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UM GOSTO DE MEL

UM GOSTO DE MEL (A taste of honey, 1961, Woodfall Film Productions, 101min) Direção: Tony Richardson. Roteiro: Shelagh Delaney, Tony Richardson, peça teatral de Shelagh Delaney. Fotografia: Walter Lassally. Montagem: Antony Gibbs. Música: John Addison. Direção de arte: Ralph Brinton. Produção: Tony Richardson. Elenco: Rita Tushingham, Dora Bryan, Murray Melvin, Robert Stephens, Paul Danquah. Estreia: 14/9/61

Vencedor do Golden Globe de Revelação Feminina (Rita Tushingham)
Vencedor de 2 Palmas de Ouro no Festival de Cannes: Melhor Ator (Murray Melvin), Melhor Atriz (Rita Tushingham)

 A crítica especializada aprovou com louvor. Cerimônias de premiação tradicionais, como o Golden Globe, o BAFTA e o National Board of Review o endossaram sem pestanejar, lhe concedendo estatuetas importantes. E até mesmo o júri do prestigiado Festival de Cannes se deixou seduzir, lhe concedendo os prêmios de melhor ator e melhor atriz. Baseado em uma peça de teatro escrita por uma adolescente de 18 anos de idade, o filme britânico "Um gosto de mel" só foi ignorado mesmo pela Academia de Hollywood, que simplesmente fez vista grossa diante de seu enorme sucesso e polêmica. Ao retratar sem pudores relações que poderiam ser vistas como chocantes pelo público mais conservador, o filme de Tony Richardson marcou época, conquistou fãs através do tempo e inspirou no mínimo duas canções de Morrissey, líder da banda The Smiths, e o título de uma das músicas dos Beatles. Como se vê, nem sempre um Oscar faz falta no currículo de uma produção.

A trama, imaginada pela muito jovem Shelagh Delaney em sua vitoriosa peça de teatro, tem como protagonista a jovem Jo (Rita Tushingham), um adolescente de 17 anos que vive com sua heterodoxa mãe, Helen (Dora Bryan, vencedora do BAFTA de melhor atriz). Quando Helen - pouco afeita à solidão e bastante fã de bebidas alcóolicas - se casa novamente, com um quase desconhecido, Jo se vê sem lugar para morar. Em suas tentativas de encontrar um lugar ao sol, ela se envolve romanticamente com Jimmy (Paul Danquah), um marinheiro negro que logo vai embora da cidade e a deixa (sem que nenhum deles saiba) grávida. Novamente sem companhia, ela conhece o tímido Geoffrey (Murray Melvin), de quem se torna grande amiga e colega de apartamento. Quando a gravidez vem à tona, os dois resolvem criar a criança como se fosse deles - apesar de Geoffrey ser homossexual. A nova família, recém formada, sofre um golpe, porém, quando Helen reaparece e exige seu lugar como avó da criança prestes a nascer.


Ao tratar com naturalidade tanto a relação de Jo (uma adolescente branca, de classe operária, e portanto, respeitável) com Jimmy (um rapaz negro) quanto com Geoffrey (um gay assumido), o enredo de "Um gosto de mel" já mexia em vespeiros que poucos gostariam de ver tocados em uma década de 1960 que apenas começava a nascer - e que daria origem, pouco depois, ao movimento hippie, ao feminismo, à luta pelos direitos civis e, nos EUA, a luta contra a Guerra do Vietnã. Como se isso não fosse o bastante, no entanto, o roteiro da jovem dramaturga e do experiente cineasta ainda toca em questões mais complexas ainda. Se ser mãe solteira não era um status dos mais invejados da época, será que seria menos pior do que fazer parte de um novo tipo de núcleo familiar - que envolvia um homem gay e uma avó pouco convencional? E, mais complicado ainda, com uma criança fruto de um romance interracial? Ainda que não responda tais questões, preferindo contar a história sem buscar soluções, o filme já merece aplausos por tocar sem medo em tais controvérsias. Para isso, conta com a atuação refrescante de Rita Tushingham, estreante que ganhou o papel central em uma disputa com cerca de 2000 candidatas e provou-se uma aposta certeira e levou pra casa a Palma de Ouro de Melhor Atriz no Festival de Cannes 1961: longe de ser uma beldade com agressivo sex appeal, a jovem Tushingham continuou no cinema, mas nunca mais atingiu o mesmo patamar de sucesso de sua estreia - que lhe rendeu, também, um Golden Globe de revelação feminina.

Com diálogos inteligentes e personagens verossímeis, "Um gosto de mel" conquistou não apenas a crítica e o público mais aberto a novos ares. O cantor Morrissey citou o filme em duas das músicas de sua banda, The Smiths: "This night has opened my eyes" e "Reel around the fountain" contém frases do roteiro - o cantor, nascido na cidade de Manchester, onde o filme foi rodado, tornou-se fã incondicional da produção. Outra celebridade musical que também inspirou-se no filme de Richardson foi Paul McCartney: segundo o livro "Revolution in the head", de Ian MacDonald, o beatle nomeou "Your mother should know" a partir de um dos diálogos do roteiro. Mas, apesar de tantos elogios, prêmios e homenagens, "Um gosto de mel" é um bom filme ou apenas corajoso e à frente de seu tempo? É inegável que a qualidade dos diálogos e sua franqueza são admiráveis, e que a direção de Tony Richardson extrai de seus atores interpretações naturais, mas também não se pode deixar de perceber um certo tom mais adequado à sua época do que à atualidade. Se os temas discutidos ainda encontram eco no preconceituoso mundo do século XXI, algumas cenas podem parecer até ingênuas. É um charme, obviamente, e funcionou muito bem no começo dos anos 1960. Hoje vale mais como documento histórico - ainda que ainda possa conquistar jovens idealistas e apaixonados.

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