quinta-feira, 12 de março de 2015

TROPAS ESTELARES

TROPAS ESTELARES (Starship troopers, 1997, TriStar Pictures/Touchstone Pictures, 129min) Direção: Paul Verhoeven. Roteiro: Ed Neumeier, romance de Robert A. Heinlein. Fotografia: Jost Vacano. Montagem: Mark Goldblatt, Caroline Ross. Música: Basil Poledouris. Figurino: Ellen Mirojnick. Direção de arte/cenários: Allan Cameron/Bob Gould. Produção: Jon Davison, Alan Marshall. Elenco: Casper Van Dien, Dina Meyer, Neil Patrick Harris, Denise Richards, Jake Busey, Clancy Brown, Michael Ironside. Estreia: 04/11/97

Indicado ao Oscar de Efeitos Visuais

É no mínimo incoerente: ruim de doer, mal dirigido e se escorando puramente em efeitos visuais previsíveis e em um nacionalismo constrangedor, "Independence day" transformou-se, já em seu fim-de-semana de estreia, em uma das maiores bilheterias da história do cinema, arrastando multidões às salas de exibição e entronando Will Smith como um dos astros mais populares de seu tempo. Pouco mais de um ano depois, outra ficção científica - com efeitos mais bem elaborados, com um diretor muito mais talentoso e assumidamente trash - se viu apedrejada pela crítica e ignorada pelo público, não chegando nem mesmo a pagar seu custo astronômico de 100 milhões de dólares. Incompreendido pela mesma plateia que aplaudiu os americanos salvarem o mundo de um ataque alienígena no filme de Roland Emmerich, "Tropas estelares" teve o consolo de, com o tempo, sobreviver como um cult movie muito mais respeitado, sendo finalmente reconhecido pelo que é: um divertido pastiche do gênero, recheado de atuações grotescamente exageradas e com um roteiro claramente baseado em todos os clichês de ficção científica. A maior ironia? Mesmo com todos esses excessos propositais, o filme do holandês Paul Verhoeven é muito melhor do que "Independence day".

Assumindo um tom kitsch e farsesco sublinhado pela narrativa que se utiliza de trechos filmados como propaganda militarista, "Tropas estelares" se passa em um futuro não especificado, quando a Terra está em guerra declarada a uma civilização de insetos alienígenas ainda não totalmente estudados pela ciência. Buscando seus soldados ainda na escola, o exército arregimenta milhares de jovens que sonham em lutar pelo planeta e tornarem-se heróis de guerra. Dentre esses jovens encontram-se quatro colegas de ensino médio que, separados em suas divisões, voltam a encontrar-se quando o conflito explode em uma violência sem precedentes: vendo sua cidade destruída pelos inimigos e o planeta em vias de ser invadido, o jovem Johnny Rico (Casper Van Dien), a bela Carmen Ibanez (Denise Richards), a corajosa Dizzy Flores (Dina Meyer) e o genial Carl Jenkins (Neil Patrick Harris) se juntam às tropas armadas até os dentes com o objetivo de dizimar os crueis rivais.


Confortável dentro de um gênero no qual colheu dois de seus maiores êxitos comerciais - "Robocop", de 1987 e "O vingador do futuro", de 1990 - Verhoeven mergulhou em um romance clássico do escritor Robert A. Heinlein (o qual confessa ter lido apenas metade) para criar uma obra que regurgita todos os elementos mais óbvios da ficção científica com um ritmo ágil o suficiente para agradar às plateias pouco pacientes da última década do século, entregando a ela uma profusão de corpos desmembrados, piadas infames e sequências realizadas com os melhores efeitos visuais que um grande orçamento pode comprar. Ignorando por completo a censura americana - capaz de mutilar um filme com sua visão conservadora do politicamente correto e com seus rígidos limites sobre o que é ou não violento demais para o público - o cineasta não hesita em mostrar humanos sendo destroçados pelos insetos gigantescos com uma violência gráfica poucas vezes vista em filmes comerciais que zelam por seus lucros. Por mais paradoxal que possa parecer, no entanto, em cada fotograma de "Tropas estelares" - por mais cruel e debochado - Verhoeven demonstra um carinho legítimo pelo gênero, brincando com seus ingredientes com a intenção de oferecer um saboroso entretenimento à plateia. Infelizmente, quase ninguém comprou sua brincadeira.

É óbvio que as críticas negativas feitas a "Tropas estelares" à época de sua estreia foram feitas por aqueles que não entenderam o espírito de troça no qual o filme está nitida e generosamente banhado. e seus atores centrais com aparência de Barbie e Ken - os péssimos Denise Richards e Casper Van Dien - até o heroísmo exagerado de seus personagens unidimensionais, tudo no filme de Paul Verhoeven tem a função de hipérbole, de over, de caricatura, coisa que jamais faltou nos filmes do gênero, mas sob o manto de uma seriedade que sempre serviu para enfatizar um patriotismo boçal e aborrecido. "Tropas estelares" é um filme de ficção científica, mas no fundo é uma comédia descerebrada do mesmo naipe de "Corra que a polícia vem aí". Só não vê quem não quer ou tem medo de entender.

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