O CLUBE (El club, 2015, Fabula, 98min) Direção: Pablo Larraín. Roteiro: Pablo Larraín, Guillermo Calderón, Daniel Villalobos. Fotografia: Sergio Armstrong. Montagem: Sebastián Sepulveda. Figurino: Estefania Larraín. Direção de arte/cenários: Estefania Larraín. Produção executiva: Juan Ignacio Correa, Mariane Hartard, Rocio Jadue. Produção: Juan de Dios Larraín, Pablo Larraín. Elenco: Alfredo Castro, Roberto Farías, Antonia Zegers, Marcelo Alonso, Jaime Vadell, Alejandro Goic. Estreia: 09/01/15 (Festival de Berlim)
O Oscar de melhor filme de 2015 ficou com "Spotlight: segredos revelados", de Tom McCarthy, que jogava luz em rede de proteção da Igreja Católica a seus sacerdotes acusados de abuso sexual e pedofilia. Meses antes de sua estreia, porém, o Festival de Berlim já apresentava uma outra produção de temática semelhante. Dirigido com crueza pelo chileno Pablo Larraín - um dos maiores expoentes do cinema do país -, "O clube" substitui a claridade das redações jornalísticas pela escuridão da consciência e das consequências de tais atos criminosos. Representante do Chile por uma vaga entre os indicados ao prêmio da Academia, o filme colecionou elogios e prêmios durante toda a temporada - inclusive um valioso Grande Prêmio do Júri no Festival de Berlim e uma indicação ao Golden Globe de melhor produção estrangeira. A boa notícia é que, apesar do tema espinhoso e da recusa de Larraín em fazer qualquer concessão comercial, "O clube" é um filme cuja força permanece na mente do espectador por muito tempo depois da sessão.
Dividido entre filmes incômodos - como "Tony Manero" (2008) - e produções menos provocativas - caso de "No" (2012) e "Jackie" (2016), ambos agraciados com indicações ao Oscar -, Pablo Larraín é um cineasta dos mais contundentes de sua geração. Frequentemente fugindo de linhas narrativas óbvias e protagonistas unidimensionais, seu cinema bate de frente com qualquer tentativa de limitações temáticas ou estéticas. É normal que, em seus filmes, os personagens centrais sejam falíveis e até quase desprezíveis, opção que os afasta de qualquer glamour e, consequentemente, os aproxima do espectador. Há quem veja nessa característica uma grande qualidade; outros, no entanto, rejeitam essa visão realista. O ponto é que, seja uma qualidade ou um defeito, o tom cru da maioria dos filmes de Larraín normalmente serve perfeitamente para ilustrar histórias incômodas, que jamais deixam o público indiferente. E "O clube" é um exemplo inconteste dessa afirmação.
O tal clube do título é, na verdade, uma casa localizada em uma pequena cidade litorânea do Chile, onde vivem quatro padres católicos acusados de má conduta - sejam elas pedofilia, tráfico de bebês ou qualquer outro delito pesado. Nesta casa, os padres são supervisionados - com absoluta liberdade - por uma freira, que também não é exatamente exemplar. Vivendo como se nada tivesse acontecido, os religiosos comem, bebem e jogam em corridas de cachorros e não são perturbados pela vizinhança. Pelo menos não até a chegada de um novo membro, cujo passado é trazido à tona quando uma antiga vítima resolve expô-lo - à base de gritos desesperados em frente à propriedade. Tal incidente resulta em uma tragédia que faz com que o clube - que até então vivia quase esquecido pela Igreja - receba a visita de mais um sacerdote, que chega para investigar o que aconteceu e obriga a todos a encararem, mais uma vez, seus pecados. Sob a ameaça de perderem a impunidade e ver sua casa fechar, os padres se unem - enquanto outras subtramas são lançadas ao roteiro, com maior ou menor importância à narrativa.
O clima de constante tensão é um dos pontos mais fortes de "O clube", especialmente porque a fotografia de Sergio Armstrong faz questão de parecer sempre sombria e claustrofóbica, sem dar chance ao espectador para que respire ou relaxe. Sem buscar o caminho mais fácil para tratar de um assunto tão controverso, o cineasta foge das imagens explícitas e aposta em seus atores, todos excelentes. O tom pessimista é sublinhado pelo cenário - um mar pouco convidativo e uma casa sempre na penumbra - e pela trilha sonora minimalista. Seus personagens não fazem questão de demonstrar qualquer simpatia, e o desfecho (quase) em aberto parece enfatizar o desconforto da plateia em servir de testemunha de uma história que parece expor as piores características do ser humano. Sem a pretensão de soar como um entretenimento ligeiro, "O clube" é quase doloroso de assistir, mas é, também, uma produção imprescindível, que prova mais uma vez o quanto o cinema chileno tem condições de alcançar mercados internacionais. Assista e tente não sentir-se pesado ao fim da sessão!
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UM CONTRATEMPO
UM CONTRATEMPO (Contratiempo, 2016, Atresmedia Cine/Think Studio/Nostromo Pictures, 106min) Direção e roteiro: Oriol Paulo. Fotografia: Xavi Giménez. Montagem: Jaume Martí. Música: Fernando Velázquez. Figurino: Miguel Cervera. Direção de arte/cenários: Balter Gallart/Marta Bazaco, Idoia Esteban. Produção executiva: Sofia Fábregas, Joaquim Guedes. Produção: Mercedes Gamero, Adrián Guerra, Sandra Hermida, Mikel Lejarza, Eneko Lizagarra, Núria Valls. Elenco: Mario Casas, Ana Wagner, José Coronado, Bárbara Lennie, Francesc Orella. Estreia: 23/9/16
Nem só de Pedro Almodóvar vive o cinema espanhol contemporâneo. Não tão festejado quanto o veterano diretor, mas com grande prestígio junto ao público, Oriol Paulo tem se firmado como um dos mais interessantes realizadores do país, com filmes de suspense que mexem com a cabeça do espectador graças a roteiros engenhosos e uma evidente segurança na direção. Seu primeiro longa-metragem, "O corpo", foi lançado em 2012 e de cara conquistou as plateias. Sua segunda incursão na cadeira de diretor só chegou aos cinemas quatro anos mais tarde, mas a demora valeu a espera: "Um contratempo", assim como seu filme de estreia, é um quebra-cabeças empolgante, que apresenta à audiência uma trama intrigante e que só se revela completamente nos minutos finais - e que, apesar de surpreendente, é verossímil o bastante para deixar em cada espectador um sorriso de satisfação e a vontade de compartilhar a experiência com o maior número possível de pessoas.
É essencial, para melhor tirar proveito de "Um contratempo", que se saiba o menos possível de sua trama. Basta saber que ela gira em torno de Adrián Doria (Mario Casas), um empresário em ascensão que está em vias de ser julgado pelo assassinato de sua amante, Laura Vidal (Bárbara Lennie), vítima de um ataque violento em um quarto de hotel, onde estava hospedada junto com ele. Segundo Adrián, ele também foi vítima do assassino, mas não presenciou o crime por estar desmaiado. Para seu azar, a polícia havia descoberto que a porta do quarto e suas janelas estavam fechados no momento do homicídio, o que coloca todas as suspeitas em Adrián, que jura terminantemente que é inocente. Para salvá-lo da cadeia, só mesmo um defensor de primeira linha, e é aí que surge Virginia Goodman (Ana Wagner), uma sofisticada e inteligentíssima advogada criminalista que, nas poucas horas que existem até o depoimento de uma testemunha-chave. Exigente e minuciosa, Virginia tenta arrancar a verdade de seu novo cliente, que mantém sua declaração de inocência. Ao narrar todo o caso para Virginia, porém, Adrián revela outras peças da história - como um acidente de carro que pode ser a chave do mistério.
De forma fascinante, Oriol Paulo constrói sua trama em uma estrutura das mais intrigantes. A cada novo elemento que surge diante do espectador, mais seu enredo parece fugir da simples questão que envolve a descoberta da verdade sobre a morte de Laura. O cinesta/roteirista brinca com a definição temporal e apresenta sua estória em diferentes linhas: enquanto no presente Adrián conta seus passos para sua nova advogada, o passado surge em flashbacks que aumentam as possibilidades de desfecho. Controlando o suspense com extrema habilidade, Paulo joga limpo, mostrando suas cartas ao pouco, mas sem surgir com uma reviravolta completamente absurda: a verdade está praticamente diante dos olhos do público - mas somente em seu final empolgante se revela completamente. Para isso, colabora a trilha sonora de Fernando Velázquez e a edição caprichada de Jaume Martí, que exploram todas as nuances da trama e dos personagens, vividos, por sua vez, por um elenco impecável, em que se destacam Mario Casas e Bárbara Lennie em um duelo verbal dos mais inteligentes. Casas, principalmente, entrega uma atuação que combina vulnerabilidade, empáfia, tensão e medo em uma perfeita equação; Lennie, por sua vez, tem controle total de sua personagem, em um trabalho meticuloso de corpo e voz que se avoluma até o final surpreendente.
"Um contratempo" - que ganhou um remake indiano em 2019 com o nome de "Badla" (vingança) - é um filme de suspense policial capaz de agradar a todos os tipos de público, mas certamente soa muito apaixonante aos fãs do gênero. Sem efeitos visuais, tiros ou explosões, é um filme que exige atenção do espectador, mas jamais tenta ser mais do que entretenimento de qualidade. Menos aclamado que Almodóvar - um cineasta já aclamado por um tipo de filme completamente distinto -, Oriol Paulo tem tudo para crescer ainda mais e conquistar seu lugar junto à crítica e às plateias. Seu estilo já demonstrado em filmes anteriores e posteriores a "Um contratempo" comprova, sem espaço para dúvidas, que talento e inteligência não lhe faltam. Naturalmente abraçando um gênero considerado menor - ou pelo menos não tão aplaudido quanto o drama -, ele assume sua paixão em contar histórias imprevisíveis com personagens realistas e falhos. É um diretor para se ficar de olho!
Nem só de Pedro Almodóvar vive o cinema espanhol contemporâneo. Não tão festejado quanto o veterano diretor, mas com grande prestígio junto ao público, Oriol Paulo tem se firmado como um dos mais interessantes realizadores do país, com filmes de suspense que mexem com a cabeça do espectador graças a roteiros engenhosos e uma evidente segurança na direção. Seu primeiro longa-metragem, "O corpo", foi lançado em 2012 e de cara conquistou as plateias. Sua segunda incursão na cadeira de diretor só chegou aos cinemas quatro anos mais tarde, mas a demora valeu a espera: "Um contratempo", assim como seu filme de estreia, é um quebra-cabeças empolgante, que apresenta à audiência uma trama intrigante e que só se revela completamente nos minutos finais - e que, apesar de surpreendente, é verossímil o bastante para deixar em cada espectador um sorriso de satisfação e a vontade de compartilhar a experiência com o maior número possível de pessoas.
É essencial, para melhor tirar proveito de "Um contratempo", que se saiba o menos possível de sua trama. Basta saber que ela gira em torno de Adrián Doria (Mario Casas), um empresário em ascensão que está em vias de ser julgado pelo assassinato de sua amante, Laura Vidal (Bárbara Lennie), vítima de um ataque violento em um quarto de hotel, onde estava hospedada junto com ele. Segundo Adrián, ele também foi vítima do assassino, mas não presenciou o crime por estar desmaiado. Para seu azar, a polícia havia descoberto que a porta do quarto e suas janelas estavam fechados no momento do homicídio, o que coloca todas as suspeitas em Adrián, que jura terminantemente que é inocente. Para salvá-lo da cadeia, só mesmo um defensor de primeira linha, e é aí que surge Virginia Goodman (Ana Wagner), uma sofisticada e inteligentíssima advogada criminalista que, nas poucas horas que existem até o depoimento de uma testemunha-chave. Exigente e minuciosa, Virginia tenta arrancar a verdade de seu novo cliente, que mantém sua declaração de inocência. Ao narrar todo o caso para Virginia, porém, Adrián revela outras peças da história - como um acidente de carro que pode ser a chave do mistério.
De forma fascinante, Oriol Paulo constrói sua trama em uma estrutura das mais intrigantes. A cada novo elemento que surge diante do espectador, mais seu enredo parece fugir da simples questão que envolve a descoberta da verdade sobre a morte de Laura. O cinesta/roteirista brinca com a definição temporal e apresenta sua estória em diferentes linhas: enquanto no presente Adrián conta seus passos para sua nova advogada, o passado surge em flashbacks que aumentam as possibilidades de desfecho. Controlando o suspense com extrema habilidade, Paulo joga limpo, mostrando suas cartas ao pouco, mas sem surgir com uma reviravolta completamente absurda: a verdade está praticamente diante dos olhos do público - mas somente em seu final empolgante se revela completamente. Para isso, colabora a trilha sonora de Fernando Velázquez e a edição caprichada de Jaume Martí, que exploram todas as nuances da trama e dos personagens, vividos, por sua vez, por um elenco impecável, em que se destacam Mario Casas e Bárbara Lennie em um duelo verbal dos mais inteligentes. Casas, principalmente, entrega uma atuação que combina vulnerabilidade, empáfia, tensão e medo em uma perfeita equação; Lennie, por sua vez, tem controle total de sua personagem, em um trabalho meticuloso de corpo e voz que se avoluma até o final surpreendente.
"Um contratempo" - que ganhou um remake indiano em 2019 com o nome de "Badla" (vingança) - é um filme de suspense policial capaz de agradar a todos os tipos de público, mas certamente soa muito apaixonante aos fãs do gênero. Sem efeitos visuais, tiros ou explosões, é um filme que exige atenção do espectador, mas jamais tenta ser mais do que entretenimento de qualidade. Menos aclamado que Almodóvar - um cineasta já aclamado por um tipo de filme completamente distinto -, Oriol Paulo tem tudo para crescer ainda mais e conquistar seu lugar junto à crítica e às plateias. Seu estilo já demonstrado em filmes anteriores e posteriores a "Um contratempo" comprova, sem espaço para dúvidas, que talento e inteligência não lhe faltam. Naturalmente abraçando um gênero considerado menor - ou pelo menos não tão aplaudido quanto o drama -, ele assume sua paixão em contar histórias imprevisíveis com personagens realistas e falhos. É um diretor para se ficar de olho!
quinta-feira
AS AMIZADES PARTICULARES
AS AMIZADES PARTICULARES (Les amitiés particulières, 1964, Lux Compagnie Cinématographique de France, 100min) Direção: Jean Delannoy. Roteiro: Jean Aurenche, Pierre Boste, romance de Roger Peyerefitte. Fotografia: Christian Matras. Montagem: Louisette Hautecoeur. Música: Jean Prodromidès. Direção de arte: René Renoux. Produção: Christine Gouze-Rénal. Elenco: Francis Lacombrade, Didier Haudepin, François Leccia, Dominique Maurin. Estreia: 04/9/64
Logo depois da II Guerra Mundial, o adolescente Georges de Sarre é matriculado em uma escola católica exclusiva para meninos, e logo que chega faz amizade com outro rapaz, Lucien Rouvére. Tal amizade não é vista com bons olhos por um dos professores, e não demora muito para que Georges saiba o porquê: desafiando os regulamentos da escola, Lucien mantém uma amizade íntima com outro colega. Depois da expulsão de seu primeiro amigo (causada por ele mesmo, em um acesso de ciúmes), o novo aluno se descobre atraído pelo ousado Alexandre Motier, de apenas doze anos de idade. O relacionamento passa a tornar-se a cada dia mais e mais ardoroso, com troca de cartas, encontros furtivos e suspiros apaixonados. A maior ameaça a tal idílio surge na figura do Padre Lanzon - cujos motivos de tentar impedir algo mais sério entre os rapazes são bem menos nobres do que se poderia esperar de um religioso. O padre, amigo da família de Alexandre, interfere na relação e conduz a todos em direção a uma tragédia anunciada.
Fosse feito hoje em dia, o filme "As amizades particulares" seria, certamente, alvo de histeria generalizada. Não só porque trata de um romance adolescente abertamente homossexual - um tema que de certa forma não agride mais ninguém - mas por inserir, em sua narrativa (poética e fluida), uma visão nítida a respeito de um assunto que ainda incomoda até ao mais renitente liberal: a pedofilia. Se o romance entre Georges e Alexandre já parece um tanto perturbador - erro de uma escalação de elenco que coloca Francis Lacombrade, aos 22 anos de idade, envolvido com Didier Haudepin, de apenas treze - a cobiça dos padres locais pelos alunos torna o filme de Jean Dellanoy ao mesmo tempo atemporal e capaz de despertar discussões acaloradas. Realizado em 1964 e baseado em um romance autobiográfico de Roger Peyrefitte lançado em 1943, o filme ao mesmo tempo encanta e incomoda ao naturalizar sem julgamentos uma relação bastante problemática. Ao preferir o romance mais lírico em detrimento do sexual, o roteiro de Jean Aurenche e Pierre Boste desvia da polêmica que cenas mais ousadas poderiam despertar e sublinha o encantamento dos personagens, acenando, assim, a uma história com mais coração do que carne, mais platônica do que sensual. Isso basta para afastar o filme de uma generalização fácil.
