domingo, 4 de outubro de 2015

W.E: O ROMANCE DO SÉCULO

W.E: O ROMANCE DO SÉCULO (W.E, 2011, The Weinstein Company, 119min) Direção: Madonna. Roteiro: Madonna, Alek Keshishian. Fotografia: Hagen Bogdanski. Montagem: Danny B. Tull. Música: Abel Korzeniowski. Figurino: Arianne Phillips. Direção de arte/cenários: Martin Childs/Celia Bobak. Produção executiva: Scott Franklin, Donna Gigliotti, Harvey Weinstein. Produção: Madonna, Kris Thykier. Elenco: Abbie Cornish, Andrea Riseborough, James D'Arcy, Oscar Isaac, Richard Coyle, James Fox, Edward Fox, Judy Parfitt, Natalie Dormer. Estreia: 01/9/11 (Festival de Veneza)

Indicado ao Oscar de Figurino

A primeira coisa que é preciso ter em mente quando se propõe a uma sessão de "W.E. - O romance do século" é o fato de Madonna ter contra si a imensa má-vontade dos críticos e da própria indústria do cinema. Salvo raríssimas exceções - e mesmo assim longe de uma margem confortável de elogios - a estrela pop é sistematicamente bombardeada com uma animosidade quase inexplicável sempre que tenta a sorte na sétima arte. Um exemplo claro e insofismável dessa antipatia generalizada pela ex-mulher de Sean Penn e Guy Ritchie - ambos bem-sucedidos nas carreiras de cineastas - foi a forma violenta com que seu segundo longa-metragem como diretora foi recebido de forma quase unânime. Malhado impiedosamente pela crítica, "W.E" não mereceu toda essa enxurrada de pedras. Mesmo que esteja bem longe de ser uma obra-prima e também peque em alguns itens cruciais a história de amor entre o rei Eduardo VIII e a americana duas vezes divorciada Wallis Simpson - é contada por Madonna com um senso estético e um refinamento que revelam que suas três décadas como estrela de videoclipes certamente lhe ensinaram muita coisa em termos visuais.

Fotografado com requinte e sutileza pelo alemão Hagen Bogdanski, "W.E" começa com uma cena de inegável impacto, quando Wallis (Andrea Riseborough) é violentamente espancada pelo primeiro marido durante a gravidez. Essa cena - aparentemente gratuita - fará eco mais tarde com a situação triste vivida pela jovem Wally Winthrop (Abbie Cornish), que passa por uma séria crise em seu casamento justamente por desejar ardentemente um bebê. Wally - assim batizada justamente porque sua mãe era fã da famosa Wallis - é a verdadeira protagonista do filme, deixando o romance entre a americana à frente de seu tempo e o rei que abdicou do trono por amor (e o deixou com o irmão, protagonista do filme "O discurso do rei") quase como uma trama secundária que comenta (às vezes sem a força necessária, às vezes de forma acertadamente delicada) a trajetória da Wally contemporânea e seu tímido romance com Evgeni (Oscar Isaac), o segurança russo do museu nova-iorquino onde acontece uma exposição sobre o célebre casal. E é justamente essa opção do roteiro - escrito pela cantora e por Alek Keshishian, que a dirigiu em "Na cama com Madonna" - que acaba sendo sua maior e mais crítica falha.


Ao dividir a atenção em duas histórias que não precisariam necessariamente estar conectadas - ao menos de forma tão frágil - Madonna tira o foco daquela que poderia ser a trama mais interessante e que dá título a seu filme. A história de amor que abalou a realeza inglesa é contada de maneira um tanto confusa e superficial, obrigando a plateia a adivinhar certos acontecimentos e encontrar-se sozinha no emaranhado de imagens que sublinham a ligação entre as duas protagonistas. Demora um pouco para que o público finalmente perceba as intenções do roteiro e essa confusão é quase fatal, em especial para uma audiência não exatamente acostumada a pensar. Prejudicado ainda pelo fato de não ter astros de primeira grandeza em seu elenco - Ewan McGregor chegou a ser confirmado como Eduardo VIII mas teve de cair fora por problemas de agenda - o filme rendeu pouco mais de 500 mil dólares no mercado americano contra seu custo estimado de 15 milhões (bancados pela própria Madonna), o que apenas reitera o desprezo do público pela Madonna cineasta. Uma injustiça, já que os trabalhos de Andrea Riseborough como Wallis Simpson - papel oferecido a Vera Farmiga e Amy Adams - e Oscar Isaac - em seu primeiro papel de destaque - são dignos de nota.

Além disso, apesar de ter custado barato"W.E" em nenhum momento passa essa impressão. Cuidadosamente produzido - chegou a concorrer ao Oscar de figurino e rendeu à cantora uma indicação ao Golden Globe pela bela canção "Masterpiece" - e visualmente excitante, com uma reconstituição de época opulenta e detalhista, é um produto que seduz sua audiência pela sutileza e pela delicadeza. Vindo de Madonna - não exatamente um exemplo de discrição - não deixa de ser positivamente surpreendente.

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