quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

CLUBE DAS DESQUITADAS

CLUBE DAS DESQUITADAS (The first wives club, 1996, Paramount Pictures, 103min) Direção: Hugh Wilson. Roteiro: Robert Harling, romance de Olivia Goldsmith. Fotografia: Donald Thorin. Montagem: John Bloom. Música: Marc Shaiman. Figurino: Theoni V. Aldredge. Direção de arte/cenários: Peter Larkin/Leslie E. Rollins. Produção executiva: Adam Schroeder, Erza Swerdlow. Produção: Scott Rudin. Elenco: Goldie Hawn, Bette Midler, Diane Keaton, Maggie Smith, Sarah Jessica Parker, Elizabeth Berkeley, Victor Garber, Dan Hedaya, Stockard Channing, Stephen Collins, Marcia Gay Harden, Eileen Eckart, Philip Bosco, Jennifer Dundas. Estreia: 20/9/96

Indicado ao Oscar de Melhor Trilha Sonora Original Comédia/Musical

Tudo já começa nos créditos de abertura - que relembram as clássicas comédias que fizeram a glória de Doris Day - e na sequência inicial, que mostra a despedida de quatro inseparáveis amigas quando seus dias de colegial chegam ao fim, nos efervescentes anos 60. Esses dois momentos são pistas valiosas do que virá pela frente em "Clube das desquitadas", uma divertida comédia feminista que troca a ingenuidade matreira da época do flower power pelo cinismo materialista da década de 90. Inesperado sucesso de bilheteria em um período onde apenas produções de apelo masculino lotavam as salas de exibição, o filme de Hugh Wilson - diretor sem nenhuma obra marcante no currículo - soou como um oásis frente à destruição em massa de filmes como "Independence day" e "Twister" e mostrou que, ao contrário do que esperava a própria Paramount Pictures, ainda havia espaço na indústria americana para filmes menores e estrelado por outros nomes que não Bruce Willis e Arnold Schwarzenegger.

A trama começa quando uma das quatro amigas da primeira cena, a milionária Cynthia Swann Griffin (participação especial de Stockard Channing), comete suicídio ao ler a notícia do casamento de seu ex-marido com uma garota muitos anos mais jovem. Em seu funeral, as amigas remanescentes - que não tiveram mais contato depois da formatura - se reencontram e, tristes e constrangidas com o afastamento mútuo, resolvem reafirmar sua ligação. É aí que descobrem que estão passando, todas elas, pelo mesmo problema de sua amiga recém-falecida. A atriz Elise Elliot (Goldie Hawn) está passando por uma crise na carreira por causa da idade e, além de ter sido largada pelo marido, o produtor Bill Atchinson (Victor Garber), está correndo o sério risco de ser obrigada a pagar-lhe uma pensão e dividir com ele tudo que conquistou. A dona-de-casa Brenda Cushman (Bette Midler) foi trocada pela fútil Shelly (Sarah Jessica Parker) e seu ex-marido, Morton (Dan Hedaya) não parece inclinado a compartilhar com ela tudo que eles construíram juntos. E Annie Paradis (Diane Keaton) acaba de descobrir que o marido por quem ainda é apaixonada, Aaron (Stephen Collins), está de caso com sua própria terapeuta, Leslie (Marcia Gay Harden). Frustradas e desiludidas, as três resolvem se unir para retomar o que lhes é de direito, se utilizando de todas as técnicas possíveis e imagináveis para isso.


Mais do que os mirabolantes planos bolados pelas três protagonistas para atingirem seus objetivos maquiavélicos, o mais engraçado no roteiro, baseado em um romance de Olivia Goldsmith são as inúmeras referências à cultura popular contemporânea americana, em especial quando o assunto é a carreira cinematográfica de Elise Elliot, em um papel feito sob medida para a ótima Goldie Hawn - e que, por ironia, foi oferecido primeiramente à Jessica Lange. Na pele da vaidosa atriz vencedora do Oscar e do Golden Globe, Hawn (ela mesma já premiada com as duas estatuetas) dispara farpas para todos os lados, ironizando de forma inteligente a forma como a indústria de Hollywood trata as atrizes que já não servem mais aos ideais de juventude dos estúdios e produtores. A crítica à ditadura da beleza, inclusive, é um dos pontos altos do filme, que não perde nenhuma oportunidade de alfinetar a tendência masculina de trocar suas mulheres de 50 anos por alguém com a metade da idade: nesse ponto, aliás, reside a fraqueza maior da produção, que, a favor da risada constante, opta pelo maniqueísmo absoluto, transformando todos os personagens masculinos da história em completos idiotas.

Esse pequeno senão, porém, não consegue apagar o que "Clube das desquitadas" tem de melhor: a química perfeita entre suas três protagonistas. Cada uma dentro de seu estilo de humor - a sofisticação neurótica de Diane Keaton, o escracho visual de Bette Midler, o carisma insofismável de Goldie Hawn - as veteranas atrizes nem precisam fazer muito esforço para ganhar a simpatia e a cumplicidade da plateia, que embarca sorridente a seu lado para acompanhar sua divertida história de vingança - que acaba em uma antológica cena de dança ao som de "You don't own me", cantada na versão original por Leslie Gore, falecida há poucos dias. Pode não ser um filme que mudará a vida de alguém, mas faz rir, entretém e apresenta um trio de protagonistas de tirar o chapéu - que, apesar da promessa, nunca mais se reuniu nas telas. Para uma comédia despretensiosa, está mais do que bom.

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