quinta-feira, 28 de maio de 2015

O SORRISO DE MONA LISA

O SORRISO DE MONA LISA (Mona Lisa smile, 2003, Columbia Pictures, 117min) Direção: Mike Newell. Roteiro: Lawrence Konner, Mark Rosenthal. Fotografia: Anastas Michos. Montagem: Mick Audsley. Música: Rachel Portman. Figurino: Michael Dennison. Direção de arte/cenários: Jane Musky/Susan Tyson, Chris Nickerson. Produção executiva: Joe Roth. Produção: Elaine Goldsmith-Thomas, Paul Schiff, Deborah Schindler. Elenco: Julia Roberts, Kirsten Dunst, Maggie Gyllenhaal, Julia Stiles, Ginnifer Goodwin, Juliet Stevenson, Marcia Gay Harden, Marian Seldes, John Slattery, Dominic West, Topher Grace. Estreia: 19/12/03

Em 1989 o australiano Peter Weir emocionou o mundo todo ao contar a história de um professor de Inglês que, desafiando a orotodoxia de uma escola para rapazes no final da década de 50, os inspirava a romper com o conformismo e buscar a felicidade através da realização de suas paixões. O filme era "Sociedade dos poetas mortos", que ganhou o Oscar de roteiro original e deu a Robin Williams um dos papéis mais populares de sua carreira e estabeleceu um padrão altíssimo a todas as produções subsequentes que retratavam a relação mestre/alunos. Quem chegou bem perto foi "Mr. Holland, adorável professor" (95), onde Richard Dreyfuss deu vida a um aspirante a compositor que acaba dedicando a vida toda a lecionar em uma escola pública, onde conquista alunos e colegas com sua paixão pela música. Quem tentou e acabou ficando no meio do caminho das boas intenções e objetivos comerciais foi Julia Roberts. A maior estrela de Hollywood juntou-se ao diretor Mike Newell, de "Quatro casamentos e um funeral" em "O sorriso de Mona Lisa", uma versão feminina de "Sociedade", agradável e fotogênica, mas com bem menos profundidade ou emoção.

A trama começa no início do ano letivo de 1953, quando a independente e carismática Katherine Wilson (Roberts, exercitando sem medo seu belo sorriso e os trejeitos que fizeram dela uma das maiores estrelas do cinema americano) chega à tradicional Wellesley, uma escola preparatória feminina das mais respeitadas da Nova Inglaterra para ensinar História da Arte. Tão logo as aulas tem início, porém, ela descobre que seus métodos de ensino - pouco ortodoxos em relação à rigidez dos programas da escola - fogem ao esperado pela direção e até mesmo pelas alunas, que frequentam as aulas apenas como uma espécie de temporada de espera antes de começarem suas vidas domésticas, como mulheres casadas e donas-de-casa dedicadas. De certa forma chocada com a visão de mundo tão estreita das jovens, ela começa uma espécie de queda de braço com a editora do jornal estudantil, Betty Warren (Kirsten Dunst), que está às vésperas do casamento e sente-se particularmente ofendida com as ideias progressistas de Katherine. Apoiada por outro professor, Bill Dunbar (Dominic West) - que se apaixona por ela - a mestra resolve dedicar seus esforços em convencer a ambiciosa porém conformista Joan Brandwyn (Julia Stiles) a não abdicar de seus sonhos de cursar Direito mesmo depois de casada.


Para que se goste de "O sorriso de Mona Lisa" é essencial que se deixe seduzir pelos talentos de Julia Roberts e não se tente comparar com o incomparável "Sociedade dos poetas mortos". O filme de Mike Newell, apesar das semelhanças em número suficiente para forçar paralelos com a obra de Weir, não parece buscar a densidade emocional deste, e baseia-se firmemente no carisma de Julia para cativar a audiência. Isso não implica, no entanto, que o roteiro, de fortes cores feministas, não dê espaço para que seus personagens coadjuvantes brilhem: enquanto narra as batalhas de sua protagonista para encontrar espaço em um mundo cercado de regras e mandamentos arcaicos, a trama também acompanha os dramas de algumas das alunas de Katherine, cada uma buscando a felicidade a seu modo. É assim que, além da reprimida e cruel Betty Warren, surgem em cena a liberal Giselle Levy (Maggie Gyllenhaal) - que tem um romance com o professor que depois se envolve com Katherine -, a sonhadora Joan e a romântica Connie Baker (Ginnifer Goodwin), que, desprovida dos encantos físicos das colegas, procura viver uma grande história de amor. Além disso, o filme também dá conta de apresentar ao público ao menos duas outras professoras com histórias dignas de nota: a solteirona Nancy Abbey (Marcia Gay Harden), que não supera a perda do noivo na II Guerra, e Amanda Armstrong (Juliet Stevenson), que vive das lembranças de seu relacionamento com outra professora, já falecida.

Ao espalhar seu foco entre tantas personagens, o roteiro de "O sorriso de Mona Lisa" acaba por não aprofundar-se em nenhuma das tramas que estabelece, apesar de dar à Katherine a primazia das atenções. Sua paixão pelo magistério, pela arte e pela possibilidade de mudar a vida de suas alunas empresta ao filme de Newell - cuja direção sem personalidade depõe mais contra a produção do que sua tentativa em abraçar várias histórias - algumas cenas bastante interessantes, que discute os critérios de julgamento de obras artísticas, os movimentos modernistas do feminismo e até as responsabilidades da educação formal em relação à comunidade. São temas intrigantes, abordados com leveza e simpatia, de acordo com as pretensões do filme. Não é uma obra-prima nem tampouco é uma produção inesquecível. Mas é uma boa sessão da tarde descompromissada.



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