quarta-feira, 3 de maio de 2017

DARKMAN: VINGANÇA SEM ROSTO

DARKMAN: VINGANÇA SEM ROSTO (Darkman, 1990, Universal Pictures, 96min) Direção: Sam Raimi. Roteiro: Sam Raimi, Chuck Pfarrer, Ivan Raimi, Daniel Goldin, Joshua Goldin, estória de Sam Raimi. Fotografia: Bill Pope. Montagem: Bud S. Smith, David Stiven. Música: Danny Elfman. Figurino: Grania Preston. Direção de arte/cenários: Randy Ser/Julie Kay Fanton. Produção: Robert Tapert. Elenco: Liam Neeson, Frances McDormand, Colin Friels, Larry Drake. Estreia: 24/8/90

Aqueles que se surpreenderam, em 2002, com o talento do diretor Sam Raimi em recriar nas telas de cinema as aventuras de Peter Parker em "Homem-aranha" - tornadas ainda mais empolgantes no segundo capítulo, de 2004 - provavelmente ainda tinham na memória apenas sua experiência como o criador dos criativos e sanguinolentos "Uma noite alucinante: a morte do demônio" (1981) e sua continuação, "Uma noite alucinante 2" (1987). Talvez esses mesmos espectadores tivessem esquecido (ou simplesmente ignorado) um filme que, lançado em 1990, já dava pistas sobre o talento de Raimi em contar histórias de super-heróis: "Darkman: vingança sem rosto" pode não ter sido um estouro de bilheteria - rendeu pouco menos de 50 milhões de dólares pelo mundo afora - mas deixava explícito o carinho do cineasta pelo visual de HQ e sua vocação em abraçar antiherois e seus dilemas existenciais. Inspirada em maior ou menor nível por obras como "O fantasma da Ópera", "O corcunda de Notre Dame" e "O homem elefante" - além dos clássicos de horror da Universal Pictures e personagens populares como Batman e O Sombra -, a trama criada por Raimi (e desenvolvida por um time de roteiristas que incluía, sem créditos, os irmãos Coen, amigos do diretor) é uma colcha de retalhos divertida, despretensiosa e ligeira, o passatempo perfeito para uma tarde chuvosa de sábado.

Produzido por um grande estúdio mas com alma de filme independente, "Darkman" nasceu do desejo de Raimi em fazer um filme protagonizado por algum dos heróis de quadrinhos que moldaram sua infância e adolescência. Sem conseguir os direitos de nenhum, ele criou então a história adotada pela Universal Pictures - e sentiu na carne o abismo que separa o mundo do cinema realizado por trocados por aquele comandado por uma corporação hollywoodiana. Mesmo com um orçamento pequeno (de estimados 16 milhões de dólares), ele se viu lutando para manter sua visão artística, constantemente questionada pelos executivos do estúdio - além de um período difícil dirigindo a atriz principal, Frances McDormand, que, a despeito de ser casada com um amigo de Raimi (o também cineasta Joel Coen), mostrou-se tão dedicada a fazer o melhor para o filme que frequentemente batia de frente com o diretor). Assumindo um papel que por pouco não ficou com Julia Roberts (que pulou do projeto para conhecer o estrelato e a fama com "Uma linda mulher"), McDormand tampouco parecia a escolha ideal para protagonizar um filme de pretensões comerciais - até mesmo Demi Moore e Bridget Fonda foram testadas antes que ela finalmente assinasse o contrato. Da mesma forma, o papel principal masculino também não ficou com um ator popular à época: futuramente indicado ao Oscar por "A lista de Schindler" (93) e herói de filmes de ação, Liam Neeson ainda era um ilustre quase desconhecido em 1990, mas conquistou o respeito e a admiração de Sam Raimi graças a seu carisma - e ficou com o papel que quase esteve nas mãos de Bill Paxton e Gary Oldman (já que a opção inicial do criador da história, Bruce Campbell, foi recusada pelos produtores).


O que parecia um fracasso anunciado - as primeiras exibições-teste foram desastrosas - acabou se tornando, porém, um filme que conquistou a crítica e o público (que não fez dele um blockbuster mas que, graças ao marketing da Universal, correu às salas de exibição em busca de um novo "Batman" (89), de Tim Burton, ou "Dick Tracy" (90), de Warren Beatty). Mereceu o sucesso (relativo) que fez. A história é simples e mera desculpa para apresentar um dos personagens mais interessantes da carreira de Raimi: o brilhante cientista Peyton Westlake. Dedicado e inteligente, Peyton está em vias de atingir a perfeição de seu maior objetivo profissional - a criação de pele sintética. Antes disso, porém, ele acaba sendo deixado para morrer em seu laboratório pelos capangas de Louis Strack Jr. (Colin Friels, em papel oferecido a Richard Dreyfuss e James Caan) - de posse involuntária de documentos procurados pelo criminoso, ele vê todo seu trabalho destruído e, tido como morto, ressurge como o misterioso Darkman, que, em busca de vingança para seu rosto destruído, assume identidades alheias, com direito a máscaras impecáveis (mas que duram apenas 100 minutos). Durante sua jornada, ele conta com a ajuda da namorada, a advogada Julie Hastings (Frances McDormand) - a responsável indireta pela tragédia que quase acabou com a vida de seu amado.

Em ritmo ágil e quase juvenil, "Darkman" envolve o espectador especialmente por seu espírito quase mambembe. Mesmo se tratando de um filme produzido por um estúdio tradicional de Hollywood o que ele passa ao público é um desejo de ser quase trash, barato, como uma justa homenagem aos tempos clássicos do cinemão americano, com o bem e o mal nitidamente definidos, efeitos visuais quase capengas e cenas de ação no limite do inverossímil. Como sinal dos tempos, a protagonista feminina não fica apenas gritando e correndo perigo - algo que a personalidade forte de Frances McDormand jamais deixaria transparecer - e o herói tem uma angústia existencial que os distancia de galãs românticos de caráter estoico e nulidade dramática. O trunfo de Sam Raimi (a escalação de atores de verdade e não apenas símbolos sexuais pouco talentosos para os papéis centrais) é também o trunfo do filme como um todo: é uma entretenimento escapista dos mais divertidos, capaz de levar qualquer um de volta à adolescência. Despretensioso, quase deu origem a uma série de televisão - e não é que ela poderia ter sido muito legal?

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