papéis femininos na trama.

Um dos filmes mais representativos da sociedade dos EUA da era Reagan, "Wall Street: poder e cobiça" não foi exatamente um sucesso popular, mas revelou em Oliver Stone um cineasta atento à sua época e inteligente na forma de explorar as ferramentas narrativas a seu dispor - é brilhante, por exemplo, o modo como utiliza a fotografia para estabelecer a diferença de ritmo e intenções quando retrata a quase violência da bolsa de valores (na pele de Fox e seus colegas) e a serenidade do caráter incorruptível de Carl. Parte de um período prolífico e elogiado na carreira do diretor, o filme rendeu a única continuação em seu currículo - e apesar do tema difícil e pouco atraente, é um ponto alto em sua filmografia.

quinta-feira

A GAIOLA DAS LOUCAS

 


A GAIOLA DAS LOUCAS (The Birdcage, 1996, United Artists, 117min) Direção: Mike Nichols. Roteiro: Elaine May, original de Francis Veber, Édouard Molinaro, Marcello Danon, Jean Poiret, peça teatral "La cage aux folles", de Jean Poiret. Fotografia: Emmanuel Lubezki. Montagem: Arthur Schmidt. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Bo Welch/Cheryl Carasik. Produção executiva: Marcello Danon, Nil Machlis. Produção: Mike Nichols. Elenco: Robin Williams, Nathan Lane, Gene Hackman, Dianne Wiest, Hank Azaria, Christine Baranski, Dan Futterman, Calista Flockhart. Estreia: 08/3/96

Indicado ao Oscar de Direção de Arte/Cenários

Um dos filmes franceses de maior sucesso dentro no normalmente hermético mercado norte-americano, "A gaiola das loucas", lançado em 1978, não apenas conquistou a plateia e a crítica, mas também chegou a ser indicado a três Oscar - incluindo melhor roteiro adaptado e direção (Édouard Molinaro). Não demorou, portanto, para que Hollywood pensasse em uma versão doméstica, sem legendas que afugentassem o público médio e que apresentasse a trama (baseada em uma peça teatral de Jean Poiret) para uma nova audiência. Porém, depois de uma tentativa frustrada ainda nos anos 1980 - que poderia ter sido estrelada pela inusitada dupla Dudley Moore e Frank Sinatra (!!) -, o projeto ficou no limbo até a década seguinte, quando finalmente encontrou o caminho para as telas com um elenco sob medida e um tom moderno que, para surpresa de muitos, corrigiu alguns erros do original (amenizando alguns estereótipos exagerados) e revelou o talento de Nathan Lane, até então relegado a pequenos papéis em filmes nem sempre memoráveis. Indicado ao Golden Globe de melhor ator, Lane consegue o quase impensável: roubar a cena em uma comédia contracenando com o furacão Robin Williams.

Já consagrado no teatro mas sem um grande sucesso para chamar de seu, Nathan Lane agarrou com unhas e dentes a chance oferecida pelo veterano Mike Nichols (incentivado pelo sempre generoso Robin Williams), e só não engole tudo a sua volta porque a seu lado estão nomes como Williams, Gene Hackman e Dianne Wiest, todos conhecidos por seu talento em brilhar não importa o tamanho de seus papéis. Nichols - respeitado por sua capacidade de transitar entre diversos gêneros - dirige a todos com a elegância habitual e extrai o melhor de cada um, criando uma estrutura cômica irresistível, com piadas que fazem rir não apenas o público gay (com referências ao universo homossexual) mas também plateias mais tradicionais. Não à toa, o filme arrecadou mais de 180 milhões de dólares no mercado internacional - um feito e tanto quando se sabe o quão hermético ao tema é o público médio. Em parte devido à presença de Williams, em parte devido ao êxito do filme francês, "A gaiola das loucas" surpreendeu até mesmo o estúdio (a United Artists) - e provou que, nas mãos certas e com respeito ao material original, um remake pode acrescentar camadas antes não percebidas (e eliminar problemas, especialmente para audiências mais suscetíveis).



A trama do filme quase todo mundo já conhece, de uma forma ou outra: Gaiola das Loucas é uma boate de drag queens localizada em South Beach. Seu proprietário é Armand Goldman (Robin Williams), que é casado com a principal atração do local, o transformista Albert (Nathan Lane) - que se apresenta com o nome artístico de Starina e é admirado por todos os frequentadores. A rotina relativamente tranquila do casal (que inclui crises nervosas de Albert a qualquer contrariedade) é abalada quando Val (Dan Futterman) - filho de uma aventura casual de Armand na juventude - surge com a notícia de que irá se casar com a delicada Barbara (Calista Flockhart), filha de um senador cujas posições extremamente conservadoras batem de frente com o estilo de vida de seus futuros sogros. A notícia cai como uma bomba no pouco tradicional lar, mas as coisas ficam ainda piores quando Val pede aos pais que aceitem fingir uma falsa normalidade em um jantar para o encontro das duas famílias. Para isso, Albert precisa sair de cena - e ser substituído pela mãe do rapaz, Katherine (Christine Baranski) - e todos os detalhes da casa considerados "gay demais" (ou seja, todos) precisam ser escondidos, incluindo o empregado, Agador Spartacus (Hank Azaria), que sonha com sua chance na boate dos patrões. A situação, caótica por si própria, se complica quando o Senador Kevin Keeley (Gene Hackman) se vê envolvido involuntariamente em uma polêmica relacionada ao partido e passa a ser perseguido pela imprensa. O jantar - que já prometia ser um desastre - se completa quando, na ausência de Katherine, Albert assume o papel de matriarca da família.

