terça-feira, 26 de outubro de 2010

O PODEROSO CHEFÃO - PARTE III

O PODEROSO CHEFÃO PARTE III (The godfather, part III, 1990, Paramount Pictures/American Zoetrope Studios, 169min) Direção: Francis Ford Coppola. Roteiro: Francis Ford Coppola, Mario Puzo. Fotografia: Gordon Willis. Montagem: Lisa Fruchtman, Barry Malkin, Walter Murch. Música: Carmine Coppola. Figurino: Milena Canonero. Direção de arte/cenários: Dean Tavoularis/Gary Fettis. Casting: Janet Hirshenson, Jane Jenkins, Roger Mussenden. Produção executiva: Fred Fuchs, Nicholas Gage. Produção: Francis Ford Coppola. Elenco: Al Pacino, Diane Keaton, Talia Shire, Andy Garcia, Eli Wallach, Joe Mantegna, George Hamilton, Bridget Fonda, Sofia Coppola, John Savage. Estreia: 25/12/90

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Francis Ford Coppola), Ator Coadjuvante (Andy Garcia), Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Direção de arte/cenários

Uma obra-prima com falhas ainda pode ser considerada uma obra-prima? Essa é a grande pergunta que fica no ar depois dos créditos de encerramento de "O poderoso chefão parte III", o final da saga da família Corleone, realizado dezesseis anos depois do segundo capítulo e dirigido pelo mesmo Francis Ford Coppola. Feito para sanar as dificuldades financeiras da produtora do cineasta - dificuldades recorrentes, aliás, em sua genial carreira - o encerramento da história de Michael Corleone dividiu a crítica, não fez o mesmo sucesso de bilheteria de seus antecessores e falhou em conquistar os Oscar a que foi indicado - incluindo Melhor Filme e diretor. Mas mesmo que não repita o brilhantismo dos dois primeiros filmes é um capítulo final emocionalmente poderoso e inesquecível. Tem falhas - principalmente uma que atende pelo nome de Sofia Coppola - mas fascina, envolve e surpreende como toda boa obra-prima.

A trama de "O poderoso chefão parte III" se passa em 1979 e começa quando Michael Corleone (Al Pacino, no auge do talento), envelhecido, tenta apagar seu passado sangrento iniciando uma relação de negócios com o Vaticano. Buscando fugir da vida repleta de violência em que viveu até então, ele almeja limpar o nome da família, deixando assim um legado de respeitabilidade aos filhos - o rebelde Anthony (Franc D'Ambrosio), que abandona a faculdade de Direito para tornar-se cantor lírico e a delicada Mary (Sofia Coppola, o nêmesis do filme). No entanto, o rastro de sangue deixado por seu passado não o deixa seguir tranquilamente seus planos quando Vincent Mancini (Andy Garcia), filho bastardo de seu irmão mais velho, Sonny, assume o posto como seu segurança pessoal. Temperamental e impulsivo como o pai, Vincent se apaixona por Mary e, com a fragilidade cada vez maior da saúde de Michael, começa a comandar uma feroz vingança contra os traidores da família. Para isso, conta com a ajuda da até então neutra Connie (Talia Shire).

É impressionante como "O poderoso chefão parte III" não se utiliza de meias-palavras. Enquanto o primeiro filme não mencionava a palavra máfia e jamais ousava sair do circuito familiar dos negócios dos Corleone, aqui Coppola e Mario Puzo vão até Wall Street e o Vaticano para deixar bem claras as implicações e as conexões entre a Igreja, as finanças e os negócios escusos da família. O cineasta não tem medo de explicitar a hipocrisia do catolicismo - dinheiro em troca de perdão incondicional - nem tampouco de especular sobre a morte do Papa então no poder. As sequências religiosas do filme, aliás, estão entre as mais espetaculares do filme, em especial a emocionante confissão de Michael, arrependido e cheio de remorsos pelas mortes que carrega nas costas, em especial a do irmão Fredo - é arrepiante quando, em uma de suas crises de saúde, ele grita seu nome, em uma espécie de delírio que somente um ator do porte de Pacino é capaz de transmitir sem soar patético ou forçado. Absolutamente ciente de seu poder como intérprete, ele é, inclusive, a razão de ser de todo o filme, uma força catalisadora que transforma tudo em um espetáculo de encher a alma e os olhos.

