terça-feira, 6 de junho de 2017

ASAS DA LIBERDADE

ASAS DA LIBERDADE (Birdy, 1984, TriStarPictures, 120min) Direção: Alan Parker. Roteiro: Sandy Kroopf, Jack Behr, romance de William Wharton. Fotografia: Michael Seresin. Montagem: Gerry Hambling. Música: Peter Gabriel. Figurino: Kristi Zea. Direção de arte/cenários: Geoffrey Kurland/George R. Nelson. Produção executiva: David Manson. Produção: Alan Marshall. Elenco: Matthew Modine, Nicolas Cage, John Harkins, Bruno Kirby, Sandy Baron, Karen Young. Estreia: 21/12/84

A ideia central de "Asas da liberdade" - um jovem traumatizado pela guerra se entrega à obsessão em tornar-se um pássaro - é, ao mesmo tempo, surreal e inverossímil. Só mesmo um diretor do porte de Alan Parker (que já tinha no currículo os excelentes "O expresso da meia-noite", de 1978, e "Fama", de 1980) conseguiria transformar tal material, baseado em um romance de William Wharton, em um filme que fosse comercialmente atraente e palatável ao gosto do público médio sem que perdesse sua essência metafórica e poética. Dono de um estilo visual apurado e uma elegância natural em sua filmografia, Parker realizou uma obra fascinante, que saiu do Festival de Cannes 1985 com o Grande Prêmio do Júri - que deixou-se seduzir pela bela história de amizade, lealdade e dor criada por Wharton. Estrelado por dois então jovens atores em início de carreira - Matthew Modine e Nicolas Cage -, "Asas da liberdade" pode não ter tido o devido reconhecimento à época de sua estreia (fracassou nas bilheterias e foi ignorado pelo Oscar), mas talvez seja um dos filmes mais importantes da década de 80 - e um dos primeiros a falar, ainda que sutilmente, sobre as consequências emocionais da Guerra do Vietnã.

No livro de Wharton, os dois personagens centrais são sobreviventes da II Guerra Mundial. No filme, Parker mudou o cenário do conflito (incidental, mas crucial para o desenvolvimento da trama) para o sudeste asiático - uma forma inteligente de aproximar a plateia da estória e, de quebra, mexer em uma ferida ainda muito dolorida na sociedade norte-americana. De qualquer forma, a geografia da guerra é o que menos importa: o que interessa ao cineasta e à sua bela fábula são os sentimentos, a alma e o coração de sua dupla central de protagonistas, ambos traumatizados e, à sua maneira, obrigados a lidar com as consequências da violência e da solidão. Ilustrado por uma inspirada trilha sonora de Peter Gabriel, o filme de Parker é, sobretudo, um brilhante estudo sobre a capacidade humana de sublimar a dor através da fuga e da ilusão - sublinhadas por belíssimas sequências aéreas captadas por Michael Seresin, que em seguida assinaria também a fotografia do trabalho seguinte do cineasta, a obra-prima "Coração satânico" (86).


"Asas da liberdade" tem, a princípio, duas linhas narrativas paralelas (que abrigam uma terceira em sua reta final, como forma de jogar luz sobre momentos-chave da história). Logo de início o público é apresentado a Al Columbato (Nicolas Cage), um jovem soldado americano que, em consequência de ferimentos sofridos na guerra, teve o rosto completamente reconstruído pelos cirurgiões. Ainda inconformado com sua situação, ele é procurado por um médico, o Major Weiss (John Harkins), que lhe pede ajuda para que possa fazer progressos no tratamento de outra vítima do conflito, Birdy (Matthew Modine), grande amigo de Al: depois de ter desaparecido por um mês no Vietnã, o jovem foi encontrado e levado para o hospital sem ferimentos, mas claramente com sérios problemas mentais. Comportando-se como um pássaro e sem dizer uma única palavra aos médicos e enfermeiros, Birdy parece viver um um mundo particular, e o médico acredita que Al - devido à sua relação com o rapaz - seja a pessoa ideal para mudar o quadro de catatonia. Enquanto tenta arrancar alguma informação ou melhora em seu colega, Al vai relembrando sua amizade com ele, desde que, de desconhecidos quase rivais, tornaram-se companheiros inseparáveis, a despeito de suas diferentes personalidades.

O flashback das memórias de Al é a segunda linha narrativa proposta pelo roteiro - e, como um quebra-cabeças, vai juntando pedaços sobre o estranho comportamento de Birdy, que desde sempre sentiu-se como alguém deslocado da sociedade e do mundo a seu redor. Fanático por pássaros a ponto da obsessão, o rapaz tinha em Al sua ponte com a realidade - uma realidade que frequentemente o aborrecia e decepcionava, e que acabou por levando-o à sua atual situação. Parker não dá respostas fáceis para o comportamento de Birdy, preferindo deixar que a poesia de suas imagens seja mais contundente do que palavras ou explicações psicológicas baratas. Preferindo aprofundar a relação entre os personagens a tentar encontrar uma saída fácil para as questões levantadas pelo roteiro, o cineasta encontra em Matthew Modine e Nicolas Cage uma dupla impecável - em especial Modine, fascinante em seu desempenho silencioso como o atormentado Birdy. Com um desfecho que não tenta agradar a todo mundo e um desenvolvimento de ritmo próprio, "Asas da liberdade" envolve aos poucos, com uma história bem contada e repleta de sutilezas, amparada em bons atores, um visual caprichado e a coragem de fugir do óbvio. Uma pérola que precisa ser redescoberta!

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