quinta-feira

A GAIOLA DAS LOUCAS

 


A GAIOLA DAS LOUCAS (The Birdcage, 1996, United Artists, 117min) Direção: Mike Nichols. Roteiro: Elaine May, original de Francis Veber, Édouard Molinaro, Marcello Danon, Jean Poiret, peça teatral "La cage aux folles", de Jean Poiret. Fotografia: Emmanuel Lubezki. Montagem: Arthur Schmidt. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Bo Welch/Cheryl Carasik. Produção executiva: Marcello Danon, Nil Machlis. Produção: Mike Nichols. Elenco: Robin Williams, Nathan Lane, Gene Hackman, Dianne Wiest, Hank Azaria, Christine Baranski, Dan Futterman, Calista Flockhart. Estreia: 08/3/96

Indicado ao Oscar de Direção de Arte/Cenários

Um dos filmes franceses de maior sucesso dentro no normalmente hermético mercado norte-americano, "A gaiola das loucas", lançado em 1978, não apenas conquistou a plateia e a crítica, mas também chegou a ser indicado a três Oscar - incluindo melhor roteiro adaptado e direção (Édouard Molinaro). Não demorou, portanto, para que Hollywood pensasse em uma versão doméstica, sem legendas que afugentassem o público médio e que apresentasse a trama (baseada em uma peça teatral de Jean Poiret) para uma nova audiência. Porém, depois de uma tentativa frustrada ainda nos anos 1980 - que poderia ter sido estrelada pela inusitada dupla Dudley Moore e Frank Sinatra (!!) -, o projeto ficou no limbo até a década seguinte, quando finalmente encontrou o caminho para as telas com um elenco sob medida e um tom moderno que, para surpresa de muitos, corrigiu alguns erros do original (amenizando alguns estereótipos exagerados) e revelou o talento de Nathan Lane, até então relegado a pequenos papéis em filmes nem sempre memoráveis. Indicado ao Golden Globe de melhor ator, Lane consegue o quase impensável: roubar a cena em uma comédia contracenando com o furacão Robin Williams.

Já consagrado no teatro mas sem um grande sucesso para chamar de seu, Nathan Lane agarrou com unhas e dentes a chance oferecida pelo veterano Mike Nichols (incentivado pelo sempre generoso Robin Williams), e só não engole tudo a sua volta porque a seu lado estão nomes como Williams, Gene Hackman e Dianne Wiest, todos conhecidos por seu talento em brilhar não importa o tamanho de seus papéis. Nichols - respeitado por sua capacidade de transitar entre diversos gêneros - dirige a todos com a elegância habitual e extrai o melhor de cada um, criando uma estrutura cômica irresistível, com piadas que fazem rir não apenas o público gay (com referências ao universo homossexual) mas também plateias mais tradicionais. Não à toa, o filme arrecadou mais de 180 milhões de dólares no mercado internacional - um feito e tanto quando se sabe o quão hermético ao tema é o público médio. Em parte devido à presença de Williams, em parte devido ao êxito do filme francês, "A gaiola das loucas" surpreendeu até mesmo o estúdio (a United Artists) - e provou que, nas mãos certas e com respeito ao material original, um remake pode acrescentar camadas antes não percebidas (e eliminar problemas, especialmente para audiências mais suscetíveis).



A trama do filme quase todo mundo já conhece, de uma forma ou outra: Gaiola das Loucas é uma boate de drag queens localizada em South Beach. Seu proprietário é Armand Goldman (Robin Williams), que é casado com a principal atração do local, o transformista Albert (Nathan Lane) - que se apresenta com o nome artístico de Starina e é admirado por todos os frequentadores. A rotina relativamente tranquila do casal (que inclui crises nervosas de Albert a qualquer contrariedade) é abalada quando Val (Dan Futterman) - filho de uma aventura casual de Armand na juventude - surge com a notícia de que irá se casar com a delicada Barbara (Calista Flockhart), filha de um senador cujas posições extremamente conservadoras batem de frente com o estilo de vida de seus futuros sogros. A notícia cai como uma bomba no pouco tradicional lar, mas as coisas ficam ainda piores quando Val pede aos pais que aceitem fingir uma falsa normalidade em um jantar para o encontro das duas famílias. Para isso, Albert precisa sair de cena - e ser substituído pela mãe do rapaz, Katherine (Christine Baranski) - e todos os detalhes da casa considerados "gay demais" (ou seja, todos) precisam ser escondidos, incluindo o empregado, Agador Spartacus (Hank Azaria), que sonha com sua chance na boate dos patrões. A situação, caótica por si própria, se complica quando o Senador Kevin Keeley (Gene Hackman) se vê envolvido involuntariamente em uma polêmica relacionada ao partido e passa a ser perseguido pela imprensa. O jantar - que já prometia ser um desastre - se completa quando, na ausência de Katherine, Albert assume o papel de matriarca da família.

Uma comédia de erros das mais felizes, "A gaiola das loucas" versão americana se beneficia do calor das praias de South Beach para acrescentar uma energia solar que talvez falte no original francês. Se Nathan Lane dá seu show particular em cada aparição - a sequência em que tenta caminhar de modo viril, como John Wayne, é um primor -, seu parceiro de cena também não decepciona: ao optar por viver o menos espalhafatoso Armand (que a princípio seria interpretado por Steve Martin), um dos atores mais populares de sua geração (e também dos mais ocupados na metade da década de 1990) abre espaço para o brilho de seus colegas de cena e mesmo assim chama a atenção com um desempenho que explora seu dom para o humor popular. Gene Hackman, por sua vez, surpreende ao entregar uma atuação que rompe com sua persona sisuda e consagrada junto ao grande público - sua última cena é, sem dúvida, um dos grandes momentos da comédia americana moderna. Ao atualizar e melhorar um clássico contemporâneo (sem perder sua essência e seu senso de humor sagaz e irônico), o filme de Mike Nichols mereceu o enorme sucesso de bilheteria - e, caso raro em se tratando de remakes, conquistou inclusive a crítica, sendo indicado aos Golden Globes de melhor comédia e melhor ator e saindo vencedor de melhor elenco na cerimônia do Screen Actors Guild, batendo nada menos que "O paciente inglês", grande vencedor do Oscar em sua temporada. Não é pouca coisa!

quarta-feira

O ÂNCORA: A LENDA DE RON BURGUNDY

 


O ÂNCORA: A LENDA DE RON BURGUNDY (Anchorman: the legend of Ron Burgundy, 2004, DreamWorks Pictures/Apatow Productions, 94min) Direção: Adam McKay. Roteiro: Adam McKay, Will Ferrell. Fotografia: Thomas E. Ackerman. Montagem: Brent White. Música: Alex Wurman. Figurino: Debra McGuire. Direção de arte/cenários: Clayton R. Hartley/Jan Pascale. Produção executiva: Shauna Robertson, David O. Russell. Produção: Judd Apatow. Elenco: Will Ferrell, Christina Applegate, Paul Rudd, Steve Carell, David Koechner, Fred Willard, Seth Rogen, Vince Vaughn, Ben Stiller, Owen Wilson, Kathryn Hahn, Jack Black, Tim Robbins. Estreia: 28/6/2004

Na segunda metade da década de 1970 nenhum jornalista era mais importante e prestigiado em San Diego do que Ron Burgundy, âncora do programa de maior audiência da televisão regional, admirado pelo público e desejado pelas mulheres. Em uma emissora dominada por uma mentalidade machista, ele era o símbolo máximo de uma sociedade ainda impermeável às conquistas profissionais femininas. Porém, seu poder considerado definitivo sofreu um baque violento com a chegada de Veronica Corningstone, uma repórter dedicada e ambiciosa da Carolina do Norte, decidida a buscar seu lugar ao sol como o primeiro nome do telejornal. A disputa entre os dois - e o inesperado romance entre eles - movimentou os bastidores do telejornalismo da época, e precipitou a ascensão das mulheres no mercado de notícias televisivas. Uma história empolgante - mas que existiu apenas nas mentes dos roteiristas Will Ferrell e Adam McKay, responsáveis por "O âncora: a lenda de Ron Burgundy", uma comédia despretensiosa que, depois de ter sido esnobada diversas vezes pelo estúdio (a DreamWorks), surpreendeu ao ultrapassar a marca de 80 milhões de dólares de arrecadação somente no mercado doméstico (EUA e Canadá) e tornar-se cult por parte do público a ponto de render uma continuação, lançada mais dez anos depois. Com um humor que beira o ofensivo e flerta abertamente com a estupidez, o filme é ideal para quem gosta de rir sem precisar ligar o cérebro - mas, paradoxalmente, faz um crítica sagaz ao machismo e à indústria do jornalismo televisivo.

Com um elenco que é praticamente um quem é quem do humor norte-americano do começo dos anos 2000 - incluindo um Steve Carrel pré-estrelato - e participações especiais de nomes como Tim Robbins, Jack Black e Ben Stiller, "O âncora" parte de uma estrutura clássica narrativa para permitir a seus atores todo tipo de improviso, ampliando consideravelmente seu tom debochado e anárquico. Will Ferrell - também um dos autores do roteiro - deita e rola com um personagem sob medida para seu humor histriônico, que a tantos agrada e a muitos outros repele, e encontra no carisma de Christina Applegate um equilíbrio muito bem-vindo. Juntos em cena, os dois ilustram com perfeição o casamento entre a comédia rasgada e um romantismo que, por mais distorcido que seja, ameniza os exageros de uma produção que não tem medo de ir fundo na palhaçada e não poupa nada nem ninguém. Adam McKay - que pouco mais de uma década depois levaria um Oscar de roteiro por "A grande aposta" (2015), que também lhe renderia uma indicação à estatueta de direção - demonstra segurança ao comandar o que poderia facilmente transformar-se em um absoluto caos: com atores craques no improviso, ele mantém uma surpreendente coesão no desenvolvimento da narrativa mesmo diante de situações propensas ao bizarro.



