segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

CLUBE DE COMPRAS DALLAS

CLUBE DE COMPRAS DALLAS (Dallas Buyers Club, 2013, Truth Entertainment, 117min) Direção: Jean-Marc Vallée. Roteiro: Craig Borten, Melisa Wallack. Fotografia: Yves Bélanger. Montagem: Martin Pensa, Jean-Marc Vallée. Figurino: Kurt and Bart. Direção de arte/cenários: John Paino/Robert Covelman. Produção executiva: David Bushell, Nicolas Chartier, Cassian Elwes, Xev Foreman, Logan Levy, Joe Newcomb, Tony Notargiacomo, Nathan Ross, Holly Wiersma. Produção: Robbie Brenner, Rachel Winter. Elenco: Matthew McConaughey, Jared Leto, Jennifer Garner, Denis O'Hare, Steve Zahn, Dallas Roberts, Griffin Dunne, Michael O'Neill. Estreia: 07/9/13 (Festival de Toronto)

6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator (Matthew McConaughey), Ator Coadjuvante (Jared Leto), Roteiro Adaptado, Montagem, Maquiagem
Vencedor de 3 Oscar: Ator (Matthew McConaughey), Ator Coadjuvante (Jared Leto), Maquiagem
Vencedor de 2 Golden Globes: Ator/Drama (Matthew McConaughey), Ator Coadjuvante (Jared Leto)

Levando-se em consideração o quão repleta de elementos dramáticos foi a história do eletricista texano Ron Woodroof e sua batalha contra o sistema de saúde americano que impedia a importação de medicamentos experimentais para a cura da AIDS no início dos anos 80 (no começo da epidemia, portanto), é surpreendente que Hollywood tenha demorado tanto tempo para transformá-la em filme. Tudo bem que o projeto inicial surgiu na metade da década de 90, com Dennis Hopper na direção e Woody Harrelson interessado no papel principal, mas foi somente em 2013 - quase trinta anos depois dos acontecimentos narrados no roteiro aconteceram - que finalmente o que era apenas uma ideia viu a luz das telas... e o brilho do Oscar. Indicado em seis categorias, inclusive melhor filme, "Clube de Compras Dallas" saiu da cerimônia de premiação que consagrou "Gravidade" e "12 anos de escravidão" com três estatuetas debaixo do braço: ator, ator coadjuvante e maquiagem. De certa forma, a Academia acertou em homenagear o que de melhor há no filme de Jean-Marc Vallée, de resto um trabalho apenas razoável e carente de um roteiro mais consistente (ainda que o texto de Craig Borten e Melisa Wallack também tenha tentado uma vitória impossível contra o genial "Ela", de Spike Jonze).

A trama de "Clube de Compras Dallas" começa em 1985, quando Woodroof, heterossexual convicto, machista e homofóbico, descobre ter contraído o vírus HIV, então praticamente uma incógnita até mesmo para a comunidade médica e tratada como uma doença restrita praticamente ao universo gay. Desesperado com a notícia e com a forma como passa a ser tratado por seus amigos - que assim como ele também não tem a menor informação sobre o vírus - ele resolve desafiar a sentença de 30 dias de vida dada por seu médico, Servard (Denis O'Hare) e buscar tratamentos alternativos e ainda ilegais nos EUA. Começando com AZT e passando por drogas testadas em outras partes do mundo, ele cria uma atividade de distribuição de tais medicamentos através de um clube de compras, onde o paciente paga uma taxa de inscrição e passa a receber seus tratamentos. Com a ajuda do travesti Rayon (Jared Leto) e com a anuência de outra médica, Eve (Jennifer Garner), ele desafia a justiça americana enquanto tenta manter-se vivo e na esperança de que encontrem uma cura. Utilizando-se de disfarces variados, ele consegue manter o contrabando por tempo suficiente para incomodar o sistema de saúde do país.


Vindo de um realizador criativo e sensível como o canadense Jean-Marc Vallée, revelado com o ótimo "C.R.A.Z.Y", de 2005, o resultado final de "Clube de Compra Dallas" não deixa de ser uma grande decepção. É quadrado, mecânico e - pecado mortal para um filme que trata de um assunto com tanto potencial dramático - indiferente. Mesmo que fique evidente a entrega de McConaughey e Leto a seus papéis é difícil envolver-se com a narrativa, porque o roteiro não permite a aproximação do espectador, tratando tudo com um distanciamento que, se mirou na neutralidade, acertou apenas na frieza. Por mais que os atores se esforcem em cativar a plateia - especialmente Jared Leto, mostrando que suas ótimas performances em "Réquiem para um sonho" (2000) e "Capítulo 27" (2008), em que interpretava o assassino de John Lennon não eram meros golpes de sorte - a opção do diretor em fugir do sentimentalismo contrasta violentamente com a potência emocional da história verdadeira de Woodroof, que chegou perto de ser interpretado por Brad Pitt e Ryan Gosling, em versões anteriores do projeto. Matthew McConaughey - em uma virada espetacular na carreira, deixando para trás comédias românticas bobas para concentrar-se em papéis mais desafiadores - está bem, mas é quase impossível dissociar seu Oscar de sua impressionante transformação física, que acaba por eclipsar suas tentativas de aprofundar-se em um texto pouco ousado, que jamais escapa do superficial mesmo com um protagonista tão intrigante.

Preconceituoso e sem maiores preparos psicológicos para lidar com sua nova situação, Woodroof é um personagem e tanto, mas McConaughey esbarra frequentemente em um roteiro incapaz de explorar a contento todas as possibilidades de sua personalidade conflituosa. Nesse ponto novamente Leto sai-se melhor, já que seu Rayon consegue ser um pouco (não muito) melhor desenvolvido, apesar do filme jogar fora a promissora relação entre ele - um jovem travesti que se prostitui e é contaminado pelo vírus da AIDS - e seu pai - um homem rico e conservador que não aceita seu modo de vida. Tal conflito é explorado em apenas uma cena rápida, matando um dos poucos focos mais emocionantes do filme. Ainda assim, é do vocalista da banda 30 Seconds To Mars a cena mais impactante da produção: quando ele conversa consigo mesmo diante de um espelho é difícil ficar indiferente, apesar do mérito ser muito mais do ator do que da direção. No final das contas, "Clube de Compras Dallas" cumpriu seu objetivo (ganhar Oscar), mas desperdiça uma boa história e bons personagens em um resultado raso e dinamicamente falho, que encontra espaço até para uma dispersiva relação entre o protagonista e sua médica (a sempre fraca Jennifer Garner) mas não encontra um foco narrativo capaz de cativar ou emocionar a plateia. Um filme muito aquém do que poderia ser.

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