Visualmente, o terceiro capítulo da saga dos Corleone é o mais bem-acabado. Lindamente fotografado por Gordon Willis e com uma direção de arte impecável, o filme de Coppola seduz com seus enquadramentos meticulosamente planejados, realizados com uma competência ímpar - coisa de quem sabe o que faz! A estética chiaroscuro de algumas cenas casa com perfeição às incoerências do coração de Michael - um homem torturado por um passado negro que não o deixa vislumbrar um futuro brilhante, uma personagem de Shakespeare perdida em algum canto da Sicília. E é na Sicília, inclusive, que Coppola encerra sua história, em quarenta minutos dos mais excitantes que o cinema pode produzir.
 
Ao reunir todos os protagonistas de seu filme na apresentação da ópera "Cavalleria Rusticana", de Mascagni - que versa basicamente sobre vendetta - Coppola e Puzo praticamente montaram um ato final que beira à perfeição cinematográfica e emocional. A edição excepcional, a música poderosa e os desdobramentos de toda uma vida dedicada ao crime, ao sangue e à vingança são apresentados à plateia de forma arrebatadora, culminando na provavelmente mais angustiante cena de desespero de toda a série (e mais uma vez é Al Pacino o responsável por tamanho show). Poucas vezes foi visto no cinema uma conjunção de fatores tão alinhada quanto nessa derradeira meia-hora, em que fica patente o talento descomunal de Coppola de transformar em arte uma necessidade financeira. E quando o filme acaba, ao som da melancólica música de Nino Rota, até mesmo os pecados cometidos por ele acabam sendo perdoados, inclusive a escalação de sua filha Sofia no crucial papel de Mary Corleone. Mas, afinal, ela mereceu toda essa malhação plena, geral e irrestrita? A resposta é uma só: SIM.
 
Ao assumir o papel que até às vésperas do início das filmagens era de Winona Ryder - que teria sua chance de trabalhar com Coppola em "Drácula de Bram Stoker", dois anos depois - a filha do diretor colocou em risco toda a credibilidade do projeto e de um trabalho árduo, minucioso e adorado tanto por crítica quanto por público - a própria série "O poderoso chefão". E mesmo que, justiça seja feita, hoje em dia ela seja uma cineasta sensível e competente - "As virgens suicidas" e "Encontros e desencontros" estão aí para comprovar a afirmação - como atriz Sofia é um fiasco. Ela é o único elo perigosamente fraco do filme, e levando-se em conta que sua personagem é vital para o desenrolar da trama, ela quase compromete todo o resultado final. Suas cenas românticas com Andy Garcia e dramáticas com Al Pacino são constrangedoras e é difícil não ficar pensando em como as coisas poderiam ter sido bem melhores se Winona não tivesse se afastado do projeto. Sofia é, sim, a pior coisa de "O poderoso chefão parte III". Felizmente o resto é tão bom que não nos resta alternativa a não ser perdoar Francis por tamanho erro.

Contemplativo, triste, melancólico e saudosista, "O poderoso chefão parte III" encerra com coerência e pompa um dos trabalhos mais sensacionais produzidos pela história de Hollywood. Ainda bem que filmes duram para sempre!

2 comentários:

Hugo disse...

Na época muitos críticos foram cruéis com o filme principalmente pela interpretação de Sofia Coppola, mas concordo com vc, esta falha não atrapalha o todo, que fecha muito bem está sensacional trilogia.

Abraço

renatocinema disse...

O terceiro melhor filme da minha vida. Os dois primeiros são as duas partes anteriores da saga. O Poderoso Chefão é a trilogia de minha vida. Abs