Concorrente do Leão de Ouro do Festival de Veneza de 1964, "As amizades particulares" não foi exatamente um sucesso incontestável de crítica. François Truffaut, um dos maiores cineastas de França, aproveitou seu prestígio para apontar um excesso de formalidade na obra de Dellanoy. Completamente errado o diretor de "Os incompreendidos" (1959) não estava: realmente existe, em "As amizades particulares", uma narrativa bem-comportada e acadêmica, que batia de frente com a então aclamada nouvelle vague. Porém, longe de tornar seu filme pouco atraente àqueles que festejavam as inovações do novo cinema francês, essa linearidade formal demonstrava que, apesar das modernidades apresentadas por Truffaut e companhia., ainda havia espaço para histórias contadas da maneira tradicional. Com o uso discreto da trilha sonora e uma bela fotografia em preto-e-branco, "As amizades particulares" cativa o espectador justamente por sua aparente simplicidade: não há necessidade de grandes reviravoltas dramáticas ou apelos sentimentais na trama criada por Peyerefitte: seus personagens soam reais o bastante para que a história transcorra de forma crível, apesar do elenco. A opção de colocar Francis Lacombrade como o protagonista Georges de Sarre não deixa de ser um equívoco: aos 22 anos de idade, ele claramente não parece um adolescente de 14, e sua interação com Didier Hauperin, com 13 anos que aparentam menos, soa desconfortável para que o espectador torça a favor do romance. Como está, Georges parece tão pedófilo quanto o padre obrigado a abandonar a escola devido a reuniões com alguns alunos, regadas a cigarro e bebidas.
Incômodos à parte, "As amizades particulares" é um belo filme. Sensível e dirigido com delicadeza, aproveita o material original para narrar uma história de amor e melancolia sem buscar a lágrima fácil. Em seu elenco destaca-se o jovem Didier Hauperin, que, com sua inocência e aparência de criança, rompe o previsível e assume os riscos de um papel difícil com uma segurança de veterano. Suas sequências finais são de uma tristeza quase palpável - cortesia de seu talento e da inteligência de Jean Dellanoy ao encerrar sua história com um desfecho de deixar o público com um nó na garganta. Pode até não agradar a um público mais conservador, mas em relação a dezenas de outros filmes com a mesma temática, se sobressai e assume importância crucial para a história do gênero.
Logo depois da II Guerra Mundial, o adolescente Georges de Sarre é matriculado em uma escola católica exclusiva para meninos, e logo que chega faz amizade com outro rapaz, Lucien Rouvére. Tal amizade não é vista com bons olhos por um dos professores, e não demora muito para que Georges saiba o porquê: desafiando os regulamentos da escola, Lucien mantém uma amizade íntima com outro colega. Depois da expulsão de seu primeiro amigo (causada por ele mesmo, em um acesso de ciúmes), o novo aluno se descobre atraído pelo ousado Alexandre Motier, de apenas doze anos de idade. O relacionamento passa a tornar-se a cada dia mais e mais ardoroso, com troca de cartas, encontros furtivos e suspiros apaixonados. A maior ameaça a tal idílio surge na figura do Padre Lanzon - cujos motivos de tentar impedir algo mais sério entre os rapazes são bem menos nobres do que se poderia esperar de um religioso. O padre, amigo da família de Alexandre, interfere na relação e conduz a todos em direção a uma tragédia anunciada.
Fosse feito hoje em dia, o filme "As amizades particulares" seria, certamente, alvo de histeria generalizada. Não só porque trata de um romance adolescente abertamente homossexual - um tema que de certa forma não agride mais ninguém - mas por inserir, em sua narrativa (poética e fluida), uma visão nítida a respeito de um assunto que ainda incomoda até ao mais renitente liberal: a pedofilia. Se o romance entre Georges e Alexandre já parece um tanto perturbador - erro de uma escalação de elenco que coloca Francis Lacombrade, aos 22 anos de idade, envolvido com Didier Haudepin, de apenas treze - a cobiça dos padres locais pelos alunos torna o filme de Jean Dellanoy ao mesmo tempo atemporal e capaz de despertar discussões acaloradas. Realizado em 1964 e baseado em um romance autobiográfico de Roger Peyrefitte lançado em 1943, o filme ao mesmo tempo encanta e incomoda ao naturalizar sem julgamentos uma relação bastante problemática. Ao preferir o romance mais lírico em detrimento do sexual, o roteiro de Jean Aurenche e Pierre Boste desvia da polêmica que cenas mais ousadas poderiam despertar e sublinha o encantamento dos personagens, acenando, assim, a uma história com mais coração do que carne, mais platônica do que sensual. Isso basta para afastar o filme de uma generalização fácil.
Concorrente do Leão de Ouro do Festival de Veneza de 1964, "As amizades particulares" não foi exatamente um sucesso incontestável de crítica. François Truffaut, um dos maiores cineastas de França, aproveitou seu prestígio para apontar um excesso de formalidade na obra de Dellanoy. Completamente errado o diretor de "Os incompreendidos" (1959) não estava: realmente existe, em "As amizades particulares", uma narrativa bem-comportada e acadêmica, que batia de frente com a então aclamada nouvelle vague. Porém, longe de tornar seu filme pouco atraente àqueles que festejavam as inovações do novo cinema francês, essa linearidade formal demonstrava que, apesar das modernidades apresentadas por Truffaut e companhia., ainda havia espaço para histórias contadas da maneira tradicional. Com o uso discreto da trilha sonora e uma bela fotografia em preto-e-branco, "As amizades particulares" cativa o espectador justamente por sua aparente simplicidade: não há necessidade de grandes reviravoltas dramáticas ou apelos sentimentais na trama criada por Peyerefitte: seus personagens soam reais o bastante para que a história transcorra de forma crível, apesar do elenco. A opção de colocar Francis Lacombrade como o protagonista Georges de Sarre não deixa de ser um equívoco: aos 22 anos de idade, ele claramente não parece um adolescente de 14, e sua interação com Didier Hauperin, com 13 anos que aparentam menos, soa desconfortável para que o espectador torça a favor do romance. Como está, Georges parece tão pedófilo quanto o padre obrigado a abandonar a escola devido a reuniões com alguns alunos, regadas a cigarro e bebidas.
Incômodos à parte, "As amizades particulares" é um belo filme. Sensível e dirigido com delicadeza, aproveita o material original para narrar uma história de amor e melancolia sem buscar a lágrima fácil. Em seu elenco destaca-se o jovem Didier Hauperin, que, com sua inocência e aparência de criança, rompe o previsível e assume os riscos de um papel difícil com uma segurança de veterano. Suas sequências finais são de uma tristeza quase palpável - cortesia de seu talento e da inteligência de Jean Dellanoy ao encerrar sua história com um desfecho de deixar o público com um nó na garganta. Pode até não agradar a um público mais conservador, mas em relação a dezenas de outros filmes com a mesma temática, se sobressai e assume importância crucial para a história do gênero.
terça-feira
AMOR, SUBLIME AMOR
AMOR, SUBLIME AMOR (West Side Story, 1961, United Artists, 153min) Direção: Jerome Robbins, Robert Wise. Roteiro: Ernest Lehman, peça teatral de Jerome Robbins e música de Arthur Laurents, inspirada em "Romeu e Julieta", de William Shakespeare. Fotografia: Daniel L. Fapp. Montagem: Thomas Stanford. Música: Leonard Bernstein. Figurino: Irene Sharaff. Direção de arte/cenários: Boris Leven/Victor Gangelin. Produção: Robert Wise. Elenco: Richard Beymer, Natalie Wood, Russ Tamblyn, Rita Moreno, George Shakiris, Simon Oakland, Ned Glass. Estreia: 18/10/61
11 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Jerome Robbins, Robert Wise), Roteiro Adaptado, Ator Coadjuvante (George Chakiris), Atriz Coadjuvante (Rita Moreno), Fotografia em cores, Montagem, Figurino em cores, Direção de Arte/Cenários em cores, Som, Trilha Sonora/Musical
Vencedor de 10 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Jerome Robbins, Robert Wise), Ator Coadjuvante (George Chakiris), Atriz Coadjuvante (Rita Moreno), Fotografia em cores, Montagem, Figurino em cores, Direção de Arte/Cenários em cores, Som, Trilha Sonora/Musical
Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme/Musical, Ator Coadjuvante (George Chakiris), Atriz Coadjuvante (Rita Moreno)
Trinta e seis anos antes que o australiano Baz Luhrmann subvertesse o tom solene da obra mais famosa do dramaturgo William Shakespeare e transferisse "Romeu e Julieta" para uma ensolarada cidade litorânea e substituísse espadas por armas automáticas e o silêncio romântico por tiroteios e música pop, uma outra versão heterodoxa da peça teatral já havia conquistado o mundo. Primeiro na Broadway e depois nas telas de cinema, "Amor, sublime amor" - ou simplesmente "West Side Story" - mostrou a força e contemporaneidade da mais icônica história de amor jamais criada. Ainda que com algumas alterações em relação ao musical original, montado na Broadway, o filme (codirigido por Jerome Robbins e Robert Wise) ganhou o público, a crítica e a Academia de Hollywood, arrebatando impressionantes dez estatueta do Oscar, incluindo melhor filme e diretor (dividido pela primeira vez na história, em um acontecimento que só seria igualado, até hoje, na cerimônia de 2008, quando os irmãos Joel e Ethan Coen foram premiados por "Onde os fracos não tem vez"). O maior sucesso de bilheteria do ano de 1961 e referência absoluta para os filmes musicais que viriam depois dele, "Amor, sublime amor" pode até chatear algumas plateias menos pacientes (são duas horas e meia de cantoria e coreografias), mas, no final das contas, para os fãs do gênero é um clássico indiscutível.
A trajetória de "Amor, sublime amor" rumo às telas de cinema começou em 1957, quando o musical escrito por Arthur Laurents, musicado por Elmer Bernstein e Stephen Sondheim e coreografado por Jerome Robbins, estreou na Broadway. Em sua concepção, a trama giraria em torno de da história de amor de dois jovens cuja relação era ameaçada por diferenças religiosas: com o título de "East Side Story", o roteiro se desenvolvia no turbilhão de um romance entre um rapaz católico e uma jovem judia. Percebendo o aumento da imigração porto-riquenha em Nova York, porém, os criadores da peça resolveram mudar o conflito e torná-lo mais próximo da realidade do momento: surgia assim o impossível romance entre uma porto-riquenha e um descendente de poloneses. Com o título modificado para o eternizado "West Side Story", o espetáculo estreou e foi um sucesso instantâneo, ficando em cartaz por quase dois anos. Como não poderia deixar de ser, seu êxito logo chamou a atenção de Hollywood - mais precisamente do produtor Walter Mirisch, que viu nele o potencial de uma bela carreira também no cinema. Logo de cara, porém, esbarrou em um problema quase intransponível: Jerome Robbins, o autor de todas as energéticas coreografias que encantaram o público no teatro, se recusou a trabalhar no filme, a menos que o dirigisse. Ciente de que Robbins nunca havia dirigido um filme, Mirisch conseguiu chegar a um meio-termo com seu novo contratado, e entregou a ele a direção das sequências de dança, enquanto Robert Wise ficava encarregado das demais cenas. O acordo não durou muito.
Antes mesmo que Robbins fosse afastado do projeto devido ao atraso das filmagens e o estouro do orçamento que seu perfeccionismo havia causado - ele insistia em filmar cada cena de inúmeros ângulos, o que, logicamente, desagradou os produtores -, outra questão tomou conta dos bastidores. Considerados velhos demais para interpretarem jovens rebeldes, praticamente todos os atores da peça original foram descartados para a transição à tela grande, pouco importando se o novo elenco sabia ou não cantar (em Hollywood, onde era quase tradição o uso de dublagem em filmes do gênero, esse era apenas um detalhe quase insignificante, por incrível que pareça). A partir daí, atores e atrizes de todos os tipos foram cogitados e/ou testados para o projeto: no lado feminino, os nomes mais famosos cotados foram os de Suzanne Pleshette e Audrey Hepburn - que pulou fora por conta de uma gravidez. Entre os homens, a lista incluía futuros astros como Anthony Perkins, Richard Chamberlain, Burt Reynolds e Warren Beatty. Beatty era, segundo boatos, o preferido da atriz Natalie Wood, escolhida para o principal papel feminino - uma teoria que não se sustenta, já que os dois jovens atores não tinham exatamente se dado muito bem nas recentes filmagens de "Clamor do sexo" (1961) e só viriam a assumir um romance depois da separação da atriz. Com Beatty e os demais candidatos fora do páreo, a protagonização masculina ficou com Richard Beymer, até então mais conhecido por séries de televisão do que por sua carreira cinematográfica. Nem mesmo Beymer, que trinta anos mais tarde passaria a ser reconhecido como Benjamin Horne, o ambicioso empresário da série cult "Twin Peaks" (em que voltou a contracenar com Russ Tamblyn), tinha certeza se era a melhor escolha da produção - talvez porque a primeira opção do diretor havia sido ninguém menos que Elvis Presley.
Presley, um dos maiores ídolos musicais de todos os tempos, brincava de ator desde "Ama-me com ternura", lançado em 1956, mas seus filmes nunca exigiam dele mais do que cantar e explorar seu carisma. Em "Amor, sublime amor", ele teria a chance de fugir da previsibilidade das produções que serviam apenas de veículo para vender discos e fazer parte de algo que prometia ser um enorme sucesso. Porém, por conta de seu então empresário, o temido "Coronel", que não gostava da ideia de ter sua galinha de ovos de ouro participando de um projeto cujo controle ele não teria, Presley abandonou o barco - e a possibilidade de ter seu nome associado a um clássico dos mais adorados pelo público. A recusa do "Coronel" não tinha nada de escolha artística: a participação de Elvis no filme não lhe daria direitos sobre as canções da trilha sonora - e além disso, das doze canções do roteiro, apenas metade seriam interpretadas por ele. Na visão mercenária de seu empresário, era um mau negócio em termos financeiros, e conforme o tempo provou, quem mais saiu perdendo foi o cantor: o disco com a trilha sonora do filme tornou-se a mais vendida da história e, com o impressionante número de 249 semanas em cartaz em Paris, "Amor, sublime amor" também mantém o recorde de tempo de um único filme nos cinemas franceses. Mas, apesar do sucesso de público e de Oscars, o filme de Robbins e Wise não conquistou completamente a crítica norte-americana.
Se Roger Ebert, um dos mais respeitados críticos de cinema dos EUA, louvou "Amor, sublime amor" e o colocou na lista de seus filmes preferidos, o mesmo não pode ser dito a respeito da temida Pauline Kael, que massacrou o filme em suas colunas: dos diálogos que considerou antiquados às sequências de dança com as quais não se empolgou - passando pelo desempenho de Natalie Wood -, Kael não se deixou seduzir pelo filme como a maioria de seus colegas. Isso não o impediu, no entanto, de tornar-se parte do inconsciente coletivo internacional. Com algumas das canções mais famosas do cancioneiro norte-americano - "Maria", "I feel pretty" e "America" são conhecidas mesmo por quem nunca assistiu ao filme -, "Amor, sublime amor" conta, através de números de dança e música, a trágica história de amor entre Maria (Natalie Wood), uma jovem porto-riquenha cujo irmão é o líder de uma gangue em Nova York, e Tony (Richard Beymer), descendente de poloneses indiretamente ligado à gangue rival. Substituindo lutas por coreografias, diálogos por canções icônicas e alterando em parte o final da peça de Shakespeare, o filme até pode soar um pouco datado - em especial quando se lembra que os musicais mais bem-sucedidos das últimas décadas -, mas é, sem dúvida, um dos mais importantes produtos cinematográficos realizados em Hollywood. Com dez Oscar e três importantes Golden Globes no currículo, também ficou na história como um dos filmes mais premiados pela Academia - e em 2020 será revisitado por Steven Spielberg, em um remake talvez desnecessário., consequência de ser um dos filmes mais adorados pelos fãs do gênero.