Se Ron Burgundy é o retrato perfeito do líder de um universo falocêntrico e egoísta, seu séquito de colaboradores/admiradores/amigos não fica atrás - e é um grande mérito que seus intérpretes tenham sido tão bem escalados. Paul Rudd vive Brian Fantana, um repórter de campo mulherengo e que considera irresistíveis suas qualidades físicas e suas táticas amorosas; Steve Carell dá vida a Brick Tamland, o responsável pela divulgação da previsão de tempo e com o raciocínio lento além da conta; e David Koechner é o ator ideal para criar Champion Kind, especialista em esportes e dono de um talento natural para a grosseria. Agindo como uma gangue de adolescentes rebeldes, o grupo não apenas é uma metralhadora giratória de absurdos verbais como também volta e meia se envolve em brigas físicas com o time da emissora rival, liderado por Wes Mantooth (Vince Vaughn), cuja principal ameaça é fisgar o primeiro lugar na audiência. Quando Veronica entra em cena, conquistá-la (e impedi-la de chegar à bancada do telejornal) passa a ser o objetivo principal de todos - e nem mesmo a aparentemente dócil forasteira parece imune a tal desejo. A forma com que McKay e Ferrell demonstram tais anseios (através de momentos que brincam até mesmo com filmes musicais e melodramas) é o que faz de "O âncora" uma pérola: é difícil não se deixar conquistar por pelo menos uma das táticas do roteiro, que abrange todos os tipos de comédia sem cair na falta de foco ou ritmo.

Apesar de ser engraçadíssimo e apresentar um elenco impecável, "O âncora" não chega a ser uma unanimidade. Seu humor pouco sutil pode não agradar a quem busca comédias sofisticadas ou menos explícitas - apesar de o roteiro apresentar nuances raras no típico besteirol americano -, e Will Ferrell, apesar de seu talento cômico preciso, não é exatamente um astro muito popular fora dos Estados Unidos. Mas o filme de McKay é a demonstração, além de qualquer dúvida, de que é possível fazer rir equilibrando inteligência, sarcasmo e um pouquinho de escatologia. Pena que demorou dez anos para que ganhasse um segundo - e igualmente divertido - segundo capítulo.

terça-feira

INOCÊNCIA


INOCÊNCIA (Inocência, 1983, Embrafilme/Luis Carlos Barreto Produções Cinematográficas, 118min) Direção: Walter Lima Jr.. Roteiro: Walter Lima Jr., adaptação de Lima Barreto, romance de Visconde de Taunay. Fotografia: Pedro Farkas. Montagem: Raimundo Higino. Música: Wagner Tiso. Figurino: Diana Eichbauer. Direção de arte/cenários: Carlos Liuzzi. Produção: Lucy Barreto, Luiz Carlos Barreto. Elenco: Fernanda Torres, Edson Celulari, Sebastião Vasconcellos, Ricardo Zambelli, Fernando Torres, Rainer Rudolph, Chico Diaz, Chica Xavier, Jorge Fino. Estreia: 23/6/83

Publicado em 1872 como parte do Regionalismo brasileiro - uma escola literária posterior ao Romantismo e anterior ao Naturalismo -, o romance "Inocência" interessou ao cinema nacional desde o começo do século XX, com uma versão muda (dirigida pelo ítalo-brasileiro Vittorio Capellaro). Em 1949 ganhou uma nova adaptação, sob a direção de Luiz e Fernando de Barros (estrelada por Maria Della Costa e Sadi Cabral), mas foi somente em 1983 que o livro, escrito pelo Visconde de Taunay, parece ter encontrado sua forma cinematográfica definitiva. Com o lirismo do diretor Walter Lima Jr. a serviço de uma história de amor trágica e delicada, uma bela trilha sonora de Wagner Tiso e a escolha certeira de Fernanda Torres para o papel-título (em sua estreia no cinema), "Inocência" acabou por tornar-se uma das produções nacionais mais elogiadas dos anos 1980, saindo do Festival de Brasília com dois prêmios (direção e ator coadjuvante) e conquistando fãs por seu capricho técnico e artístico. Com base em uma adaptação feita pelo cineasta Lima Barreto, o roteiro de Lima Jr. encontra na fidelidade à obra original o caminho para o coração do espectador.

Em uma estrada do interior do Mato Grosso do século XIX, o jovem médico Cirino (Edson Celulari) se encontra com o fazendeiro Martinho Pereira (Sebastião Vasconcelos) e se oferece para, com seus conhecimentos profissionais, tratar da malária da filha do novo amigo. Inocência (Fernanda Torres) está há dias enferma, e assim que começa a melhorar - graças ao tratamento do desconhecido - chama a atenção do visitante, encantado por sua beleza e pela pureza de seus modos. Educada com rigidez pelo pai e prometida em casamento a Manecão (Ricardo Zambelli), amigo da família, Inocência é tida como uma princesa presa em uma redoma, a única mulher (além da empregada da casa) em um universo masculino e patriarcal, onde honra manchada se lava com sangue e as regras são todas ditadas pelos homens. O amor nascente entre ela e Cirino, portanto, surge como um potencial desafio ao status quo - já abalado por outra presença masculina, a do zoólogo alemão Meyer (Rainer Rudolph), deslumbrado pela adolescente.


 

Considerado um marco do Regionalismo, o livro de Taunay retrata com fidelidade os costumes típicos do mundo rural e as idiossincrasias de seu universo, apesar de contar com elementos também do Romantismo e do Realismo. O roteiro do diretor não abre mão de tais detalhes, utilizando-os como matéria-prima para uma trama que não se concentra apenas em uma história de amor proibido mas também como o desenho de uma época e de uma mentalidade próprias. Se Inocência parece servir apenas como um objeto - de desejo, de posse, de admiração platônica, de representação simbólica de um estado de coisas que não deve ser alterado -, a masculinidade tóxica a seu redor se desdobra em tentar, por quaisquer meios, impor sua pretensa superioridade. Não é surpresa que Inocência, criada em meio a um ambiente hostil no qual ela só tinha a opção de aceitar o que lhe era forçado, se apaixone por Cirino, um homem estudado, gentil e de modos delicados que contrastam com a bestialidade do pai, do noivo e até do anão mudo que lhe vigia dia e noite. Também não chega a surpreender que sua rebeldia romântica seja o gatilho de sua tragédia - filmada com a sutileza característica de Walter Lima Jr., sem pressa e repleta da poesia visual da câmera de Pedro Farkas, que explora a beleza juvenil e pálida de Fernanda Torres como se fosse uma estátua grega, inalcançável e fadada à desgraça. 

E Fernanda, no auge da juventude - 17 anos à época da estreia do filme - já demonstra, em seu primeiro papel no cinema, a potência dramática que faria dela uma das maiores atrizes de sua geração. Ainda que quase silenciosa, sua Inocência é força motriz do filme, a catalisadora da trama - e seu trabalho encontra apoio no ótimo desempenho de Sebastião Vasconcelos e na elegância de Edson Celulari, dois extremos que sintetizam com eficiência a dicotomia crucial do romance de Taunay. Mesmo sem ousar na forma - a narrativa é simples e linear -, "Inocência" cumpre o que promete e entrega ao espectador uma história de amor à moda antiga, que respeita o material original e o engrandece com escolhas artísticas certeiras.

segunda-feira

ANTES QUE O DIABO SAIBA QUE VOCÊ ESTÁ MORTO

 


ANTES QUE O DIABO SAIBA QUE VOCÊ ESTÁ MORTO (Before the devil knows you're dead, 2007,  Capitol Films/Funky Buddha Productions/Unity Productions, 117min) Direção: Sidney Lumet. Roteiro: Kelly Masterson. Fotografia: Ron Fortunato. Montagem: Tom Swartwout. Música: Carter Burwell. Figurino: Tina Nigro. Direção de arte/cenários: Christopher Nowak/Diane Lederman. Produção executiva: Belle Avery, Jane Barclay, David Bergstein, J. J. Hoffman, Eli Klein, Hannah Leader, Jeffry Melnick, Sam Zaharis. Produção: Michael Cerenzie, William S. Gilmore, Brian Linse, Paul Parmar. Elenco: Phillip Seymour Hoffman, Ethan Hawke, Marisa Tomei, Albert Finney, Rosemary Harris, Amy Ryan, Michael Shannon. Estreia: 07/9/2007 (Deauville Festival of American Cinema)

No mínimo desde "12 homens e uma sentença" (1957) - passando por clássicos absolutos como "Serpico" (1973), "Um dia de cão" (1975) e "Rede de intrigas" (1976) -, o cineasta Sidney Lumet acostumou-se a entregar ao público produções que apresentavam personagens dúbios, falíveis e dispostos a correrem riscos em nomes de objetivos quase sempre suicidas. Depois de um longo período de obras menores e/ou sem repercussão popular e de crítica, ele voltou a seu tema preferido em "Antes que o diabo saiba que você está morto", uma poderosa mescla de filme policial e drama familiar que acabou por ser, sem que ele mesmo soubesse disso, seu canto do cisne. Dirigindo com precisão cirúrgica o trágico e surpreendente primeiro roteiro de Kelly Masterson, o veterano Lumet demonstra uma vitalidade rara para um artista octogenário, mantendo o espectador atento a cada reviravolta e cada nuance revelada por seus protagonistas. E é lógico que ajuda muito contar, no elenco, com atores brilhantes como Philip Seymour Hoffman, Ethan Hawke e Albert Finney - em uma de suas últimas aparições nas telas.

Com ecos de Shakespeare em sua trama - imprevisível e pessimista -, "Antes que o diabo saiba que você está morto" apresenta dois irmãos de personalidades opostas que se unem para cometer um crime aparentemente perfeito: o roubo a uma joalheria familiar em uma manhã de pouco movimento. Andy (Philip Seymour Hoffman) está em vias de ter descoberto o desfalque que deu na empresa onde trabalha, enquanto Hank (Ethan Hawke) vive sob a pressão de dever a pensão para a ex-mulher ao mesmo tempo em que se culpa por não conseguir ser o filho que seu pai, Charles (Albert Finney), sonhava ter. Com o fracasso do assalto - que acaba em duas mortes - a vida da família vira do avesso: chantageados pelo irmão de uma das vítimas (que sabe de sua responsabilidade na tragédia), Andy e Hank entram em um caminho de sangue, violência e traições, que envolve Gina (Marisa Tomei) - esposa de um e amante do outro - e o próprio patriarca.

