sexta-feira, 4 de maio de 2012

BRILHO ETERNO DE UMA MENTE SEM LEMBRANÇAS


BRILHO ETERNO DE UMA MENTE SEM LEMBRANÇAS (Eternal sunshine of the spotless mind, 2004, Focus Features, 108min) Direção: Michel Gondry. Roteiro: Charlie Kaufman, estória de Charlie Kaufman, Michel Gondry, Pierre Bismuth. Fotografia: Jeanne McCarthy. Montagem: Valdís Oskarsdottir. Música: Jon Brion. Figurino: Melissa Toth. Direção de arte/cenários: Dan Leigh/Ron Von Blomberg. Produção executiva: Georges Bermann, David Bushell, Charlie Kaufman, Glenn Williamson. Produção: Anthony Bregman, Steve Golin. Elenco: Jim Carrey, Kate Winslet, Tom Wilkinson, Kirsten Dunst, Mark Ruffalo, Elijah Wood, Jane Adams. Estreia: 19/3/04

2 indicações ao Oscar: Atriz (Kate Winslet), Roteiro Original
Vencedor do Oscar de Roteiro Original

Em um mundo ideal, os românticos sofredores poderiam ter o direito de apagar totalmente da memória as recordações de seus relacionamentos falidos e dolorosos. No mundo criado pelo roteirista Charlie Kaufman essa possibilidade existe quem a proporciona é uma empresa apropriadamente chamada Lacuna Inc. Criada pelo doutor Howard Mierzwiack (Tom Wilkinson), a Lacuna se encarrega de entrar no cérebro dos contratantes e arrancar de lá todos os momentos solicitados. E é justamente isso que o desesperado Joel Parrish (Jim Carrey) deseja com todas as suas forças: apagar qualquer lembrança de seu romance com a bela Clementine Cruczynski (Kate Winslet), que já providenciou o procedimento em sua própria vida. Acontece que Joel ainda ama Clementine, e descobre isso no meio do processo. O que fazer, então? Só lhe resta fugir com seus momentos de amor para lugares de sua mente onde jamais serão encontrados.

Parece estranho que o filme mais romântico e desbragamente apaixonado do início do século tenha uma cara de ficção científica, mas antes de qualquer coisa é preciso entender que o autor de "Brilho eterno de uma mente sem lembranças" é o mesmo dono da mente doentia que criou "Quero ser John Malkovich" e "Adaptação", dois dos mais criativos filmes de sua época.  Contando com a inspiradíssima direção de Michel Gondry - vindo do mundo do videoclipe como o genial David Fincher - a história de amor complicada e realista de Joel e Clementine foge do banal, do clichê e de qualquer definição para se tornar uma das mais marcantes que o cinema moderno pode oferecer. Nada de lágrimas fáceis, nada de lances melodramáticos. Por trás do complexo roteiro e da brilhante direção há aquilo que mais falta nos pré-fabricados romances hollywoodianos: alma.



Apostando na inteligência da plateia, "Brilho eterno de uma mente sem lembranças" é um quebra-cabeças delirante, onde nenhuma cena é desnecessária, nenhum momento é desperdiçado. A edição intrincada dá pistas o tempo inteiro de como seguir a história (seja na cor dos cabelos de Clementine ou em detalhes que só farão sentido em uma terceira ou quarta sessão), mas nunca a entrega de mão-beijada, preferindo sempre o caminho menos comum para atingir seus objetivos. A trama, constituída de três tempos (o real, as lembranças e a visão de Joel e Clementine sobre os fatos que estão ocorrendo), é ágil na medida certa, mas absolutamente contemplativa e de partir o coração quando necessita. O extraodrinário do roteiro de Kaufman - merecidamente premiado com o Oscar - é justamente sobrepor essas três linhas de tempo sem ser didático ou aborrecido. É confuso? Não, é fascinante. Ao explorar os mecanismos que levam um amor aparentemente imorredouro a um patético final (apenas para depois voltar a seu glorioso início) a estreia de Gondry no cinema não poderia ser mais auspiciosa, principalmente por tirar de seus atores - centrais e coadjuvantes - atuações das mais apaixonadas.

Deixando de lado mais uma vez seu histrionismo exagerado - como fez anteriormente nos elogiados "O show de Truman" e "O mundo de Andy" - Jim Carrey convence totalmente como um homem frágil, sensível e passional, dando mais uma prova de seu talento quando bem dirigido (e ficando com o papel antes oferecido a Nicolas Cage, Deus nos proteja!). A seu lado, Kate Winslet brilha em um de seus melhores trabalhos, que lhe deu a quarta indicação ao Oscar. Longe dos trajes de época que marcaram seus filmes anteriores, a bela inglesa aparece em cena com o cabelo pintado de várias cores e transmite uma alegria de viver e uma ânsia de ser amada ausente em seus projetos anteriores - e sua química com Carrey é invejável, especialmente se for levado em conta que improvisaram boa parte de seus diálogos, incentivados pelo diretor. E o elenco coadjuvante não atrapalha nem um pouco, sendo, pelo contrário, um suporte valioso ao casal central. O veterano Tom Wilkinson, os jovens Kirsten Dunst e Elijah Wood e o cada vez melhor Mark Ruffalo não deixam a peteca cair quando suas personagens saltam ao primeiro plano da narrativa, arrematando com cuidado e sensibilidade a arte de Gondry e Kaufman.

Não fazendo concessões ao trivial, "Brilho eterno de uma mente sem lembranças" pode assustar ao público acostumado com historinhas de amor banais e derivativas. Mas o romance entre suas personagens é verdadeiro, honesto, belo e triste. Belo e triste como um amor de verdade. Uma obra-prima irretocável!

3 comentários:

Hugo disse...

Ótimo roteiro e uma bela química entre Kate Winslet e Jim Carrey.

O resultado é um grande filme.

Abraço

K disse...

Tbm achei um otimo filme....
blogtvmovies.blogspot.com

Marlucci disse...

Assisti ontem, achei lindo. Um filme excelente.