sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

NELL

NELL (Nell, 1994, Egg Pictures/PolyGram Filmed Entertainment/20th Century Fox, 112min ) Direção: Michael Apted. Roteiro: William Nicholson, Mark Handley, peça teatral "Idioglossia", de Mark Handley. Fotografia: Dante Spinotti. Montagem: Jim Clark. Música: Mark Isham. Figurino: Susan Lyall. Direção de arte/cenários: Jon Hutman/Samara Hutman.Produção: Jodie Foster, Renée Missel. Elenco: Jodie Foster, Liam Neeson, Natasha Richardson, Richard Libertini, Nick Searcy, Jeremy Davies. Estreia: 14/12/94

Indicado ao Oscar de Melhor Atriz (Jodie Foster)

Em 1991, devido a problemas financeiros que acabaram acarretando em sua falência, a Carolco, um estúdio sem a proporção de uma Fox ou uma Paramount, se viu obrigado a escolher entre dois filmes para lançar no mercado: o escolhido foi "Mentes que brilham", estreia de Jodie Foster na direção, que colheu elogios unânimes da crítica e foi muito bem recebido pelo público. O segundo filme, "Céu azul", dirigido por Tony Richardson, só chegou às salas de cinema três anos depois e, por ironia do destino, esse atraso só lhe fez bem: não fosse ele era bem possível que seu Oscar de melhor atriz - concedido à excelente Jessica Lange - nunca tivesse acontecido, porque em 1992 a estatueta foi bem disputada entre Geena Davis e Susan Sarandon (ambas por "Thelma & Louise") e a própria Foster, que saiu-se vencedora por "O silêncio dos inocentes". Outra ironia suprema? A maior rival de Lange na cerimônia de 1995 era a mesma Jodie: no filme "Nell" ela entrega mais uma sublime interpretação na pele de uma jovem criada à margem da civilização e que é descoberta depois da morte da mãe. Por melhor atriz que Jessica Lange seja, ainda hoje é difícil engolir a escolha da Academia em premiá-la em detrimento de um trabalho tão impactante quanto o da ex-menina prodígio que tornou-se uma das mais premiadas estrelas de Hollywood unicamente graças a seu talento.

É inegável que o trabalho de Jodie Foster - que assina também como produtora e quase assumiu o papel de diretora antes que Michael Apted fosse contratado - é superior ao filme como um todo. Baseado em uma peça de teatro de Mark Handley (co-autor do roteiro), "Nell" não consegue escapar dos clichês nem tampouco de algumas incongruências e exageros que enfraquecem o resultado final e deixam nos ombros da atriz a responsabilidade de manter a verossimilhança e o interesse da plateia. Felizmente ela tem talento de sobra para construir uma personagem que, a despeito da fragilidade da trama, transborda humanidade e cativa a audiência sem precisar muito mais do que o trabalho corporal e facial - ambos de extraordinária competência e de delicadeza contrastante com a aparentemente durona Clarice Starling do filme que lhe deu o segundo Oscar.


A trama do filme é simples e direta: depois da morte da mãe, seu único elo com o mundo exterior, a jovem Nell (Foster, nunca aquém de genial em cena) é descoberta na cabana onde morou a vida inteira, escondida de tudo e de todos em uma floresta localizada perto de uma pequena cidade do interior. Se comunicando através de um idioma próprio e incapaz de manter contato social com qualquer desconhecido, ela aos poucos passa a mostrar-se afável com as duas pessoas que resolvem ajudá-la em sua transição rumo a uma nova vida: o doutor Jerome Lovell (Liam Neeson) e a psicóloga Paula Olsen (Natasha Richardson), que, apesar de suas boas intenções, desejam coisas diferentes a ela. Enquanto Lovell acredita que Nell pertence à floresta e a seu mundo particular, Paula insiste que ela deve ser "devolvida" à civilização. Esse impasse chega aos tribunais e a jovem - que tem um trágico passado ainda desconhecido pelos médicos - passa por três meses de observação para ter seu futuro definido.

Mais um exemplar dos "bons selvagens" retratados pelo cinema - mais notadamente em "O garoto selvagem" (70), de François Truffaut - Nell é uma personagem fascinante, ainda que não tenha sido desenvolvida de forma satisfatória pelo roteiro, por vezes mais preocupado com a disputa entre os dois especialistas do que em analisar de maneira mais profunda a psicologia da protagonista. Liam Neeson e Natasha Richardson estão bem em cena - foi durante as filmagens que eles se conheceram e se apaixonaram, em um casamento que durou até a precoce morte da atriz em um acidente de esqui em 2009 - mas não fazem mais do que pontuar com correção o show particular de Jodie Foster, e a busca de seus personagens pelas origens do isolamento de Nell nunca ultrapassa o convencional, privando o público de mais emoção. Ainda assim, é um filme feliz em suas opções, ao fugir do tradicional dramalhão - mesmo que, em seu clímax, apresente a típica cena de discurso que qualquer filme que ambicione um Oscar não tem medo de utilizar. É um belo filme - Michael Apted é um diretor competente e sabe como contar uma história - mas aquém de suas possibilidades. Salva-se Jodie e seu talento além de qualquer palavra.

Um comentário:

Alan Raspante disse...

Eu não conhecia esse filme. Gostei do enredo, e gostei de saber sobre essas histórias dos 'bastidores' (do Oscar e etc). Enfim, quero ver! :D