Uma comédia de erros das mais felizes, "A gaiola das loucas" versão americana se beneficia do calor das praias de South Beach para acrescentar uma energia solar que talvez falte no original francês. Se Nathan Lane dá seu show particular em cada aparição - a sequência em que tenta caminhar de modo viril, como John Wayne, é um primor -, seu parceiro de cena também não decepciona: ao optar por viver o menos espalhafatoso Armand (que a princípio seria interpretado por Steve Martin), um dos atores mais populares de sua geração (e também dos mais ocupados na metade da década de 1990) abre espaço para o brilho de seus colegas de cena e mesmo assim chama a atenção com um desempenho que explora seu dom para o humor popular. Gene Hackman, por sua vez, surpreende ao entregar uma atuação que rompe com sua persona sisuda e consagrada junto ao grande público - sua última cena é, sem dúvida, um dos grandes momentos da comédia americana moderna. Ao atualizar e melhorar um clássico contemporâneo (sem perder sua essência e seu senso de humor sagaz e irônico), o filme de Mike Nichols mereceu o enorme sucesso de bilheteria - e, caso raro em se tratando de remakes, conquistou inclusive a crítica, sendo indicado aos Golden Globes de melhor comédia e melhor ator e saindo vencedor de melhor elenco na cerimônia do Screen Actors Guild, batendo nada menos que "O paciente inglês", grande vencedor do Oscar em sua temporada. Não é pouca coisa!

quarta-feira

O ÂNCORA: A LENDA DE RON BURGUNDY

 


O ÂNCORA: A LENDA DE RON BURGUNDY (Anchorman: the legend of Ron Burgundy, 2004, DreamWorks Pictures/Apatow Productions, 94min) Direção: Adam McKay. Roteiro: Adam McKay, Will Ferrell. Fotografia: Thomas E. Ackerman. Montagem: Brent White. Música: Alex Wurman. Figurino: Debra McGuire. Direção de arte/cenários: Clayton R. Hartley/Jan Pascale. Produção executiva: Shauna Robertson, David O. Russell. Produção: Judd Apatow. Elenco: Will Ferrell, Christina Applegate, Paul Rudd, Steve Carell, David Koechner, Fred Willard, Seth Rogen, Vince Vaughn, Ben Stiller, Owen Wilson, Kathryn Hahn, Jack Black, Tim Robbins. Estreia: 28/6/2004

Na segunda metade da década de 1970 nenhum jornalista era mais importante e prestigiado em San Diego do que Ron Burgundy, âncora do programa de maior audiência da televisão regional, admirado pelo público e desejado pelas mulheres. Em uma emissora dominada por uma mentalidade machista, ele era o símbolo máximo de uma sociedade ainda impermeável às conquistas profissionais femininas. Porém, seu poder considerado definitivo sofreu um baque violento com a chegada de Veronica Corningstone, uma repórter dedicada e ambiciosa da Carolina do Norte, decidida a buscar seu lugar ao sol como o primeiro nome do telejornal. A disputa entre os dois - e o inesperado romance entre eles - movimentou os bastidores do telejornalismo da época, e precipitou a ascensão das mulheres no mercado de notícias televisivas. Uma história empolgante - mas que existiu apenas nas mentes dos roteiristas Will Ferrell e Adam McKay, responsáveis por "O âncora: a lenda de Ron Burgundy", uma comédia despretensiosa que, depois de ter sido esnobada diversas vezes pelo estúdio (a DreamWorks), surpreendeu ao ultrapassar a marca de 80 milhões de dólares de arrecadação somente no mercado doméstico (EUA e Canadá) e tornar-se cult por parte do público a ponto de render uma continuação, lançada mais dez anos depois. Com um humor que beira o ofensivo e flerta abertamente com a estupidez, o filme é ideal para quem gosta de rir sem precisar ligar o cérebro - mas, paradoxalmente, faz um crítica sagaz ao machismo e à indústria do jornalismo televisivo.

