quarta-feira, 26 de outubro de 2016

DESCALÇOS NO PARQUE

DESCALÇOS NO PARQUE (Barefoot in the park, 1967, Paramount Pictures, 106min) Direção: Gene Sacks. Roteiro: Neil Simon, peça teatral de sua autoria. Fotografia: Joseph LaShelle. Montagem: William Lyon. Música: Neal Hefti. Figurino: Edith Head. Direção de arte/cenários: Hal Pereira, Walter Tyler/Robert Benton, Arthur Krams. Produção: Hal B. Wallis. Elenco: Robert Redford, Jane Fonda, Charles Boyer, Mildred Natwick, Herbert Edelman, Mabel Albertson. Estreia: 25/02/67

Indicado ao Oscar de Atriz Coadjuvante (Mildred Natwick)

Um dos mais populares dramaturgos americanos de sua geração, Neil Simon nem precisava ir muito longe para buscar inspiração para seus textos, sempre recheados de fina ironia e um senso de humor inteligente. Seus casamentos, por exemplo, forneciam matéria-prima mais do que suficiente para suas peças de teatro, invariavelmente bem-sucedidas tanto nos palcos quanto nas telas de cinema. Um exemplo perfeito dessa afirmação é "Descalços no parque", que escreveu inspirado nas primeiras semanas de seu relacionamento com a dançarina Joan Bain. Lançada como espetáculo da Broadway em 1963 (dirigida por Mike Nichols) e adaptada para o cinema pelo próprio autor, a história de amor e desavença entre um casal que descobre que casamento é mais do que a lua-de-mel acabou por se tornar o primeiro sucesso de bilheteria das carreiras de dois então jovens atores que não demorariam em virar ídolos: Robert Redford e Jane Fonda.

Redford já tinha defendido seu personagem, o advogado certinho Paul Bratter, nos palcos, e sua presença no filme de estreia do diretor Gene Sacks revelava um inesperado timing cômico que seria ainda mais depurado em dois de seus filmes mais populares que viriam a seguir - "Butch Cassidy e Sundance Kid" (69) e "Golpe de mestre" (73), ambos ao lado do colega Paul Newman. Enquanto isso, a filha de Henry Fonda vinha de produções que nem de longe exploravam todo o seu potencial como atriz e mulher bonita, como "Até os fortes vacilam" (60), com Anthony Perkins e "Dívida de sangue" (65), realizado ao lado de Lee Marvin. Na pele da descolada e vivaz Corie, cuja espontaneidade contrasta radicalmente com a rigidez do marido, Jane deu o primeiro passo em direção ao sucesso de público e crítica que viria a lhe render dois Oscar na década de 70, juntamente com uma sucessão de polêmicas envolvendo sua militância contra a Guerra do Vietnã. Em 1967, quando o filme estreou, ambos eram apenas talentosos jovens atores em busca de um lugar ao sol - e seus desempenhos exalavam um frescor perceptível ainda hoje, a despeito do fato de o filme não ter mantido o mesmo nível de atemporalidade de suas atuações.


"Descalços no parque" começa logo após a cerimônia de casamento dos jovens, belos e saudáveis Paul e Corie Bratter, que vão demorar menos de uma semana para perceberem que a vida de casados não se resume aos seis dias que passam trancados no quarto de um hotel. Logo que se mudam para o minúsculo apartamento no quinto andar de um prédio sem elevadores - escolhido por Corie em sua ânsia de aventurar-se na rotina matrimonial - os dois passam a encarar crise após crise, seja devido ao tamanho reduzido de seu lar, seja por causa da vizinhança bizarra ou até mesmo por começarem a notar um no outro traços de personalidade pouco atraentes. Corie despreza o jeito conservador do marido, que, por sua vez, percebe na esposa um desejo quase infantil de aproveitar cada prazer da vida - inclusive ao lado do excêntrico vizinho, Victor Velasco (Charles Boyer), que ela pretende casar com sua mãe, Ethel (Mildred Natwick, indicada ao Oscar de atriz coadjuvante). A crise, que aparenta ser passageira, acaba por estender-se mais do que o esperado, e ambos serão obrigados a questionar seu casamento.

Analisado friamente, "Descalços no parque" não acrescenta nada ao gênero comédia romântica - ainda que mereça crédito por subverter a fórmula "rapaz encontra moça" e já começar sua narrativa com o casal de protagonistas casado. Porém, alguns diálogos brilhantes e o elenco impecável compensam certos momentos mais lentos e desnecessários. Muito do que funciona - as referências constantes às escadas que levam ao apartamento, por exemplo - vem do talento de Neil Simon em extrair humor do cotidiano e da química faiscante entre Robert Redford e Jane Fonda em seu terceiro filme juntos - eles ainda contracenaram em "O cavaleiro elétrico", em 1979, já consagrados. Eles são tão agradáveis e carismáticos que sempre que estão em cena fazem esquecer a perda de ritmo de determinadas situações criadas pelo roteiro e transformam um filme simples e despretensioso em um entretenimento acima da média. Para assistir em um domingo chuvoso nada melhor.

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