sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

MISTERIOSO ASSASSINATO EM MANHATTAN

MISTERIOSO ASSASSINATO EM MANHATTAN (Manhattan murder mystery, 1993, TriStar Pictures, 104min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Carlo Di Palma. Montagem: Susan E. Morse. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/Susan Bode. Produção executiva: Jack Rollins. Produção: Robert Greenhut. Elenco: Woody Allen, Diane Keaton, Anjelica Huston, Alan Alda, Jerry Adler, Lynn Cohen, Ron Rifkin. Estreia: 18/8/93

Com o final de sua bem-sucedida parceria profissional de 12 anos com Mia Farrow - com quem também era casado até o escândalo que surgiu em 1992, quando ele assumiu seu romance com a filha adotiva da atriz - a carreira de Woody Allen poderia entrar em um período de recesso. Para sorte de seus (inúmeros) fãs, porém, o cineasta nova-iorquino não deixou que problemas pessoais interferissem em sua tradição informal de lançar um filme por ano. Chamando de volta Diane Keaton, sua antiga colaboradora e com quem realizou algumas de suas maiores obras-primas dos anos 70, como "Noivo neurótico, noiva nervosa" (77) - que lhes rendeu Oscar de direção e atriz, respectivamente - e "Manhattan" (79), Allen não só deixou em segundo plano as polêmicas de seu novo relacionamento como entregou ao público uma comédia como há muito não realizava. "Misterioso assassinato em Manhattan" é sofisticado, engraçado e dotado de uma ironia de que só o cineasta nova-iorquino é capaz, além de brindar o espectador com seu reencontro com Keaton, uma atriz que ilumina a tela com seu carisma e talento.

Como bons amigos que voltam a se encontrar depois de anos, Keaton e Allen estão em sua melhor forma em "Misterioso assassinato em Manhattan", que marca também o reencontro do diretor com outro velho conhecido, o corroteirista Marshall Brickman, com quem ele dividiu o Oscar de "Noivo neurótico" - filme do qual, aliás, deriva a ideia central de um casal investigando um pretenso homicídio. Ao lado de Brickman, Allen volta a equilibrar com maestria diálogos sensacionais, uma trama consistente e personagens carismáticos, interpretados por um elenco coadjuvante que tem o luxo de poder contar com Alan Alda e Anjelica Huston (que também colaboraram com o diretor em seu "Crimes e pecados", de 1989). Lançado ainda no rastro da polêmica do fim do romance entre Allen e Mia Farrow, a comédia acabou recebendo generosos elogios da crítica e agradou em cheio o espectador que vinha de outro grande trabalho seu, o dramático e catártico "Maridos e esposas" (92).


Os protagonistas de "Misterioso assassinato em Manhattan" são Larry e Carol Lipton (Allen e Keaton), um casal sofisticado, culto e bem-sucedido que passa por um período de vazio em suas vidas com a ida do filho para a faculdade. Larry trabalha no mercado editorial e Carol pretende abrir um restaurante como forma de preencher seu tempo ocioso. Uma noite, quando estão chegando em casa, eles descobrem que uma de suas vizinhas, uma senhora de idade com quem travaram conhecimento há poucos dias, morreu repentinamente, vítima de um ataque do coração. Percebendo que as atitudes do viúvo não condizem com o fato - ele não parece estar nem um pouco abatido com a situação - Carol passa a desconfiar que ele na verdade matou a esposa e passa a investigar o caso. A princípio fazendo pouco das ideias absurdas da esposa, Larry acaba entrando no jogo por ciúmes, quando nota que um amigo antigo e agora divorciado, Ted (Alan Alda), está constantemente a seu lado. Junta-se ao grupo também a escritora Marcia Fox (Anjelica Huston), que acredita que sua experiência como autora de livros policiais pode ajudá-los a desvendar o crime.

Repleto de citações deliciosas a Hitchock ("Janela indiscreta" e "Um corpo que cai" são as mais diretas), Billy Wilder ("Pacto de sangue" é duplamente lembrado) e Orson Welles (o clímax homenageia "A dama de Shangai"), "Misterioso assassinato em Manhattan" mostra um Woody Allen de bem com a vida, distante dos temas densos que estiveram em evidência durante uma fase de sua carreira. Sua química com Diane Keaton é esplêndida e a trama, por incrível que pareça, não serve apenas como pretexto para piadas e sequências cômicas (ainda que elas existam e sejam ótimas): a tramoia que envolve a morte da vizinha dos Lipton tem mais camadas do que aparenta em uma primeira visão, o que dá ao filme um molho extra que certamente agradará também aos fãs do gênero policial. Em suma, um Woody Allen de boa safra, com uma Diane Keaton, como sempre, brilhante.

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