Com um elenco que é praticamente um quem é quem do humor norte-americano do começo dos anos 2000 - incluindo um Steve Carrel pré-estrelato - e participações especiais de nomes como Tim Robbins, Jack Black e Ben Stiller, "O âncora" parte de uma estrutura clássica narrativa para permitir a seus atores todo tipo de improviso, ampliando consideravelmente seu tom debochado e anárquico. Will Ferrell - também um dos autores do roteiro - deita e rola com um personagem sob medida para seu humor histriônico, que a tantos agrada e a muitos outros repele, e encontra no carisma de Christina Applegate um equilíbrio muito bem-vindo. Juntos em cena, os dois ilustram com perfeição o casamento entre a comédia rasgada e um romantismo que, por mais distorcido que seja, ameniza os exageros de uma produção que não tem medo de ir fundo na palhaçada e não poupa nada nem ninguém. Adam McKay - que pouco mais de uma década depois levaria um Oscar de roteiro por "A grande aposta" (2015), que também lhe renderia uma indicação à estatueta de direção - demonstra segurança ao comandar o que poderia facilmente transformar-se em um absoluto caos: com atores craques no improviso, ele mantém uma surpreendente coesão no desenvolvimento da narrativa mesmo diante de situações propensas ao bizarro.



Se Ron Burgundy é o retrato perfeito do líder de um universo falocêntrico e egoísta, seu séquito de colaboradores/admiradores/amigos não fica atrás - e é um grande mérito que seus intérpretes tenham sido tão bem escalados. Paul Rudd vive Brian Fantana, um repórter de campo mulherengo e que considera irresistíveis suas qualidades físicas e suas táticas amorosas; Steve Carell dá vida a Brick Tamland, o responsável pela divulgação da previsão de tempo e com o raciocínio lento além da conta; e David Koechner é o ator ideal para criar Champion Kind, especialista em esportes e dono de um talento natural para a grosseria. Agindo como uma gangue de adolescentes rebeldes, o grupo não apenas é uma metralhadora giratória de absurdos verbais como também volta e meia se envolve em brigas físicas com o time da emissora rival, liderado por Wes Mantooth (Vince Vaughn), cuja principal ameaça é fisgar o primeiro lugar na audiência. Quando Veronica entra em cena, conquistá-la (e impedi-la de chegar à bancada do telejornal) passa a ser o objetivo principal de todos - e nem mesmo a aparentemente dócil forasteira parece imune a tal desejo. A forma com que McKay e Ferrell demonstram tais anseios (através de momentos que brincam até mesmo com filmes musicais e melodramas) é o que faz de "O âncora" uma pérola: é difícil não se deixar conquistar por pelo menos uma das táticas do roteiro, que abrange todos os tipos de comédia sem cair na falta de foco ou ritmo.

Apesar de ser engraçadíssimo e apresentar um elenco impecável, "O âncora" não chega a ser uma unanimidade. Seu humor pouco sutil pode não agradar a quem busca comédias sofisticadas ou menos explícitas - apesar de o roteiro apresentar nuances raras no típico besteirol americano -, e Will Ferrell, apesar de seu talento cômico preciso, não é exatamente um astro muito popular fora dos Estados Unidos. Mas o filme de McKay é a demonstração, além de qualquer dúvida, de que é possível fazer rir equilibrando inteligência, sarcasmo e um pouquinho de escatologia. Pena que demorou dez anos para que ganhasse um segundo - e igualmente divertido - segundo capítulo.

terça-feira

INOCÊNCIA


INOCÊNCIA (Inocência, 1983, Embrafilme/Luis Carlos Barreto Produções Cinematográficas, 118min) Direção: Walter Lima Jr.. Roteiro: Walter Lima Jr., adaptação de Lima Barreto, romance de Visconde de Taunay. Fotografia: Pedro Farkas. Montagem: Raimundo Higino. Música: Wagner Tiso. Figurino: Diana Eichbauer. Direção de arte/cenários: Carlos Liuzzi. Produção: Lucy Barreto, Luiz Carlos Barreto. Elenco: Fernanda Torres, Edson Celulari, Sebastião Vasconcellos, Ricardo Zambelli, Fernando Torres, Rainer Rudolph, Chico Diaz, Chica Xavier, Jorge Fino. Estreia: 23/6/83

Publicado em 1872 como parte do Regionalismo brasileiro - uma escola literária posterior ao Romantismo e anterior ao Naturalismo -, o romance "Inocência" interessou ao cinema nacional desde o começo do século XX, com uma versão muda (dirigida pelo ítalo-brasileiro Vittorio Capellaro). Em 1949 ganhou uma nova adaptação, sob a direção de Luiz e Fernando de Barros (estrelada por Maria Della Costa e Sadi Cabral), mas foi somente em 1983 que o livro, escrito pelo Visconde de Taunay, parece ter encontrado sua forma cinematográfica definitiva. Com o lirismo do diretor Walter Lima Jr. a serviço de uma história de amor trágica e delicada, uma bela trilha sonora de Wagner Tiso e a escolha certeira de Fernanda Torres para o papel-título (em sua estreia no cinema), "Inocência" acabou por tornar-se uma das produções nacionais mais elogiadas dos anos 1980, saindo do Festival de Brasília com dois prêmios (direção e ator coadjuvante) e conquistando fãs por seu capricho técnico e artístico. Com base em uma adaptação feita pelo cineasta Lima Barreto, o roteiro de Lima Jr. encontra na fidelidade à obra original o caminho para o coração do espectador.

