sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

O QUE FIZ EU PARA MERECER ISTO?

O QUE FIZ EU PARA MERECER ISTO? (Qué he hecho yo para merecer esto?, 1984, Kaktus Produciones Cinematograficas, 101min) Direção e roteiro: Pedro Almodovar. Fotografia: Angel L. Fernandez. Montagem: José Salcedo. Música: Bernardo Bonezzi. Figurino: Cecília Roth. Direção de arte: Román Arango, Pin Morales. Produção executiva: Hervé Hachuel. Elenco: Carmen Maura, Luis Hostalot, Veronica Forqué, Gonzalo Suarez, Chus Lampreave. Estreia: 25/10/84

Em seu quarto longa-metragem, Pedro Almodovar deixou de lado o deboche característico de seus primeiros trabalhos para falar sério. Quer dizer, mais ou menos. Ao contar a triste e melancólica história de uma mulher presa a uma vida sem esperanças, o cineasta espanhol mais popular da Espanha não abdicou de um certo humor negro, unindo a ele uma visão crítica sobre a sociedade de seu país, mais precisamente sobre a parcela menos favorecida economicamente. Tendo como protagonista a excelente Carmen Maura - que transmite em sua atuação a seriedade proposta mesmo diante dos absurdos característicos da obra do diretor - "O que fiz eu para merecer isto?" é, justamente por esse desvio de rota na trajetória almodovariana de fazer rir, seu filme menos popular. Mas sempre é hora de corrigir essa injustiça.

Gloria, a protagonista interpretada por Maura em sua terceira colaboração com Almodovar, é uma faxineira que vive em um prédio pouco luxuoso de Madri com o marido taxista, Antonio (Angel de Andrés-Lopez) - que se gaba de saber falsificar assinaturas e caligrafias - a sogra (Chus Lampreave), que vende víveres à própria família, e os dois filhos adolescentes - um trafica drogas e o outro ela mesma entrega a seu dentista pedófilo como forma de dar-lhe uma vida melhor. Sua vida triste e solitária - apesar do constante movimento em seu apartamento minúsculo - só é alterada quando ela encontra com sua vizinha, a garota de programa Cristal (Veronica Forqué) e faz faxinas na casa do escritor Lucas Villalba (Gonzalo Suaréz), que deseja escrever uma falsa biografia de Hitler e quer a ajuda das fraudes de Antonio.


Almodovar não deixa de brincar com o espectador, com seu costumeiro humor debochado, mas dessa vez ele segura a mão, preferindo contar sua história de maneira menos lúdica e mais seca. A fotografia ultra-colorida que é característica de seu cinema, por exemplo, inexiste, sendo substituída por um visual seco e quase sóbrio, que reflete com precisão a atmosfera quase sombria de sua narração. Mesmo quando brinca com referências quase desconexas - citando "Carrie, a estranha" na personagem da menina maltratada pela mãe que mora no mesmo prédio que Gloria - o cineasta não perde o foco de sua trama, construindo a partir da relação de sua protagonista com outras pessoas uma família menos disfuncional que a sua mesma. E terço final do filme, que assume ares de trama policial, conduz a um desfecho agridoce e sensível.

"O que fiz eu para merecer isto?" é quase uma obra atípica de Almodovar. Mas apresenta o mesmo carinho com que o diretor sempre tratou seus personagens, mesmo que de maneira tortuosa. É uma prova de seu amadurecimento, que o levaria a ser um dos maiores cineastas de seu tempo.

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