 

Contada de forma não linear, recheada de idas e vindas no tempo que servem para oferecer ao público as peças que formam seu quebra-cabeças, a trama do filme de Lumet se utiliza de tal artifício não como muleta narrativa, mas como parte fundamental de sua estrutura. Conforme novas informações a respeito dos acontecimentos que levaram ao crime - e suas consequências - vão surgindo diante do espectador, mais potentes as camadas vão se revelando, reafirmando o tom fatalista da expressão irlandesa que empresta o nome à produção. As surpresas reservadas a cada capítulo - com uma edição primorosa, que explicita apenas o que é necessário no momento - tornam "Antes que o diabo saiba que você está morto" um drama policial que rompe com as tradicionais engrenagens do gênero, aprofundando as relações interpessoais até o limite da inevitável ruptura. Com três focos distintos - Andy, Hank e Charles - que se intercalam e se completam, o roteiro de Kelly Masterson empolga exatamente por sua capacidade de surpreender e por sua coragem em chegar a desdobramentos que a maioria das produções do gênero evita a todo custo. E não atrapalha em nada que Lumet possa contar com um elenco absolutamente impecável.

Assim como seus personagens, Philip Seymour Hoffman e Ethan Hawke são atores de personalidades distintas, e o experiente cineasta explora com precisão tais diferenças, em cenas de crescente tensão que enfatizam suas qualidades como intérpretes e potencializam cada linha de diálogo. O veterano Albert Finney tampouco fica atrás, com ao menos duas sequências arrepiantes - uma delas encerrando de forma chocante o drama familiar estabelecido nos primeiros minutos. E em um elenco tão incrível, o único senão é o pouco aproveitamento de Rosemary Harris e Amy Ryan - partes femininas de um clã onde apenas Marisa Tomei tem reais chances de brilhar. Forte e coeso, o conjunto de atores (premiado por várias associações de críticos) é a tradução perfeita de um roteiro inteligente, uma direção energética e, o que é mais importante de tudo, uma história envolvente. Um adeus digno da grandeza de seu diretor.

quinta-feira

ETERNAMENTE JOVEM

 


ETERNAMENTE JOVEM (Forever young, 1992, Warner Bros/Icon Productions, 102min) Direção: Steve Miner. Roteiro: J. J. Abrams. Fotografia: Russell Boyd. Montagem: Jon Poll. Música: Jerry Goldsmith. Figurino: Aggue Guerard Rodgers. Direção de arte/cenários: Gregg Fonseca/Jay Hart, Jan Pascale. Produção executiva: J. J. Abrams, Edward S. Feldman. Produção: Bruce Davey. Elenco: Mel Gibson, Jamie Lee Curtis, Elijah Wood, Isabel Glasser, George Wendt, Robert Hy Gorman, Nicolas Surovy. Estreia: 11/12/92

Conhecido por filmes que exploravam sua testosterona mais do que seus méritos dramáticos - como as séries "Máquina mortífera" e "Mad Max" -, o australiano Mel Gibson entrou na década de 1990 disposto a mudar a imagem que tinha diante do público e da crítica (algo que nem "Hamlet", dirigido por Franco Zefirelli em 1990 havia conseguido). E o primeiro passo nessa direção foi "Eternamente jovem", uma história de amor à moda antiga, despretensiosa e dirigida de modo clássico que, apostando basicamente na presença do ator, fez uma bela carreira nas bilheterias e pavimentou um novo caminho para sua carreira - que culminaria em um Oscar de melhor direção por "Coração valente" (1995). Um romance com leves toques de ficção científica e humor, o filme de Steve Miner (mais conhecido por  filmes de terror e episódios de séries de tv) se beneficia, também, do carisma do pequeno Elijah Wood - que quase rouba a cena mesmo ao lado de veteranos como Gibson e Jamie Lee Curtis.

Escrito por J. J. Abrams - que anos depois se consagraria como criador do seriado "Lost" -, o roteiro de "Eternamente jovem" começa em 1939, antes da II Guerra Mundial. O piloto de testes da Força Aérea americana, Daniel McCormick (Mel Gibson), é apaixonado por sua namorada, Helen (Isabel Glasser), e depois de um longo relacionamento resolve finalmente pedi-la em casamento. Uma tragédia, no entanto, surge em seu caminho quando ela é atropelada e entra em coma. Desesperado quando os médicos afirmam não ver possibilidade de uma melhora para ela, o jovem se oferece para servir de cobaia para uma experiência criogênica do amigo cientista, Harry Finley (George Wendt), e ficar congelado por um ano - tempo suficiente para não ser obrigado a testemunhar a morte da mulher que ama. As coisas não sabem como o esperado, no entanto, e Daniel só acorda novamente depois de cinquenta anos: em uma brincadeira em um depósito abandonado do exército, Nat Cooper (Elijah Wood) e seu melhor amigo, Felix (Robert Hy Gorman), acabam sem querer reativando a câmera criada por Finley e trazendo o antigo piloto de volta à vida. Tentando adaptar-se à nova realidade e encontrar seu amigo - único que pode lhe ajudar a entender tudo que aconteceu desde que iniciou seu sono - ele conta com a ajuda da mãe de Nat, a enfermeira Claire (Jamie Lee Curtis), uma mulher com histórico de relacionamentos complicados que se sente atraída pelo misterioso visitante.

 

A maior surpresa de "Eternamente jovem" é sua ousadia em não se sustentar em uma previsível história de amor entre Daniel e Claire - o que poderia ser o esperado. Apesar da boa química entre Mel Gibson e Jamie Lee Curtis, o roteiro prefere se dedicar à busca do protagonista por uma resposta a respeito de sua condição de exilado temporal. Mesmo que não explore todas as possibilidades de seu choque diante de um novo e mais moderno mundo - o que poderia gerar boas piadas e situações dramaticamente interessantes -, o roteiro de Abrams se beneficia de um ritmo que disfarça suas improbabilidades científicas ao envolver o espectador em uma trama leve e por vezes bem-humorada: todas as interações entre Gibson e Elijah Wood são repletas de uma sintonia rara, que evita que a trama caia no excesso de lágrimas. Ao ensinar o pequeno Nat a conquistar a colega por quem é apaixonado, Daniel recupera um romantismo clássico que remete aos melhores momentos clássicos do cinemão hollywoodiano - e contar com Billie Holiday na trilha sonora enfatiza essa direção ao coração do público. Se não bastasse isso, uma reviravolta no ato final deixa tudo ainda mais emocionante. A boa notícia é que Gibson sustenta bem sua persona sensível - que seria acentuada em seu primeiro filme como diretor, "O homem sem face" (1993).

E quem também surpreende em um novo caminho na carreira é o cineasta Steve Miner. Contratado depois que Sydney Pollack e John McTiernan surgirem como possíveis diretores, o homem por trás de "Sexta-feira 13 II" (1981) e "Sexta-feira 13 III" (1983) - filmes nada sutis e pouco afeitos a delicadezas - conduz "Eternamente jovem" com um tom ameno, caloroso e dotado de uma energia que remete a produções dos anos dourados de Hollywood (um tom que a trilha sonora de Jerry Goldsmith e a fotografia de Russell Boyd sublinham com extrema eficácia). Sem apelar para exageros melodramáticos mesmo que a história em si às vezes implore por isso, Miner não chega a imprimir personalidade ao resultado final, mas só o fato de não atrapalhar a história com pirotecnias desnecessárias já é mais do que admirável. Afinal de contas, o espectador que escolher assistir a seu primeiro filme romântico quer apenas isso: uma boa história, contada com respeito a seu público e uma boa dose de suspensão de realidade.

quarta-feira

ÁGUA PARA ELEFANTES


ÁGUA PARA ELEFANTES (Water for elephants, 2011, Fox 2000 Pictures, 122min) Direção: Francis Lawrence. Roteiro: Richard LaGravenese, romance de Sara Gruen. Fotografia: Rodrigo Prieto. Montagem: Alan Edward Bell. Música: James Newton Howard. Figurino: Jacqueline West. Direção de arte/cenários: Jack Fisk/Jim Erickson. Produção executiva: Kevin Halloran. Produção: Gil Netter, Erwin Stoff, Andrew R. Tennenbaum. Elenco: Robert Pattinson, Reese Witherspoon, Christoph Waltz, Hal Holbrook, Paul Schneider, Jim Norton. Estreia: 22/4/2011

Quando "Água para elefantes" estreou nos EUA, em abril de 2011, o ator Robert Pattinson ainda estava preso aos filmes da série "Crepúsculo" - que tanto foram responsáveis por sua popularidade (especialmente junto ao público adolescente feminino) quanto pela falta de respeito por parte da crítica a seu trabalho, situação que mudaria somente anos mais tarde, graças a sua associação com diretores de prestígio, como David Cronenberg. Mas, apesar do pouco caso da imprensa em relação a seus dotes artísticos, é inegável que boa parte do sucesso de bilheteria do filme, adaptado do romance homônimo de Sara Gruen, se deve à sua presença. Com uma trama derivativa e pouco original, "Água para elefantes" se beneficia de uma produção caprichada para disfarçar a direção morna de Francis Lawrence, que consegue deixar apagada até mesmo a normalmente carismática Reese Witherspoon.

A trama de "Água para elefantes" - e sua subsequente adaptação para o cinema - explora (nem sempre a contento) todos os elementos do que se convencionou chamar de "história de amor à moda antiga": um herói íntegro e romântico; uma mocinha sofrida mas decidida a lutar contra tudo e todos; uma paixão proibida; um vilão crudelíssimo e um cenário extravagante. Senão vejamos: o jovem Jakob Jankowski (Robert Pattinson) vê sua vida virar de cabeça para baixo quando perde a oportunidade de fazer a prova final de sua faculdade de Veterinária devido à trágica morte dos pais e, com isso, sua derrocada financeira que o obriga até mesmo a abandonar a casa onde morava. Por obra e graça do destino - ou dos desvãos das mãos caprichosas da escritora - ele acaba indo trabalhar como operário em um circo de propriedade do violento August (Christoph Waltz vivendo dois personagens amalgamados em um único, para desprazer dos leitores da obra original). August trata os empregados de seu circo, o Benzini Bros., com desprezo e tampouco se importa em ser cuidadoso com os animais que se apresentam pelas cidades onde o espetáculo é montado - até mesmo sua relação com a esposa, Marlena (Reese Witherspoon), mais jovem e uma das estrelas da companhia, é construída sobre uma base de medo e tensão. Quando Rosie, um elefante fêmea é adquirida para incrementar os shows, Jakob se aproveita de sua qualificação profissional para tornar-se seu cuidador e treinador oficial - e se apaixona irremediavelmente por Marlena. O romance entre os dois é sufocado pela onipresença de August, que jamais aceitaria perder a mulher para um empregado.

 

Com um prólogo interessante que apresenta o veterano Hal Holbrook como um Jakob idoso e nostálgico de seus dias no circo, o filme de Francis Lawrence - diretor de videoclipes de Britney Spears, Jennifer Lopez, Black Eyed Peas e Lady Gaga e da cultuada adaptação de "Constantine" (2005) - cria uma atmosfera envolvente, sublinhada pela trilha sonora épica de James Newton Howard e pela recriação dos anos da Depressão norte-americana dos anos 1930, mas peca ao não dar a mesma importância ao desenvolvimento dos personagens, em especial os secundários. O romance entre os protagonistas não convence por uma perceptível falta de química entre Reese Witherspoon - cujo talento é indiscutível - e Pattinson, que ficou com um papel para o qual foram testados também Andrew Garfield, Channing Tatum e Emile Hirsch: não existe entre eles aquela faísca que deixa impossível ao espectador não torcer por seu final feliz, em parte por problemas do roteiro (que não permite ao público acompanhar o florescer de seus sentimentos) e em parte pela edição que se pretende ágil mas é apenas apressada. Nem mesmo Christoph Waltz consegue escapar dos problemas, repetindo os trejeitos de sua criação mais famosa, o nazista Hans Landa, de "Bastardos inglórios" (2009), e criando um vilão unidimensional, sem qualquer nuance que o faça parecer mais do que apenas um antagonista cruel. E, golpe de misericórdia, o ambiente circense é subaproveitado, servindo unicamente como um mero pano de fundo - e nem a bela fotografia de Rodrigo Prieto consegue valorizá-lo.

No fim das contas, "Água para elefantes" é apenas um romance morno, cujo visual disfarça (relativamente bem) uma alma de telenovela. Com personagens rasos e uma trama folhetinesca que agrada aos fãs do gênero (e do par central de atores), é uma produção que fica muito a dever até mesmo em termos de emoção. E é de se questionar a qualidade geral de um filme quando seu maior destaque fica por conta de um elefante - Rosie, que serve de ponto fundamental para o clímax, rouba a cena sempre que aparece e desperta mais empatia do que o casal protagonista. Não que isso faça diferença para quem lotou as salas de exibição, mas tanto Pattinson quanto Witherspoon não estavam em seus melhores dias.


terça-feira

IMPRÓPRIO PARA MENORES


IMPRÓPRIO PARA MENORES (Noises off, 1992, Touchstone Pictures, 101min) Direção: Peter Bogdanovich. Roteiro: Marty Kaplan, peça teatral de Michael Frayn. Fotografia: Tim Suhrstetd. Montagem: Lisa Day. Figurino: Betsy Cox. Direção de arte/cenários: Norman Newberry/Jim Duffy. Produção executiva: Peter Bogdanovich, Kathleen Kennedy. Produção: Frank Marshall. Elenco: Michael Caine, Christopher Reeve, Denholm Elliot, Carol Burnett, John Ritter, Julie Hagerty, Marilu Henner, Nicolette Sheridan, Mark Linn-Baker. Estreia: 20/3/92

Crítico, historiador de cinema e diretor de alguns filmes indispensáveis do começo dos anos 1970, como "A última sessão de cinema" (1971) - que lhe rendeu duas indicações ao Oscar -, "Essa pequena é uma parada" (1972) e "Lua de papel" (1973), Peter Bogdanovich nunca recuperou, nas décadas seguintes, o mesmo prestígio e o mesmo sucesso de bilheteria. Com exceção de "Marcas do destino" (1985) - que deu a Cher o prêmio de melhor atriz no Festival de Cannes -, seus trabalhos pareciam ter perdido a conexão com as plateias, e nem mesmo "Texasville" (1990), que revisitava os aclamados personagens de "A última sessão", conseguiu reverter esse quadro. Foi nesse período de declínio profissional que ele tentou voltar às comédias, com a adaptação da peça teatral "Noises off", indicada ao Tony de melhor espetáculo de 1984. Não reencontrou seu público, mas demonstrou que sua segurança em lidar com os mecanismos do humor anárquico/caótico ainda se mantinha intocável. Contado com um elenco heterogêneo e um texto preciso e inteligente que homenageia o teatro (e por consequência tudo que o cerca), "Impróprio para menores" é um filme que lembra o melhor de Woody Allen - que evocaria o mesmo universo em seu "Tiros na Broadway" dois anos depois.

"Impróprio para menores" é contado, como uma peça de teatro, em três atos bem definidos, unidos por uma narração em off do diretor Lloyd Fellowes (Michael Caine), que sofre com a possibilidade de sua montagem da comédia "Nothing on" ser um fracasso monumental. A trama da peça - um vaudeville ligeiro e popular - gira em torno de um chalé no campo visitado por dois casais que não deveriam estar lá, uma empregada pouco confiável, um ladrão de residências e um sheik árabe interessado na compra do imóvel. Mas se no palco a confusão é generalizada, nos bastidores as coisas são ainda mais complicadas: o ator Gary Lejeune (John Ritter) tem um caso com a colega Dotty Ottley (Carol Burnett), significantemente mais velha; o galã Frederick Dallas (Christopher Reeve) é abandonado pela esposa poucas horas antes da estreia; o veterano Selsdon Mowbray (Denholm Elliott) está entregue ao vício da bebida e está a cada dia mais surdo; e o próprio diretor está envolvido em um triângulo amoroso com a bela Brooke Ashton (Nicolette Sheridan) e a assistente de palco Poppy Taylor (Julie Hagerty). No período que antecede a estreia do espetáculo na Broadway - quando o grupo viaja por várias cidades do interior como forma de fortalecer sua união e a qualidade das apresentações -, as situações vão ficando mais e mais absurdas, o que ameaça a continuidade da temporada.

 

Contado como uma peça de teatro em três atos - o primeiro antes da estreia em um teatro de Iowa, o segundo em uma caótica apresentação em Miami, e o terceiro na Broadway em si -, "Impróprio para menores" explora os mais variados tipos de humor. Da comédia de erros de seu primeiro capítulo ele se transforma em um espetáculo de quase cinema mudo (com uma precisão de movimentos que ecoa a própria peça que se desenrola como pano de fundo), e Bogdanovich mostra que ainda domina o tempo cômico que apresentou em "Essa pequena é uma parada". Para isso, ele tem a sorte de contar com atores que entendem totalmente o espírito do projeto e alguns (como Christopher Reeve) surpreendem com um inesperado talento para a comédia. Carol Burnett - especialista no gênero - nem precisa se esforçar muito para imprimir sua marca, e Michael Caine de certa forma surge como o mais equilibrado da trupe, oferecendo a seu Lloyd Fellowes um misto de tranquilidade externa e turbilhão interior a que apenas a plateia tem acesso. E Caine, com sua generosidade, foi o responsável por um dos grandes acertos do filme: a escalação do ator Denholm Elliott.

Amigo de Michael Caine desde que contracenaram em "Como conquistar as mulheres" (1966), o britânico Elliott havia descoberto pouco tempo antes que era portador do vírus da AIDS - uma doença ainda cercada de extremo preconceito no começo dos anos 1990. Sabendo da situação do amigo, e de sua potencial dificuldade em encontrar trabalho a partir dali, Caine - que já o havia derrotado na disputa pelo Oscar de coadjuvante de 1986 - condicionou sua participação em "Impróprio para menores" à contratação do colega para o papel que John Gielgud havia recusado. Condição aceita, Elliott entregou uma performance inspirada que seria a sua última: ele morreu meses depois da estreia do filme e Caine, por sua vez, entraria em um período prolífico da carreira a partir de seu segundo prêmio da Academia, por "Regras da vida" (1999). Peter Bogdanovich, por sua vez, jamais recuperaria seu status de grande diretor, acumulando uma sucessão de fracassos até sua morte, em janeiro de 2022.

segunda-feira

OS PIRATAS DO ROCK

 


OS PIRATAS DO ROCK (The boat that rocked, 2009, Universal Pictures/Working Title Films/StudioCanal, 135min) Direção e roteiro: Richard Curtis. Fotografia: Danny Cohen. Montagem: Emma E. Hickox. Música: Hans Zimmer. Figurino: Joanna Johnston. Direção de arte/cenários: Mark Tildesley/Dominic Capon. Produção executiva: Liza Chasin, Richard Curtis, Debra Hayward. Produção: Hilary Bevan Jones, Tim Bevan, Eric Fellner. Elenco: Philip Seymour Hoffman, Bill Nighy, Rhys Ifans, Kenneth Branagh, Emma Thompson, Tom Sturridge, Jack Davenport, Nick Frost, Chris O'Dowd, Gemma Arterton, January Jones, Will Adamsdale. Estreia: 01/4/2009

O ano era 1966. O rock britânico dominava as paradas de sucesso, as vendagens e os corações de milhares de jovens, encantados com a aura de rebeldia e liberdade. Em um movimento oposto a esse, no entanto, o governo local tentava impedir o avanço do que considerava uma cultura "perigosa", com uma lei que restringia a execução de música popular na rádio oficial do país a apenas uma hora por dia. Inconformadas com tal arbitrariedade, várias emissoras piratas entravam nos lares ingleses com uma programação recheada de sucessos - sintonizadas a partir de navios ancorados fora dos limites da Inglaterra. Uma dessas emissoras era a Radio Caroline, cujo estilo anárquico, debochado e informal ficou na mente do diretor e roteirista Richard Curtis - que, décadas mais tarde, resolveu homenageá-la com "Os piratas do rock", uma divertida e calorosa comédia que emula, de forma fictícia, sua personalidade e dia-a-dia. Narrado em forma anedótica e pontuado por uma trilha sonora das mais empolgantes - além de um elenco perfeitamente escalado -, o filme pode não ter feito um sucesso avassalador (na verdade nem chegou a pagar seu custo de produção), mas é, como o normal na carreira de Curtis, o equivalente cinematográfico a um abraço carinhoso.