11 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Jerome Robbins, Robert Wise), Roteiro Adaptado, Ator Coadjuvante (George Chakiris), Atriz Coadjuvante (Rita Moreno), Fotografia em cores, Montagem, Figurino em cores, Direção de Arte/Cenários em cores, Som, Trilha Sonora/Musical
Vencedor de 10 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Jerome Robbins, Robert Wise), Ator Coadjuvante (George Chakiris), Atriz Coadjuvante (Rita Moreno), Fotografia em cores, Montagem, Figurino em cores, Direção de Arte/Cenários em cores, Som, Trilha Sonora/Musical
Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme/Musical, Ator Coadjuvante (George Chakiris), Atriz Coadjuvante (Rita Moreno)
Trinta e seis anos antes que o australiano Baz Luhrmann subvertesse o tom solene da obra mais famosa do dramaturgo William Shakespeare e transferisse "Romeu e Julieta" para uma ensolarada cidade litorânea e substituísse espadas por armas automáticas e o silêncio romântico por tiroteios e música pop, uma outra versão heterodoxa da peça teatral já havia conquistado o mundo. Primeiro na Broadway e depois nas telas de cinema, "Amor, sublime amor" - ou simplesmente "West Side Story" - mostrou a força e contemporaneidade da mais icônica história de amor jamais criada. Ainda que com algumas alterações em relação ao musical original, montado na Broadway, o filme (codirigido por Jerome Robbins e Robert Wise) ganhou o público, a crítica e a Academia de Hollywood, arrebatando impressionantes dez estatueta do Oscar, incluindo melhor filme e diretor (dividido pela primeira vez na história, em um acontecimento que só seria igualado, até hoje, na cerimônia de 2008, quando os irmãos Joel e Ethan Coen foram premiados por "Onde os fracos não tem vez"). O maior sucesso de bilheteria do ano de 1961 e referência absoluta para os filmes musicais que viriam depois dele, "Amor, sublime amor" pode até chatear algumas plateias menos pacientes (são duas horas e meia de cantoria e coreografias), mas, no final das contas, para os fãs do gênero é um clássico indiscutível.
A trajetória de "Amor, sublime amor" rumo às telas de cinema começou em 1957, quando o musical escrito por Arthur Laurents, musicado por Elmer Bernstein e Stephen Sondheim e coreografado por Jerome Robbins, estreou na Broadway. Em sua concepção, a trama giraria em torno de da história de amor de dois jovens cuja relação era ameaçada por diferenças religiosas: com o título de "East Side Story", o roteiro se desenvolvia no turbilhão de um romance entre um rapaz católico e uma jovem judia. Percebendo o aumento da imigração porto-riquenha em Nova York, porém, os criadores da peça resolveram mudar o conflito e torná-lo mais próximo da realidade do momento: surgia assim o impossível romance entre uma porto-riquenha e um descendente de poloneses. Com o título modificado para o eternizado "West Side Story", o espetáculo estreou e foi um sucesso instantâneo, ficando em cartaz por quase dois anos. Como não poderia deixar de ser, seu êxito logo chamou a atenção de Hollywood - mais precisamente do produtor Walter Mirisch, que viu nele o potencial de uma bela carreira também no cinema. Logo de cara, porém, esbarrou em um problema quase intransponível: Jerome Robbins, o autor de todas as energéticas coreografias que encantaram o público no teatro, se recusou a trabalhar no filme, a menos que o dirigisse. Ciente de que Robbins nunca havia dirigido um filme, Mirisch conseguiu chegar a um meio-termo com seu novo contratado, e entregou a ele a direção das sequências de dança, enquanto Robert Wise ficava encarregado das demais cenas. O acordo não durou muito.
Antes mesmo que Robbins fosse afastado do projeto devido ao atraso das filmagens e o estouro do orçamento que seu perfeccionismo havia causado - ele insistia em filmar cada cena de inúmeros ângulos, o que, logicamente, desagradou os produtores -, outra questão tomou conta dos bastidores. Considerados velhos demais para interpretarem jovens rebeldes, praticamente todos os atores da peça original foram descartados para a transição à tela grande, pouco importando se o novo elenco sabia ou não cantar (em Hollywood, onde era quase tradição o uso de dublagem em filmes do gênero, esse era apenas um detalhe quase insignificante, por incrível que pareça). A partir daí, atores e atrizes de todos os tipos foram cogitados e/ou testados para o projeto: no lado feminino, os nomes mais famosos cotados foram os de Suzanne Pleshette e Audrey Hepburn - que pulou fora por conta de uma gravidez. Entre os homens, a lista incluía futuros astros como Anthony Perkins, Richard Chamberlain, Burt Reynolds e Warren Beatty. Beatty era, segundo boatos, o preferido da atriz Natalie Wood, escolhida para o principal papel feminino - uma teoria que não se sustenta, já que os dois jovens atores não tinham exatamente se dado muito bem nas recentes filmagens de "Clamor do sexo" (1961) e só viriam a assumir um romance depois da separação da atriz. Com Beatty e os demais candidatos fora do páreo, a protagonização masculina ficou com Richard Beymer, até então mais conhecido por séries de televisão do que por sua carreira cinematográfica. Nem mesmo Beymer, que trinta anos mais tarde passaria a ser reconhecido como Benjamin Horne, o ambicioso empresário da série cult "Twin Peaks" (em que voltou a contracenar com Russ Tamblyn), tinha certeza se era a melhor escolha da produção - talvez porque a primeira opção do diretor havia sido ninguém menos que Elvis Presley.
Presley, um dos maiores ídolos musicais de todos os tempos, brincava de ator desde "Ama-me com ternura", lançado em 1956, mas seus filmes nunca exigiam dele mais do que cantar e explorar seu carisma. Em "Amor, sublime amor", ele teria a chance de fugir da previsibilidade das produções que serviam apenas de veículo para vender discos e fazer parte de algo que prometia ser um enorme sucesso. Porém, por conta de seu então empresário, o temido "Coronel", que não gostava da ideia de ter sua galinha de ovos de ouro participando de um projeto cujo controle ele não teria, Presley abandonou o barco - e a possibilidade de ter seu nome associado a um clássico dos mais adorados pelo público. A recusa do "Coronel" não tinha nada de escolha artística: a participação de Elvis no filme não lhe daria direitos sobre as canções da trilha sonora - e além disso, das doze canções do roteiro, apenas metade seriam interpretadas por ele. Na visão mercenária de seu empresário, era um mau negócio em termos financeiros, e conforme o tempo provou, quem mais saiu perdendo foi o cantor: o disco com a trilha sonora do filme tornou-se a mais vendida da história e, com o impressionante número de 249 semanas em cartaz em Paris, "Amor, sublime amor" também mantém o recorde de tempo de um único filme nos cinemas franceses. Mas, apesar do sucesso de público e de Oscars, o filme de Robbins e Wise não conquistou completamente a crítica norte-americana.
Se Roger Ebert, um dos mais respeitados críticos de cinema dos EUA, louvou "Amor, sublime amor" e o colocou na lista de seus filmes preferidos, o mesmo não pode ser dito a respeito da temida Pauline Kael, que massacrou o filme em suas colunas: dos diálogos que considerou antiquados às sequências de dança com as quais não se empolgou - passando pelo desempenho de Natalie Wood -, Kael não se deixou seduzir pelo filme como a maioria de seus colegas. Isso não o impediu, no entanto, de tornar-se parte do inconsciente coletivo internacional. Com algumas das canções mais famosas do cancioneiro norte-americano - "Maria", "I feel pretty" e "America" são conhecidas mesmo por quem nunca assistiu ao filme -, "Amor, sublime amor" conta, através de números de dança e música, a trágica história de amor entre Maria (Natalie Wood), uma jovem porto-riquenha cujo irmão é o líder de uma gangue em Nova York, e Tony (Richard Beymer), descendente de poloneses indiretamente ligado à gangue rival. Substituindo lutas por coreografias, diálogos por canções icônicas e alterando em parte o final da peça de Shakespeare, o filme até pode soar um pouco datado - em especial quando se lembra que os musicais mais bem-sucedidos das últimas décadas -, mas é, sem dúvida, um dos mais importantes produtos cinematográficos realizados em Hollywood. Com dez Oscar e três importantes Golden Globes no currículo, também ficou na história como um dos filmes mais premiados pela Academia - e em 2020 será revisitado por Steven Spielberg, em um remake talvez desnecessário., consequência de ser um dos filmes mais adorados pelos fãs do gênero.
segunda-feira
ATRAVÉS DE UM ESPELHO
ATRAVÉS DE UM ESPELHO (Sasom i en spegel, 1961, Svensk Filmindustri, 90min) Direção e roteiro: Ingmar Bergman. Fotografia: Sven Nykvist. Montagem: Ulla Ryghe. Figurino: Mago. Direção de arte: P. A. Lundgren. Produção: Allan Ekelund. Elenco: Harriet Andersson, Gunnar Bjornstrand, Max Von Sydow, Lars Passgard. Estreia: 16/10/61
2 indicações ao Oscar: Melhor Filme Estrangeiro, Roteiro Original
Vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro
Fazia pouco tempo que a Academia de Hollywood havia criado oficialmente a categoria de Melhor Filme Estrangeiro quando o sueco Ingmar Bergman levou seu segundo Oscar consecutivo. Não que fosse um acontecimento inédito - o italiano Federico Fellini também já tinha duas estatuetas em casa, por "A estrada da vida" e "Noites de Cabíria", premiados em 1956 e 1957, respectivamente. Acontece que, ao contrário de "A fonte e a donzela" (vencedor do Oscar em 1960), o segundo filme oscarizado de Bergman, "Através de um espelho", não foi exatamente aplaudido pela crítica norte-americana quando foi lançado, e um dos artigos chegava a prever que o auge criativo do cineasta estava em seus últimos momentos. Nem mesmo a aprovação da Academia (e sua indicação ao Oscar de roteiro original no ano seguinte, quando foi exibido nos EUA) ajudou a mudar essa situação. Foi preciso que muitos anos se passassem até que finalmente o filme fosse reconhecido como um clássico - e levando-se em conta que até o próprio diretor, pouco afeito a autoelogios, o considerava um de seus melhores trabalhos, demorou bastante para que assumisse, junto aos críticos, um lugar de destaque em sua elogiada filmografia. Vencedor de um prêmio no Festival de Berlim em 1962, "Através de um espelho" é um dos primeiros passos de Bergman em direção à estrutura consagrada cinco anos mais tarde com uma de suas obras-primas, "Persona" (1966).
Assim como em "Persona" e em boa parte de sua obra, Bergman usa e abusa de longas pausas, diálogos profundos e personagens de uma complexidade ímpar. Através de um roteiro que lembra o teatro de Strindberg - e cuja estrutura mais tarde seria emulada pelos filmes mais sérios de Woody Allen -, "Através de um espelho" se mostra sucinto e com intenções filosóficas. A busca por Deus, crises de fé e a procura incessante por uma paz de espírito que se revela muito mais difícil do que se poderia supor, o filme de Bergman é aparentemente econômico em termos dramáticos, mas emocionalmente devastador. Lógico que, sob a visão quase gélida do cineasta, a emoção parece mais cerebral, e é justamente esse aparente paradoxo (razão vs sentimento) que se revela a base do filme: os personagens são inteligentes e cultos, mas sua tentativa de racionalizar o que os devora por dentro acaba se revelando inútil quando a angústia e o desespero assumem a protagonização.
A trama, desenvolvida no roteiro do próprio Bergman, tem início com o retorno de Karin (Harriet Andersson) ao convívio familiar, depois de uma temporada em um hospital psiquiátrico. Seu relacionamento com o marido, Martin (Max von Sydow), há muito deixou de ser um casamento tradicional, transformando-se, aos poucos, em uma amizade profunda. Martin se dedica a cuidar da esposa, e resolve levá-la à propriedade de verão da família, em uma ilha distante. A eles, juntam-se o pai de Karin, David (Gunnar Bjornstrand) - um célebre escritor que praticamente abandonou os filhos após a morte da esposa - e seu irmão, Minus (Lars Passggard), batalhando a seu próprio modo com os hormônios da adolescência. O que deveria ser uma reunião familiar pacífica aos poucos vai se tornando uma grande sessão de terapia: Karin descobre que sua doença mental, herdada da mãe, é incurável, e David tenta reaproximar-se dos filhos - enquanto cabe a Martin tentar equilibrar as relações e apoiar sua mulher em sua descida rumo à insanidade e a busca por uma resposta de Deus a suas questões mais profundas.
Longe de ser um filme fácil, "Através de um espelho" não deixa de ser, também, uma das obras mais acessíveis de Bergman. Apesar de sua utilização de símbolos e metáforas, seu roteiro é linear e fluido, como uma boa peça de teatro. Para isso, ele conta, logicamente, com um quarteto de atores completamente entregues. Harriet Andersson brilha na pele de Karin, a mais complexa dos personagens, uma mulher constantemente no fio da navalha. Max von Sydow, um dos colaboradores habituais do diretor, mostra, mais uma vez, como a economia de gestos e palavras pode engrandecer um filme. O estreante Lars Passgard também dá conta do recado, com um personagem cujos sentimentos somente aos poucos vão sendo revelados (ao espectador e a ele mesmo), e o veterano Gunnar Bjornstrand transmite, através de uma interpretação discreta, todo o turbilhão de culpa e melancolia de seu David. Um filme para adultos, "Através de um espelho" é quase a antítese do cinema comercial americano - para uns, um bálsamo. Para outros, uma tortura. Ainda assim, é impossível negar seu brilhantismo dramático e sua direção exemplar.
2 indicações ao Oscar: Melhor Filme Estrangeiro, Roteiro Original
Vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro
Fazia pouco tempo que a Academia de Hollywood havia criado oficialmente a categoria de Melhor Filme Estrangeiro quando o sueco Ingmar Bergman levou seu segundo Oscar consecutivo. Não que fosse um acontecimento inédito - o italiano Federico Fellini também já tinha duas estatuetas em casa, por "A estrada da vida" e "Noites de Cabíria", premiados em 1956 e 1957, respectivamente. Acontece que, ao contrário de "A fonte e a donzela" (vencedor do Oscar em 1960), o segundo filme oscarizado de Bergman, "Através de um espelho", não foi exatamente aplaudido pela crítica norte-americana quando foi lançado, e um dos artigos chegava a prever que o auge criativo do cineasta estava em seus últimos momentos. Nem mesmo a aprovação da Academia (e sua indicação ao Oscar de roteiro original no ano seguinte, quando foi exibido nos EUA) ajudou a mudar essa situação. Foi preciso que muitos anos se passassem até que finalmente o filme fosse reconhecido como um clássico - e levando-se em conta que até o próprio diretor, pouco afeito a autoelogios, o considerava um de seus melhores trabalhos, demorou bastante para que assumisse, junto aos críticos, um lugar de destaque em sua elogiada filmografia. Vencedor de um prêmio no Festival de Berlim em 1962, "Através de um espelho" é um dos primeiros passos de Bergman em direção à estrutura consagrada cinco anos mais tarde com uma de suas obras-primas, "Persona" (1966).
Assim como em "Persona" e em boa parte de sua obra, Bergman usa e abusa de longas pausas, diálogos profundos e personagens de uma complexidade ímpar. Através de um roteiro que lembra o teatro de Strindberg - e cuja estrutura mais tarde seria emulada pelos filmes mais sérios de Woody Allen -, "Através de um espelho" se mostra sucinto e com intenções filosóficas. A busca por Deus, crises de fé e a procura incessante por uma paz de espírito que se revela muito mais difícil do que se poderia supor, o filme de Bergman é aparentemente econômico em termos dramáticos, mas emocionalmente devastador. Lógico que, sob a visão quase gélida do cineasta, a emoção parece mais cerebral, e é justamente esse aparente paradoxo (razão vs sentimento) que se revela a base do filme: os personagens são inteligentes e cultos, mas sua tentativa de racionalizar o que os devora por dentro acaba se revelando inútil quando a angústia e o desespero assumem a protagonização.
A trama, desenvolvida no roteiro do próprio Bergman, tem início com o retorno de Karin (Harriet Andersson) ao convívio familiar, depois de uma temporada em um hospital psiquiátrico. Seu relacionamento com o marido, Martin (Max von Sydow), há muito deixou de ser um casamento tradicional, transformando-se, aos poucos, em uma amizade profunda. Martin se dedica a cuidar da esposa, e resolve levá-la à propriedade de verão da família, em uma ilha distante. A eles, juntam-se o pai de Karin, David (Gunnar Bjornstrand) - um célebre escritor que praticamente abandonou os filhos após a morte da esposa - e seu irmão, Minus (Lars Passggard), batalhando a seu próprio modo com os hormônios da adolescência. O que deveria ser uma reunião familiar pacífica aos poucos vai se tornando uma grande sessão de terapia: Karin descobre que sua doença mental, herdada da mãe, é incurável, e David tenta reaproximar-se dos filhos - enquanto cabe a Martin tentar equilibrar as relações e apoiar sua mulher em sua descida rumo à insanidade e a busca por uma resposta de Deus a suas questões mais profundas.
Longe de ser um filme fácil, "Através de um espelho" não deixa de ser, também, uma das obras mais acessíveis de Bergman. Apesar de sua utilização de símbolos e metáforas, seu roteiro é linear e fluido, como uma boa peça de teatro. Para isso, ele conta, logicamente, com um quarteto de atores completamente entregues. Harriet Andersson brilha na pele de Karin, a mais complexa dos personagens, uma mulher constantemente no fio da navalha. Max von Sydow, um dos colaboradores habituais do diretor, mostra, mais uma vez, como a economia de gestos e palavras pode engrandecer um filme. O estreante Lars Passgard também dá conta do recado, com um personagem cujos sentimentos somente aos poucos vão sendo revelados (ao espectador e a ele mesmo), e o veterano Gunnar Bjornstrand transmite, através de uma interpretação discreta, todo o turbilhão de culpa e melancolia de seu David. Um filme para adultos, "Através de um espelho" é quase a antítese do cinema comercial americano - para uns, um bálsamo. Para outros, uma tortura. Ainda assim, é impossível negar seu brilhantismo dramático e sua direção exemplar.
domingo
O CAMINHO DAS NUVENS
O CAMINHO DAS NUVENS (O caminho das nuvens, 2003, Luiz Carlos Barreto Produções Cinematográficas, 85min) Direção: Vicente Amorim. Roteiro: David França Mendes. Fotografia: Gustavo Hadba. Montagem: Pedro Amorim. Música: André Abujamra. Figurino: Cristina Kangussu, Valeria Stefani. Direção de arte: Jean-Louis Leblanc. Produção executiva: Paula Barreto. Produção: Bruno Barreto, Lucy Barreto, Luiz Carlos Barreto, Angelo Gastal. Elenco: Cláudia Abreu, Wagner Moura, Ravi Ramos Lacerda, Manoel Sebastião, Felipe Newton, Cristina de Lima, Cláudio Jaborandy, Sidney Magal, Carol Castro, Augusto Madeira, Alexandre Zacchia. Estreia: 11/8/2003 (Festival de Toronto)
Dois dos mais assíduos e talentosos nomes do cinema brasileiro durante o final dos anos 1990/começo dos anos 2000, Cláudia Abreu e Wagner Moura se encontraram pela primeira vez nas telas graças a dois dos mais reconhecidos e longevos produtores nacionais, Lucy e Luiz Carlos Barreto. "O caminho das nuvens" pode não ter levado multidões às salas de cinema, mas foi uma promissora estreia de Vicente Amorim como diretor de longas-metragem. Depois de trabalhar como diretor de curtas e alguns episódios da série de televisão "A justiceira", o cineasta, apesar de nascido na Áustria e criado em diversas cidades do mundo, voltou sua câmera para o interior do Nordeste brasileiro, com suas dificuldades econômicas e sociais, para criar uma história de amor familiar e da obstinação de um homem para oferecer uma vida digna para seus filhos. Contando com o carisma extraordinário de sua dupla de protagonistas e uma trilha sonora repleta de sucessos de Roberto Carlos (interpretados pela própria Cláudia Abreu), "O caminho das nuvens" é, no mínimo, um filme simpático - apesar de apresentar uma trama um tanto fraca e um final em aberto que pode incomodar à parte da plateia.
Premiado como Melhor Ator no Festival de Cartagena, Wagner Moura está à vontade na pele de Romão, um pai de família sem estudo e desempregado que acredita piamente que apenas um emprego que pague 1000 reais pode resolver o problema de sustentar a mulher, Rose (Cláudia Abreu), e os cinco filhos - um deles ainda de colo. Sem dinheiro para pagar passagens de ônibus a todos, Romão e sua prole embarcam em uma viagem absurda, de bicicletas, do nordeste do país até o Rio de Janeiro, onde ele espera - como um obcecado Dom Quixote - encontrar finalmente o emprego que sonha. No meio do caminho, o grupo ganha dinheiro como pode: as crianças lavam carros e Rose, mãe dedicada e esposa amorosa, se apresenta em restaurantes de beira de estrada, cantando músicas de Roberto Carlos, sempre acompanhada de um de seus meninos. Tentando sobreviver de forma honrada, a família encontra ainda uma dificuldade inesperada quando o filho mais velho, Antônio (Ravi Ramos Lacerda), resolve tornar-se independente dos pais: sentindo-se maduro o suficiente para isso, ele desafia o poder paterno e põe em risco a estabilidade da caravana.
O roteiro, escrito por David França Medeiros, não se propõe a fazer discursos sobre a desigualdade social e tampouco aprofunda a psicologia de seus personagens, dos quais o público só tem informações esparsas e pouco informativas. O que interessa a Medeiros - e a Amorim, como diretor -, são as interrelações que surgem no decorrer de seu road movie, sejam elas entre pais e filhos, marido e mulher, ou a família com outros personagens que vão surgindo no caminho. Tais personagens, que tanto ajudam quanto atrapalham o herói em sua jornada, são ainda menos desenvolvidos: aparecem, cumprem seu papel na trama e são abandonados, assim como a estrada que vai ficando para trás a cada dia. Tal decisão do roteiro é justificada e coerente, mas priva o espectador de algumas histórias paralelas que poderiam ser igualmente fascinantes - como o diretor de um show para turistas, vivido por Sidney Magal, que se utiliza de Romão e alguns de seus filhos para uma versão estilizada de rituais indígenas em um hotel. A presença de tal personagem é catalisadora: não apenas reforça a vontade do protagonista de seguir seus instintos, como mostra ao jovem Antônio um mundo bem distante de seu universo - limitado pela proteção da família e pelos áridos cenários a que está acostumado.
A trilha sonora de "O caminho das nuvens" é um caso à parte. Belas canções de Roberto Carlos ("Como é grande o meu amor por você", "Se você pensa") ilustram cada movimento da família, interpretadas por uma surpreendentemente afinada Cláudia Abreu - que não esquece de acrescentar o sotaque nordestino a suas apresentações. De certa forma, a música alivia a dor e a dureza da trajetória de Romão e Rose, oferecendo a ela uma aura romântica que os faz lembrar, sempre, de que, apesar das dificuldades, eles tem grande amor e respeito um pelo outro. Os olhares expressivos de Cláudia e Wagner em determinados momentos dizem mais do que muitos diálogos - e a música sublinha seus sentimentos mais nobres. Poucos anos mais tarde, o cineasta Breno Silveira voltaria a utilizar o cancioneiro de Roberto no sensível "À beira do caminho" (2012), mas "O caminho das nuvens" faz isso de maneira ainda mais orgânica e sentimental. É um complemento e tanto para um filme delicado e que, se não encontrou seu público à época de seu lançamento (apesar de ser uma co-produção da Globo Filmes), vale a pena descobrir, nem que seja pelos talentos superlativos de sua dupla central de atores.
Dois dos mais assíduos e talentosos nomes do cinema brasileiro durante o final dos anos 1990/começo dos anos 2000, Cláudia Abreu e Wagner Moura se encontraram pela primeira vez nas telas graças a dois dos mais reconhecidos e longevos produtores nacionais, Lucy e Luiz Carlos Barreto. "O caminho das nuvens" pode não ter levado multidões às salas de cinema, mas foi uma promissora estreia de Vicente Amorim como diretor de longas-metragem. Depois de trabalhar como diretor de curtas e alguns episódios da série de televisão "A justiceira", o cineasta, apesar de nascido na Áustria e criado em diversas cidades do mundo, voltou sua câmera para o interior do Nordeste brasileiro, com suas dificuldades econômicas e sociais, para criar uma história de amor familiar e da obstinação de um homem para oferecer uma vida digna para seus filhos. Contando com o carisma extraordinário de sua dupla de protagonistas e uma trilha sonora repleta de sucessos de Roberto Carlos (interpretados pela própria Cláudia Abreu), "O caminho das nuvens" é, no mínimo, um filme simpático - apesar de apresentar uma trama um tanto fraca e um final em aberto que pode incomodar à parte da plateia.
Premiado como Melhor Ator no Festival de Cartagena, Wagner Moura está à vontade na pele de Romão, um pai de família sem estudo e desempregado que acredita piamente que apenas um emprego que pague 1000 reais pode resolver o problema de sustentar a mulher, Rose (Cláudia Abreu), e os cinco filhos - um deles ainda de colo. Sem dinheiro para pagar passagens de ônibus a todos, Romão e sua prole embarcam em uma viagem absurda, de bicicletas, do nordeste do país até o Rio de Janeiro, onde ele espera - como um obcecado Dom Quixote - encontrar finalmente o emprego que sonha. No meio do caminho, o grupo ganha dinheiro como pode: as crianças lavam carros e Rose, mãe dedicada e esposa amorosa, se apresenta em restaurantes de beira de estrada, cantando músicas de Roberto Carlos, sempre acompanhada de um de seus meninos. Tentando sobreviver de forma honrada, a família encontra ainda uma dificuldade inesperada quando o filho mais velho, Antônio (Ravi Ramos Lacerda), resolve tornar-se independente dos pais: sentindo-se maduro o suficiente para isso, ele desafia o poder paterno e põe em risco a estabilidade da caravana.
O roteiro, escrito por David França Medeiros, não se propõe a fazer discursos sobre a desigualdade social e tampouco aprofunda a psicologia de seus personagens, dos quais o público só tem informações esparsas e pouco informativas. O que interessa a Medeiros - e a Amorim, como diretor -, são as interrelações que surgem no decorrer de seu road movie, sejam elas entre pais e filhos, marido e mulher, ou a família com outros personagens que vão surgindo no caminho. Tais personagens, que tanto ajudam quanto atrapalham o herói em sua jornada, são ainda menos desenvolvidos: aparecem, cumprem seu papel na trama e são abandonados, assim como a estrada que vai ficando para trás a cada dia. Tal decisão do roteiro é justificada e coerente, mas priva o espectador de algumas histórias paralelas que poderiam ser igualmente fascinantes - como o diretor de um show para turistas, vivido por Sidney Magal, que se utiliza de Romão e alguns de seus filhos para uma versão estilizada de rituais indígenas em um hotel. A presença de tal personagem é catalisadora: não apenas reforça a vontade do protagonista de seguir seus instintos, como mostra ao jovem Antônio um mundo bem distante de seu universo - limitado pela proteção da família e pelos áridos cenários a que está acostumado.
A trilha sonora de "O caminho das nuvens" é um caso à parte. Belas canções de Roberto Carlos ("Como é grande o meu amor por você", "Se você pensa") ilustram cada movimento da família, interpretadas por uma surpreendentemente afinada Cláudia Abreu - que não esquece de acrescentar o sotaque nordestino a suas apresentações. De certa forma, a música alivia a dor e a dureza da trajetória de Romão e Rose, oferecendo a ela uma aura romântica que os faz lembrar, sempre, de que, apesar das dificuldades, eles tem grande amor e respeito um pelo outro. Os olhares expressivos de Cláudia e Wagner em determinados momentos dizem mais do que muitos diálogos - e a música sublinha seus sentimentos mais nobres. Poucos anos mais tarde, o cineasta Breno Silveira voltaria a utilizar o cancioneiro de Roberto no sensível "À beira do caminho" (2012), mas "O caminho das nuvens" faz isso de maneira ainda mais orgânica e sentimental. É um complemento e tanto para um filme delicado e que, se não encontrou seu público à época de seu lançamento (apesar de ser uma co-produção da Globo Filmes), vale a pena descobrir, nem que seja pelos talentos superlativos de sua dupla central de atores.
sábado
UM GOSTO DE MEL
UM GOSTO DE MEL (A taste of honey, 1961, Woodfall Film Productions, 101min) Direção: Tony Richardson. Roteiro: Shelagh Delaney, Tony Richardson, peça teatral de Shelagh Delaney. Fotografia: Walter Lassally. Montagem: Antony Gibbs. Música: John Addison. Direção de arte: Ralph Brinton. Produção: Tony Richardson. Elenco: Rita Tushingham, Dora Bryan, Murray Melvin, Robert Stephens, Paul Danquah. Estreia: 14/9/61
Vencedor do Golden Globe de Revelação Feminina (Rita Tushingham)
Vencedor de 2 Palmas de Ouro no Festival de Cannes: Melhor Ator (Murray Melvin), Melhor Atriz (Rita Tushingham)
A crítica especializada aprovou com louvor. Cerimônias de premiação tradicionais, como o Golden Globe, o BAFTA e o National Board of Review o endossaram sem pestanejar, lhe concedendo estatuetas importantes. E até mesmo o júri do prestigiado Festival de Cannes se deixou seduzir, lhe concedendo os prêmios de melhor ator e melhor atriz. Baseado em uma peça de teatro escrita por uma adolescente de 18 anos de idade, o filme britânico "Um gosto de mel" só foi ignorado mesmo pela Academia de Hollywood, que simplesmente fez vista grossa diante de seu enorme sucesso e polêmica. Ao retratar sem pudores relações que poderiam ser vistas como chocantes pelo público mais conservador, o filme de Tony Richardson marcou época, conquistou fãs através do tempo e inspirou no mínimo duas canções de Morrissey, líder da banda The Smiths, e o título de uma das músicas dos Beatles. Como se vê, nem sempre um Oscar faz falta no currículo de uma produção.
A trama, imaginada pela muito jovem Shelagh Delaney em sua vitoriosa peça de teatro, tem como protagonista a jovem Jo (Rita Tushingham), um adolescente de 17 anos que vive com sua heterodoxa mãe, Helen (Dora Bryan, vencedora do BAFTA de melhor atriz). Quando Helen - pouco afeita à solidão e bastante fã de bebidas alcóolicas - se casa novamente, com um quase desconhecido, Jo se vê sem lugar para morar. Em suas tentativas de encontrar um lugar ao sol, ela se envolve romanticamente com Jimmy (Paul Danquah), um marinheiro negro que logo vai embora da cidade e a deixa (sem que nenhum deles saiba) grávida. Novamente sem companhia, ela conhece o tímido Geoffrey (Murray Melvin), de quem se torna grande amiga e colega de apartamento. Quando a gravidez vem à tona, os dois resolvem criar a criança como se fosse deles - apesar de Geoffrey ser homossexual. A nova família, recém formada, sofre um golpe, porém, quando Helen reaparece e exige seu lugar como avó da criança prestes a nascer.
Ao tratar com naturalidade tanto a relação de Jo (uma adolescente branca, de classe operária, e portanto, respeitável) com Jimmy (um rapaz negro) quanto com Geoffrey (um gay assumido), o enredo de "Um gosto de mel" já mexia em vespeiros que poucos gostariam de ver tocados em uma década de 1960 que apenas começava a nascer - e que daria origem, pouco depois, ao movimento hippie, ao feminismo, à luta pelos direitos civis e, nos EUA, a luta contra a Guerra do Vietnã. Como se isso não fosse o bastante, no entanto, o roteiro da jovem dramaturga e do experiente cineasta ainda toca em questões mais complexas ainda. Se ser mãe solteira não era um status dos mais invejados da época, será que seria menos pior do que fazer parte de um novo tipo de núcleo familiar - que envolvia um homem gay e uma avó pouco convencional? E, mais complicado ainda, com uma criança fruto de um romance interracial? Ainda que não responda tais questões, preferindo contar a história sem buscar soluções, o filme já merece aplausos por tocar sem medo em tais controvérsias. Para isso, conta com a atuação refrescante de Rita Tushingham, estreante que ganhou o papel central em uma disputa com cerca de 2000 candidatas e provou-se uma aposta certeira e levou pra casa a Palma de Ouro de Melhor Atriz no Festival de Cannes 1961: longe de ser uma beldade com agressivo sex appeal, a jovem Tushingham continuou no cinema, mas nunca mais atingiu o mesmo patamar de sucesso de sua estreia - que lhe rendeu, também, um Golden Globe de revelação feminina.
Com diálogos inteligentes e personagens verossímeis, "Um gosto de mel" conquistou não apenas a crítica e o público mais aberto a novos ares. O cantor Morrissey citou o filme em duas das músicas de sua banda, The Smiths: "This night has opened my eyes" e "Reel around the fountain" contém frases do roteiro - o cantor, nascido na cidade de Manchester, onde o filme foi rodado, tornou-se fã incondicional da produção. Outra celebridade musical que também inspirou-se no filme de Richardson foi Paul McCartney: segundo o livro "Revolution in the head", de Ian MacDonald, o beatle nomeou "Your mother should know" a partir de um dos diálogos do roteiro. Mas, apesar de tantos elogios, prêmios e homenagens, "Um gosto de mel" é um bom filme ou apenas corajoso e à frente de seu tempo? É inegável que a qualidade dos diálogos e sua franqueza são admiráveis, e que a direção de Tony Richardson extrai de seus atores interpretações naturais, mas também não se pode deixar de perceber um certo tom mais adequado à sua época do que à atualidade. Se os temas discutidos ainda encontram eco no preconceituoso mundo do século XXI, algumas cenas podem parecer até ingênuas. É um charme, obviamente, e funcionou muito bem no começo dos anos 1960. Hoje vale mais como documento histórico - ainda que ainda possa conquistar jovens idealistas e apaixonados.
Vencedor do Golden Globe de Revelação Feminina (Rita Tushingham)
Vencedor de 2 Palmas de Ouro no Festival de Cannes: Melhor Ator (Murray Melvin), Melhor Atriz (Rita Tushingham)
A crítica especializada aprovou com louvor. Cerimônias de premiação tradicionais, como o Golden Globe, o BAFTA e o National Board of Review o endossaram sem pestanejar, lhe concedendo estatuetas importantes. E até mesmo o júri do prestigiado Festival de Cannes se deixou seduzir, lhe concedendo os prêmios de melhor ator e melhor atriz. Baseado em uma peça de teatro escrita por uma adolescente de 18 anos de idade, o filme britânico "Um gosto de mel" só foi ignorado mesmo pela Academia de Hollywood, que simplesmente fez vista grossa diante de seu enorme sucesso e polêmica. Ao retratar sem pudores relações que poderiam ser vistas como chocantes pelo público mais conservador, o filme de Tony Richardson marcou época, conquistou fãs através do tempo e inspirou no mínimo duas canções de Morrissey, líder da banda The Smiths, e o título de uma das músicas dos Beatles. Como se vê, nem sempre um Oscar faz falta no currículo de uma produção.
A trama, imaginada pela muito jovem Shelagh Delaney em sua vitoriosa peça de teatro, tem como protagonista a jovem Jo (Rita Tushingham), um adolescente de 17 anos que vive com sua heterodoxa mãe, Helen (Dora Bryan, vencedora do BAFTA de melhor atriz). Quando Helen - pouco afeita à solidão e bastante fã de bebidas alcóolicas - se casa novamente, com um quase desconhecido, Jo se vê sem lugar para morar. Em suas tentativas de encontrar um lugar ao sol, ela se envolve romanticamente com Jimmy (Paul Danquah), um marinheiro negro que logo vai embora da cidade e a deixa (sem que nenhum deles saiba) grávida. Novamente sem companhia, ela conhece o tímido Geoffrey (Murray Melvin), de quem se torna grande amiga e colega de apartamento. Quando a gravidez vem à tona, os dois resolvem criar a criança como se fosse deles - apesar de Geoffrey ser homossexual. A nova família, recém formada, sofre um golpe, porém, quando Helen reaparece e exige seu lugar como avó da criança prestes a nascer.
Ao tratar com naturalidade tanto a relação de Jo (uma adolescente branca, de classe operária, e portanto, respeitável) com Jimmy (um rapaz negro) quanto com Geoffrey (um gay assumido), o enredo de "Um gosto de mel" já mexia em vespeiros que poucos gostariam de ver tocados em uma década de 1960 que apenas começava a nascer - e que daria origem, pouco depois, ao movimento hippie, ao feminismo, à luta pelos direitos civis e, nos EUA, a luta contra a Guerra do Vietnã. Como se isso não fosse o bastante, no entanto, o roteiro da jovem dramaturga e do experiente cineasta ainda toca em questões mais complexas ainda. Se ser mãe solteira não era um status dos mais invejados da época, será que seria menos pior do que fazer parte de um novo tipo de núcleo familiar - que envolvia um homem gay e uma avó pouco convencional? E, mais complicado ainda, com uma criança fruto de um romance interracial? Ainda que não responda tais questões, preferindo contar a história sem buscar soluções, o filme já merece aplausos por tocar sem medo em tais controvérsias. Para isso, conta com a atuação refrescante de Rita Tushingham, estreante que ganhou o papel central em uma disputa com cerca de 2000 candidatas e provou-se uma aposta certeira e levou pra casa a Palma de Ouro de Melhor Atriz no Festival de Cannes 1961: longe de ser uma beldade com agressivo sex appeal, a jovem Tushingham continuou no cinema, mas nunca mais atingiu o mesmo patamar de sucesso de sua estreia - que lhe rendeu, também, um Golden Globe de revelação feminina.
Com diálogos inteligentes e personagens verossímeis, "Um gosto de mel" conquistou não apenas a crítica e o público mais aberto a novos ares. O cantor Morrissey citou o filme em duas das músicas de sua banda, The Smiths: "This night has opened my eyes" e "Reel around the fountain" contém frases do roteiro - o cantor, nascido na cidade de Manchester, onde o filme foi rodado, tornou-se fã incondicional da produção. Outra celebridade musical que também inspirou-se no filme de Richardson foi Paul McCartney: segundo o livro "Revolution in the head", de Ian MacDonald, o beatle nomeou "Your mother should know" a partir de um dos diálogos do roteiro. Mas, apesar de tantos elogios, prêmios e homenagens, "Um gosto de mel" é um bom filme ou apenas corajoso e à frente de seu tempo? É inegável que a qualidade dos diálogos e sua franqueza são admiráveis, e que a direção de Tony Richardson extrai de seus atores interpretações naturais, mas também não se pode deixar de perceber um certo tom mais adequado à sua época do que à atualidade. Se os temas discutidos ainda encontram eco no preconceituoso mundo do século XXI, algumas cenas podem parecer até ingênuas. É um charme, obviamente, e funcionou muito bem no começo dos anos 1960. Hoje vale mais como documento histórico - ainda que ainda possa conquistar jovens idealistas e apaixonados.
sexta-feira
O CASAMENTO DE RACHEL
O CASAMENTO DE RACHEL (Rachel getting married, 2008, Sony Pictures Classic, 110min) Direção: Jonathan Demme. Roteiro: Jenny Lumet. Fotografia: Declan Quinn. Montagem: Tim Squyres. Música: Donald Harrison Jr., Zafer Tawil. Figurino: Susan Lyall. Direção de arte/cenários: Ford Wheeler/Chryss Hionis. Produção executiva: Carol Cuddy, Ilona Herzberg. Produção: Neda Armian, Jonathan Demme, Marc Platt. Elenco: Anne Hathaway, Debra Winger, Rosemarie De Witt, Anisa George, Mather Zickel, Tunde Adebimpe, Bill Irwinn, Anna Deavere Smith, Sebastian Stan. Estreia: 01/9/08 (Festival de Veneza)
Indicado ao Oscar de Melhor Atriz (Anne Hathaway)
Quando Jonathan Demme começou a chamar a atenção do público, na segunda metade da década de 1980, ele se destacava por comédias amalucadas com personagens femininas fortes - "Totalmente selvagem" (1986), com Melanie Griffith, e "De caso com a máfia" (1988), com Michelle Pfeiffer, tornaram-se cult movies principalmente por suas atrizes principais. Depois, em uma nova fase, ele abraçou o cinema comercial (pero no mucho) com filmes vencedores do Oscar - "O silêncio dos inocentes" (1991), vencedor das cinco principais estatuetas da Academia, e "Filadélfia" (1993), que deu o primeiro troféu a Tom Hanks e premiou Bruce Springsteen por sua bela "Streets of Philadelphia". Mais tarde, depois do fracasso do ambicioso "Bem-amada", estrelado por Oprah Winfrey em 1998, dedicou-a remakes: "O segredo de Charlie" (2002), tinha Mark Wahlberg e Thandie Newton, e "Sob o domínio do mal" (2004) foi estrelado por Denzel Washington e Meryl Streep, mas nenhum fez barulho nas bilheterias e junto aos críticos. Foi assim, como um cineasta já acostumado aos altos e baixos da profissão e que buscava conforto dirigindo documentários e videoclipes, que Demme voltou aos holofotes. Realizado de forma independente e emprestando seu visual dos documentários, "O casamento de Rachel" estreou no Festival de Veneza de 2008 - e, de cara, chamou a atenção para a qualidade que seria seu maior trunfo nas cerimônias de premiação da temporada: o desempenho excepcional de sua protagonista, Anne Hathaway.
Uma atriz então em ascensão, com papéis tanto em dramas premiados como "O segredo de Brokeback Mountain" (2005) quanto em sucessos de bilheteria como "O diabo veste Prada" (2006), a jovem Hathaway (que levaria o Oscar de coadjuvante pela versão cinematográfica do musical "Os miseráveis", de 2012) foi a escolha perfeita para viver a conturbada e complexa protagonista do filme de Demme, uma mulher não exatamente admirável, mas tão repleta de nuances que somente uma atriz com seu talento conseguiria segurar sem apelar para os clichês que se poderia esperar. Tudo bem que o roteiro de Jenny Lumet - filha do veterano cineasta Sidney Lumet - foge completamente de qualquer emoção mais fácil, mas é a união da direção de Jonathan e da atuação de Hathaway que dá a estrutura da narrativa. Filmado com uma câmera na mão e contando apenas com uma trilha sonora diagética (originada apenas pelos sons dentro da ação), "O casamento de Rachel" se equilibra com cuidado entre um drama familiar e o registro de uma cerimônia que tem espaço para reconciliações, brigas, lavagem de roupa suja e, para salvação de todos, demonstrações de amor profundo e apaixonado. Tudo regado a vários gêneros musicais (inclusive com a participação de uma escola de samba) e interpretações precisas - e conta-se aí o retorno da ótima Debra Winger, no papel, secundário mas crucial, da mãe da personagem central.
Kym Buchman, a protagonista, acaba de ser liberada provisoriamente de sua reabilitação para o casamento de sua irmã mais velha, Rachel (Rosemarie De Witt). Ausente de casa há nove meses, e frequentadora habitual da clínica de onde está saindo, Kym não é exatamente uma pessoa confiável, o que fica claro com a constante vigilância de seu pai, Paul (Bill Irwin) e com o clima de tensão que seu retorno ao lar provoca em todos. A relação entre Kym e Rachel é de carinho, mas não demora para que a noiva passe a sentir-se incomodada com a presença de sua irmã mais nova - especialmente quando Kym começa a dar sinais de que pretende aproveitar a festa para tentar remendar alguns de seus erros do passado, o que inclui um acidente fatal que ainda não está superado pela família. Envolvida também em uma relação casual com um dos padrinhos do noivo, Kieran (Mather Zickel), a quem conheceu em uma reunião de Alcóolicos Anônimos, Kym está sempre a um passo de uma recaída - ou, pior ainda, de uma tentativa desesperada de provar-se uma mulher mais segura e confiante para todos os convidados do casamento, incluindo a desconhecida família do noivo.
Ainda que tenha recuperado parte do prestígio do diretor, "O casamento de Rachel" nem de longe chega a lembrar a genialidade demonstrada em seus filmes mais populares - principalmente o inesquecível "O silêncio dos inocentes". Seu filme acerta em não fazer de Kym uma heroína chorosa ou vítima - ainda que isso faça dela um tanto irritante, também a torna muito mais crível. Anne Hathaway deita e rola com as oportunidades do papel (que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de melhor atriz), e enfrenta com segurança a série de desafios que o roteiro lhe apresenta, incluindo um embate violento com sua mãe e uma sessão de lembranças que traz à tona (mais uma vez) a tragédia causada por ela na adolescência. Os personagens de Lumet são realistas, humanos e passíveis de erros, e é exatamente por isso que "O casamento de Rachel" consegue ser tão incômodo e quase desagradável em alguns momentos. A delicadeza com que Demme trata a produção, no entanto, evita o melodrama barato e a aproxima mais da filmografia de Robert Altman - grande referência do diretor durante as filmagens. Simples no visual e complexo nos sentimentos, "O casamento de Rachel" não é recomendado para quem busca entretenimento puro - mas pode conquistar àqueles que procuram uma consistência dramática cada vez mais rara no cinemão norte-americano.
Indicado ao Oscar de Melhor Atriz (Anne Hathaway)
Quando Jonathan Demme começou a chamar a atenção do público, na segunda metade da década de 1980, ele se destacava por comédias amalucadas com personagens femininas fortes - "Totalmente selvagem" (1986), com Melanie Griffith, e "De caso com a máfia" (1988), com Michelle Pfeiffer, tornaram-se cult movies principalmente por suas atrizes principais. Depois, em uma nova fase, ele abraçou o cinema comercial (pero no mucho) com filmes vencedores do Oscar - "O silêncio dos inocentes" (1991), vencedor das cinco principais estatuetas da Academia, e "Filadélfia" (1993), que deu o primeiro troféu a Tom Hanks e premiou Bruce Springsteen por sua bela "Streets of Philadelphia". Mais tarde, depois do fracasso do ambicioso "Bem-amada", estrelado por Oprah Winfrey em 1998, dedicou-a remakes: "O segredo de Charlie" (2002), tinha Mark Wahlberg e Thandie Newton, e "Sob o domínio do mal" (2004) foi estrelado por Denzel Washington e Meryl Streep, mas nenhum fez barulho nas bilheterias e junto aos críticos. Foi assim, como um cineasta já acostumado aos altos e baixos da profissão e que buscava conforto dirigindo documentários e videoclipes, que Demme voltou aos holofotes. Realizado de forma independente e emprestando seu visual dos documentários, "O casamento de Rachel" estreou no Festival de Veneza de 2008 - e, de cara, chamou a atenção para a qualidade que seria seu maior trunfo nas cerimônias de premiação da temporada: o desempenho excepcional de sua protagonista, Anne Hathaway.
Uma atriz então em ascensão, com papéis tanto em dramas premiados como "O segredo de Brokeback Mountain" (2005) quanto em sucessos de bilheteria como "O diabo veste Prada" (2006), a jovem Hathaway (que levaria o Oscar de coadjuvante pela versão cinematográfica do musical "Os miseráveis", de 2012) foi a escolha perfeita para viver a conturbada e complexa protagonista do filme de Demme, uma mulher não exatamente admirável, mas tão repleta de nuances que somente uma atriz com seu talento conseguiria segurar sem apelar para os clichês que se poderia esperar. Tudo bem que o roteiro de Jenny Lumet - filha do veterano cineasta Sidney Lumet - foge completamente de qualquer emoção mais fácil, mas é a união da direção de Jonathan e da atuação de Hathaway que dá a estrutura da narrativa. Filmado com uma câmera na mão e contando apenas com uma trilha sonora diagética (originada apenas pelos sons dentro da ação), "O casamento de Rachel" se equilibra com cuidado entre um drama familiar e o registro de uma cerimônia que tem espaço para reconciliações, brigas, lavagem de roupa suja e, para salvação de todos, demonstrações de amor profundo e apaixonado. Tudo regado a vários gêneros musicais (inclusive com a participação de uma escola de samba) e interpretações precisas - e conta-se aí o retorno da ótima Debra Winger, no papel, secundário mas crucial, da mãe da personagem central.
Kym Buchman, a protagonista, acaba de ser liberada provisoriamente de sua reabilitação para o casamento de sua irmã mais velha, Rachel (Rosemarie De Witt). Ausente de casa há nove meses, e frequentadora habitual da clínica de onde está saindo, Kym não é exatamente uma pessoa confiável, o que fica claro com a constante vigilância de seu pai, Paul (Bill Irwin) e com o clima de tensão que seu retorno ao lar provoca em todos. A relação entre Kym e Rachel é de carinho, mas não demora para que a noiva passe a sentir-se incomodada com a presença de sua irmã mais nova - especialmente quando Kym começa a dar sinais de que pretende aproveitar a festa para tentar remendar alguns de seus erros do passado, o que inclui um acidente fatal que ainda não está superado pela família. Envolvida também em uma relação casual com um dos padrinhos do noivo, Kieran (Mather Zickel), a quem conheceu em uma reunião de Alcóolicos Anônimos, Kym está sempre a um passo de uma recaída - ou, pior ainda, de uma tentativa desesperada de provar-se uma mulher mais segura e confiante para todos os convidados do casamento, incluindo a desconhecida família do noivo.
Ainda que tenha recuperado parte do prestígio do diretor, "O casamento de Rachel" nem de longe chega a lembrar a genialidade demonstrada em seus filmes mais populares - principalmente o inesquecível "O silêncio dos inocentes". Seu filme acerta em não fazer de Kym uma heroína chorosa ou vítima - ainda que isso faça dela um tanto irritante, também a torna muito mais crível. Anne Hathaway deita e rola com as oportunidades do papel (que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de melhor atriz), e enfrenta com segurança a série de desafios que o roteiro lhe apresenta, incluindo um embate violento com sua mãe e uma sessão de lembranças que traz à tona (mais uma vez) a tragédia causada por ela na adolescência. Os personagens de Lumet são realistas, humanos e passíveis de erros, e é exatamente por isso que "O casamento de Rachel" consegue ser tão incômodo e quase desagradável em alguns momentos. A delicadeza com que Demme trata a produção, no entanto, evita o melodrama barato e a aproxima mais da filmografia de Robert Altman - grande referência do diretor durante as filmagens. Simples no visual e complexo nos sentimentos, "O casamento de Rachel" não é recomendado para quem busca entretenimento puro - mas pode conquistar àqueles que procuram uma consistência dramática cada vez mais rara no cinemão norte-americano.
quinta-feira
BOM COMPORTAMENTO
BOM COMPORTAMENTO (Good time, 2017, Elara Pictures/Rhea Films, 101min) Direção e roteiro: Benny Safdie, Josh Safdie. Fotografia: Sean Price Williams. Montagem: Ronald Bronstein, Benny Safdie. Música: Oneothrix Point Never. Figurino: Miyako Bellizzi, Mordechai Rubinstein. Direção de arte/cenários: Sam Lisenco/Audrey Turner. Produção executiva: Jean-Luc De Fanti. Produção: Sebastian Bear-McClard, Oscar Boyson, Terry Douglas, Paris Kasidokostas Latsis. Elenco: Robert Pattinson, Benny Safdie, Buddy Duress, Jennifer Jason Leigh, Taliah Webster, Barkhad Abdi. Estreia: 25/5/17 (Festival de Cannes)
Fazer parte de um fenômeno cultural logicamente ajuda na carreira de um ator/atriz. Ao mesmo tempo, porém, pode transformar-se em uma prisão, especialmente quando tal fenômeno não alcança, em termos de prestígio, o tanto que alcançou comercialmente. É o que aconteceu com o elenco da saga "Crepúsculo", inspirada nos livros de Stephanie Meyer: desde que começaram a chegar aos cinemas, em 2008, suas adaptações lotaram salas de exibição mundo afora e deram instantaneamente a seus atores principais, Kristen Stewart e Robert Pattinson, status de estrelas. Mesmo bombardeados pela crítica, os filmes seguiram aplaudidos por milhares de adolescentes, encantados com o triângulo amoroso entre uma mortal, um vampiro melancólico e um lobisomem juvenil. Presos a personagens quase risíveis e entregando atuações constrangedoras, os jovens atores saíram da empreitada com seus currículos chamuscados e desacreditados diante de Hollywood. Demorou um bom tempo até que finalmente eles começassem a demonstrar que, por trás de ídolos juvenis, eles tinham talento suficiente para encarar desafios maiores. Kristen (que começou a ser notada como a filha de Jodie Foster em "O quarto do pânico", de 2002) foi a primeira, integrando o elenco de produções de peso, como a versão cinematográfica de "Na estrada", de Jack Kerouac - dirigida por Walter Salles em 2012 - e "Acima das nuvens" (2014), de Olivier Assayas, que lhe rendeu um César de atriz coadjuvante (ela foi a primeira atriz norte-americana a levar o prêmio, considerado o Oscar francês). Já seu colega de elenco - e também namorado por um determinado período de tempo, durante as filmagens da série - demorou um pouco mais a convencer além de seus fãs adolescentes.
Lembrado também como Cedric Diggory em "Harry Potter e o cálice de fogo" (2005), Pattinson já tinha vivido o pintor Salvador Dalí em "Poucas cinzas", de 2008, antes mesmo de interpretar o vampiro Edward Cullen, mas seu trabalho nas tramas de Meyer atrapalhou sua trajetória como ator sério. Suas participações em "Bel Ami: o sedutor" (baseado em Guy de Maupassant) e "Cosmópolis", dirigido por David Cronenberg, chamaram a atenção de alguns críticos, mas não chegaram a alterar a forma como o espectador médio o via. Até que "Bom comportamento", uma produção independente com orçamento de cerca de 4,5 milhões de dólares mudou tudo: aplaudidíssimo no Festival de Cannes 2017, o filme dos irmãos Benny e Josh Safdie lhe rendeu indicações a vários prêmios na temporada, elogios rasgados da imprensa e a chance de finalmente deixar para trás a imagem de galã púbere. A melhor notícia, no entanto, é que ele realmente faz esquecer as caras e bocas de seu mais célebre papel e convence com um personagem amoral e pouco confiável - escrito especialmente para ele depois que ele contatou os diretores/roteiristas e comunicou que queria trabalhar com eles.
Intrigado pelo cartaz do filme "Amor, drogas e Nova York" quando o viu pela Internet, Pattinson escreveu um email aos irmãos, demonstrando interesse em um projeto qualquer no futuro. Poucas semanas depois os três se encontraram, e os Safdie, sabendo que o nome do ator poderia abrir muitas portas para uma produção sem o apoio de grandes produtoras, não perderam tempo. Logo criaram Connie Nickas, um jovem criminoso que, movido pela força do amor que sente por seu irmão com problemas mentais, Nick (o próprio Benny Safdie, um dos diretores), se vê obrigado a entrar em uma perigosa jornada para tirá-lo do hospital em que se encontra internado desde que um assalto cometido pelos dois resultou em sua prisão. Para isso, ele conta com a ajuda de sua namorada, Corey (participação especial de Jennifer Jason Leigh) e com a adolescente Crystal (Taliah Lennice Webster), que se envolve quase sem querer na situação.
Situando sua trama em uma única noite (com poucos flashbacks), "Bom comportamento" não é, nem de longe, um filme perfeito. Apesar do esforço de Pattinson e alguns bons momentos de tensão, a trama não é forte o bastante para segurar a atenção da plateia sem que se torne cansativa. Um tanto superficial em seu desenvolvimento e com um roteiro que deixa coisas demais para a imaginação do espectador, tem um começo promissor, mas vai perdendo o gás com o decorrer do tempo - para retomá-lo, e mesmo assim sem a mesma força, na reta final. Desperdiçando o talento de Jennifer Jason Leigh e de Barkhad Abdi (indicado ao Oscar de coadjuvante por "Capitão Phillips", de 2013), "Bom comportamento" aposta todas as suas fichas no desempenho de seu ator central e no ritmo ágil: acerta no primeiro - Pattinson nunca esteve tão bem em cena -, mas tropeça no segundo, já que a agilidade da edição é, talvez, um dos calcanhares de Aquiles da produção: ao invés de complexa e inteligente, é apenas confusa. O filme seguinte dos cineastas, "Joias brutas", foi igualmente elogiado pela crítica e havia quem confiasse que a Academia iria lembrar de Adam Sandler entre seus indicados da temporada 2019 - e novamente pareceu mais uma alucinação coletiva, já que foi a produção foi solenemente ignorada pelo Oscar. Aparentemente, os irmãos tem talento, mas ainda precisam lapidá-lo antes de sua consagração. "Bom comportamento" apresenta boas ideias, mas está bem longe de estar acima da média.
Fazer parte de um fenômeno cultural logicamente ajuda na carreira de um ator/atriz. Ao mesmo tempo, porém, pode transformar-se em uma prisão, especialmente quando tal fenômeno não alcança, em termos de prestígio, o tanto que alcançou comercialmente. É o que aconteceu com o elenco da saga "Crepúsculo", inspirada nos livros de Stephanie Meyer: desde que começaram a chegar aos cinemas, em 2008, suas adaptações lotaram salas de exibição mundo afora e deram instantaneamente a seus atores principais, Kristen Stewart e Robert Pattinson, status de estrelas. Mesmo bombardeados pela crítica, os filmes seguiram aplaudidos por milhares de adolescentes, encantados com o triângulo amoroso entre uma mortal, um vampiro melancólico e um lobisomem juvenil. Presos a personagens quase risíveis e entregando atuações constrangedoras, os jovens atores saíram da empreitada com seus currículos chamuscados e desacreditados diante de Hollywood. Demorou um bom tempo até que finalmente eles começassem a demonstrar que, por trás de ídolos juvenis, eles tinham talento suficiente para encarar desafios maiores. Kristen (que começou a ser notada como a filha de Jodie Foster em "O quarto do pânico", de 2002) foi a primeira, integrando o elenco de produções de peso, como a versão cinematográfica de "Na estrada", de Jack Kerouac - dirigida por Walter Salles em 2012 - e "Acima das nuvens" (2014), de Olivier Assayas, que lhe rendeu um César de atriz coadjuvante (ela foi a primeira atriz norte-americana a levar o prêmio, considerado o Oscar francês). Já seu colega de elenco - e também namorado por um determinado período de tempo, durante as filmagens da série - demorou um pouco mais a convencer além de seus fãs adolescentes.
Lembrado também como Cedric Diggory em "Harry Potter e o cálice de fogo" (2005), Pattinson já tinha vivido o pintor Salvador Dalí em "Poucas cinzas", de 2008, antes mesmo de interpretar o vampiro Edward Cullen, mas seu trabalho nas tramas de Meyer atrapalhou sua trajetória como ator sério. Suas participações em "Bel Ami: o sedutor" (baseado em Guy de Maupassant) e "Cosmópolis", dirigido por David Cronenberg, chamaram a atenção de alguns críticos, mas não chegaram a alterar a forma como o espectador médio o via. Até que "Bom comportamento", uma produção independente com orçamento de cerca de 4,5 milhões de dólares mudou tudo: aplaudidíssimo no Festival de Cannes 2017, o filme dos irmãos Benny e Josh Safdie lhe rendeu indicações a vários prêmios na temporada, elogios rasgados da imprensa e a chance de finalmente deixar para trás a imagem de galã púbere. A melhor notícia, no entanto, é que ele realmente faz esquecer as caras e bocas de seu mais célebre papel e convence com um personagem amoral e pouco confiável - escrito especialmente para ele depois que ele contatou os diretores/roteiristas e comunicou que queria trabalhar com eles.
Intrigado pelo cartaz do filme "Amor, drogas e Nova York" quando o viu pela Internet, Pattinson escreveu um email aos irmãos, demonstrando interesse em um projeto qualquer no futuro. Poucas semanas depois os três se encontraram, e os Safdie, sabendo que o nome do ator poderia abrir muitas portas para uma produção sem o apoio de grandes produtoras, não perderam tempo. Logo criaram Connie Nickas, um jovem criminoso que, movido pela força do amor que sente por seu irmão com problemas mentais, Nick (o próprio Benny Safdie, um dos diretores), se vê obrigado a entrar em uma perigosa jornada para tirá-lo do hospital em que se encontra internado desde que um assalto cometido pelos dois resultou em sua prisão. Para isso, ele conta com a ajuda de sua namorada, Corey (participação especial de Jennifer Jason Leigh) e com a adolescente Crystal (Taliah Lennice Webster), que se envolve quase sem querer na situação.
Situando sua trama em uma única noite (com poucos flashbacks), "Bom comportamento" não é, nem de longe, um filme perfeito. Apesar do esforço de Pattinson e alguns bons momentos de tensão, a trama não é forte o bastante para segurar a atenção da plateia sem que se torne cansativa. Um tanto superficial em seu desenvolvimento e com um roteiro que deixa coisas demais para a imaginação do espectador, tem um começo promissor, mas vai perdendo o gás com o decorrer do tempo - para retomá-lo, e mesmo assim sem a mesma força, na reta final. Desperdiçando o talento de Jennifer Jason Leigh e de Barkhad Abdi (indicado ao Oscar de coadjuvante por "Capitão Phillips", de 2013), "Bom comportamento" aposta todas as suas fichas no desempenho de seu ator central e no ritmo ágil: acerta no primeiro - Pattinson nunca esteve tão bem em cena -, mas tropeça no segundo, já que a agilidade da edição é, talvez, um dos calcanhares de Aquiles da produção: ao invés de complexa e inteligente, é apenas confusa. O filme seguinte dos cineastas, "Joias brutas", foi igualmente elogiado pela crítica e havia quem confiasse que a Academia iria lembrar de Adam Sandler entre seus indicados da temporada 2019 - e novamente pareceu mais uma alucinação coletiva, já que foi a produção foi solenemente ignorada pelo Oscar. Aparentemente, os irmãos tem talento, mas ainda precisam lapidá-lo antes de sua consagração. "Bom comportamento" apresenta boas ideias, mas está bem longe de estar acima da média.
quarta-feira
A TORTURA DO MEDO
A TORTURA DO MEDO (Peeping Tom, 1960, Michael Powell, 101min) Direção: Michael Powell. Roteiro: Leo Marks. Fotografia: Otto Heller. Montagem: Noreen Ackland. Música: Brian Easdale. Direção de arte: Arthur Lawson. Produção: Michael Powell. Elenco: Karlheinz Bohm, Moira Shearer, Anna Massey, Maxine Audley, Brenda Bruce, Michael Goodliffe, Jack Watson. Estreia: 07/4/60
Dois pesos e duas medidas. Quando "Psicose" estreou nos EUA, em junho de 1960, não demorou a tornar-se um dos maiores sucessos de bilheteria da carreira de Alfred Hitchcock, e uma das influências mais duradouras da história do cinema - além de uma merecidíssima indicação ao Oscar de melhor diretor. Poucos meses antes, no entanto, o britânico "A tortura do medo" havia sido lançado nos cinemas da Inglaterra e, depois de mero cinco dias de exibição, defenestrado das salas de exibição graças à polêmica em torno de seu tema e de seu resultado final. A comparação entre os dois títulos não é gratuita: assim como no filme dirigido pelo mestre do suspense, a produção dirigida por Michael Powell tem como protagonista um assassino em série, tornado simpático perante os olhos da plateia, e não hesita em fazer do espectador uma testemunha privilegiada de seus atos sangrentos. Porém, enquanto o filme de Hitchcock marcou positivamente sua trajetória já vitoriosa, o trabalho de Powell simplesmente destruiu sua carreira: a enxurrada de críticas negativas, a reação quase histérica do público e o tom mórbido em excesso afastaram o cineasta de sua Inglaterra natal e praticamente jogaram em um ostracismo o homem por trás de espetáculos como "Os sapatinhos vermelhos" (1948) e "Neste mundo e no outro" (1946) - ao menos até ser sua filmografia redescoberta e louvada por Francis Ford Coppola e Martin Scorsese no final da década de 1960.
Mas afinal de contas, por que essa gritaria toda em torno de ""A tortura do medo", que chegou a ser listado entre "os 25 filmes mais perigosos" pela revista Premiere? Visto hoje, à luz do tempo e depois de uma overdose de produções bem mais violentas e apelativas - algumas bem-sucedidas e outras abandonadas até mesmo por seu público-alvo -, o filme de Powell até soa datado, com sua fotografia excessivamente colorida e um roteiro indeciso entre o horror puro (que chocou até mesmo seu estúdio produtor, que cortou algumas cenas mais pesadas) e o drama psicológico que tenta explicar, ainda que superficialmente o comportamento de seu protagonista. Mas é bom lembrar que, à sua época, tudo que hoje soa ultrapassado era quase uma afronta ao espectador - e o filme ficou conhecido também por ser a primeira produção britânica comercial a exibir a nudez feminina. Mas o que talvez tenha sido considerado o auge da polêmica tem mais a ver com os bastidores do que com a trama: em um toque ousado, Michael Powell colocou a si mesmo, seu filho pequeno e sua esposa em cena, interpretando, respectivamente, o pai do protagonista, ele mesmo na infância e sua mãe, que já aparece morta; tal decisão ultrajou a crítica e acelerou a trajetória do filme em direção ao status de "maldito".
O personagem principal de "A tortura do medo" é Mark Lewis (Karlheinz Bohm), um jovem aparentemente normal, que trabalha para um estúdio de cinema londrino e completa o orçamento com fotografias eróticas que vende para uma sex shop. O que ninguém que o cerca sabe, no entanto, é que seu hobby é matar mulheres e filmar o momento de suas mortes. Sua vida solitária sofre um abalo quando Helen Stephens (Anna Massey), uma jovem que vive em um dos apartamentos do prédio que ele herdou dos pais, se aproxima dele e torna-se uma espécie de amiga. Morando com a mãe, cega, Helen nem de longe imagina que Mark vê nela, ao mesmo tempo, uma confidente (ainda que não completamente) e uma possível vítima de seus impulsos homicidas. Sua relação com a vizinha não o impede, porém, de saber que a polícia está em seu rastro, principalmente depois da morte de uma colega de trabalho - cujo corpo ele escondeu no baú de um dos cenários do filme em que está trabalhando. Enquanto não é descoberto, ele deixa escapar para Helen, aos poucos, alguns traumas de infância que podem ter contribuído para seus problemas psicológicos.
Ao apresentar Mark como praticamente a vítima de uma infância e não apenas um serial killer a quem o público poderia odiar sem culpa, Michael Powell mudou as regras do jogo (de certa forma da mesma maneira que Hitchcock em "Psicose") e surpreendeu negativamente seu público, apaixonado pelo belo "Os sapatinhos vermelhos" - e que sentiu-se traído com o tom mórbido e perturbador de seu filme. Em seu terceiro e último trabalho com Moira Shearer (que ficou com um pequeno mas crucial papel, que herdou de Joan Plowright e Julie Andrews), o cineasta mergulha o espectador em um pesadelo de cores fortes e claustrofóbico ao extremo. Sem alívio cômico e sem a carpintaria dramática de Hitchcock, Powell constrói um suspense incômodo que se torna inesquecível justamente por suas características menos comerciais. Um dos filmes preferidos de Martin Scorsese, "A tortura do medo" é uma pérola ainda pouco conhecida do grande público, mas pode ser considerado, sem favor algum, um dos precursores dos slasher movies que fariam a glória dos filmes de terror que proliferariam a partir da década de 1980 - mas com uma sofisticação a que eles jamais poderiam aspirar.
Dois pesos e duas medidas. Quando "Psicose" estreou nos EUA, em junho de 1960, não demorou a tornar-se um dos maiores sucessos de bilheteria da carreira de Alfred Hitchcock, e uma das influências mais duradouras da história do cinema - além de uma merecidíssima indicação ao Oscar de melhor diretor. Poucos meses antes, no entanto, o britânico "A tortura do medo" havia sido lançado nos cinemas da Inglaterra e, depois de mero cinco dias de exibição, defenestrado das salas de exibição graças à polêmica em torno de seu tema e de seu resultado final. A comparação entre os dois títulos não é gratuita: assim como no filme dirigido pelo mestre do suspense, a produção dirigida por Michael Powell tem como protagonista um assassino em série, tornado simpático perante os olhos da plateia, e não hesita em fazer do espectador uma testemunha privilegiada de seus atos sangrentos. Porém, enquanto o filme de Hitchcock marcou positivamente sua trajetória já vitoriosa, o trabalho de Powell simplesmente destruiu sua carreira: a enxurrada de críticas negativas, a reação quase histérica do público e o tom mórbido em excesso afastaram o cineasta de sua Inglaterra natal e praticamente jogaram em um ostracismo o homem por trás de espetáculos como "Os sapatinhos vermelhos" (1948) e "Neste mundo e no outro" (1946) - ao menos até ser sua filmografia redescoberta e louvada por Francis Ford Coppola e Martin Scorsese no final da década de 1960.
Mas afinal de contas, por que essa gritaria toda em torno de ""A tortura do medo", que chegou a ser listado entre "os 25 filmes mais perigosos" pela revista Premiere? Visto hoje, à luz do tempo e depois de uma overdose de produções bem mais violentas e apelativas - algumas bem-sucedidas e outras abandonadas até mesmo por seu público-alvo -, o filme de Powell até soa datado, com sua fotografia excessivamente colorida e um roteiro indeciso entre o horror puro (que chocou até mesmo seu estúdio produtor, que cortou algumas cenas mais pesadas) e o drama psicológico que tenta explicar, ainda que superficialmente o comportamento de seu protagonista. Mas é bom lembrar que, à sua época, tudo que hoje soa ultrapassado era quase uma afronta ao espectador - e o filme ficou conhecido também por ser a primeira produção britânica comercial a exibir a nudez feminina. Mas o que talvez tenha sido considerado o auge da polêmica tem mais a ver com os bastidores do que com a trama: em um toque ousado, Michael Powell colocou a si mesmo, seu filho pequeno e sua esposa em cena, interpretando, respectivamente, o pai do protagonista, ele mesmo na infância e sua mãe, que já aparece morta; tal decisão ultrajou a crítica e acelerou a trajetória do filme em direção ao status de "maldito".
O personagem principal de "A tortura do medo" é Mark Lewis (Karlheinz Bohm), um jovem aparentemente normal, que trabalha para um estúdio de cinema londrino e completa o orçamento com fotografias eróticas que vende para uma sex shop. O que ninguém que o cerca sabe, no entanto, é que seu hobby é matar mulheres e filmar o momento de suas mortes. Sua vida solitária sofre um abalo quando Helen Stephens (Anna Massey), uma jovem que vive em um dos apartamentos do prédio que ele herdou dos pais, se aproxima dele e torna-se uma espécie de amiga. Morando com a mãe, cega, Helen nem de longe imagina que Mark vê nela, ao mesmo tempo, uma confidente (ainda que não completamente) e uma possível vítima de seus impulsos homicidas. Sua relação com a vizinha não o impede, porém, de saber que a polícia está em seu rastro, principalmente depois da morte de uma colega de trabalho - cujo corpo ele escondeu no baú de um dos cenários do filme em que está trabalhando. Enquanto não é descoberto, ele deixa escapar para Helen, aos poucos, alguns traumas de infância que podem ter contribuído para seus problemas psicológicos.
Ao apresentar Mark como praticamente a vítima de uma infância e não apenas um serial killer a quem o público poderia odiar sem culpa, Michael Powell mudou as regras do jogo (de certa forma da mesma maneira que Hitchcock em "Psicose") e surpreendeu negativamente seu público, apaixonado pelo belo "Os sapatinhos vermelhos" - e que sentiu-se traído com o tom mórbido e perturbador de seu filme. Em seu terceiro e último trabalho com Moira Shearer (que ficou com um pequeno mas crucial papel, que herdou de Joan Plowright e Julie Andrews), o cineasta mergulha o espectador em um pesadelo de cores fortes e claustrofóbico ao extremo. Sem alívio cômico e sem a carpintaria dramática de Hitchcock, Powell constrói um suspense incômodo que se torna inesquecível justamente por suas características menos comerciais. Um dos filmes preferidos de Martin Scorsese, "A tortura do medo" é uma pérola ainda pouco conhecida do grande público, mas pode ser considerado, sem favor algum, um dos precursores dos slasher movies que fariam a glória dos filmes de terror que proliferariam a partir da década de 1980 - mas com uma sofisticação a que eles jamais poderiam aspirar.
terça-feira
A BELA E A FERA
A BELA E A FERA (Beauty and the Beast, 2017, Walt Disney Films, 129min) Direção: Bill Condon. Roteiro: Stephen Chbosky, Evan Spiliotopoulos, roteiro da animação original de Linda Woolverton. Fotografia: Tobias Schliessler. Montagem: Virginia Katz. Música: Alan Menken. Figurino: Jacqueline Durran. Direção de arte/cenários: Sarah Greenwood/Katie Spencer. Produção executiva: Don Hahn, Thomas Schumacher, Jeffrey Silver. Produção: David Hoberman, Todd Lieberman. Elenco: Emma Watson, Dan Stevens, Luke Evans, Josh Gad, Kevin Kline, Ewan McGregor, Ian McKellen, Emma Thompson, Stanley Tucci. Estreia: 23/02/17
2 indicações ao Oscar: Figurino, Direção de Arte/Cenários
Em 1992, "A Bela e a Fera", animação produzida pela Disney, conseguiu furar um bloqueio histórico e ser indicada ao Oscar de Melhor Filme, anos antes que desenhos animados tivessem uma categoria para chamarem de sua e passassem a ser levados tão a sério quanto qualquer gênero mais "adulto" - e frequentemente também lembrados na corrida à estatueta principal. Na época, ficou apenas com os prêmios tradicionalmente relegados às animações (trilha sonora original e canção), mas abriu um precedente inesperado, já que fazia pouco tempo que o estúdio do Mickey havia readquirido seu status de grande produtor de filmes do gênero. Bem-sucedido nas bilheterias e aplaudido pela crítica, "A Bela e a Fera" se manteve no inconsciente coletivo do público por décadas, até que a mesma Disney teve a ideia de apresentá-lo a novas gerações - mas em formato diferente. A intenção era manter o clima original, parte das canções e a trama central, mas em live-action. Algo assim já havia sido testado em "Cinderela", dirigido por Kenneth Branagh em 2015, mas dessa vez o projeto era muito mais ambicioso: não apenas estenderia o roteiro em 45 minutos (em relação ao original) como contaria com uma atriz de considerável poder de atração, a inglesa Emma Watson, famosa por sua participação na bilionária série cinematográfica "Harry Potter". Além disso, o orçamento seria muito generoso (cerca de 160 milhões de dólares) e o diretor seria o vencedor do Oscar de melhor roteiro, Bill Condon (que arrebatou a estatueta em 1999 por "Deuses e monstros" e tinha no currículo ainda o elogiado "Kinsey: vamos falar de sexo", de 2004). Não tinha como dar errado. E não deu.
Antes mesmo de sua estreia, a nova versão de "A Bela e a Fera" já prometia ser um enorme sucesso: em suas primeiras 24 horas on line, o teaser do filme foi visto quase 92 milhões de vezes, estabelecendo, à época, um recorde. Com suas filmagens terminadas em agosto de 2015, o estúdio deixou a plateia em compasso de espera por cerca de um ano e meio até seu lançamento, em fevereiro de 2017: se foi proposital ou não é uma incógnita, mas o fato é que a estratégia deu certo, e o filme rendeu mais de 174 milhões de dólares em seu primeiro fim-de-semana nos EUA. Ao redor do mundo, a renda total foi de mais de um bilhão de dólares - uma cifra que nem mesmo os mais otimistas executivos ousariam sonhar. A melhor notícia, no entanto, quem recebeu foi o público: apesar do marketing, do orçamento inchado e de precisar atingir um patamar altíssimo de expectativa, a versão em carne e osso de "A Bela e a Fera" é um filme que em nada fica a dever a seu original: é visualmente belíssimo, tem uma trilha sonora da mais alta qualidade, um elenco muitíssimo bem escalado (desde os protagonistas até os coadjuvantes dos quais apenas se ouvem as vozes até o belo final) e um perfeito equilíbrio entre drama, aventura, romance e comédia. Tal conexão, porém, poderia não ter acontecido, caso o elenco escolhido tivesse sido outro - o que poderia muito bem ter acontecido.
Antes que Emma Watson tivesse assinado o contrato para viver Belle - com um cachê de três milhõs de dólares mais percentagem sobre a milionária bilheteria -, vários nomes chegaram a ser considerados: Lily Collins (que viveu Branca de Neve em "Espelho, espelho meu", de 2011), Emmy Rossum (a mocinha de "O fantasma da ópera", lançado em 2004), Amanda Seyfried (que havia soltado a voz em "Mamma Mia!", de 2008), Kristen Stewart (que também interpretou Branca de Neve, em "Branca de Neve e o caçador", em 2011) e Emma Roberts. O papel principal masculino - que exigiria de seu intérprete uma alta dose de paciência para atuar sob uma pesada maquiagem e ter seu rosto escondido sob CGI - também teve alguns nomes considerados antes que Dan Stevens o assumisse: Robert Pattinson, o famigerado vampiro Edward da série "Crepúsculo" esteve na mira do diretor Bill Condon - que assinou os dois últimos filmes baseados nos livros de Stephanie Meyer - e o galã do momento, Ryan Gosling, chegou a ser convidado para o papel, preferindo literalmente cantar em outra freguesia - mais precisamente nos sets de "La La Land: Cantando Estações", que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de melhor ator. Coincidência ou não, Emma Watson fez o caminho inverso: declinou da proposta para ser a protagonista do premiado filme de Demian Chazelle e preferiu realizar nas telas um de seus sonhos de criança. E o veterano Ian McKellen - que havia recusado dublar o relógio Cogsworth na produção de 1991 - dessa vez aceitou o desafio de criar o mesmo personagem. A seu lado, no time de dubladores que só mostram o rosto no desfecho do filme, nomes como os de Ewan McGregor, Emma Thompson e Stanley Tucci.
A trama do filme dessa vez comandado por Condon continua a mesma, diferindo apenas no desenvolvimento maior de alguns personagens: um príncipe, vaidoso e arrogante (Dan Stevens) é amaldiçoado por uma feiticeira e se transforma em um monstro, além de ver seu castelo, sua história e seus empregados apagados da memória de todos os que os conheceram. Seus criados são transformados em objetos e, na nova forma animalesca, ele se isola do mundo, permanecendo em seu castelo longe da vista de todos. Alguns anos mais tarde, ao tentar levar uma rosa do jardim do palácio para sua filha, o solitário Maurice (Kevin Kline) é aprisionado pela fera. Guiada por seu cavalo, que a leva diretamente ao castelo, Belle (Emma Watson), uma bela e voluntariosa jovem, consegue libertar seu pai ao oferecer-se ao posto de prisioneira. Empolgados com a situação, os objetos/criados tentam aproximar Belle da Fera - eles sabem que a única maneira de voltarem à forma original é fazer com que a garota se apaixone por ele apesar de sua aparência. Como todo conto de fadas, "A Bela e a Fera" precisa que o público compre sua história sem maiores questionamentos, e o filme de Condon consegue tal façanha sem fazer muita força. Ao transformar Belle em uma heroína de atitudes decididas, independente e com personalidade de sobra, o roteiro aproxima a trama de um contexto mais apropriado ao século XXI - o que torna o antagonista, Gaston (Luke Evans), ainda mais desagradável mesmo em comparação com uma fera. Inspirada em Katharine Hepburn, a jovem Emma Watson alcança o tom exato da personagem e conduz o espetáculo com segurança e graça. Pode até não agradar a quem não é fã de musicais, mas é inegavelmente um espetacular trabalho de adaptação, visualmente excitante e artisticamente sofisticado - mas sem perder, por um segundo sequer, seu diálogo com qualquer tipo de plateia. Um triunfo!
2 indicações ao Oscar: Figurino, Direção de Arte/Cenários
Em 1992, "A Bela e a Fera", animação produzida pela Disney, conseguiu furar um bloqueio histórico e ser indicada ao Oscar de Melhor Filme, anos antes que desenhos animados tivessem uma categoria para chamarem de sua e passassem a ser levados tão a sério quanto qualquer gênero mais "adulto" - e frequentemente também lembrados na corrida à estatueta principal. Na época, ficou apenas com os prêmios tradicionalmente relegados às animações (trilha sonora original e canção), mas abriu um precedente inesperado, já que fazia pouco tempo que o estúdio do Mickey havia readquirido seu status de grande produtor de filmes do gênero. Bem-sucedido nas bilheterias e aplaudido pela crítica, "A Bela e a Fera" se manteve no inconsciente coletivo do público por décadas, até que a mesma Disney teve a ideia de apresentá-lo a novas gerações - mas em formato diferente. A intenção era manter o clima original, parte das canções e a trama central, mas em live-action. Algo assim já havia sido testado em "Cinderela", dirigido por Kenneth Branagh em 2015, mas dessa vez o projeto era muito mais ambicioso: não apenas estenderia o roteiro em 45 minutos (em relação ao original) como contaria com uma atriz de considerável poder de atração, a inglesa Emma Watson, famosa por sua participação na bilionária série cinematográfica "Harry Potter". Além disso, o orçamento seria muito generoso (cerca de 160 milhões de dólares) e o diretor seria o vencedor do Oscar de melhor roteiro, Bill Condon (que arrebatou a estatueta em 1999 por "Deuses e monstros" e tinha no currículo ainda o elogiado "Kinsey: vamos falar de sexo", de 2004). Não tinha como dar errado. E não deu.
