quinta-feira, 11 de maio de 2017

DUBLÉ DE CORPO

DUBLÉ DE CORPO (Body double, 1984, Columbia Pictures, 114min) Direção: Brian De Palma. Roteiro: Brian De Palma, Robert J. Avrecht, estória de Brian De Palma. Fotografia: Stephen H. Burum. Montagem: Jerry Greenberg, Bill Pankow. Música: Pino Donaggio. Figurino: Gloria Gresham. Direção de arte/cenários: Ida Random/Cloudia. Produção executiva: Howard Gottfried. Produção: Brian De Palma. Elenco: Craig Wasson, Melanie Griffith, Gregg Henry, Dennis Franz, Deborah Shelton. Estreia: 15/10/84

Brian De Palma é um fã confesso de Alfred Hitchcock. Mais do que isso, porém, é um cineasta de grande sensibilidade e talento, capaz de utilizar-se das referências ao mestre do suspense para dar forma a tramas surpreendentes, com um apuro visual impecável e pleno domínio do ritmo e da tensão. Um exemplo claro disso é "Dublê de corpo", um de seus mais famosos (e violentos) filmes: repleto de citações - diretas ou indiretas - à filmografia de Hitch, seu trabalho imediatamente posterior ao polêmico "Scarface" (83), refilmagem sanguinolenta do clássico de Howark Hawks, é uma aula de cinema, tanto tecnicamente quanto em termos de narrativa. Não exatamente reconhecido à época de seu lançamento - chegou a ser indicado a Pior Diretor no Framboesa de Ouro - e posteriormente alçado à categoria de cult, é um filme que resiste bravamente ao teste do tempo por ao menos uma grande razão: mais que uma simples homenagem a um dos mais seminais criadores do suspense no cinema, é, na verdade, um compêndio do que o melhor o gênero pode oferecer a seu público.

A partir de uma ideia surgida durante as filmagens de "Vestida para matar" - quando a atriz Angie Dickinson precisou de uma dublé de corpo para suas cenas no chuveiro - e preenchido com algumas experiências de De Palma nos bastidores de seus filmes anteriores, o roteiro de "Dublé de de corpo"  é repleto de reviravoltas e mudanças de rumo, que prendem o espectador do primeiro ao último minuto. Tudo começa quando o ator Jake Scully (Craig Wasson em papel oferecido a Kurt Russell), sofrendo de claustrofobia, é demitido de um filme B de terror, dirigido por seu amigo Rubin (Dennis Franz), por não conseguir manter-se no caixão onde seu personagem, um vampiro, passa parte de seu dia. Frustrado e humilhado, ele chega em casa e flagra a esposa com outro homem: em poucas horas ele está sem trabalho, sem mulher e sem casa para morar. Buscando um novo emprego, ele conhece o também ator Sam Bouchard (Gregg Henry), que lhe oferece uma solução inesperada: enquanto ele viaja a serviço, Scully pode ficar no fantástico apartamento de um amigo, tendo como única obrigação regar as plantas do lugar. Antes de deixar o novo hóspede sozinho, porém, Bouchard lhe apresenta outro atrativo do lugar: a sexy vizinha da casa em frente, que toda noite faz um sensual striptease diante da janela. Não demora para que Scully - sozinho e deprimido - se sinta completamente atraído pela bela e desinibida moradora, a quem vê também sendo espancada pelo marido (em uma referência clara à "Janela indiscreta", de 1956).


Obcecado pela vizinha, o ator passa a seguí-la, mas não consegue evitar que, em plena luz do dia, ela seja roubada por um sinistro indígena - sua claustrofobia volta a atacá-lo quando está correndo atrás do criminoso em um túnel, quase como James Stewart em "Um corpo que cai" (58) - nem tampouco que, mais tarde, ela seja violentamente assassinada. Testemunha ocular do homicídio, Scully (que chegou a trocar alguns beijos com a vítima) se surpreende, porém, quando, ao assistir um vídeo pornô, descobre que talvez seus olhos tenham lhe pregado uma peça. Penetrando o submundo dos filmes de sexo hardcore, ele conhece Holly Body (Melanie Griffith), uma profissional que será seu passaporte para uma série de descobertas desconcertantes a respeito de tudo aquilo que ele julgava saber - e pelo caminho, perceber que foi usado como um peão em uma conspiração muito mais complicada do que parecia.

Com pleno domínio das ferramentas que o cinema pode oferecer, Brian De Palma mergulha a plateia em um jogo de espelhos cruel e angustiante, sem poupar cenas de violência e um erotismo perturbador. Revelando Melanie Griffith - indicada ao Golden Globe de atriz coadjuvante por um papel recusado por Brooke Shields e oferecido também à Jamie Lee Curtis, Tatum O'Neal e Carrie Fischer - como um símbolo sexual quase inusitado e ousado a ponto de mostrar uma longa sequência sem diálogos (que remete a si mesmo, em um momento clássico de "Vestida para matar"), "Dublé de corpo" é também um fascinante estudo sobre o voyeurismo e a obsessão, retratados com um senso de urgência e paranoia de que somente De Palma é capaz sem soar derivativo ou vazio. Um dos grandes filmes da década de 80, tão marcante hoje quanto há trinta anos.

Nenhum comentário: