domingo, 30 de agosto de 2015

SEM RETORNO

SEM RETORNO (Sin retorno, 2010, Castafiore Films/Haddock Films, 104min) Direção: Miguel Cohan. Roteiro: Miguel Cohan, Ana Cohan. Fotografia: Hugo Colace. Montagem: Fernando Pardo. Música: Lucio Godoy. Direção de arte: Carolina Urbieta. Produção executiva: Gerardo Herrero, Vanessa Ragone. Produção: Mariela Besuievsky. Elenco: Leonardo Sbaraglia, Martin Spliak, Ana Celentano, Luís Machín, Federico Luppi, Felipe Villanueva, Rocío Muñoz. Estreia: 30/9/10

Em uma época onde as leis parecem não ter o mesmo peso para pessoas de classes diferentes, um filme como "Sem retorno" soa como uma incisiva crônica sobre a realidade. Mesmo se passando em Buenos Aires, sua trama parece assustadoramente brasileira - ou universal? - no retrato que faz da desigualdade com que a justiça (menos cega do deveria) trata os menos favorecidos. Sem forçar a mão no tom político e deixando sua história falar por si, o diretor e corroteirista Miguel Cohan criou uma pequena pérola (mais uma) do cinema argentino. E para isso não precisou mais do que um roteiro enxuto, atores competentes e uma trama tão simples e real que parece ter saído dos noticiários de televisão - e, se for prestada a devida atenção, provavelmente foi.


O protagonista do filme é o humorista Federico Samaniego (Leonardo Sbaraglia), que trabalha duro como ventríloquo para pagar as contas da casa e sustentar a família, formada pela dedicada esposa Laura (Ana Celentano) e a filha pequena, Malena (Antonia Bengoechea). Em uma noite de sábado, voltando pra casa depois de ter substituído um colega doente, ele bate na bicicleta do jovem tatuador Pablo (Agustín Vázquez), com quem acaba tendo uma pequena discussão antes de deixar o local do acidente. Tudo ficaria assim se logo em seguida, o ciclista não fosse atropelado e morto por Matías (Martin Spliak), um estudante de arquitetura de classe média alta que dirigia alcoolizado. Apavorado com as prováveis consequências de seu ato, o rapaz foge do local e, chegando em casa, mente aos pais que teve o carro roubado. As investigações do seguro acabam por pressioná-lo e ele confessa a verdade ao pai, Ricardo (Luís Machín) - que resolve seguir com a mentira e incendiar o automóvel para evitar as inevitáveis complicações. O que eles não poderiam imaginar, porém, é que Federico fosse acabar acusado do crime - seu carro está com marcas da bicicleta de Pablo e ele estava embarcando em uma viagem com a família, o que foi considerado fuga (além de testemunhas pouco confiáveis terem o reconhecido como o autor da tragédia). Silenciando diante da injustiça, a família de Matías não imagina que está condenando um inocente a um pesadelo sem fim.


Começando sua narrativa como um filme de suspense - a edição que antecipa o acidente prende a atenção do espectador sem precisar fazer muito esforço - e aos poucos alterando seu tom para um contundente drama que contrapõe ações e reações, Miguel Cohan não poupa seu protagonista de um calvário dos mais revoltantes, mas aproveita para, até mesmo nessa situação caótica, oferecer a ele uma luz (ainda que discutível) para lhe ajudar no ato final, na figura de um colega de cela que se torna, de possível ameaça em um inesperado aliado. Também é interessante não transformar o jovem Matías em um vilão desalmado e irresponsável, provendo-lhe um sentimento de culpa que desvia o filme do maniqueísmo barato. Quando a terceira parte da história começa - e Federico sai da cadeia disposto a uma vingança - fica difícil para o espectador não compartilhar de sua ira, mas felizmente o roteiro mostra que nem só de preto e branco são feitos os desvãos do destino e o desfecho, apesar de anti-climático, é mais realista e coerente do que a maioria dos filmes que tratam do tema.

Amparado ainda em uma atuação intensa de Leonardo Sbaraglia, que fez parte do elenco de "Plata quemada" e "Cinzas do paraíso", duas produções aclamadas do cinema argentino, "Sem retorno" é um exemplar discreto do cinema do país, que não se furta a fazer um pertinente comentário acerca da situação social de sua sociedade através de uma história sobre seres reais e de impressionante ressonância - vale destacar também a forte presença do veterano Federico Luppi como o pai da vítima do acidente (e outro alvo da vingança do protagonista). Um filme a ser descoberto e discutido.

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