segunda-feira, 3 de março de 2014

O LEITOR

O LEITOR (The reader, 2008, The Weinstein Company, 124min) Direção: Stephen Daldry. Roteiro: David Hare, romance de Barnard Schlink. Fotografia: Roger Deakins, Chris Menges. Montagem: Claire Simpson. Música: Nico Muhly. Figurino: Donna Maloney, Ann Roth. Direção de arte/cenários: Brigitte Broch/Karin Betzler, Eva Maria Stiebler. Produção executiva: Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Donna Gigliotti, Anthony Minghella, Redmond Morris, Sydney Pollack. Elenco: Ralph Fiennes, Kate Winslet, David Kross, Lena Olin, Bruno Ganz. Estreia: 12/12/08

5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Stephen Daldry), Atriz (Kate Winslet), Roteiro Adaptado, Fotografia
Vencedor do Oscar de Melhor Atriz (Kate Winslet)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz Coadjuvante (Kate Winslet)

Seu primeiro filme, o emocionante "Billy Elliot", conquistou fãs mundo afora e lhe deu, de cara, uma indicação ao Oscar de diretor. Seu trabalho seguinte, a brilhante adaptação de "As horas", romance de Michael Cunningham, foi ainda mais longe, concorrendo a oito estatuetas, incluindo filme e direção - além de ter premiado Nicole Kidman por sua personificação da escritora Virginia Woolf. Portanto, com tanta boa vontade por parte da Academia de Hollywood, não foi nenhum choque quando Stephen Daldry voltou a disputar o ouro por sua terceira incursão por trás das câmeras. "O leitor", baseado no romance de Barnard Schlink foi furiosamente atacado pelos fãs xiitas do homem-morcego por ter, segundo sua visão distorcida da indústria das premiações, roubado a vaga de "Batman, o cavaleiro das trevas" na categoria de Melhor Filme no Oscar 2009, mas, a despeito das inúmeras qualidades do trabalho de Christopher Nolan em aprimorar sua visão do heroi interpretado por Christian Bale, a trágica história contada por Daldry mereceu seu lugar entre os cinco melhores filmes de 2008.

Certamente a temática de "O leitor", cujo pano de fundo são os crimes cometidos pelos nazistas contra os judeus na II Guerra Mundial, contribuiu para o sucesso do filme entre os eleitores da Academia, haja visto que o assunto nunca parece esgotar seu interesse entre eles - e não deixa de ser irônico que Kate Winslet tenha brincado com isso anos antes em um episódio da série "Extras", onde, na pele dela mesma, previa que só ganharia um Oscar quando fizesse um filme sobre o holocausto. Mas é inegável que, além disso, o trabalho de Daldry é rico em complexidade dramática, tocando em temas outros além do já explorado confronto entre alemães e aliados. Iniciando como uma história de amor, seguindo como um filme de julgamento e terminando em uma tragédia comovente, o filme oferece ao espectador um espectro de emoções que joga nova luz a um gênero que frequentemente mostra sinais de cansaço e mesmice. Escrito pelo mesmo David Hare que adaptou "As horas", o roteiro de "O leitor" tem três atos bem definidos que praticamente contam histórias diferentes, unidas pelos mesmos personagens e pelas escolhas que eles fazem - e que definem seus destinos.


Tudo começa quando, em uma pequena cidade do interior da Alemanha, o adolescente Michael (David Kross, rapaz talentoso que se entrega corajosamente a cenas bastante ousadas) conhece uma misteriosa e reservada funcionária do transporte público (Kate Winslet), que o ajuda quando ele está passando mal na rua. Os dois iniciam um romance secreto em sessões no apartamento simples da moça, que tem, entre seus maiores prazeres, ouví-lo ler os mais diversos livros, a que ouve encantada. De uma hora pra outra, porém, ela desaparece sem deixar vestígios, para tristeza do rapaz, que só vai reencontrá-la anos mais tarde em circunstâncias chocantes: já como estudante de Direito, ele é um dos espectadores do julgamento de um grupo de guardas nazistas acusadas do assassinato de centenas de mulheres judias durante a II Guerra e se choca ao descobrir que uma das rés é justamente a mulher por quem estava apaixonado. O terceiro ato - cujos desdobramentos são consequência direta do veredicto - acaba os reaproximando, mas de uma maneira totalmente inesperada para ambos... e para a plateia.

A julgar pelos bastidores movimentados e repletos de mudanças entre a equipe, é um milagre - e um prova do talento de Stephen Daldry - que "O leitor" seja um filme tão bom. Nos primórdios do projeto, Kate Winslet comprometeu-se com o papel central, mas acabou pulando fora devido a problemas de agenda que a impediram de estar nele e no ótimo "Foi apenas um sonho", dirigido pelo então marido Sam Mendes. Sua saída abriu espaço para Nicole Kidman - que ganhou seu Oscar sendo comandada por Daldry e via no papel de Hannah uma ótima oportunidade de voltar a ser levada a sério depois de uma sucessão de fracassos - que começaria a filmar assim que saísse dos sets de "Austrália". Então, uma surpresa: Kidman descobriu-se grávida e também abdicou do papel. Depois de Marion Cottilard, Naomi Watts e Juliette Binoche serem cotadas para substituí-la, porém, Winslet estava novamente disponível e reassumiu sua posição. Mas nesse momento, o problema era outro: o diretor de fotografia Roger Deakins teve que abandonar o filme devido aos atrasos - e seus compromissos com "Dúvida" e "Um homem sério" - e, mesmo tendo filmado todas as cenas sem a personagem de Winslet, deixou o resto do trabalho nas mãos do experiente Chris Menges. Ambos acabaram dividindo uma indicação ao Oscar, mas apenas Winslet saiu da cerimônia premiada - em um papel que os eleitores do Golden Globe consideraram coadjuvante, conforme a estatueta que lhe concederam um mês antes, juntamente com o reconhecimento como melhor atriz principal por "Foi apenas um sonho". Ufa!

Delicado, triste e profundo, "O leitor" foge da definição fácil de "filmes sobre o nazismo" para estabelecer-se como uma trágica história de amor que também fala sobre dignidade, culpa e o amor pela literatura. Mais um belo trabalho de Stephen Daldry.

Um comentário:

CurtaDoc Documentários disse...

Ainda não tivemos a oportunidade de ver esse filme, mas pelo trailer ele parece ter um bom roteiro.