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O HOMEM DUPLICADO

O HOMEM DUPLICADO (Enemy, 2013, Pathé International, 91min) Direção: Dennis Villeneuve. Roteiro: Javier Gullón, romance de José Saramago. Fotografia: Nicolas Bolduc. Montagem: Matthew Hannam. Música: Danny Bensi, Saunder Jurriaans. Figurino: Renée April. Direção de arte/cenários: Patrice Vermette/Jim Lambie. Produção executiva: François Ivernel, Victor Loewy, Cameron McCracken, Mark Slone. Produção: Miguel A. Faura, Niv Fichman. Elenco: Jake Gyllenhaal, Mélanie Laurent, Sarah Gadon, Isabella Rossellini. Estreia: 08/9/12 (Festival de Toronto)

Adam é um jovem professor universitário que vive em Toronto e leva uma rotina pacata, que inclui visitas à sua dedicada mãe e encontros ocasionais com uma bela mulher com quem evita maiores intimidades. Um dia, assistindo a um filme recomendado por um colega de trabalho, ele reconhece em um dos figurantes um homem idêntico a si mesmo. Movido por uma curiosidade implacável, ele descobre o nome do tal ator - Anthony Claire - e, depois de confirmar sua impressionante semelhança física com ele, parte em sua busca para encontrá-lo face a face. Quando tal encontro acontece, uma série de situações imprevistas une os dois rapazes (de personalidades opostas) e passa a invadir suas vidas íntimas.

À primeira vista, "O homem duplicado" é apenas mais um filme de suspense repleto de clichês, a despeito de ser baseado em um romance do premiado escritor português José Saramago. Mas basta prestar atenção nos créditos para se perceber que ele é bem mais do que isso. Na direção está o canadense Denis Villeneuve, que concorreu ao Oscar de filme estrangeiro com o devastador "Incêndios", e o elenco conta com a experiente Isabella Rossellini e o mais que conhecido Jake Gyllenhaal se dividindo nos papéis centrais. Herdando o desafio recusado por Javier Bardem (que não se achava adequado) e Christian Bale (impedido de fazer o filme por falta de tempo na agenda), Gyllenhaal acaba se mostrando mais do que capaz de enfrentar um roteiro que se liberta das amarras do gênero apresentando um conjunto de metáforas e símbolos de fazer qualquer fã de David Lynch vibrar a cada cena.


Desde a primeira cena, em um bizarro cenário que retrata um misterioso clube que remete imediatamente aos delírios visuais que Lynch imprimiu em obras singulares como "Veludo azul" e "Cidade dos sonhos", o filme de Villeneuve - finalizado antes do bem mais comercial "Os suspeitos", mas lançado posteriormente - já dá mostras ao espectador que não irá seguir o caminho tradicional das narrativas hollywoodianas. Construindo o suspense aos poucos e oferecendo econômicas pistas sobre o que realmente está acontecendo, o roteiro de Javier Gullón conduz a plateia a um angustiante jogo de espelhos, enfatizado pela extraordinária fotografia, que se equilibra com maestria entre os ensolarados exteriores e os opressivos e claustrofóbicos ambientes fechados - uma dualidade que casa perfeitamente com a ideia central da trama, que versa sobre extremos e dicotomias a todo momento. E logicamente, encerrar seu filme com um final alegórico apenas confirma sua vocação para cult: não foi à toa que "O homem duplicado" pouca atenção chamou nas bilheterias e passou praticamente em branco até mesmo pelas cerimônias de premiação, onde foi solenemente ignorado apesar de suas evidentes qualidades artísticas.

Tipo de filme do qual pouco se pode falar sob pena de estragar a diversão alheia, "O homem duplicado" é um prato cheio para o espectador que procura mais do que simples entretenimento. Inteligente, sutil, bem dirigido e bem interpretado - Isabella Rossellini ilumina a tela no papel da mãe do protagonista - o filme de Villeneuve, um cineasta elegante e incapaz de obviedades, é para ser assistido, discutido e aplaudido. Em um dos melhores trabalhos de uma carreira jovem mas já solidificada, Jake Gyllenhaal é apenas a principal razão para se conhecer um dos melhores e mais subestimados filmes de 2013 - nem que seja para ficar com a cabeça repleta de nós quando acabar a sessão.

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