Em uma estrada do interior do Mato Grosso do século XIX, o jovem médico Cirino (Edson Celulari) se encontra com o fazendeiro Martinho Pereira (Sebastião Vasconcelos) e se oferece para, com seus conhecimentos profissionais, tratar da malária da filha do novo amigo. Inocência (Fernanda Torres) está há dias enferma, e assim que começa a melhorar - graças ao tratamento do desconhecido - chama a atenção do visitante, encantado por sua beleza e pela pureza de seus modos. Educada com rigidez pelo pai e prometida em casamento a Manecão (Ricardo Zambelli), amigo da família, Inocência é tida como uma princesa presa em uma redoma, a única mulher (além da empregada da casa) em um universo masculino e patriarcal, onde honra manchada se lava com sangue e as regras são todas ditadas pelos homens. O amor nascente entre ela e Cirino, portanto, surge como um potencial desafio ao status quo - já abalado por outra presença masculina, a do zoólogo alemão Meyer (Rainer Rudolph), deslumbrado pela adolescente.


 

Considerado um marco do Regionalismo, o livro de Taunay retrata com fidelidade os costumes típicos do mundo rural e as idiossincrasias de seu universo, apesar de contar com elementos também do Romantismo e do Realismo. O roteiro do diretor não abre mão de tais detalhes, utilizando-os como matéria-prima para uma trama que não se concentra apenas em uma história de amor proibido mas também como o desenho de uma época e de uma mentalidade próprias. Se Inocência parece servir apenas como um objeto - de desejo, de posse, de admiração platônica, de representação simbólica de um estado de coisas que não deve ser alterado -, a masculinidade tóxica a seu redor se desdobra em tentar, por quaisquer meios, impor sua pretensa superioridade. Não é surpresa que Inocência, criada em meio a um ambiente hostil no qual ela só tinha a opção de aceitar o que lhe era forçado, se apaixone por Cirino, um homem estudado, gentil e de modos delicados que contrastam com a bestialidade do pai, do noivo e até do anão mudo que lhe vigia dia e noite. Também não chega a surpreender que sua rebeldia romântica seja o gatilho de sua tragédia - filmada com a sutileza característica de Walter Lima Jr., sem pressa e repleta da poesia visual da câmera de Pedro Farkas, que explora a beleza juvenil e pálida de Fernanda Torres como se fosse uma estátua grega, inalcançável e fadada à desgraça. 

E Fernanda, no auge da juventude - 17 anos à época da estreia do filme - já demonstra, em seu primeiro papel no cinema, a potência dramática que faria dela uma das maiores atrizes de sua geração. Ainda que quase silenciosa, sua Inocência é força motriz do filme, a catalisadora da trama - e seu trabalho encontra apoio no ótimo desempenho de Sebastião Vasconcelos e na elegância de Edson Celulari, dois extremos que sintetizam com eficiência a dicotomia crucial do romance de Taunay. Mesmo sem ousar na forma - a narrativa é simples e linear -, "Inocência" cumpre o que promete e entrega ao espectador uma história de amor à moda antiga, que respeita o material original e o engrandece com escolhas artísticas certeiras.

segunda-feira

ANTES QUE O DIABO SAIBA QUE VOCÊ ESTÁ MORTO

 


ANTES QUE O DIABO SAIBA QUE VOCÊ ESTÁ MORTO (Before the devil knows you're dead, 2007,  Capitol Films/Funky Buddha Productions/Unity Productions, 117min) Direção: Sidney Lumet. Roteiro: Kelly Masterson. Fotografia: Ron Fortunato. Montagem: Tom Swartwout. Música: Carter Burwell. Figurino: Tina Nigro. Direção de arte/cenários: Christopher Nowak/Diane Lederman. Produção executiva: Belle Avery, Jane Barclay, David Bergstein, J. J. Hoffman, Eli Klein, Hannah Leader, Jeffry Melnick, Sam Zaharis. Produção: Michael Cerenzie, William S. Gilmore, Brian Linse, Paul Parmar. Elenco: Phillip Seymour Hoffman, Ethan Hawke, Marisa Tomei, Albert Finney, Rosemary Harris, Amy Ryan, Michael Shannon. Estreia: 07/9/2007 (Deauville Festival of American Cinema)

No mínimo desde "12 homens e uma sentença" (1957) - passando por clássicos absolutos como "Serpico" (1973), "Um dia de cão" (1975) e "Rede de intrigas" (1976) -, o cineasta Sidney Lumet acostumou-se a entregar ao público produções que apresentavam personagens dúbios, falíveis e dispostos a correrem riscos em nomes de objetivos quase sempre suicidas. Depois de um longo período de obras menores e/ou sem repercussão popular e de crítica, ele voltou a seu tema preferido em "Antes que o diabo saiba que você está morto", uma poderosa mescla de filme policial e drama familiar que acabou por ser, sem que ele mesmo soubesse disso, seu canto do cisne. Dirigindo com precisão cirúrgica o trágico e surpreendente primeiro roteiro de Kelly Masterson, o veterano Lumet demonstra uma vitalidade rara para um artista octogenário, mantendo o espectador atento a cada reviravolta e cada nuance revelada por seus protagonistas. E é lógico que ajuda muito contar, no elenco, com atores brilhantes como Philip Seymour Hoffman, Ethan Hawke e Albert Finney - em uma de suas últimas aparições nas telas.