Conhecido principalmente pelo roteiro de "Quatro casamentos e um funeral" (1994) - que lhe rendeu uma merecida indicação ao Oscar e lhe abriu as portas para outras pérolas do gênero, como "Um lugar chamado Notting Hill" (1999) e "O diário de Bridget Jones" (2001) -, Curtis estreou na direção com o sublime "Simplesmente amor" (2003) e tornou-se um cineasta de poucos mas consistentes filmes. "Os piratas do rock" é apenas seu segundo longa, mas já enfatiza seu estilo delicado e generoso de contar histórias centradas em seres humanos, com todas as suas idiossincrasias e possíveis tendências ao ridículo - até mesmo quando o personagem central é um barco. Com uma galeria de tipos capazes de arrancar risadas (e talvez até algumas discretas lágrimas), "Os piratas do rock" aposta em uma trama sem um protagonista único, que espalha seu foco em uma série de acontecimentos que, juntos, formam um retrato dos mais festivos de uma das mais prolíficas eras do rock - vista por seus bastidores mais distantes.

 

O cenário estabelecido por Curtis para contar sua história é a Rock Radio, uma das várias emissoras piratas que desafiavam a lei britânica para agradar a uma legião de fiéis fãs. O filme começa quando o adolescente Carl (Tom Sturridge), expulso da escola pelo supremo ato de rebeldia de fumar maconha, chega ao QG da rádio para passar uns tempos ao lado do padrinho, Quentin (Bill Nighy), o dono do lugar. Assim que chega, Carl se torna parte da rotina doméstica - que inclui duas visitas mensais de um grupo de mulheres para a diversão dos funcionários - e amigo dos radialistas, todos donos de personalidades distintas que dividem o amor pelo rock e pelas liberdades individuais. Dentre todas as bizarras situações que ele testemunha, destaca-se a nem sempre sutil rivalidade entre o americano The Count (Philip Seymour Hoffman) - um dos mais famosos de seu país - e o maior DJ da Inglaterra, o arrogante Gavin (Rhys Ifans) - que retorna depois de um período dedicado a prazeres ilícitos. Mas como a felicidade de uns é sempre o suplício de quem não é feliz, a existência da Rock Radio passa a ser ameaçada por Alistair Dormandy (Kenneth Branagh), homem de confiança do Primeiro Ministro, que faz da missão de acabar com as transmissões piratas a prioridade de seus dias.

"Os piratas do rock" não é tão redondo ou brilhante como os outros filmes de Richard Curtis - demora a engrenar e em alguns momentos sofre de uma perda de ritmo -, mas apresenta, como em todos eles, um humor contagiante. É difícil não torcer por seus anti-heróis, assim como é quase impossível não se deixar envolver por sua amizade e por sua busca por liberdade e arte. Ilustrado por uma bela trilha sonora (por vezes ligeiramente anacrônica, mas sempre funcional) e impregnado por uma ingenuidade encantadora, é uma comédia que foge do riso fácil e prefere sorrisos emocionados a gargalhadas vazias. Em suma, é tudo que a obra de seu diretor/roteirista/produtor sempre ofereceu às plateias: humor inteligente e sensibilidade.

sexta-feira

OS VINGADORES


OS VINGADORES (The Avengers, 2012, Marvel Studios/Paramount Pictures, 143min) Direção: Joss Whedon. Roteiro: Joss Whedon, estória de Joss Whedon, Zak Penn. Fotografia: Seamus McGarvey. Montagem: Jeffrey Ford, Lisa Lassek. Música: Alan Silvestri. Figurino: Alexandra Byrne. Direção de arte/cenários: James Chinlund/Victor J. Zolfo. Produção executiva: Victoria Alonso, Louis D'Esposito, Jon Favreau, Alan Fine, Jeremy Latcham, Stan Lee, Patricia Whichter. Produção: Kevin Feige. Elenco: Robert Downey Jr., Chris Evans, Mark Ruffalo, Chris Hemsworth, Scarlett Johansson, Jeremy Renner, Tom Hiddleston, Clark Gregg, Cobie Smulders, Stellan Skarsgaard, Samuel L. Jackson, Gwyneth Paltrow. Estreia: 04/5/2012

Indicado ao Oscar de Efeitos Visuais 

Primeiro filme da Marvel a ultrapassar a inacreditável marca de 1 bilhão de dólares nas bilheterias, "Os Vingadores" foi a coroação, sem espaço para dúvidas, de um projeto iniciado em 2008 com "Homem de ferro" - e que, por quatro anos, dominou o mercado do cinema comercial hollywoodiano. Com um orçamento estratosférico de estimados 220 milhões de dólares e um elenco repleto de indicados e vencedores do Oscar, o filme de Joss Whedon - diretor de episódios de séries de TV alçado à tela grande em uma prova de fogo - levou multidões às salas de exibição ao elevar à máxima potência uma receita com poucas chances de erro. Com um marketing agressivo que tornava impossível ignorar sua presença maciça e uma contagem regressiva que contava com outros cinco longas-metragens muito bem sucedidos financeiramente, a produção entregou a seu público-alvo exatamente o que ele esperava. Mas, para além disso, é um filme satisfatório ou apenas mais uma peça mercadológica esquecível e fugaz?

Logicamente quem vai ao cinema assistir a "Os Vingadores" não tem a menor intenção de testemunhar uma revolução narrativa ou estética, e vendo por esse prisma o filme de Joss Whedon é um sucesso: tudo que surge na tela é milimetricamente planejado para seguir a cartilha dos filmes de ação, estabelecendo com extrema clareza os dois opostos - bem e mal - e honrando seu orçamento em sequências espetaculares que renderam uma indicação ao Oscar de efeitos visuais. Sem precisar apresentar seus protagonistas - coisa que os cinco filmes anteriores já fizeram com êxito -, o roteiro, escrito pelo próprio diretor, utiliza boa parte de suas quase duas horas e meia para contar uma história (exagerada e inverossímil como se poderia esperar) através de explosões (pouco excitantes), lutas (bem coreografadas) e piadas (algumas inteligentes, outras apenas razoáveis). Com um elenco à vontade e entrosado, Whedon conduz uma sinfonia de destruição, onde a trama importa menos que o barulho, mas o faz com uma convicção tão plena que é difícil não se deixar envolver. Pode soar cansativo para aqueles menos entusiastas, porém alcança um patamar dos maiores dentro do gênero - principalmente em termos comerciais.

 


A trama de "Os Vingadores" tem ligação direta com as histórias dos primeiros filmes do universo criado pela Marvel, especialmente "Thor" (2011): o irmão do herdeiro do trono de Asgard, o invejoso Loki (Tom Hiddleston) chega à Terra e, com o objetivo de dominar o planeta, rouba o Tesseract - artefato alienígena de poder ilimitado - de dentro das instalações da S.H.I.E.L.D.. Com a ajuda do exército de uma raça conhecida como Chitauri, seu plano começa a incomodar Nick Fury (Samuel L. Jackson), o diretor da agência, que parte então para o ataque e reúne o maior grupo de super-heróis do mundo para evitar o pior. O encontro entre o Homem de Ferro (Robert Downey Jr.), o Capitão América (Chris Evans), o cientista Bruce Banner/Hulk (Mark Ruffalo), Thor (Chris Hemsworth), a Viúva Negra (Scarlett Johansson) - e depois o Arqueiro Verde (Jeremy Renner) - precisa de ajustes, mas, ao deixar de lado suas diferenças, formam um time que irá salvar a humanidade de uma ameaça devastadora.

Último capítulo da primeira fase do Universo Cinematográfico Marvel, "Os Vingadores" é um filme-pipoca assumido, sem nenhuma intenção a não ser oferecer o mais puro entretenimento a sua plateia, que o aprovou sem ressalvas. Justiça seja feita, tem qualidades notáveis, especialmente no que diz respeito a seu elenco: todos, sem exceção, parecem se divertir a valer com seus personagens, e muitos deles fogem de respeitáveis carreiras de prestígio para se entregarem à mais lúdica das brincadeiras. Plenamente satisfatório dentro de seus objetivos, é um nítido produto de marketing, mas que ao menos respeita seus fãs e tenta conquistar espectadores menos afeitos ao gênero. Lançado quando ainda não havia um certo desgaste em sua fórmula, jogou à estratosfera as expectativas para os filmes subsequentes - nem todos tão bem recebidos quanto ele.

quinta-feira

DEUS É BRASILEIRO

 


DEUS É BRASILEIRO (Deus é brasileiro, 2003, Sony Pictures International Productions/Globo Filmes/Luz Mágica Produções, 110min) Direção: Carlos Diegues. Roteiro: João Ubaldo Ribeiro, Carlos Diegues, colaboração de João Emanuel Carneiro, Renata Almeida Magalhães, conto "O santo que não acreditava em Deus", de João Ubaldo Ribeiro. Fotografia: Affonso Beato. Montagem: Sergio Mekler. Música: Chico Neves, Hermano Vianna. Figurino: Carla Monteiro. Direção de arte/cenários: Vera Hamburguer. Produção executiva: Tereza Gonzalez. Produção: Renata Almeida Magalhães. Elenco: Antonio Fagundes, Wagner Moura, Paloma Duarte, Stepan Nercessian, Bruce Gomlevsky, Castrinho, Toni Garrido, Susana Werner. Estreia: 31/01/2003

O que poderia resultar na união da picardia do texto de João Ubaldo Ribeiro, da experiência de Carlos Diegues como cineasta, do talento superlativo de Antonio Fagundes e do carisma excepcional de um Wagner Moura ainda dando os primeiros passos rumo ao status de um dos maiores atores nacionais? A resposta é "Deus é brasileiro", uma comédia de alma popular que não deixa de ser, dentro de suas limitações mercadológicas, inteligente e dotada de uma dose saudável de sensibilidade. Sem apelar para polêmicas religiosas - ainda que faça piadas sobre o cristianismo e sobre as concepções humanas do sagrado -, o filme de Diegues dialoga com o público através de uma linguagem simples, que evita intelectualismos estéreis. Pode não funcionar cem por cento do tempo, mas diverte o suficiente para comprovar a versatilidade do diretor, um dos fundadores do Cinema Novo e autor de alguns dos maiores sucessos de bilheteria brasileiros, como "Xica da Silva" (1976) e "Bye bye, Brasil" (1979).

