sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

O PRIMEIRO QUE DISSE

O PRIMEIRO QUE DISSE (Mine vaganti, 2010, Fandango/Rai Cinema, 110min) Direção: Ferzan Ozpetek. Roteiro: Ferzan Ozpetek, Ivan Cotroneo. Fotografia: Maurizio Calvesi. Montagem: Patrizio Marone. Música: Pasquale Catalano. Figurino: Alessandro Lai. Direção de arte/cenários: Andrea Crisanti/Lily Pungitore. Produção: Domenico Procacci. Elenco: Riccardo Scamarcio, Nicole Gramaudo, Alessandro Preziosi, Ennio Fantastichini, Lunetta Savino. Estreia: 13/02/10 (Festival de Berlim)

Quem já assistiu ao belo "Um amor quase perfeito" (2001) - em que a médica interpretada por Margherita Buy descobre a vida dupla do marido depois que ele morre atropelado - e ao melancólico "A janela da frente" (2003) - que mostra Giovanna Mezzogiorno e seu charmoso vizinho Raul Bova investigando o passado de um desmemoriado senhor de idade encontrado vagando pelas ruas de Roma - sabem que o cineasta Ferzan Ozpetek sempre encontra um jeito de retratar de forma poética e respeitosa a homossexualidade, além de colocá-la frequentemente como ponto de suma importância em seus roteiros. Às vezes mais discretamente e em outras explicitamente, o assunto é peça fundamental de suas narrativas, e em "O primeiro que disse" é o ponto de partida para uma história que fala de hipocrisia, preconceito e da necessidade de se lutar pelos próprios sonhos. Um tanto melancólico mas com pitadas saudáveis de humor, seu filme é um libelo a favor da liberdade individual - ainda que para conquistá-la seja obrigatório romper padrões e expectativas alheias.

Tommaso Cantone (Riccardo Scamarcio) é o filho caçula de uma tradicional família proprietária de uma bem-sucedida fábrica de massas no interior da Itália. Vivendo há anos em Roma, ele sente-se livre para ir contra todos os planos dos pais, fazendo o curso de Letras, tentando a carreira de escritor e vivendo um romance com Marco (Carmine Recano). Em uma visita à casa paterna, ele decide contar a verdade sobre sua vida na capital e, assim, fugir da responsabilidade de comandar uma empresa com a qual não tem a menor afinidade. Para sua surpresa, porém, seu irmão mais velho, Antonio (Alessandro Preziosi) sai do armário antes dele, confessando seu amor por um antigo empregado da fábrica. Com o irmão expulso de casa pelo pai - que tem um enfarte logo em seguida - Tommaso se vê impedido de dar seguimento a seus planos e é obrigado a continuar morando na cidade e sendo a ligação entre a família e a empresa. Suas tentativas de esconder sua vida alternativa sofrem um duro golpe, no entanto, quando Marco resolve visitá-lo em busca de notícias - e chega acompanhado de um grupo de amigos nada discretos.


Assim como em "Um amor quase perfeito", Ozepetek cria, em seu filme, uma galeria de personagens coadjuvantes que emolduram a trama principal com graça e inteligência. Enquanto no primeiro filme eram os amigos de Michele (Stefano Accorsi) - um grupo de homossexuais que se tratavam como uma família alternativa - que roubavam a cena, em "O primeiro que disse" essa missão cabe aos familiares de Tommaso, um conjunto de personalidades que varia do patético (como a tia solteirona que alega ter ladrões invadindo constantemente seu quarto) ao hipócrita (o pai preconceituoso e cioso dos valores familiares mas que tem uma amante à vista de todos). Sob o olhar prescrutador da matriarca da família (Ilaria Occhini) - cujo passado tem um drama que a faz perceber o mundo com um ponto de vista mais benevolente e carinhoso - todo o clã vive sua rotina tentando encontrar maneiras de lidar com seus próprios problemas, retratados com sensibilidade e humor. Evitando a todo custo pesar a mão seja na questão da sexualidade ou na dos preconceitos arraigados do interior da Itália - onde meninas são obrigadas desde crianças a se comportarem como pequenas damas e a fofoca é quase um esporte nacional - o cineasta (um turco que vive na Itália desde os anos 70) trata seus personagens como um pai compreensivo, nem sempre concordando com eles, mas respeitando seus pontos de vista por piores que possam ser. Essa generosidade é uma das maiores qualidades de seu texto, que, além disso, injeta um bem-vindo senso de humor na hora mais do que apropriada.

Justamente quando "O primeiro que disse" está se levando a sério demais e as dúvidas de Tommaso a respeito de suas decisões estão a ponto de tornar o filme um dramalhão, Ozpetek surge com a brilhante ideia de jogar um bocado de sol na trama. A chegada de Marco e seus amigos - três gays espalhafatosos tentando disfarçar sua sexualidade para não chocar a conservadora família Cantone - dá um choque de humor na trama e a direciona para sua reta final, quando decisões terão de ser tomadas e/ou repensadas. Sem deixar seu roteiro cair na mesmice ou no didatismo, o cineasta encerra sua trama com uma bela e onírica sequência que mais faz pensar do que determina desfechos. Pode não ser uma opção que agrade a todos, mas ao menos é corajosa e coerente com a proposta de sacudir o status quo. "O primeiro que disse" é um filme que não apenas entretém: como toda a filmografia de Ferzan Ozpetek, é uma obra aberta a discussões que em momento algum perde sua qualidade de entretenimento. Louvável!

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