sábado, 21 de fevereiro de 2015

MICHAEL COLLINS - O PREÇO DA LIBERDADE

MICHAEL COLLINS, O PREÇO DA LIBERDADE (Michael Collins, 1996, Geffen Pictures/Warner Bros, 124min) Direção e roteiro: Neil Jordan. Fotografia: Chris Menges. Montagem: J. Patrick Duffner, Tony Lawson. Música: Elliot Goldenthal. Figurino: Sandy Powell. Direção de arte/cenários: Anthony Pratt/Josie MacAvin. Produção: Stephen Wooley. Elenco: Liam Neeson, Alan Rickman, Aidan Quinn, Julia Roberts, Stephen Rea, Ian Hart, Brendan Gleeson. Estreia: 28/8/96 (Festival de Veneza)

2 indicações ao Oscar: Fotografia, Trilha Sonora Original

Foi preciso o Oscar de roteiro original por "Traídos pelo desejo" e o sucesso de bilheteria de "Entrevista com o vampiro" para que o cineasta Neil Jordan finalmente conseguisse que Hollywood lhe permitisse realizar um sonho acalentado desde a década de 80: contar nas telas de cinema a história do homem que fundou um dos mais importantes grupos revolucionários do mundo, o IRA - Exército Republicano Irlandês. Apesar do tema não ser os mais atraentes (leia-se comerciais), o produtor David Geffen comprou a ideia de Jordan - ele mesmo nascido na Irlanda, portanto, grande interessado no assunto - e transformou o que poderia ser uma produção apática estrelada por Kevin Costner (que chegou a ser cotado como protagonista em determinado momento) em um thriller violento, passional e esplendidamente dirigido: "Michael Collins, o preço da liberdade", estrelado por um visceral Liam Neeson premiado no Festival de Cinema de Veneza por seu desempenho.

Previsível fracasso de bilheteria nos EUA mas um grande êxito na Irlanda - onde sua história tem maior peso e ressonância política - "Michael Collins" recebeu elogios unânimes da crítica, que louvou principalmente sua parte técnica, realmente admirável. Da belíssima fotografia do veterano Chris Menges até a impecável reconstituição de época, tudo funciona perfeitamente no filme de Jordan, emoldurando uma trama repleta de conspirações, traições e discussões políticas que, graças a um roteiro cadenciado, jamais esbarra nem no didatismo quase inevitável nem na complexidade histórica que muitas vezes condena obras do gênero ao limbo dos filmes "engajados". Nitidamente simpático à causa do IRA, Neil Jordan evita, inclusive, exagerar no desenho das qualidades de seu protagonista, mesmo que por vários momentos deixe a plateia vislumbrar sua admiração por sua personalidade carismática e intensa. Definindo seu arco dramático no período de tempo que compreende o início da luta de Collins contra o Império Britânico e pela liberdade de sua Irlanda natal até seu assassinato - cometido depois de um ato de traição que o filme torna ainda mais odioso - o diretor/roteirista equilibra seu filme entre tensas discussões táticas, violentas sequências de terrorismo (como um ataque surpresa a um jogo de rugbi) e até mesmo arruma espaço para um triângulo amoroso que coloca o protagonista e seu melhor amigo, Harry Boland (Aidan Quinn), lutando pelo amor da moderna Kitty Kiernan (Julia Roberts, cujo nome não ajudou a levantar a renda do filme no mercado americano).


Mesmo com o fato de ter como protagonista um dos pais do terrorismo moderno, "Michael Collins" jamais apela para a violência gratuita ou excessiva. Certamente não falta ao roteiro um grande número de sequências sanguinolentas, afinal trata-se de um filme sobre o surgimento de um exército que pegou em armas pesadas para garantir a independência de seu país, mas Neil Jordan é um diretor inteligente e sensível, que faz poesia de muitas de suas imagens, por mais paradoxal que a afirmação possa parecer.  Remexendo nas entranhas políticas da época em que se passa a história e explicitando o jogo de interesses que sempre existiu dentro das camadas próximas ao poder, o roteiro de certa forma justifica o uso da clava forte ao invés da justiça das palavras e do diálogo, amenizando, assim, o que poderia ser tratado como gratuidade por um cineasta mal-intencionado. Auxiliado pela fotografia de Menges - acinzentada como os céus da Irlanda em tempos de guerra - e pela trilha sonora de Elliot Goldenthal (únicas indicações do filme ao Oscar em um ano dominado pelo romantismo derramado de "O paciente inglês" e o cinismo debochado de "Fargo"), "Michael Collins" é cinema político de verdade, que transborda ideologia em cada fotograma. Talvez por isso tenha sido virtualmente ignorado pelo grande público.

Realizado com capricho e paixão, "Michael Collins" é um filme para poucos. Não põe panos quentes em um tema politicamente controverso, não deixa de mostrar sua simpatia pela busca da liberdade e nem tem medo de ser uma produção desprovida de atrativos comerciais - vale lembrar que a estrela de Julia Roberts estava em baixa durante a produção do filme. Mas é uma obra valorosa, inteligente e importante para a compreensão do mundo como é hoje.

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