O protagonista do filme é Edvaltécio Barbosa da Anunciação, ou simplesmente Taoca (Wagner Moura), um pescador que complementa sua renda como borracheiro, enquanto tenta arrumar dinheiro para pagar suas dívidas com o violento Baudelé Vieira (Stepan Nercessian). Esperto e dono de uma lábia que frequentemente o coloca em situações difíceis (e às vezes também consegue tirá-lo delas), Taoca um dia conhece, no meio do mar, um homem de meia-idade que se apresenta como Deus (Antonio Fagundes). A princípio incrédulo - por no mínimo uma boa razão -, ele logo percebe que está realmente diante do Criador. O motivo da visita à Terra, no entanto, é ainda mais surreal: cansado de séculos a consertar erros da humanidade, Deus resolve tirar um período de férias, mas para isso, precisa encontrar alguém que o substitua. Conhecendo a história do Brasil em ser um dos maiores países católicos do mundo (e paradoxalmente sem nenhum santo oficial), Ele chega ao Nordeste disposto a encontrar o homem que acredita ter todos os requisitos para a função. Mas, até chegar a ele, o Todo-poderoso precisa da ajuda de Taoca - e, no caminho, junta-se a eles a melancólica Madá (Paloma Duarte), que sonha em chegar à cidade grande para levar uma vida menos sofrida.


 

Com locações em Alagoas, Tocantins e Pernambuco, "Deus é brasileiro" é quase um road movie nacional - gênero com o qual Carlos Diegues tem familiaridade desde seu clássico "Bye bye, Brasil". Porém, enquanto a trupe de Lorde Cigano (José Wilker) enfrentava a transformação cultural do interior do país, abandonando suas raízes em troca de uma pretensa modernização, em "Deus é brasileiro" o foco é a comercialização da fé, o sincretismo religioso de uma população carente de atenção e, por que não?, a busca por um conceito mais humanizado de religião. Na pele de um Deus ranzinza, cansado e quase egoísta, Antonio Fagundes demonstra um tempo cômico dos mais acertados (ainda que nem sempre o roteiro lhe dê espaço para maiores voos), mas é Wagner Moura quem mais se destaca, recriando (sem demérito algum) o tipo do nordestino cuja resiliência vive em levar o dia-a-dia e as desgraças com o máximo de bom humor e esperteza. Assim, é difícil não ver nele - em seus diálogos - um eco do bem-sucedido "O auto da Compadecida" (2000), um dos maiores êxitos comerciais do cinema nacional de sua época. Há uma grande diferença, no entanto, entre os dois filmes: enquanto a obra de Guel Arraes se beneficia de um conjunto harmônico de elementos (fotografia, figurino, desenho de produção e principalmente roteiro), o trabalho de Diegues deixa perceber, em alguns momentos, uma dificuldade de conexão que atrapalha o todo. O próprio enredo não chega a dizer exatamente a que se propõe, preferindo explorar a relação entre os dois protagonistas do que elaborar um objetivo claro - especialmente em sua segunda metade, depois que o tal santo procurado por Deus é finalmente encontrado e se demonstra uma decepção. Diegues parece tão fascinado pela interação entre Fagundes e Moura (e vá lá, também a esforçada Paloma Duarte) que esquece de passar com nitidez a mensagem de sua história.

Baseado no conto "O santo que não acreditava em Deus", de João Ubaldo Ribeiro, também um dos autores do roteiro, "Deus é brasileiro" funciona bastante bem como comédia - em grande parte devido aos diálogos espertos e à atuação de Wagner Moura -, mas falha em tentar ser mais profundo do que verdadeiramente é. Quando se assume como farsa é uma delícia, porém escorrega quando busca uma seriedade que destoa de seu DNA. Se tecnicamente não é um primor - os efeitos visuais são bastante capengas -, ao menos mantém uma honestidade que o torna irresistível a quem procura rir das próprias mazelas sociais e religiosas.

quarta-feira

CAPITÃO AMÉRICA: O PRIMEIRO VINGADOR


CAPITÃO AMÉRICA: O PRIMEIRO VINGADOR (Captain America: The first avenger, 2011, Marvel Studios/Paramount Pictures/Marvel Entertainment, 124min) Direção: Joe Johnston. Roteiro:Christopher Markus, Stephen McFeely, personagens criados por Stan Lee, Jack Kirby. Fotografia: Shelly Johnson. Montagem: Robert Dalva, Jeffrey Ford. Música: Alan Silvestri. Figurino: Anna B. Sheppard. Direção de arte/cenários: Rick Heinrichs/John Bush. Produção executiva: Louis D'Esposito, Alan Fine, Nigel Gostelow, Joe Johnston, Stan Lee, David Maisel. Produção: Kevin Feige. Elenco: Chris Evans, Hugo Weaving, Sebastian Stan, Tommy Lee Jones, Stanley Tucci, Toby Jones, Dominic Cooper, Hayley Atwell, Richard Armitage, Samuel L. Jackson. Estreia: 19/7/2011

Criado como uma resposta à violência da Alemanha nazista, o Capitão América surgiu, segundo dizem, inspirado em um mito do folclore judeu, o Golem, um protetor contra a violência antissemita. Sua primeira aparição, em março de 1941 - esmurrando Adolf Hitler em pessoa - já causou polêmica e rendeu a seus criadores, Jack Kirby e Joe Simon, ameaças de grupos alinhados à política do chanceler alemão. O mais popular herói dos quadrinhos durante a II Guerra Mundial, porém, foi sendo deixado de lado após o fim do conflito e só voltou a ser aplaudido - dessa vez por uma nova geração - quando Kirby e Stan Lee o reuniu aos Vingadores, em março de 1964. O mais patriota dos heróis da Marvel, chegou perto de ter uma adaptação para os cinemas nos anos 1980 - com Jeff Bridges no papel principal -, mas foi somente com o sucesso dos dois filmes estrelados pelo Homem de Ferro e a definição de um projeto mais amplo da editora - que também originou "Thor" (2010) - que as telas (e o público) finalmente viram uma transposição digna da trajetória do soldado Steve Rogers. Com uma produção caprichada e uma renda internacional de mais de 370 milhões de dólares, "Capitão América" foi mais um passo certeiro da Marvel, e o último capítulo antes do ambicioso "Os Vingadores", lançado um ano mais tarde.

A trama - bastante fiel àquela revelada em um quadrinho lançado em janeiro de 1969 - começa em 1942 e acompanha o idealista e obstinado Steve Rogers (Chris Evans) em seu desejo de alistar-se ao exército americano e ajudar o país e os aliados na II Guerra Mundial. Franzino e pouco saudável, o jovem é repetidamente rejeitado em seus pedidos, ao contrário do que acontece com seu melhor amigo, Bucky Barnes (Sebastian Stan). Sua situação muda, no entanto, quando ele é escolhido pessoalmente pelo renomado cientista alemão Abraham Erskine (Stanley Tucci) para fazer parte de uma experiência secreta que almeja criar super soldados. Colaborando com os EUA depois que suas pesquisas foram roubadas por Johan Schmidt (Hugo Weaving), um nazista de alta patente e de métodos criminosos, Erskine vê no caráter de Rogers uma característica imprescindível para aqueles a quem deseja oferecer o soro que irá mudar os rumos da guerra. Quando o cientista é assassinado, no entanto, o projeto é deixado de lado e Rogers torna-se o Capitão América, uma simples peça de propaganda para o exército americano. Mas quando o pelotão do qual seu melhor amigo faz parte é capturado, Rogers desafia seus superiores e parte para seu resgate - batendo de frente com o perigoso Red Skull, líder da Hydra (organização terrorista ligada à Alemanha nazista). Para isso, ele conta com a tecnologia criada pelo milionário Howard Stark (Dominic Cooper).

Dirigido por Joe Johnston - escolhido graças a seu trabalho em "Rocketeer" (1991) e "O céu de outubro" (1999) -, "Capitão América" encontrou em Chris Evans seu intérprete ideal, mas foi somente depois de várias recusas que o ator (já conhecido do público de quadrinhos por ter vivido o Tocha Humana na adaptação de "Quarteto fantástico" (2005)) finalmente aceitou o desafio de encarnar um dos maiores ícones da cultura pop do século XX. Primeira escolha dos produtores, Evans hesitou por um bom tempo em adentrar o universo da Marvel - e nesse meio-tempo, abriu espaço para inúmeras outras possibilidades, que iam de Brad Pitt e Matthew McConaughey a Will Smith e Leonardo DiCaprio, passando por Sam Worthington e John Krasinski (que chegou a fazer teste de figurino mas desistiu da empreitada na última hora). Bonito e carismático, Evans nem precisa fazer muito esforço para convencer a plateia de seus atos de heroísmo - ao mesmo tempo em que também convence facilmente como o jovem frágil rejeitado por seus (poucos) dotes físicos. O que talvez seja pouco crível apenas é o relacionamento amoroso entre Steve e a agente britânica Peggy Carter (interpretada pela insossa Hayley Atwell) - apesar de ser um respiro em tantas cenas de ação, seu romance soa deslocado e pouco interessante, ao contrário da relação entre o protagonista e Bucky Barnes - personagem que será crucial na segunda aventura do herói.

Como é comum nos filmes da Marvel, a produção de "Capitão América: o primeiro vingador" é caprichada, tecnicamente impecável e milimetricamente calculada para conquistar todo tipo de plateia. Quando se detém a explorar as relações entre os personagens não vai além do básico - apesar de o elenco (que inclui Tommy Lee Jones e Samuel L. Jackson) arrancar o máximo de cada diálogo -, mas é evidente que o foco do roteiro são as sequências de ação (derivativas mas adequadas às expectativas de plateias sempre sedentas por adrenalina). No final das contas, é um filme que entrega o que promete e diverte a seu público-alvo independentemente da falta de criatividade de sua trama e seu desenvolvimento.

