quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

AS FILHAS DE MARVIN

AS FILHAS DE MARVIN (Marvin's room, 1996, Scott Rudin Productions/Tribeca Productions, 98min) Direção: Jerry Zacks. Roteiro: Scott McPherson, peça teatral homônima de Scott McPherson. Fotografia: Piotr Sobocinski. Montagem: Jim Clark. Música: Rachel Portman. Figurino: Julie Weiss. Direção de arte/cenários: David Gropman/Tracey Doyle. Produção executiva: Tod Scott Brody, Lori Steinberg. Produção: Robert De Niro, Jane Rosenthal, Scott Rudin. Elenco: Meryl Streep, Diane Keaton, Robert De Niro, Leonardo DiCaprio, Hume Cronyn, Gwen Verdon, Dan Hedaya, Margo Martindale, Cynthia Nixon, Hal Scardino. Estreia: 18/12/96

Indicado ao Oscar de Melhor Atriz (Diane Keaton)

Quase vinte anos depois de ter embolsado o Oscar de melhor atriz por "Noivo neurótico, noiva nervosa", Diane Keaton voltou a ter o gostinho de ser indicada ao prêmio da Academia. Ao contrário de seu trabalho solar e bem-humorado no filme de Woody Allen, porém, seu desempenho em "As filhas de Marvin" - o responsável por sua indicação e pelos elogios que recebeu da crítica - nada tem de leve ou engraçado. Na pele de Bess Wakefield, uma mulher que abdicou de uma vida própria para cuidar do pai doente e da tia solteirona e que se descobre portadora de leucemia, a eterna Annie Hall mostrou que nem só de comédias rápidas como "Clube das desquitadas" - lançada no mesmo ano - vivia sua carreira. Ainda que, através de um inesperado senso de humor, o filme fuja constantemente do dramalhão lacrimoso - cortesia do roteiro escrito pelo próprio Scott McPherson que escreveu a peça teatral que lhe deu origem - é difícil não ceder à emoção quando em um mesmo pacote estão presentes doenças terminais, reconciliações familiares, ressentimentos fraternos... e Meryl Streep.

Não deixa de ser surpreendente que tenha sido Keaton e não Meryl Streep a escolhida pela Academia a figurar entre suas cinco indicadas ao Oscar de melhor atriz, na cerimônia de 1997, que esnobou Madonna, por "Evita" e premiou Frances McDormand, por "Fargo". Figura constante entre as candidatas, Streep dessa vez foi deixada de lado provavelmente porque ficou com o papel menos dramático dentre as protagonistas, uma vez que é sabido que os votantes da estatueta dourada não resistem à uma doença na hora de escolherem seus favoritos. Isso, no entanto, não tira os méritos de Diane, que faz o possível para dar dignidade e verossimilhança a uma personagem talvez otimista e altruísta demais para ser verdade. Essa superficialidade no desenho da personagem - e até no enfoque do relacionamento entre ela e as demais - acaba sendo enfatizada pela inexperiência do diretor Jerry Zacks, que não consegue esconder suas origens televisivas ao resolver de forma pálida e apressada as questões levantadas pela trama, já frágil em sua concepção.


Bess Wakefield (personagem construída sem muita sutileza pelo roteiro) é uma mulher caridosa, boa, paciente e bem-humorada que aceitou cordatamente o fato de ter deixado de lado sua vida para cuidar do pai, Marvin (Hume Cronyn em seu último filme), depois de um derrame, e de sua tia Ruth (Gwen Verdon), que passa os dias assistindo a novelas na televisão e não ajuda em nada nos cuidados com o irmão. Diagnosticada com leucemia, ela se vê diante de um problema com o qual julgava não ter jamais com o qual se preocupar: lidar com a única irmã, Lee (Meryl Streep), a quem não vê há quase vinte anos. Separada do marido e independente, Lee vive em outra cidade com os dois filhos - um deles o rebelde Hank (Leonardo DiCaprio), com quem vive às turras - e não tem a menor intenção de retornar à casa da família, mas acaba sendo a última opção de Bess quando ela entra em contato solicitando que ela faça exames para uma possível doação de medula. O reencontro da família traz à tona todos os ressentimentos represados há anos, assim como obriga Lee a enfrentar a difícil tarefa de revelar a seu filho mais velho a verdade sobre o pai que o rapaz idolatra desde a infância.

Ao utilizar-se de todos os clichês possíveis e imagináveis dos dramas familiares que envolvem doenças e traumas do passado, "As filhas de Marvin" encontra seu maior trunfo justamente em seus atores, tão bons que conseguem, dentro dos limites do possível, sustentar um roteiro que não consegue equilibrar a contento os momentos mais dramáticos com aqueles que se propõem a aliviar a tensão. O humor - vindo basicamente nas intervenções da personagem de Gwen Verdon e do irmão/recepcionista do médico vivido por Robert De Niro - não funciona na maior parte das vezes, dando a impressão de estar em cena com o único propósito de fugir da pieguice da qual o roteiro está encharcado. A relação entre Lee e seu filho Hank tampouco soa convincente a despeito do talento de seus intérpretes - DiCaprio estava iniciando seu reinado como ídolo adolescente e vive um personagem extremamente irritante, o que também ajuda a impedir uma maior identificação com a plateia mais velha. Além do mais, quando o filme finalmente se deixa levar pela emoção genuína - nas conversas entre Streep e Keaton - ele parece ter vergonha disso, apressando as cenas a ponto de torná-las superficiais e ocas. Não é de admirar que seja uma obra menos louvada nas carreiras de todos os (ótimos) envolvidos. "As filhas de Marvin" é um Supercine de luxo.

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