segunda-feira, 13 de abril de 2015

MÚSICA DO CORAÇÃO

MÚSICA DO CORAÇÃO (Music of the heart, 1999, Miramax Pictures, 124min) Direção: Wes Craven. Roteiro: Pamela Gray. Fotografia: Peter Deming. Montagem: Gregg Featherman, Patrick Lussier. Música: Mason Daring. Figurino: Susan Lyall. Direção de arte/cenários: Bruce Alan Miller/George De Titta Jr.. Produção executiva: Amy Slotnick, Harvey Weinstein, Bob Weinstein. Produção: Susan Kaplan, Marianne Maddalena, Allan Miller, Walter Scheuer. Elenco: Meryl Streep, Aidan Quinn, Angela Bassett, Cloris Leachman, Gloria Estefan, Kieran Culkin, Michael Angarano. Estreia: 06/9/99 (Festival de Toronto)

2 indicações ao Oscar: Atriz (Meryl Streep), Canção Original ("Music of my heart")

Filmes estrelados por professores que lutam contra as adversidades e conquistam o amor dos alunos mesmo desafiando as autoridades são comuns em Hollywood. Desde o clássico "Ao mestre, com carinho", estrelado por Sidney Poitier até produções menos bem recebidas pela crítica, como "Mentes perigosas", com Michelle Pfeiffer, o tema sempre emocionou as plateias, graças à força dramática sempre presente nos inspiradores roteiros. Quando a história é real, então, as lágrimas são impossíveis de segurar, especialmente quando no papel central está Meryl Streep. Como protagonista de "Música do coração", ela pega o papel inicialmente oferecido à Madonna - e que era cobiçado por Meg Ryan e Sandra Bullock - e, com a intensidade de sempre, transforma um drama convencional em mais um espetáculo digno de nota. Perfeccionista ao extremo, Streep aprendeu a tocar violino em um mês e entregou mais uma atuação memorável, que lhe rendeu uma merecida indicação ao Oscar - a décima-segunda em sua vitoriosa carreira. Na pele de Roberta Guaspari, uma professora de violino que transformou a vida de mais de mil alunos da periferia nova-iorquina com seus dez anos de aulas diárias - e que também inspirou um documentário chamado "Small wonders" - Streep comanda novamente o show, acrescentando camadas extras de sensibilidade a uma história já tocante por si mesma.

Dirigido por Wes Craven - que assustou o mundo com seus "A hora do pesadelo" e "Pânico" e resolveu testar a mão com um drama como exigência para comandar o terceiro capítulo da série estrelada por Neve Campbell - "Música do coração" não chega a ser uma produção surpreendente em termos narrativos, mas compensa essa burocracia com uma sinceridade e uma delicadeza que vão se avolumando pouco a pouco para chegar a um clímax capaz de arrepiar até ao mais indiferente espectador. É claro que o talento superlativo de Meryl ajuda muito - por melhor artista pop que seja, Madonna jamais conseguiria emocionar tanto quanto ela - mas é preciso aplaudir também o elenco juvenil, que dá garra e ar fresco a uma trama um tanto quanto repetitiva que só encontra todo seu potencial quando reúne sua protagonista - cuja força e determinação vai crescendo conforme sua autoestima também passa a se recuperar, depois de um divórcio traumático - a seus estudantes, um grupo variados de crianças e adolescentes que descobrem na música clássica uma válvula de escape de seus problemas domésticos e sociais.


Quando o filme começa, Roberta (personagem de Streep) acaba de voltar para a casa da mãe, Assunta (Cloris Leachman), depois de ser abandonada pelo marido, que deixou-a para ficar com uma amiga sua. Como forma de manter-se e aos dois filhos pequenos, ela se oferece para dar aulas de violino em uma escola do Harlem, dirigida pela rígida Janet Williams (Angela Bassett). Aceita como substituta depois que mostra seus dons como educadora e sua paixão pela música, ela passa a ensinar meninos e meninas que vivem em um ambiente desprovido de sensibilidade artística e, aos poucos, vai conquistando a admiração e o respeito da comunidade - mesmo que sua vida pessoal não reflita tanto sucesso, principalmente sua relação com um antigo amigo, Brian Turner (Aidan Quinn). Depois de mais de uma década mantendo o programa de música da escola, porém, o conselho educacional resolve cortar a verba destinada ao projeto. Desesperada com a situação, Roberta conta com a ajuda dos pais dos alunos, dos amigos e até mesmo de figuras consagradas da música para organizar um concerto beneficente e assim mudar o jogo a seu favor.

Contando com uma protagonista carismática e provida de ótimas intenções, "Música do coração" não demora em conquistar o carinho da plateia, principalmente porque não se deixa levar pela tentação de apelar para a lágrima fácil. Quando a emoção surge - e ela frequentemente se mostra, às vezes timidamente, outras nem tanto - é porque Craven consegue manipular com sucesso a fórmula que está em suas mãos, sem deixá-la passar do ponto. Dirigindo com suavidade e apostando na química entre Streep, seus jovens atores e até na cantora Gloria Estefan como atriz (na pele de uma das professoras aliadas de Roberta em seus primeiros dias), o famoso criador do temível Freddy Kruger dá um passo à frente na carreira, mostrando que talento para outros gêneros não lhe falta - ainda que até hoje ele não tenha apostado em outro drama. Bonito, sensível e inspirador, "Música do coração" fala à alma.

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