 

terça-feira

NINA


NINA (Nina, 2004, Branca Filmes/Fábrica Brasileira de Imagens/Gullane, 90min) Direção: Heitor Dhalia. Roteiro: Marçal Aquino, Heitor Dhalia. Fotografia: José Roberto Elieser. Montagem: Estevan Santos. Música: Antonio Pinto. Figurino: Verônica Julian, Juliana Prysthon. Direção de arte: Guta Carvalho, Akira Goto. Produção executiva: Caio Gullane, Fabiano Gullane. Produção: Akira Goto, Fabiano Gullane. Elenco: Guta Stresser, Myrian Muniz, Wagner Moura, Guilherme Weber, Selton Mello, Lázaro Ramos, Matheus Nachtergaele, Aílton Graça, Renata Sorrah, Juliana Galdino, Sabrina Greve, Milhem Cortaz, Abrahão Farc. Estreia: 05/11/2004

É preciso coragem para mexer em "Crime e castigo", clássico absoluto da literatura russa e uma das mais emblemáticas obras do escritor Fiódor Dostoiévski. Mas é justamente isso que o paulista Heitor Dhalia faz em "Nina", seu primeiro longa-metragem: inspirado (nem tão livremente assim) no livro publicado em 1866, o filme estrelado por Guta Stresser (então no auge da popularidade graças à série "A grande família") mistura elementos do romance, linguagem de quadrinhos e um visual de estética gótica para contar uma história de solidão, desespero e culpa. Nem sempre atinge todos os seus objetivos - e nem sempre é fiel à sua fonte -, mas merece aplausos por sua ousadia narrativa e pela busca em romper com os padrões narrativos do cinema nacional. Contando com participações luxuosas - e em algumas vezes quase imperceptíveis de nomes consagrados como Renata Sorrah, Lázaro Ramos, Matheus Nachtergaele e Selton Mello -, "Nina" surgiu como um estranho no ninho dentro da filmografia brasileira de 2004, que apostou em cinebiografias ("Cazuza: o tempo não para" e "Olga"), comédias com elencos globais ("Sexo, amor e traição", "Como fazer um filme de amor"; "A dona da história") e documentários ("Pelé eterno"; "Entreatos").  Pode não ter se tornado um sucesso de bilheteria, mas foi o pontapé inicial na carreira de Dhalia, que em poucos anos chegaria a Hollywood com seu "12 horas" (2012).

Em uma atuação cujos excessos servem com perfeição ao visual estilizado proposto pelo conceito original, Guta Stresser vive a personagem-título, uma jovem atormentada por pesadelos e traumas de infância que alivia seu sofrimento mental através de seu talento como desenhista. Sobrevivendo aos trancos e barrancos em empregos nos quais se sente explorada, Nina passa as noites em festas regadas à álcool, drogas e sexo fácil, como forma de aguentar um dia-a-dia sufocante e opressivo. Ela aluga um quarto no amplo apartamento de Eulália (Myrian Muniz) e sofre com a falta de dinheiro que a faz ser constante humilhada. Mesquinha e cruel, Eulália não pensa duas vezes em trancar a geladeira, violar sua correspondência e até obrigá-la a fazer a pesada limpeza da casa como pagamento. Com a mente cada vez mais desestabilizada, Nina começa a ter pensamentos violentos - e uma tragédia a joga inexoravelmente no caminho da loucura.

 
 
Se utilizando de desenhos de Lourenço Mutarelli para ilustrar a mente em turbilhão de sua protagonista e de uma fotografia que retrata com precisão a atmosfera claustrofóbica da narrativa, "Nina" mergulha o espectador em um pesadelo sensorial, explicitada por ângulos de câmera inusitados, uma trilha sonora distorcida, personagens que flertam com o bizarro e uma edição intrincada, sempre a um passo do caos. O roteiro, por vezes superficial (até mesmo por sua estrutura episódica) retrata também o cotidiano de sua torturada personagem central, perdida em um comportamento errático e de relacionamentos superficiais - como o cego interpretado por Wagner Moura, em uma sequência de soluções visuais interessantes e criativas -, mas falha em conectá-la com o espectador. Mesmo que exista a empatia em relação às maldades de Eulália, é incômodo perceber seu viés maniqueísta, que reforça a impressão de uma produção audiovisual com alma de história em quadrinhos. Se encanta em termos estéticos e artísticos, é frágil quanto dramaturgia - apesar do desempenho memorável da veterana Myrian Muniz em seu primeiro trabalho no cinema, e do esforço de Guta Stresser em ser maior do que os clichês da caracterização de sua Nina.

Vencedor de quatro estatuetas do Prêmio Guarani - distribuídos aos destaques do cinema nacional - e homenageado com o prêmio da crítica no Festival de Moscou, "Nina" é um filme atípico dentro da filmografia brasileira, tanto por sua temática quanto por seu conceito. Feito para um público disposto a experimentar novos formatos e realizado quase como uma ação entre amigos - o que fica claro com as participações muito especiais que se espalham pelos noventa minutos de duração -, é uma das produções mais interessantes do começo dos anos 2000, mesmo com todos os pecadilhos que o impedem de ser completamente satisfatório.

 

segunda-feira

ESTAMOS TODOS BEM

 


ESTAMOS TODOS BEM (Stanno tutti bene, 1990, Erre Produzioni/Les Films Ariane/TF1 Films Production, 118min) Direção: Giuseppe Tornatore. Roteiro: Giuseppe Tornatore, Massimo De Rita, Tonino Guerra. Fotografia: Blasco Giurato. Montagem: Mario Morra. Música: Ennio Morricone. Figurino: Beatrice Bordone. Direção de arte/cenários: Andrea Crisanti/Nello Giorgetti. Produção executiva: Mario Cotone. Produção: Angelo Rizzoli Jr.. Elenco: Marcello Mastroianni, Valeria Cavalli, Marino Cenna, Norma Martelli, Roberto Nobile, Salvatore Cascio. Estreia: 20/5/90 (Festival de Cannes)

Quando "Estamos todos bem" estreou, no Festival de Cannes de 1990, ainda não fazia nem dois meses que seu diretor, Giuseppe Tornatore, havia recebido (merecidamente) o Oscar de melhor filme estrangeiro pelo belo "Cinema Paradiso" (1989). Já considerado um dos mais promissores cineastas italianos e apostando mais uma vez na emoção, o jovem Tornatore - que ainda não tinha 34 anos completos na ocasião - voltou a emocionar o público, demonstrando uma maturidade narrativa envolvente, que se revela mais e mais profunda conforme se desdobra diante do espectador. Contando com a presença sempre magnética do veterano Marcello Mastroianni no papel principal e com a participação do pequeno Salvatore Cascio - o menino que emocionou o mundo em seu filme anterior -, o diretor conta uma história sobre segredos de família, sonhos frustrados e a inexorabilidade do envelhecimento, tudo acompanhado da trilha sonora de Ennio Morricone.

Mastroianni, de óculos fundo de garrafa e aparentando mais do que seus 65 anos à epoca das filmagens, é o corpo e a alma de "Estamos todos bem". Ele vive Matteo Scuro, um escrivão aposentado, que, depois de ver frustrado seu plano de reunir os cinco filhos - todos com nomes de personagens de ópera - para uma temporada de verão, resolve viajar pela Itália para surpreendê-los em suas rotinas familiares e profissionais. Orgulhoso da família que criou - a ponto de mostrar sua melhor fotografia a quem possa interessar (ou até a quem não tem o menor interesse) -, Matteo começa a jornada com Canio (Marino Cenna), que acredita ser um homem de grande importância dentro da política; depois, ele chega até Tosca (Valeria Cavalli), uma atriz requisitada e que, vez ou outra, cuida do bebê da vizinha; a terceira da lista é Norma (Norma Martelli), a única que lhe deu um neto, um adolescente que acaba de engravidar a namorada; o penúltimo é Guglielmo (Roberto Nobile), parte integrante de uma orquestra que faz shows pela Europa. O único que Matteo não consegue encontrar é Alvaro, que, mesmo que não reconheça, é seu filho preferido: seu paradeiro só é conhecido pelos irmãos, que preferem não revelá-lo ao carente e iludido pai.

 

Logicamente tudo que Matteo sabe sobre os filhos é apenas a superfície: vivendo longe do pai, todos levam uma vida oposta ao que aparentam diante de seu ingênuo patriarca. Enquanto vai revelando os segredos dos cinco Scuro (um sobrenome que já deixa antever suas existências dúbias), a câmera de Tornatore vai mostrando, também, uma Itália pouco a pouco deixando de ser o nostálgico e romântico país do velho burocrata, com suas ruas mal cuidadas, suas paisagens obscurecidas por obras e sua paz alterada pela velocidade de uma rotina esmagadora. Os respiros proporcionados pelos flashbacks que remetem Matteo a seus dias felizes ao lado da esposa - com quem conversa e a quem faz relatórios constantes de sua viagem solitária - pincelam a narrativa de um tom melancólico que trai a característica mais marcante do diretor: o carinho por seus personagens, que atenua até mesmo seus defeitos. E não atrapalha, é claro, que Marcello Mastroianni ofereça um de seus desempenhos mais emocionantes: na pele de um idoso romântico, por vezes inconveniente e frequentemente inconsciente de sua condição de indesejado, o ícone do cinema italiano deixa de lado a imagem de sedutor e assume a maturidade de forma comovente. É praticamente impossível passar por "Estamos todos bem" e não se emocionar ao menos em alguma de suas belas sequências - valorizadas pelos diálogos certeiros do roteiro enxuto.

"Estamos todos bem" não teve a mesma aclamação popular e crítica de "Cinema Paradiso"  - mas rendeu um remake americano estrelado por Robert DeNiro quase dez anos depois. Ao voltar seu olhar para as fissuras no núcleo familiar - um lugar de alcance universal e sempre delicado de se visitar -, Giuseppe Tornatore demonstra que a sensibilidade de seu filme mais celebrado era apenas uma pequena parte de sua calorosa personalidade. Lágrimas não faltam - e o mestre Morricone apenas as sublinham com sua bela e quase irônica melodia.

sexta-feira

THOR

 

THOR (Thor, 2011, Marvel Studios/Paramount Pictures/Marvel Entertainment, 115min) Direção: Kenneth Branagh. Roteiro: Ashley Edward Miller, Zack Stentz, Don Payne, estória de J. Michael Straczynski, Mark Protosevich, personagens criados por Stan Lee, Larry Lieber, Jack Kirby. Fotografia: Haris Zambarloukos. Montagem: Paul Rubell. Música: Patrick Doyle. Figurino: Alexandra Byrne. Direção de arte/cenários: Bo Welch/Lauri Gaffin. Produção executiva: Louis D'Esposito, Alan Fine, Stan Lee, David Maisel, Patricia Whitcher. Elenco: Chris Hemsworth, Natalie Portman, Anthony Hopkins, Tom Hiddleston, Stellan Skarsgard, Kat Dennings, Clark Gregg, Colm Feore, Idris Elba, Rene Russo. Estreia: 17/4/2011 (Sidney)

 A princípio pode parecer bastante estranho que um cineasta de tanto prestígio quanto Kenneth Branagh - indicado aos Oscar de ator e diretor aos 29 anos, por "Henry V" (1989) - tenha sido o escolhido para comandar "Thor", uma produção nitidamente comercial que dava continuidade às adaptações para as telas dos super-heróis da Marvel, iniciadas com o sucesso estrondoso de "Homem de ferro" (2008). Porém, basta ver os conflitos familiares na origem do personagem para compreender as razões por tal escolha: famoso por suas transposições das peças de Shakespeare para o cinema, Branagh viu ecos da obra do bardo na relação entre os protagonistas e, como fã dos quadrinhos desde a infância, aceitou o desafio de imprimir uma visão artística a um produto meramente mercadológico. Não se pode dizer que conseguiu atingir totalmente seus objetivos, mas em termos financeiros - com quase 450 milhões de dólares arrecadados internacionalmente - deixou o estúdio plenamente satisfeito e deu mais um passo em direção a seu "Os Vingadores", lançado em 2012.