Com ecos de Shakespeare em sua trama - imprevisível e pessimista -, "Antes que o diabo saiba que você está morto" apresenta dois irmãos de personalidades opostas que se unem para cometer um crime aparentemente perfeito: o roubo a uma joalheria familiar em uma manhã de pouco movimento. Andy (Philip Seymour Hoffman) está em vias de ter descoberto o desfalque que deu na empresa onde trabalha, enquanto Hank (Ethan Hawke) vive sob a pressão de dever a pensão para a ex-mulher ao mesmo tempo em que se culpa por não conseguir ser o filho que seu pai, Charles (Albert Finney), sonhava ter. Com o fracasso do assalto - que acaba em duas mortes - a vida da família vira do avesso: chantageados pelo irmão de uma das vítimas (que sabe de sua responsabilidade na tragédia), Andy e Hank entram em um caminho de sangue, violência e traições, que envolve Gina (Marisa Tomei) - esposa de um e amante do outro - e o próprio patriarca.

 

Contada de forma não linear, recheada de idas e vindas no tempo que servem para oferecer ao público as peças que formam seu quebra-cabeças, a trama do filme de Lumet se utiliza de tal artifício não como muleta narrativa, mas como parte fundamental de sua estrutura. Conforme novas informações a respeito dos acontecimentos que levaram ao crime - e suas consequências - vão surgindo diante do espectador, mais potentes as camadas vão se revelando, reafirmando o tom fatalista da expressão irlandesa que empresta o nome à produção. As surpresas reservadas a cada capítulo - com uma edição primorosa, que explicita apenas o que é necessário no momento - tornam "Antes que o diabo saiba que você está morto" um drama policial que rompe com as tradicionais engrenagens do gênero, aprofundando as relações interpessoais até o limite da inevitável ruptura. Com três focos distintos - Andy, Hank e Charles - que se intercalam e se completam, o roteiro de Kelly Masterson empolga exatamente por sua capacidade de surpreender e por sua coragem em chegar a desdobramentos que a maioria das produções do gênero evita a todo custo. E não atrapalha em nada que Lumet possa contar com um elenco absolutamente impecável.

Assim como seus personagens, Philip Seymour Hoffman e Ethan Hawke são atores de personalidades distintas, e o experiente cineasta explora com precisão tais diferenças, em cenas de crescente tensão que enfatizam suas qualidades como intérpretes e potencializam cada linha de diálogo. O veterano Albert Finney tampouco fica atrás, com ao menos duas sequências arrepiantes - uma delas encerrando de forma chocante o drama familiar estabelecido nos primeiros minutos. E em um elenco tão incrível, o único senão é o pouco aproveitamento de Rosemary Harris e Amy Ryan - partes femininas de um clã onde apenas Marisa Tomei tem reais chances de brilhar. Forte e coeso, o conjunto de atores (premiado por várias associações de críticos) é a tradução perfeita de um roteiro inteligente, uma direção energética e, o que é mais importante de tudo, uma história envolvente. Um adeus digno da grandeza de seu diretor.

quinta-feira

ETERNAMENTE JOVEM

 


ETERNAMENTE JOVEM (Forever young, 1992, Warner Bros/Icon Productions, 102min) Direção: Steve Miner. Roteiro: J. J. Abrams. Fotografia: Russell Boyd. Montagem: Jon Poll. Música: Jerry Goldsmith. Figurino: Aggue Guerard Rodgers. Direção de arte/cenários: Gregg Fonseca/Jay Hart, Jan Pascale. Produção executiva: J. J. Abrams, Edward S. Feldman. Produção: Bruce Davey. Elenco: Mel Gibson, Jamie Lee Curtis, Elijah Wood, Isabel Glasser, George Wendt, Robert Hy Gorman, Nicolas Surovy. Estreia: 11/12/92

Conhecido por filmes que exploravam sua testosterona mais do que seus méritos dramáticos - como as séries "Máquina mortífera" e "Mad Max" -, o australiano Mel Gibson entrou na década de 1990 disposto a mudar a imagem que tinha diante do público e da crítica (algo que nem "Hamlet", dirigido por Franco Zefirelli em 1990 havia conseguido). E o primeiro passo nessa direção foi "Eternamente jovem", uma história de amor à moda antiga, despretensiosa e dirigida de modo clássico que, apostando basicamente na presença do ator, fez uma bela carreira nas bilheterias e pavimentou um novo caminho para sua carreira - que culminaria em um Oscar de melhor direção por "Coração valente" (1995). Um romance com leves toques de ficção científica e humor, o filme de Steve Miner (mais conhecido por  filmes de terror e episódios de séries de tv) se beneficia, também, do carisma do pequeno Elijah Wood - que quase rouba a cena mesmo ao lado de veteranos como Gibson e Jamie Lee Curtis.

