segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

ALEXANDRIA

ALEXANDRIA (Agora, 2009, Mod Producciones/Himenóptero, 127min) Direção: Alejandro Amenábar. Roteiro: Alejandro Amenábar, Mateo Gil. Fotografia: Xavi Giménez. Montagem: Nacho Ruiz Capillas. Música: Dario Marianelli. Figurino: Gabriella Pescucci. Direção de arte/cenários: Guy Hendrix Dyas/Larry Dias. Produção executiva: Simón de Santiago, Jaime Ortiz de Artiñano. Produção: Álvaro Augustin, Fernando Bovaira. Elenco: Rachel Weisz, Max Minghella, Oscar Isaac, Ashraf Barhom, Michael Lonsdale, Rupert Evans. Estreia: 17/5/09 (Festival de Cannes)

Houve uma demora de cinco anos entre o lançamento de "Mar adentro" - Oscar de melhor filme estrangeiro em 2005 - e "Alexandria", realização seguinte do cineasta chileno Alejandro Amenábar. Nada de novo: entre "Os outros" (2001), seu primeiro grande sucesso internacional, e "Mar adentro", que lhe deu reconhecimento e prestígio entre a crítica, o intervalo já havia sido de consideráveis três anos - uma eternidade dentro da veloz indústria hollywoodiana, mas um período de tempo relativamente aceitável quando se trata de diretores detalhistas e dedicados a projetos menos óbvios. É o caso de "Alexandria", que custou bastante caro (cerca de 70 milhões de dólares) para uma produção sem grandes efeitos visuais ou garantia de retorno (leia-se chamarizes de bilheterias, como grandes astros ou personagens facilmente identificáveis, como super-heróis ou personalidades conhecidas da plateia) e acabou pagando um preço alto por sua ousadia. Praticamente ignorado pela crítica e um fiasco comercial, a história da filósofa e astrônoma grega Hipátia não encontrou seu público e terminou sua carreira nos cinemas com uma renda pouco superior a 700 mil dólares de arrecadação. Tal desastre não apenas arranhou seriamente a reputação de Amenábar - que só retornou aos longas com o péssimo "Regressão" (2015) - mas privou a plateia de conhecer um filme que, se não é tão bom quanto os trabalhos anteriores do cineasta, ao menos tem uma inteligência muito acima da média - e uma relevância histórica extremamente importância em uma época de tanta intolerância religiosa como a atual.

Como o próprio título nacional sugere, o filme se passa em Alexandria, cidade egípcia famosa por seu farol e por sua biblioteca, considerada a maior do mundo. É lá, no ano de 391 que a trama, criada por Amenábar e Mateo Gil, tem início: Hipátia (Rachel Weisz, esforçada) é uma brilhante filósofa que leciona na célebre biblioteca local, ensinando a seus discípulos as ainda rudimentares noções de astronomia, além de matemática e filosofia. Bonita e inteligente, ela se dedica incansavelmente ao estudos dos movimentos dos corpos celestes, enquanto rejeita delicadamente as investidas de Orestes (Oscar Isaac em começo de carreira), um de seus alunos, e de Davus (Max Minghella), seu escravo pessoal. Em um período conturbado pelos conflitos entre cristãos, judeus e pagãos, ela precisa também manter-se no fio da navalha: racional, ela não sente-se à vontade em nenhuma religião, mas sabe que isso é potencialmente perigoso para sua integridade física. Quando os cristãos tomam o poder, graças à liderança de Cirilo (Sammy Samir) e Ammonius (Ashraf Barhom), ela não consegue impedir a destruição da biblioteca nem tampouco a violência que explode nas ruas da cidade. Vinte anos mais tarde, as coisas ainda estão delicadas: seu ex-aluno, Orestes, é o prefeito, mas não concorda com as atitudes radicais dos cristãos - que querem impor suas leis e perseguir quem lhes é contrário - e, com a ajuda de um antigo colega, Synesius (Rupert Evans), tornado bispo, tenta convencê-la a converter-se ao cristianismo como forma de manter suas aulas. Hipátia se recusa e entra em rota de colisão com o poder.


Ainda que encontre em Hipátia uma protagonista interessante e que serve como fio condutor de uma trama que tenta retratar a histórica rivalidade entre judeus e cristãos, o roteiro de "Alexandria" esbarra em uma comprometedora ausência de foco narrativo que enfraquece suas redentoras qualidades. Ao abraçar simultaneamente a trajetória da filósofa e os acontecimentos trágicos e violentos à sua volta, relacionados com a intolerância, Amenábar acaba por optar pela superficialidade em ambos os terrenos. A rica história de Hipátia muitas vezes fica em segundo plano - e frequentemente suas cenas são resumidas a longas explanações sobre seus estudos de Astronomia e suas questões relativas ao Universo: essa falta de aprofundamento em sua personalidade acaba por mostrar-se crucial, impedindo uma aproximação maior do público até mesmo quando o filme força um triângulo amoroso um tanto improvável entre ela, Davus e Orestes. Tal artifício, ao invés de envolver a plateia, acaba por diluir o impacto de algumas de suas melhores sequências - aquelas que mostram, de maneira sutil e elegante (mas sempre contundentes) os perigos que cercam o fanatismo e a falta de empatia entre as religiões. Essa indecisão narrativa, somada a um ritmo claudicante, enfraquece o conjunto, restando ao espectador apenas a opção de avaliar o filme por suas partes.

Se o roteiro falha em aprofundar seus temas e se distancia tanto do épico religioso quanto do romance, cabe ao elenco escolhido por Amenábar dar conta dessas inconsistências. E nesse quesito o cineasta não pode reclamar. Bom diretor de atores, o chileno tem em Rachel Weisz seu principal apoio: em um papel escrito especificamente para ela, a atriz premiada com o Oscar por "O jardineiro fiel" (2005) pode não estar em seu melhor desempenho, mas tem força dramática o suficiente para segurar uma personagem de cuja vida pessoal pouco se sabe e transformá-la em alguém de carne e osso, verossímil mesmo quando a trama escorrega para a tragédia. Oscar Isaac, ainda antes de conhecer o gostinho da fama, faz o que pode com seu Orestes, que começa como um potencial vilão e se transforma em um dos grandes apoiadores da protagonista - a cena em que desafia Cirilo e se recusa a ajoelhar-se diante da Bíblia é intensa e emocionante. Mas o maior destaque do elenco é o jovem Max Minghella, filho do diretor Anthony Minghella, vencedor do Oscar por "O paciente inglês" (96): com o ingrato papel do escravo cristão Davus, que assume importância crucial conforme a história vai avançando, Max demonstra maturidade e sensibilidade, assumindo todas as nuances de seu personagem com coragem e determinação de veterano - até mesmo sua transformação física é crível e realista. O cuidado de Amenábar em extrair o melhor de seus atores é seu maior trunfo: "Alexandria" fica marcado na mente do público justamente por causa deles, que dão vida a um argumento muitas vezes frágil e ambicioso demais. Ainda assim, é um filme injustiçado, que merece uma segunda chance.

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