terça-feira, 4 de novembro de 2014

GATINHAS E GATÕES

GATINHAS E GATÕES (Sixteen candles, 1984, Universal Pictures, 93min) Direção e roteiro: John Hughes. Fotografia: Bobby Byrne. Montagem: Edward Warschilka. Música: Ira Newborn. Direção de arte/cenários: John W. Corso/Jennifer Polito. Produção executiva: Ned Tanen. Produção: Hilton A. Green. Elenco: Molly Ringwald, Anthony Michael Hall, Michael Schoeffling, Paul Dooley, Justin Henry, Haviland Morris, Gedde Watanabe, John Cusack, Joan Cusack, Carlin Glynn, Liane Curtis, Jami Gertz, Zelda Rubinstein. Estreia: 04/5/84

Se existia um cineasta na década de 80 que entendia o que se passava nas cabeças e nos corações dos adolescentes, esse cineasta era John Hughes. Com uma pequena série de comédias românticas estreladas por sua musa Molly Ringwald - que começou com "Gatinhas e gatões" e inclui "Clube dos cinco" e "A garota de rosa-shocking" (que ele escreveu e Howard Deutch dirigiu), além de "Curtindo a vida adoidado", sem sua atriz-símbolo - ele marcou toda uma geração de jovens, que conseguia enxergar na tela seus medos, suas dúvidas e seus desejos retratados com carinho e um senso de humor delicado que equilibrava ingenuidade e picardia. Tratando de assuntos que interessavam a seu público-alvo, como sexualidade, relações familiares e dúvidas existenciais, seus filmes encantavam principalmente por causa da linguagem simples, da despretensão e da escolha certeira de seus elencos. Representada especialmente por Molly Ringwald, que chegou a ser capa da revista Time por conta de seu sucesso nas obras do diretor, a adolescência vista pelos olhos de John Hughes conquistou lugar de honra na história do cinema pop americano.

A trama de "Gatinhas e gatões" é de uma simplicidade comovente: no dia de seu aniversário de dezesseis anos, a adolescente Samantha Baker (Molly Ringwald, que conseguiu o papel contra Laura Dern) acorda decepcionada com o fato de não ver no espelho nenhuma diferença em relação ao dia anterior. Porém, uma outra decepção, ainda maior, acontece quando ninguém em sua casa lembra da data, para ela tão importante por representar um passo a mais em direção à idade adulta: focados no casamento de sua irmã mais velha, seus pais, irmãos e avós nem mesmo a cumprimentam pela data, o que a deixa arrasada. Para piorar seu dia - já completamente arrasado pela indiferença familiar - ela não consegue deixar de lado sua paixão avassaladora pelo popular Jake Ryan (Michael Schoeffling, que depois faria par romântico com Winona Ryder em "Minha mãe é uma sereia"), comprometido com uma patricinha mais velha e insensível. Em uma festa da escola - onde é obrigada a levar o intercambista chinês que mora com seus avós e que descobre as maravilhas do mundo ocidental da maneira mais direta possível - Sam ainda precisa lidar com o assédio de Ted (Anthony Michael Hall), um nerd que apostou com seus amigos (entre os quais um jovem John Cusack) que conseguiria seduzí-la. Surge entre os dois uma inusitada amizade, que os ajudará, a ambos, a terminar a noite bastante diferentes de como a começaram.


Assistir a "Gatinhas e gatões" equivale a uma boa viagem no tempo: tudo que havia de mais típico de sua época está presente em cena. O figurino exagerado - o chapéu que a protagonista usa no início do filme virou moda entre sua faixa etária - encontra eco na trilha sonora deliciosa (com Spandau Ballet e David Bowie entre os ilustres participantes) e nas referências culturais espalhadas pelo cenário, como pôsteres de bandas oitentistas como Culture Club, que decoram o quarto de Samantha. Até mesmo o que hoje é considerado clichê no gênero - festas radicais, estereótipos juvenis, final feliz - surge na trama, que é temperada por cenas de um humor ingênuo e que funciona às mil maravilhas mesmo depois de tanto tempo. A então novata Joan Cusack, por exemplo, nem precisa falar muito para levar a audiência às gargalhadas na pele de uma estudante presa em um aparelho ortopédico que a impede de coisas básicas como beber água ou tomar cerveja de uma latinha: Cusack já apostava no tipo de humor que a levaria a concorrer ao Oscar de coadjuvante em duas ocasiões, além de contracenar com o irmão, John, que na década seguinte se tornaria um dos mais confiáveis atores de Hollywood.

E por falar em atores, pode parecer impossível imaginar o triângulo central de "Gatinhas e gatões" formado por outros que não Ringwald, Anthony Michael Hall (que ainda fez parte de "Clube dos cinco" e "Mulher nota 1000", não dirigido por Hughes) e Michael Schoeffling, mas não deixa de ser interessante pensar em como seria o resultado se outros testados para os papéis tivessem conseguido passar. Além de Laura Dern como Samantha, o público poderia ter tido a oportunidade de ver Viggo Mortensen como o galã Jake Ryan e Jim Carrey (!!!) como o nerd Ted. Felizmente Hughes fez as escolhas certas - e ainda lançou um dos gêneros mais queridos da década de 80. Com "Gatinhas e gatões" surgiram os filmes de adolescentes em crise que tanto apaixonaram a juventude em seu tempo. Só por isso já merece todos os louvores.

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