Escrito por J. J. Abrams - que anos depois se consagraria como criador do seriado "Lost" -, o roteiro de "Eternamente jovem" começa em 1939, antes da II Guerra Mundial. O piloto de testes da Força Aérea americana, Daniel McCormick (Mel Gibson), é apaixonado por sua namorada, Helen (Isabel Glasser), e depois de um longo relacionamento resolve finalmente pedi-la em casamento. Uma tragédia, no entanto, surge em seu caminho quando ela é atropelada e entra em coma. Desesperado quando os médicos afirmam não ver possibilidade de uma melhora para ela, o jovem se oferece para servir de cobaia para uma experiência criogênica do amigo cientista, Harry Finley (George Wendt), e ficar congelado por um ano - tempo suficiente para não ser obrigado a testemunhar a morte da mulher que ama. As coisas não sabem como o esperado, no entanto, e Daniel só acorda novamente depois de cinquenta anos: em uma brincadeira em um depósito abandonado do exército, Nat Cooper (Elijah Wood) e seu melhor amigo, Felix (Robert Hy Gorman), acabam sem querer reativando a câmera criada por Finley e trazendo o antigo piloto de volta à vida. Tentando adaptar-se à nova realidade e encontrar seu amigo - único que pode lhe ajudar a entender tudo que aconteceu desde que iniciou seu sono - ele conta com a ajuda da mãe de Nat, a enfermeira Claire (Jamie Lee Curtis), uma mulher com histórico de relacionamentos complicados que se sente atraída pelo misterioso visitante.

 

A maior surpresa de "Eternamente jovem" é sua ousadia em não se sustentar em uma previsível história de amor entre Daniel e Claire - o que poderia ser o esperado. Apesar da boa química entre Mel Gibson e Jamie Lee Curtis, o roteiro prefere se dedicar à busca do protagonista por uma resposta a respeito de sua condição de exilado temporal. Mesmo que não explore todas as possibilidades de seu choque diante de um novo e mais moderno mundo - o que poderia gerar boas piadas e situações dramaticamente interessantes -, o roteiro de Abrams se beneficia de um ritmo que disfarça suas improbabilidades científicas ao envolver o espectador em uma trama leve e por vezes bem-humorada: todas as interações entre Gibson e Elijah Wood são repletas de uma sintonia rara, que evita que a trama caia no excesso de lágrimas. Ao ensinar o pequeno Nat a conquistar a colega por quem é apaixonado, Daniel recupera um romantismo clássico que remete aos melhores momentos clássicos do cinemão hollywoodiano - e contar com Billie Holiday na trilha sonora enfatiza essa direção ao coração do público. Se não bastasse isso, uma reviravolta no ato final deixa tudo ainda mais emocionante. A boa notícia é que Gibson sustenta bem sua persona sensível - que seria acentuada em seu primeiro filme como diretor, "O homem sem face" (1993).

E quem também surpreende em um novo caminho na carreira é o cineasta Steve Miner. Contratado depois que Sydney Pollack e John McTiernan surgirem como possíveis diretores, o homem por trás de "Sexta-feira 13 II" (1981) e "Sexta-feira 13 III" (1983) - filmes nada sutis e pouco afeitos a delicadezas - conduz "Eternamente jovem" com um tom ameno, caloroso e dotado de uma energia que remete a produções dos anos dourados de Hollywood (um tom que a trilha sonora de Jerry Goldsmith e a fotografia de Russell Boyd sublinham com extrema eficácia). Sem apelar para exageros melodramáticos mesmo que a história em si às vezes implore por isso, Miner não chega a imprimir personalidade ao resultado final, mas só o fato de não atrapalhar a história com pirotecnias desnecessárias já é mais do que admirável. Afinal de contas, o espectador que escolher assistir a seu primeiro filme romântico quer apenas isso: uma boa história, contada com respeito a seu público e uma boa dose de suspensão de realidade.

quarta-feira

ÁGUA PARA ELEFANTES


ÁGUA PARA ELEFANTES (Water for elephants, 2011, Fox 2000 Pictures, 122min) Direção: Francis Lawrence. Roteiro: Richard LaGravenese, romance de Sara Gruen. Fotografia: Rodrigo Prieto. Montagem: Alan Edward Bell. Música: James Newton Howard. Figurino: Jacqueline West. Direção de arte/cenários: Jack Fisk/Jim Erickson. Produção executiva: Kevin Halloran. Produção: Gil Netter, Erwin Stoff, Andrew R. Tennenbaum. Elenco: Robert Pattinson, Reese Witherspoon, Christoph Waltz, Hal Holbrook, Paul Schneider, Jim Norton. Estreia: 22/4/2011

Quando "Água para elefantes" estreou nos EUA, em abril de 2011, o ator Robert Pattinson ainda estava preso aos filmes da série "Crepúsculo" - que tanto foram responsáveis por sua popularidade (especialmente junto ao público adolescente feminino) quanto pela falta de respeito por parte da crítica a seu trabalho, situação que mudaria somente anos mais tarde, graças a sua associação com diretores de prestígio, como David Cronenberg. Mas, apesar do pouco caso da imprensa em relação a seus dotes artísticos, é inegável que boa parte do sucesso de bilheteria do filme, adaptado do romance homônimo de Sara Gruen, se deve à sua presença. Com uma trama derivativa e pouco original, "Água para elefantes" se beneficia de uma produção caprichada para disfarçar a direção morna de Francis Lawrence, que consegue deixar apagada até mesmo a normalmente carismática Reese Witherspoon.

A trama de "Água para elefantes" - e sua subsequente adaptação para o cinema - explora (nem sempre a contento) todos os elementos do que se convencionou chamar de "história de amor à moda antiga": um herói íntegro e romântico; uma mocinha sofrida mas decidida a lutar contra tudo e todos; uma paixão proibida; um vilão crudelíssimo e um cenário extravagante. Senão vejamos: o jovem Jakob Jankowski (Robert Pattinson) vê sua vida virar de cabeça para baixo quando perde a oportunidade de fazer a prova final de sua faculdade de Veterinária devido à trágica morte dos pais e, com isso, sua derrocada financeira que o obriga até mesmo a abandonar a casa onde morava. Por obra e graça do destino - ou dos desvãos das mãos caprichosas da escritora - ele acaba indo trabalhar como operário em um circo de propriedade do violento August (Christoph Waltz vivendo dois personagens amalgamados em um único, para desprazer dos leitores da obra original). August trata os empregados de seu circo, o Benzini Bros., com desprezo e tampouco se importa em ser cuidadoso com os animais que se apresentam pelas cidades onde o espetáculo é montado - até mesmo sua relação com a esposa, Marlena (Reese Witherspoon), mais jovem e uma das estrelas da companhia, é construída sobre uma base de medo e tensão. Quando Rosie, um elefante fêmea é adquirida para incrementar os shows, Jakob se aproveita de sua qualificação profissional para tornar-se seu cuidador e treinador oficial - e se apaixona irremediavelmente por Marlena. O romance entre os dois é sufocado pela onipresença de August, que jamais aceitaria perder a mulher para um empregado.

 

Com um prólogo interessante que apresenta o veterano Hal Holbrook como um Jakob idoso e nostálgico de seus dias no circo, o filme de Francis Lawrence - diretor de videoclipes de Britney Spears, Jennifer Lopez, Black Eyed Peas e Lady Gaga e da cultuada adaptação de "Constantine" (2005) - cria uma atmosfera envolvente, sublinhada pela trilha sonora épica de James Newton Howard e pela recriação dos anos da Depressão norte-americana dos anos 1930, mas peca ao não dar a mesma importância ao desenvolvimento dos personagens, em especial os secundários. O romance entre os protagonistas não convence por uma perceptível falta de química entre Reese Witherspoon - cujo talento é indiscutível - e Pattinson, que ficou com um papel para o qual foram testados também Andrew Garfield, Channing Tatum e Emile Hirsch: não existe entre eles aquela faísca que deixa impossível ao espectador não torcer por seu final feliz, em parte por problemas do roteiro (que não permite ao público acompanhar o florescer de seus sentimentos) e em parte pela edição que se pretende ágil mas é apenas apressada. Nem mesmo Christoph Waltz consegue escapar dos problemas, repetindo os trejeitos de sua criação mais famosa, o nazista Hans Landa, de "Bastardos inglórios" (2009), e criando um vilão unidimensional, sem qualquer nuance que o faça parecer mais do que apenas um antagonista cruel. E, golpe de misericórdia, o ambiente circense é subaproveitado, servindo unicamente como um mero pano de fundo - e nem a bela fotografia de Rodrigo Prieto consegue valorizá-lo.

No fim das contas, "Água para elefantes" é apenas um romance morno, cujo visual disfarça (relativamente bem) uma alma de telenovela. Com personagens rasos e uma trama folhetinesca que agrada aos fãs do gênero (e do par central de atores), é uma produção que fica muito a dever até mesmo em termos de emoção. E é de se questionar a qualidade geral de um filme quando seu maior destaque fica por conta de um elefante - Rosie, que serve de ponto fundamental para o clímax, rouba a cena sempre que aparece e desperta mais empatia do que o casal protagonista. Não que isso faça diferença para quem lotou as salas de exibição, mas tanto Pattinson quanto Witherspoon não estavam em seus melhores dias.


terça-feira

IMPRÓPRIO PARA MENORES


IMPRÓPRIO PARA MENORES (Noises off, 1992, Touchstone Pictures, 101min) Direção: Peter Bogdanovich. Roteiro: Marty Kaplan, peça teatral de Michael Frayn. Fotografia: Tim Suhrstetd. Montagem: Lisa Day. Figurino: Betsy Cox. Direção de arte/cenários: Norman Newberry/Jim Duffy. Produção executiva: Peter Bogdanovich, Kathleen Kennedy. Produção: Frank Marshall. Elenco: Michael Caine, Christopher Reeve, Denholm Elliot, Carol Burnett, John Ritter, Julie Hagerty, Marilu Henner, Nicolette Sheridan, Mark Linn-Baker. Estreia: 20/3/92