Como é comum em filmes de origem, "Thor" se dedica, em boa parte de suas quase duas horas de duração, a contar os motivos que levaram o protagonista a sair de seu planeta natal, Asgard, e chegar à Terra, onde irá, futuramente, fazer parte da S.H.I.E.L.D. - organização que será responsável pela reunião de todos os heróis da Marvel para fins de proteção do planeta. A trama começa narrando uma batalha, acontecida em 965 A.C., quando um exército de Asgard impede os temíveis Gigantes Gelados de transformarem a Terra em um planeta devastado através dos poderes do Tesseract (um artefato com poderes ilimitados). O objeto fica, então, em poder do rei de Asgard, o poderoso Odin (Anthony Hopkins em papel oferecido a Mel Gibson). Anos mais tarde, uma tentativa de invasão da sala onde está guardado o objeto causa uma ruptura no clã de Odin: para defender a paz, seu filho mais velho e herdeiro do trono, Thor (Chris Hemsworth), desafia as orientações paternas e se inssurge contra os invasores, causando o rompimento da antiga trégua. Como punição, Odin envia o rapaz para a Terra (Midgard) - sem o martelo que lhe concede seus poderes - mas não percebe que seu filho adotivo, o sorrateiro Loki (Tom Hiddleston), está em negociações com os inimigos do reino para que possa ser coroado o novo soberano. Na Terra, enquanto isso, Thor se apaixona pela bela cientista Jane Foster (Natalie Portman) - e terá que recuperar seu martelo para impedir a destruição do planeta, consequência das articulações de seu ressentido irmão.

 

Não é difícil perceber, no roteiro de "Thor", as tais relações com a obra de Shakespeare - o próprio Tom Hiddleston enxerga, em seu Loki, pontos de semelhança com Edmund, um dos personagens da clássica "O rei Lear". A difícil relação entre pai e filhos - detalhe que chamou a atenção de Anthony Hopkins e o fez aceitar o papel de Odin, saindo de uma quase aposentadoria - é o grande trunfo dramático do filme de Branagh, e um atrativo a mais em um filme que, do contrário, poderia resumir-se a apenas mais um show pirotécnico. Utilizando-se de elementos da mitologia nórdica - de forma explícita ou espalhadas em citações visuais e em diálogos aparentemente banais -, "Thor" é uma produção que oferece exatamente o que seu público-alvo procura, equilibrando sequências de ação com momentos que permitem o brilho de seu elenco, em especial Tom Hiddleston, que rouba a cena com seu Loki, ao mesmo tempo cruel e dotado de um senso de humor que conquista de imediato a plateia. E se Chris Hemsworth parece o intérprete ideal para viver o super-herói do título, ele teve - assim como Thor - de disputar o papel com... seu próprio irmão, Liam Hemsworth, que, quase como prêmio de consolação, foi viver um dos personagens principais da série "Jogos vorazes".

A disputa entre os Hemsworth, porém, foi apenas a reta final pela escolha do ator que iria personificar um dos mais icônicos ídolos dos quadrinhos. Um projeto que já datava de 1991, quando Stan Lee em pessoa aproximou-se de Sam Raimi - vindo do elogiado "Darkman: vingança sem rosto" (1990) - para dirigir uma adaptação a ser produzida pela 20th Century Fox, "Thor" só voltou a ser objeto de interesse de Hollywood com o êxito de "Homem de ferro" e a decisão da Marvel em criar todo um universo cinematográfico. Cineastas como Guillermo Del Toro e Steven Spielberg foram cogitados para comandar o filme - mas apenas com a contratação de Kenneth Branagh as coisas começaram a andar, e mesmo assim, a seleção para o protagonista movimentou a indústria. De astros consagrados como Brad Pitt e Daniel Craig a jovens promessas, como Channing Tatum, Charlie Hunnam e Joel Kinnaman, o papel do herdeiro do trono de Asgard esteve vago até que Chris - que já havia provado o gostinho da fama com "Star Trek" (2009) - finalmente entrou em cena e assumiu a bronca. O sucesso de bilheteria - e até a boa vontade da crítica - mostraram que o público aprovou a decisão.

quinta-feira

MÁFIA NO DIVÃ


MÁFIA NO DIVÃ (Analyze this, 1999, Warner Bros, 103min) Direção: Harold Ramis. Roteiro: Harold Ramis, Kenneth Lonergan, Peter Tolan, estória de Kenneth Lonergan, Peter Tolan. Fotografia: Stuart Dryburgh. Montagem: Craig P. Herring, Christopher Tellefsen. Música: Howard Shore. Figurino: Aude-Bronson-Howard. Direção de arte/cenários: Wynn Thomas/Leslie E. Rollins. Produção executiva: Bruce Berman, Chris Brigham, Billy Crystal. Produção: Jane Rosenthal, Paula Weinstein. Elenco: Robert DeNiro, Billy Crystal, Lisa Kudrow, Chazz Palminteri, Joe Viterelli. Estreia: 05/3/99

Acostumadas a ver Robert DeNiro em papéis dramáticos, violentos e/ou a um passo do abismo, as plateias do final dos anos 1990 foram surpreendidas com uma nova faceta de seu talento - poucas vezes revelada em sua longa e incensada carreira. Aproveitando sua imagem de durão (consagrada por inúmeras colaborações com Martin Scorsese), DeNiro chegou às telas em "Máfia no divã", uma comédia descrita por seu diretor Harold Ramis como um encontro entre "O poderoso chefão" e "Nosso querido Bob" e que rendeu mais de 100 milhões de dólares somente no mercado doméstico (EUA e Canadá). Escapando com maestria da maldição dos filmes de uma piada só, a história da relação tóxico-afetiva entre um chefe mafioso e um psicanalista judeu se beneficia não apenas do carisma à toda prova de seu astro maior, mas também de sua inusitada química com Billy Cristal - uma interação das mais felizes na carreira de ambos.

Ben Sobel (Billy Cristal) é um psicanalista entediado com sua profissão e que vive em constante conflito com o filho adolescente e comas cobranças que faz a si mesmo, originadas de um complexo de inferioridade em relação ao pai. Às vésperas de seu casamento com a repórter Laura MacNamara (Lisa Kudrow), ele é procurado por Paul Vitti (Robert DeNiro), um conhecido mafioso de Nova Iorque que está sofrendo de ataques de pânico, crises de choro e problemas sexuais com a amante. Impressionado com a primeira conversa que tem com o médico, Vitti resolve que ele irá se tornar seu analista pessoal - o que significa que, a partir de então, Sobel passará a ter o mafioso e seus comparsas sempre em seu caminho, não importa o quão desconfortável isso possa ser. Precisando resolver sua condição frágil a tempo de um encontro com vários chefões da máfia que irá acontecer em poucas semanas, Paul Vitti se torna obcecado pelo tratamento - desde que não ultrapasse alguns limites ("se eu virar bicha, você morre!").

 

O melhor de "Máfia no divã" é sua capacidade de fazer rir e manter viva uma única piada por cem minutos sem cair na redundância. Graças a um roteiro repleto de diálogos inteligentes e a direção segura de Harold Ramis - que tem no currículo o genial "Feitiço do tempo" (1993) -, o filme mantém o ritmo até seus minutos finais, em um clímax que acena aos clássicos de Scorsese, não por acaso o primeiro nome sondado para a direção. Além disso, apresenta uma química brilhante entre DeNiro e Billy Cristal, capaz de arrancar gargalhadas sem muito esforço - não atrapalha, também, contar com a presença da ótima Lisa Kudrow, apesar de seu pouco tempo em cena. O elenco coadjuvante - escolhido a dedo pelo diretor e por seu ator principal em visitas a um bairro italiano de Nova Iorque - é outro ponto alto da produção, oferecendo uma autenticidade visual que contrasta com o tom surreal da premissa, desenvolvida por Ramis, Peter Tolan (roteirista de diversos episódios de séries televisivas) e Kenneth Lonergan - que ganharia um Oscar em 2017 pelo dramático "Manchester à beira-mar". Engraçado sem apelar para qualquer tipo de humor ofensivo, o roteiro brinca com os clichês sobre o crime organizado e sobre os exageros da psicanálise - e faz rir principalmente pela inversão de papéis que ocorre a cada encontro entre analista e analisado.

Mas, apesar de ser impossível imaginar outro ator na pele do atormentado mafioso Paul Vitti, a presença de Robert DeNiro foi confirmada somente depois que vários outros nomes foram sondados para o papel. Antes que Harold Ramis assumisse a direção - substituindo o britânico Richard Loncraine (de "Ricardo III", de 1995) - possibilidades bastante diversas foram aventadas, dos veteranos Harrison Ford e Burt Reynolds aos especialistas em comédias Robin Williams e John Goodman, passando pelos previsíveis Joe Pesci e Bob Hoskins e os surpreendentes Tom Selleck e Ted Danson. Para sorte do público, no entanto, nada impediu o perfeito casamento entre personagem e ator - um casamento tão feliz que rendeu ainda uma continuação, lançada em 2002, sem o mesmo brilho do original (em parte por não ter o mesmo frescor.)

 

A GAIOLA DAS LOUCAS

  A GAIOLA DAS LOUCAS (The Birdcage, 1996, United Artists, 117min) Direção: Mike Nichols. Roteiro: Elaine May, original de Francis Veber, ...