segunda-feira, 6 de outubro de 2014

A NOITE DOS DESESPERADOS

A NOITE DOS DESESPERADOS (They shoot horses, don't they?, 1969, ABC/Palomar Pictures, 129min) Direção: Sydney Pollack. Roteiro: James Poe, Robert E. Thompson, romance de Horace McCoy. Fotografia: Philip H. Lathrop. Montagem: Fredrick Steinkamp. Música: John Green. Figurino: Donfeld. Direção de arte/cenários: Harry Horner/Frank McKelvey. Produção executiva: Theodore B. Sills. Produção: Robert Chartoff, Irwin Winkler. Elenco: Jane Fonda, Michael Sarrazin, Gig Young, Susannah York, Red Buttons, Bonnie Bedelia, Michael Conrad, Bruce Dern, Al Lewis. Estreia: 10/12/69

9 indicações ao Oscar: Diretor (Sydney Pollack), Atriz (Jane Fonda), Ator Coadjuvante (Gig Young), Atriz Coadjuvante (Susannah York), Roteiro Adaptado, Montagem, Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte/Cenários
Vencedor do Oscar de Ator Coadjuvante (Gig Young)
Vencedor do Golden Globe de Ator Coadjuvante (Gig Young)

Um dos mais cruéis e chocantes retratos da desumanização que veio em consequência da Grande Depressão americana, o amargo "A noite dos desesperados", baseado em romance de Horace McCoy mantém até hoje, 45 anos depois de seu lançamento, a dúbia honra de ser o filme com maior número de indicações ao Oscar sem ter sido lembrado na categoria principal. Indicado em nove categorias - incluindo diretor, atriz e roteiro adaptado - o filme deu a Gig Young a estatueta de melhor ator coadjuvante, mas, visto à luz do tempo, merecia ter tido mais atenção dos eleitores. Forte, contundente e frequentemente dotado de uma ironia tão fina e sutil que muitas vezes passa despercebida, o filme de Sydney Pollack se mantém muito atual nessa época em que realities show pipocam a cada esquina, borrando a linha entre a dignidade e o desespero.

Pollack, que manteve uma carreira que flutuava entre sucessos comerciais de qualidade - "Tootsie" (82) - êxitos de prestígio e Oscars - "Entre dois amores" (85) - e filmes simplesmente medíocres - "Havana" (90) - provavelmente nunca dirigiu um filme tão poderoso quanto este, tanto em termos visuais quanto em termos de densidade psicológica. Ao fazer uma dura crítica à indiferença das classes privilegiadas em relação àqueles menos favorecidos através de uma aparentemente inocente maratona de dança, Pollack utilizou todas as ferramentas do bom cinema para construir uma obra extraordinária em todos os sentidos: a sintonia entre roteiro, direção, elenco e técnica dá à trágica e melancólica trama um revestimento de arte mesmo quando o âmago do que é contado é negro, doloroso e feio. A feiúra do que é contado encontra eco na alma dúbia de alguns personagens, mas Pollack brilhantemente enfeita o lixo com uma poesia que jamais deixa com que seu filme descambe para o dramalhão hipócrita ou falsamente panfletário. O tom seco da narrativa é o acerto final em uma obra simplesmente imperdível.


Jane Fonda - que dois anos depois ganharia seu primeiro Oscar por "Klute, o passado condena" - está fascinante na pele de Gloria Beatty, uma aspirante a atriz desencantada com a vida e a profissão que, no fundo do poço financeiro e pessoal, entra em uma maratona de dança que pagará 1.500 dólares ao par vencedor. Perdendo seu acompanhante na hora da inscrição, ela se une ao jovem e inocente Robert (Michael Sarrazin) na disputa cruel e desumana do concurso, cujas regras rígidas e violentas os impede de dormir mais do que poucos minutos por dia, os faz comer em pé e sem parar de dançar e, vez ou outra, lança mão de uma corrida que elimina os últimos colocados. Dias após o início da maratona - que é assistida por um público que escolhe seus favoritos enquanto come pipoca e aplaude sem muito interesse nas consequências físicas da disputa - Gloria começa a ver outros candidatos perderem o pouco que resta de suas dignidades pessoais. Entre eles estão Alice (Susannah York), que também sonha em ganhar Hollywood e vai perdendo sua razão dia-a-dia, um velho marinheiro (Red Buttons) que mente a idade para manter-se como concorrente e até mesmo uma jovem mulher grávida, Ruby (Bonnie Bedelia, que depois faria a ex-esposa de Bruce Willis em "Duro de matar") que não abre mão do prêmio mesmo correndo o risco de perder o bebê ou morrer. No comando de tudo, está o animador do concurso, o frio e manipulador Rocky (Gig Young, vencedor do Oscar).

Relatado de forma fria e paradoxalmente angustiante, "A noite dos desesperados" mostra um Sydney Pollack no auge da criatividade. Utilizando-se de flashforwards que dão uma pista do final trágico e de certa maneira previsível (mas nunca anticlimático) e de um ritmo que intercala dramas pessoais com momentos eletrizantes reforçados pela edição inteligente de Fredric Steinkamp - como as corridas, capazes de deixar o público na beira da poltrona - o filme também se beneficia de uma reconstituição de época caprichada e de uma história forte o bastante para falar por si. Confiando nessa força, o roteiro prescinde de artifícios que fujam do cenário único, concentrando todo o foco em Gloria, Robert e seus companheiros de dor e de cruz. Uma opção correta que fortalece um dos mais potentes dramas sociais realizados por Hollywood na década de 60.

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