quarta-feira, 20 de maio de 2015

SPIDER - DESAFIE SUA MENTE

SPIDER, DESAFIE SUA MENTE (Spider, 2002, Odeon Films/Capitol Films, 98min) Direção: David Cronenberg. Roteiro: Patrick McGrath, romance de sua autoria. Fotografia: Peter Suschitzky. Montagem: Ronald Sanders. Música: Howard Shore. Figurino: Denise Cronenberg. Direção de arte/cenários: Andrew Sanders/Marina Morris, Clive Thomasson. Produção executiva: Jane Barclay, Charles Finch, Simon Franks, Victor Hadida, Sharon Harel, Zygi Kamasa, Martin Katz, Hannah Leader, Luc Roeg. Produção: Catherine Bailey, David Cronenberg, Samuel Hadida. Elenco: Ralph Fiennes, Miranda Richardson, Gabriel Byrne, Lynn Redgrave, John Neville. Estreia: 21/5/92 (Festival de Cannes)

Capgras é uma síndrome psicológica real: seus portadores acreditam, sem sombra de dúvidas, que pessoas próximas a eles foram substituídas por impostores idênticos. Tal distúrbio é o ponto central de "Spider, desafie sua mente", mais um brilhante e perturbador filme do cineasta canadense David Cronenberg. Com roteiro do escritor Patrick McGrath inspirado em um romance de sua autoria, o filme acompanha os desvãos da mente distorcida de seu protagonista sem preocupar-se em ser didático, imergindo o público em um emaranhado de memórias alteradas, violência e adultério comandados por uma avassaladora interpretação de Ralph Fiennes. Silencioso, minimalista e assustador, o ator inglês entrega uma das maiores performances de sua carreira, injustamente ignorada por todas as cerimônias de premiação da temporada - e hipnotiza a plateia desde sua primeira aparição em cena.

Seu personagem, Dennis Clegg, é um homem que, depois de ter passado mais de vinte anos em uma instituição psiquiátrica, volta ao convívio da sociedade apesar de seu diagnóstico de esquizofrenia aguda. Com a ajuda de seus médicos, ele encontra um lar na pensão da Sra. Wilkinson (Lynn Redgrave), um local que abriga vários outros doentes mentais em graus diversos de patologia. Introvertido e paranoico, ele pouco interage com os demais moradores da pensão, preferindo, ao invés disso, descrever em um diário todas as suas impressões e lembranças - em um idioma que só ele consegue compreender. Torturado por suas lembranças, Clegg - cujo apelido de infância é Spider - passa os dias caminhando pelos arredores de sua antiga casa, tentando refazer em seu pensamento todos os acontecimentos que o levaram à instituição quando ainda era uma criança. Frequentando os bares e parques do bairro, ele volta a viver o drama de pertencer à uma família disfuncional desfeita por uma tragédia.


Na Londres dos anos 50, Clegg é um menino aparentemente normal, ainda que extremamente tímido. Filho único, ele presencia frequentemente as brigas entre seus pais, uma dona de casa dedicada (Miranda Richardson) e um encanador mulherengo e alcóolatra (Gabriel Byrne) conhecido em todos os bares das redondezas - e pelas prostitutas locais. É uma dessas mulheres (também vivida por Richardson, em um desempenho extraordinário) que acaba sendo a catalisadora da grande mudança na vida do garoto, quando, depois da violenta morte de sua mãe (assassinada depois de flagrar o marido com outra mulher), se casa com seu pai e passa a morar com os dois. Na mente traumatizada do pequeno Spider ela é exatamente igual fisicamente à sua amada e falecida mãe, o que acaba o levando a uma situação de confusão psicológica que tem um desfecho ainda mais trágico.

Sem deixar ao espectador uma linha clara entre o que é realidade e o que é apenas fruto da imaginação conflituosa de Spider, o roteiro de McGrath e a direção de Cronenberg borra propositalmente os limites entre as duas situações, transformando seu filme em uma experiência fascinante. Com seu olhar alucinado e vazio, Ralph Fiennes carrega nas costas a responsabilidade de intrigar e surpreender a audiência, e o faz com a segurança de sempre, construindo um personagem complexo com uma riqueza de detalhes (físicos e emocionais) impressionante - desde a forma como anda até a maneira como se relaciona com os colegas da pensão, tudo é minimamente calculado para dar consistência a um papel que, em mãos mais propensas a exageros, cairia fatalmente no ridículo ou no exagerado. Sua economia dramática, além do mais, encontra eco na fantástica interpretação de Miranda Richardson, que se divide em duas personagens antagônicas com uma naturalidade chocante: se Fiennes é a alma de "Spider", ela é o corpo e a culpa, capaz de deixar qualquer um de queixo caído.

Tenso, pesado, complexo - mas por isso mesmo brilhante, inteligente e melancólico - "Spider, desafie sua mente" é um dos trabalhos mais sensíveis de David Cronenberg, que deixa de lado sua tendência ao bizarro e ao escatológico para mergulhar em um universo ainda mais surreal e apavorante: a mente de um esquizofrênico. Graças ao roteiro inteligente e aos atores em momentos inspirados, criou um de seus melhores filmes.

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