quarta-feira, 22 de março de 2017

BERNARD E DORIS: O MORDOMO E A MILIONÁRIA

BERNARD E DORIS: O MORDOMO E A MILIONÁRIA (Bernard and Doris, 2006, HBO Films, 103min) Direção: Bob Balaban. Roteiro: Hugh Costello. Fotografia: Mauricio Rubinstein. Montagem: Andy Keir. Música: Alex Wurman. Figurino: Joseph G. Aulisi. Direção de arte/cenários: Franckie Diago/Dirk Braeger. Produção executiva: Bob Balaban, Dana Brunetti, Jonathan Cavendish, Adam Kassen, Mark Kassen, Kevin Spacey. Elenco: Susan Sarandon, Ralph Fiennes, James Rebhorn, Monique Gabriela Curnen. Estreia: 17/10/07 (Festival de Hamptons)

Nascida em 1912 e filha única de um magnata da indústria do tabaco e da energia elétrica. Herdeira de uma fortuna estimada em 100 milhões de dólares (em 1925!). Garçonete de uma cantina no Egito durante a II Guerra Mundial. Correspondente de guerra e articulista da revista Harper's Bazaar. Surfista. Ambientalista ferrenha. Horticulturista apaixonada. Fã de jazz e música gospel a ponto de cantar em um coral. Casada duas vezes - com James H. R. Cornwell e com o diplomata Porfírio Rubirosa - e sem filhos (a única morreu com apenas um dia de vida). Excêntrica por natureza e possibilidades financeiras, Doris Duke foi uma das personalidades mais carismáticas da vida social norte-americana entre a década de 40 e 90, quando morreu aos 80 anos de idade em consequência de um edema pulmonar. Inteligente, culta e generosa, ela foi tema de uma minissérie de 1999 estrelada por Lauren Bacall ("Too rich: the secret life of Doris Duke) e sempre chamou atenção por seus ambiciosos projetos arquitetônicos, como um jardim de exposição pública em Nova Jersei, com onze jardins interligados que retratavam a cultura e a arquitetura de diversos países. Não muito conhecida fora dos EUA, Duke é também uma das protagonistas de "Bernard e Doris: o mordomo e a milionária", telefilme da HBO estrelado por Susan Sarandon e Ralph Fiennes, lançado em 2006 e indicado a três Golden Globes (melhor filme ou minissérie, ator e atriz) e dois SAG Awards (também para seus astros).


Dirigido pelo também ator Bob Balaban, "Bernard e Doris", como o título já antecipa, não é uma biografia de Doris, mas sim o retrato de sua relação de anos com o mordomo Bernard Lafferty, um irlandês homossexual e dedicado que se tornou, com o tempo, seu confidente e amigo mais próximo. O maior beneficiário do testamento de Boris, o introspectivo Bernard foi acusado de ter acelerado sua doença e manipulado a milionária para que lhe deixasse uma pequena fortuna - fato jamais comprovado - e sua morte, alguns anos mais tarde, foi lamentada por nomes como Elizabeth Taylor (com quem já havia trabalhado) e Sharon Stone. O relacionamento entre os dois, patroa e empregado, não é uma história repleta de lances dramáticos e reviravoltas, e sim um estudo delicado de personagens, realçado pelos desempenhos memoráveis de seus intérpretes. Excessivamente longo e por vezes um tanto cansativo, o filme de Balaban é um show de Sarandon e Fiennes, que, sozinhos, são capazes de transformar qualquer experiência em um espetáculo digno de nota - mesmo que o roteiro não seja exatamente interessante.


O filme começa com a chegada de Bernard à vida de Doris, tendo no currículo períodos trabalhando com Liz Taylor e Peggy Lee, entre outras celebridades. Não demora para que ele perceba que sua nova patroa é muito mais complexa do que aparenta ser nas manchetes dos jornais, e depois de um tempo, conquista sua confiança a ponto de fazer longas viagens com ela e dispor-se inclusive a lhe fazer confidências amorosas. Com sérios problemas de alcoolismo em sua vida, Bernard tenta esconder tal condição da milionária, mas tal objetivo torna-se cada vez mais difícil, especialmente depois de uma grave recaída - que põe em xeque sua lealdade e a reciprocidade de seus sentimentos. Construindo um Bernard Lafferty no limite entre o discreto e o afetado, Ralph Fiennes mais uma vez entrega um trabalho admirável, repleto de nuances e subtextos riquíssimos, ainda que mal aproveitados pelo roteiro esquemático de Hugh Costello. Susan Sarandon, por sua vez, brilha em uma personagem feita sob medida para seu talento superlativo: bela e carismática, ela engole tudo à sua volta quando entra em cena, e só não carrega o filme nas costas porque tem em Fiennes um parceiro à altura - é a dinâmica entre eles que vale cada minuto de projeção.

Apesar de ser uma produção da HBO - emissora conhecida pelo capricho de seus projetos - "Bernard e Doris" nunca consegue deixar para trás, no entanto, sua alma de filme feito para a televisão. Sua narrativa prescinde de um pouco mais de ousadia e nem mesmo consegue destacar-se em outros pontos artísticos, como a trilha sonora e a fotografia (competentes, mas opacas). Bob Balaban aposta todas as suas fichas em sua dupla de grandes atores protagonistas, e mesmo que eles sejam fabulosos e estejam em dias inspiradíssimos, não chega a ser suficiente para tornar o filme inesquecível. Tendo Kevin Spacey entre seus produtores executivos, é uma obra correta e simples, mas que perde a oportunidade de ser maior justamente por sua falta de pretensão. No caso de Doris Duke, esse não é um pecado facilmente perdoável.

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