Crítico, historiador de cinema e diretor de alguns filmes indispensáveis do começo dos anos 1970, como "A última sessão de cinema" (1971) - que lhe rendeu duas indicações ao Oscar -, "Essa pequena é uma parada" (1972) e "Lua de papel" (1973), Peter Bogdanovich nunca recuperou, nas décadas seguintes, o mesmo prestígio e o mesmo sucesso de bilheteria. Com exceção de "Marcas do destino" (1985) - que deu a Cher o prêmio de melhor atriz no Festival de Cannes -, seus trabalhos pareciam ter perdido a conexão com as plateias, e nem mesmo "Texasville" (1990), que revisitava os aclamados personagens de "A última sessão", conseguiu reverter esse quadro. Foi nesse período de declínio profissional que ele tentou voltar às comédias, com a adaptação da peça teatral "Noises off", indicada ao Tony de melhor espetáculo de 1984. Não reencontrou seu público, mas demonstrou que sua segurança em lidar com os mecanismos do humor anárquico/caótico ainda se mantinha intocável. Contado com um elenco heterogêneo e um texto preciso e inteligente que homenageia o teatro (e por consequência tudo que o cerca), "Impróprio para menores" é um filme que lembra o melhor de Woody Allen - que evocaria o mesmo universo em seu "Tiros na Broadway" dois anos depois.

"Impróprio para menores" é contado, como uma peça de teatro, em três atos bem definidos, unidos por uma narração em off do diretor Lloyd Fellowes (Michael Caine), que sofre com a possibilidade de sua montagem da comédia "Nothing on" ser um fracasso monumental. A trama da peça - um vaudeville ligeiro e popular - gira em torno de um chalé no campo visitado por dois casais que não deveriam estar lá, uma empregada pouco confiável, um ladrão de residências e um sheik árabe interessado na compra do imóvel. Mas se no palco a confusão é generalizada, nos bastidores as coisas são ainda mais complicadas: o ator Gary Lejeune (John Ritter) tem um caso com a colega Dotty Ottley (Carol Burnett), significantemente mais velha; o galã Frederick Dallas (Christopher Reeve) é abandonado pela esposa poucas horas antes da estreia; o veterano Selsdon Mowbray (Denholm Elliott) está entregue ao vício da bebida e está a cada dia mais surdo; e o próprio diretor está envolvido em um triângulo amoroso com a bela Brooke Ashton (Nicolette Sheridan) e a assistente de palco Poppy Taylor (Julie Hagerty). No período que antecede a estreia do espetáculo na Broadway - quando o grupo viaja por várias cidades do interior como forma de fortalecer sua união e a qualidade das apresentações -, as situações vão ficando mais e mais absurdas, o que ameaça a continuidade da temporada.

 

Contado como uma peça de teatro em três atos - o primeiro antes da estreia em um teatro de Iowa, o segundo em uma caótica apresentação em Miami, e o terceiro na Broadway em si -, "Impróprio para menores" explora os mais variados tipos de humor. Da comédia de erros de seu primeiro capítulo ele se transforma em um espetáculo de quase cinema mudo (com uma precisão de movimentos que ecoa a própria peça que se desenrola como pano de fundo), e Bogdanovich mostra que ainda domina o tempo cômico que apresentou em "Essa pequena é uma parada". Para isso, ele tem a sorte de contar com atores que entendem totalmente o espírito do projeto e alguns (como Christopher Reeve) surpreendem com um inesperado talento para a comédia. Carol Burnett - especialista no gênero - nem precisa se esforçar muito para imprimir sua marca, e Michael Caine de certa forma surge como o mais equilibrado da trupe, oferecendo a seu Lloyd Fellowes um misto de tranquilidade externa e turbilhão interior a que apenas a plateia tem acesso. E Caine, com sua generosidade, foi o responsável por um dos grandes acertos do filme: a escalação do ator Denholm Elliott.

Amigo de Michael Caine desde que contracenaram em "Como conquistar as mulheres" (1966), o britânico Elliott havia descoberto pouco tempo antes que era portador do vírus da AIDS - uma doença ainda cercada de extremo preconceito no começo dos anos 1990. Sabendo da situação do amigo, e de sua potencial dificuldade em encontrar trabalho a partir dali, Caine - que já o havia derrotado na disputa pelo Oscar de coadjuvante de 1986 - condicionou sua participação em "Impróprio para menores" à contratação do colega para o papel que John Gielgud havia recusado. Condição aceita, Elliott entregou uma performance inspirada que seria a sua última: ele morreu meses depois da estreia do filme e Caine, por sua vez, entraria em um período prolífico da carreira a partir de seu segundo prêmio da Academia, por "Regras da vida" (1999). Peter Bogdanovich, por sua vez, jamais recuperaria seu status de grande diretor, acumulando uma sucessão de fracassos até sua morte, em janeiro de 2022.

MATADORES DE VELHINHA

  MATADORES DE VELHINHA (The ladykillers, 2004, Touchstone Pictures, 104min) Direção: Ethan Coen, Joel Coen. Roteiro: Ethan Coen, Joel Coe...