Antes mesmo de sua estreia, a nova versão de "A Bela e a Fera" já prometia ser um enorme sucesso: em suas primeiras 24 horas on line, o teaser do filme foi visto quase 92 milhões de vezes, estabelecendo, à época, um recorde. Com suas filmagens terminadas em agosto de 2015, o estúdio deixou a plateia em compasso de espera por cerca de um ano e meio até seu lançamento, em fevereiro de 2017: se foi proposital ou não é uma incógnita, mas o fato é que a estratégia deu certo, e o filme rendeu mais de 174 milhões de dólares em seu primeiro fim-de-semana nos EUA. Ao redor do mundo, a renda total foi de mais de um bilhão de dólares - uma cifra que nem mesmo os mais otimistas executivos ousariam sonhar. A melhor notícia, no entanto, quem recebeu foi o público: apesar do marketing, do orçamento inchado e de precisar atingir um patamar altíssimo de expectativa, a versão em carne e osso de "A Bela e a Fera" é um filme que em nada fica a dever a seu original: é visualmente belíssimo, tem uma trilha sonora da mais alta qualidade, um elenco muitíssimo bem escalado (desde os protagonistas até os coadjuvantes dos quais apenas se ouvem as vozes até o belo final) e um perfeito equilíbrio entre drama, aventura, romance e comédia. Tal conexão, porém, poderia não ter acontecido, caso o elenco escolhido tivesse sido outro - o que poderia muito bem ter acontecido.
Antes que Emma Watson tivesse assinado o contrato para viver Belle - com um cachê de três milhõs de dólares mais percentagem sobre a milionária bilheteria -, vários nomes chegaram a ser considerados: Lily Collins (que viveu Branca de Neve em "Espelho, espelho meu", de 2011), Emmy Rossum (a mocinha de "O fantasma da ópera", lançado em 2004), Amanda Seyfried (que havia soltado a voz em "Mamma Mia!", de 2008), Kristen Stewart (que também interpretou Branca de Neve, em "Branca de Neve e o caçador", em 2011) e Emma Roberts. O papel principal masculino - que exigiria de seu intérprete uma alta dose de paciência para atuar sob uma pesada maquiagem e ter seu rosto escondido sob CGI - também teve alguns nomes considerados antes que Dan Stevens o assumisse: Robert Pattinson, o famigerado vampiro Edward da série "Crepúsculo" esteve na mira do diretor Bill Condon - que assinou os dois últimos filmes baseados nos livros de Stephanie Meyer - e o galã do momento, Ryan Gosling, chegou a ser convidado para o papel, preferindo literalmente cantar em outra freguesia - mais precisamente nos sets de "La La Land: Cantando Estações", que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de melhor ator. Coincidência ou não, Emma Watson fez o caminho inverso: declinou da proposta para ser a protagonista do premiado filme de Demian Chazelle e preferiu realizar nas telas um de seus sonhos de criança. E o veterano Ian McKellen - que havia recusado dublar o relógio Cogsworth na produção de 1991 - dessa vez aceitou o desafio de criar o mesmo personagem. A seu lado, no time de dubladores que só mostram o rosto no desfecho do filme, nomes como os de Ewan McGregor, Emma Thompson e Stanley Tucci.
A trama do filme dessa vez comandado por Condon continua a mesma, diferindo apenas no desenvolvimento maior de alguns personagens: um príncipe, vaidoso e arrogante (Dan Stevens) é amaldiçoado por uma feiticeira e se transforma em um monstro, além de ver seu castelo, sua história e seus empregados apagados da memória de todos os que os conheceram. Seus criados são transformados em objetos e, na nova forma animalesca, ele se isola do mundo, permanecendo em seu castelo longe da vista de todos. Alguns anos mais tarde, ao tentar levar uma rosa do jardim do palácio para sua filha, o solitário Maurice (Kevin Kline) é aprisionado pela fera. Guiada por seu cavalo, que a leva diretamente ao castelo, Belle (Emma Watson), uma bela e voluntariosa jovem, consegue libertar seu pai ao oferecer-se ao posto de prisioneira. Empolgados com a situação, os objetos/criados tentam aproximar Belle da Fera - eles sabem que a única maneira de voltarem à forma original é fazer com que a garota se apaixone por ele apesar de sua aparência. Como todo conto de fadas, "A Bela e a Fera" precisa que o público compre sua história sem maiores questionamentos, e o filme de Condon consegue tal façanha sem fazer muita força. Ao transformar Belle em uma heroína de atitudes decididas, independente e com personalidade de sobra, o roteiro aproxima a trama de um contexto mais apropriado ao século XXI - o que torna o antagonista, Gaston (Luke Evans), ainda mais desagradável mesmo em comparação com uma fera. Inspirada em Katharine Hepburn, a jovem Emma Watson alcança o tom exato da personagem e conduz o espetáculo com segurança e graça. Pode até não agradar a quem não é fã de musicais, mas é inegavelmente um espetacular trabalho de adaptação, visualmente excitante e artisticamente sofisticado - mas sem perder, por um segundo sequer, seu diálogo com qualquer tipo de plateia. Um triunfo!
segunda-feira
OS OLHOS SEM ROSTO
OS OLHOS SEM ROSTO (Les yeux sans visage, 1960, Champs-Élysées Production/Lux Films, 90min) Direção: Georges Franju. Roteiro: Pierre Boileau, Thomas Narcejac, Jean Redon, Claude Sautet, romance de Jean Redon. Fotografia: Eugen Shuftan. Montagem: Gilbert Natot. Música: Maurice Jarre. Figurino: Marie-Martine. Direção de arte/cenários: Auguste Capelier/Margot Capelier. Produção: Jules Borkon. Elenco: Pierre Brasseur, Alida Valli, Juliette Mayniel, Alexandre Rignaut, Béatrice Altariba. Estreia: 11/01/60
Em Hollywood, os filmes de terror sempre foram relegados à incômoda categoria de filmes marginais, sem qualidade artística e criados unicamente com o objetivo de ganhar dinheiro fácil, às custas, no entanto, de uma plateia fiel ao gênero. Na França, terra da nouvelle vague e da prestigiada revista Cahièrs do Cinemà, a situação não era assim tão diferente: em 1960, quando "Os olhos sem rosto" estreou, a imprensa fez questão de demonstrar sua opinião absolutamente negativa a respeito da produção. Dirigida por Georges Franju, até então respeitado por seus documentários em curta-metragem e por ser o co-fundador da imprescindível Cinemateca Francesa, ao lado de Henri Langlois, a adaptação do livro de Jean Redon foi considerada um passo em falso em sua carreira, por tratar-se, segundo os críticos, de um "gênero menor". O único crítico razoavelmente importante a ter a coragem de desafiar o pensamento comum, um britânico do jornal "The spectator"", quase perdeu o emprego pela ousadia de reconhecer no filme as qualidades que o cineasta já havia demonstrado em trabalhos anteriores - e que continuavam aparecendo em "Os olhos sem rosto" apesar do desprezo dos jornalistas especializados. Em sua defesa - se é que precisasse de uma -, Franju declarou que escolheu adaptar o livro de Redon justamente para dar credibilidade aos filmes de suspense e terror. Demorou até que tal objetivo fosse alcançado - e, mesmo assim, com reservas.
Ao ser lançado nos EUA, "Os olhos sem rosto" já havia sido renegado em seu país de origem, o que encorajou seus exibidores a tratá-lo com quase desprezo. Não só recebeu um novo e inexplicável título - "The horror chamber of Dr. Faustus", seja lá quem seja esse Dr. Faustus criado pelos norte-americanos - como chegou aos cinemas como segunda parte de um programa duplo - o outro filme era o japonês "The manster". A essa altura, em outubro de 1962, a plateia já sabia que, durante sua exibição no Festival de Cinema de Edimburgo, alguns espectadores chegaram a desmaiar diante de uma de suas cenas consideradas mais pesadas - a saber, uma cirurgia mostrada sem preocupação com o bem-estar da audiência. Foi somente em 2003, no entanto, que o filme teve um lançamento digno, sem os cortes de sua primeira exibição e com o título original: tornou-se cult e, em 2008, ficou em 74º lugar em uma pesquisa feita pela revista Entertainment Weekly para classificar os 100 novos clássicos do cinema, lançados a partir de 1983 - está certo que, sendo de 1960, entrou na lista como um quase intruso, mas se for levado em consideração de que só foi corretamente assistido já no século XXI, dá para fechar os olhos a tal pequena trapaça.
Influente a ponto de inspirar John Carpenter a criar o visual de Michael Myers em seu "Halloween: a noite do terror" (1978) e o roqueiro Billy Idol a compor a bela "Eyes without a face", o filme de Georges Franju se destaca entre seus parceiros de gênero ao levar a história bastante a sério. Não há espaço para piadas na trama criada por Jean Redon, um sufocante pesadelo em preto-e-branco, valorizado pela trilha sonora de Maurice Jarre e pelas atuações inspiradas de seu trio de atores centrais. O filme já começa em plena ação, quando, durante a noite, uma mulher tira o corpo de outra de seu carro e o joga em um rio. Tal mulher é Louise (Alida Valli), a assistente do famoso cirurgião Genéssier (Pierre Brasseur) - e a jovem vítima é reconhecida no necrotério pelo próprio médico, que afirma tratar-se de sua filha, Christine (Juliette Maynel). Na verdade, porém, Christine não está morta, e Genéssier não apenas sabe disso como a mantém escondida em sua mansão/consultório - além disso, ele sequestra jovens do sexo feminino com a ajuda de Louise e as faz passar por cirurgias de remoção de seus rostos. Seu objetivo é um só: reconstruir o rosto de sua filha, desfigurado em um trágico acidente que foi sua responsabilidade. Ele obriga a melancólica Christine a usar uma máscara que esconde suas feições e testa com frequência a pele de outras mulheres - uma obsessão que o leva cada vez mais à insanidade.
A direção certeira de Franju mergulha o espectador em um labirinto dos mais angustiantes quando revela, aos poucos, o rumo que a trama vai tomando quando Christine passa a tentar fugir de sua situação de prisioneira (tanto do pai quanto da máscara que é obrigada a usar). Optando por um suspense psicológico salpicado por sequências bastante explícitas, o cineasta constrói um clima opressor através da música, de silêncios significativos e de uma direção de arte impressionante, que contrapõe os atos desvairados do protagonista masculino a cães e pássaros presos em algo que lembra facilmente uma masmorra. Suas opções estéticas - emuladas por Pedro Almodóvar em "A pele que habito" (2011) - são fascinantes, provocando ao mesmo tempo interesse e repulsa, curiosidade e tensão. Um filme de terror que não apela para sustos fáceis e vilões inverossímeis, "Os olhos sem rosto" é um programa de primeira para os fãs do gênero - e até mesmo aqueles avessos a produções do tipo pode ser uma descoberta das mais felizes. Uma pequena obra-prima!
Em Hollywood, os filmes de terror sempre foram relegados à incômoda categoria de filmes marginais, sem qualidade artística e criados unicamente com o objetivo de ganhar dinheiro fácil, às custas, no entanto, de uma plateia fiel ao gênero. Na França, terra da nouvelle vague e da prestigiada revista Cahièrs do Cinemà, a situação não era assim tão diferente: em 1960, quando "Os olhos sem rosto" estreou, a imprensa fez questão de demonstrar sua opinião absolutamente negativa a respeito da produção. Dirigida por Georges Franju, até então respeitado por seus documentários em curta-metragem e por ser o co-fundador da imprescindível Cinemateca Francesa, ao lado de Henri Langlois, a adaptação do livro de Jean Redon foi considerada um passo em falso em sua carreira, por tratar-se, segundo os críticos, de um "gênero menor". O único crítico razoavelmente importante a ter a coragem de desafiar o pensamento comum, um britânico do jornal "The spectator"", quase perdeu o emprego pela ousadia de reconhecer no filme as qualidades que o cineasta já havia demonstrado em trabalhos anteriores - e que continuavam aparecendo em "Os olhos sem rosto" apesar do desprezo dos jornalistas especializados. Em sua defesa - se é que precisasse de uma -, Franju declarou que escolheu adaptar o livro de Redon justamente para dar credibilidade aos filmes de suspense e terror. Demorou até que tal objetivo fosse alcançado - e, mesmo assim, com reservas.
Ao ser lançado nos EUA, "Os olhos sem rosto" já havia sido renegado em seu país de origem, o que encorajou seus exibidores a tratá-lo com quase desprezo. Não só recebeu um novo e inexplicável título - "The horror chamber of Dr. Faustus", seja lá quem seja esse Dr. Faustus criado pelos norte-americanos - como chegou aos cinemas como segunda parte de um programa duplo - o outro filme era o japonês "The manster". A essa altura, em outubro de 1962, a plateia já sabia que, durante sua exibição no Festival de Cinema de Edimburgo, alguns espectadores chegaram a desmaiar diante de uma de suas cenas consideradas mais pesadas - a saber, uma cirurgia mostrada sem preocupação com o bem-estar da audiência. Foi somente em 2003, no entanto, que o filme teve um lançamento digno, sem os cortes de sua primeira exibição e com o título original: tornou-se cult e, em 2008, ficou em 74º lugar em uma pesquisa feita pela revista Entertainment Weekly para classificar os 100 novos clássicos do cinema, lançados a partir de 1983 - está certo que, sendo de 1960, entrou na lista como um quase intruso, mas se for levado em consideração de que só foi corretamente assistido já no século XXI, dá para fechar os olhos a tal pequena trapaça.
Influente a ponto de inspirar John Carpenter a criar o visual de Michael Myers em seu "Halloween: a noite do terror" (1978) e o roqueiro Billy Idol a compor a bela "Eyes without a face", o filme de Georges Franju se destaca entre seus parceiros de gênero ao levar a história bastante a sério. Não há espaço para piadas na trama criada por Jean Redon, um sufocante pesadelo em preto-e-branco, valorizado pela trilha sonora de Maurice Jarre e pelas atuações inspiradas de seu trio de atores centrais. O filme já começa em plena ação, quando, durante a noite, uma mulher tira o corpo de outra de seu carro e o joga em um rio. Tal mulher é Louise (Alida Valli), a assistente do famoso cirurgião Genéssier (Pierre Brasseur) - e a jovem vítima é reconhecida no necrotério pelo próprio médico, que afirma tratar-se de sua filha, Christine (Juliette Maynel). Na verdade, porém, Christine não está morta, e Genéssier não apenas sabe disso como a mantém escondida em sua mansão/consultório - além disso, ele sequestra jovens do sexo feminino com a ajuda de Louise e as faz passar por cirurgias de remoção de seus rostos. Seu objetivo é um só: reconstruir o rosto de sua filha, desfigurado em um trágico acidente que foi sua responsabilidade. Ele obriga a melancólica Christine a usar uma máscara que esconde suas feições e testa com frequência a pele de outras mulheres - uma obsessão que o leva cada vez mais à insanidade.
A direção certeira de Franju mergulha o espectador em um labirinto dos mais angustiantes quando revela, aos poucos, o rumo que a trama vai tomando quando Christine passa a tentar fugir de sua situação de prisioneira (tanto do pai quanto da máscara que é obrigada a usar). Optando por um suspense psicológico salpicado por sequências bastante explícitas, o cineasta constrói um clima opressor através da música, de silêncios significativos e de uma direção de arte impressionante, que contrapõe os atos desvairados do protagonista masculino a cães e pássaros presos em algo que lembra facilmente uma masmorra. Suas opções estéticas - emuladas por Pedro Almodóvar em "A pele que habito" (2011) - são fascinantes, provocando ao mesmo tempo interesse e repulsa, curiosidade e tensão. Um filme de terror que não apela para sustos fáceis e vilões inverossímeis, "Os olhos sem rosto" é um programa de primeira para os fãs do gênero - e até mesmo aqueles avessos a produções do tipo pode ser uma descoberta das mais felizes. Uma pequena obra-prima!
domingo
A UM PASSO DA LIBERDADE
A UM PASSO DA LIBERDADE (Le trou, 1960, Filmsonor/Play Art/Titanus, 131min) Direção: Jacques Becker. Roteiro: Jacques Becker, José Giovanni, Jean Aurel (adaptação), Jacques Becker, José Giovanni (diálogos), livro de José Giovanni. Fotografia: Ghislain Cloquet. Montagem: Marguerite Renoir, Geneviève Vaury. Música: Philippe Arthuys. Direção de arte: Rino Mondellini. Produção executiva: Georges Charlot, Jean Mottet. Produção: Serge Silberman. Elenco: Michel Constantin, Jean Keraudy, Philippe Leroy, Raymond Meunier, Mark Michel. Estreia: 18/3/60
Em 1947, o jovem Claude Gaspard (Marc Michel) é transferido da cela onde está cumprindo pena por agressão à ex-mulher para uma outra, onde vivem quatro outros prisioneiros. Sua chegada inesperada cria um clima de tensão no pequeno espaço, cujos moradores nutrem um relacionamento de completa confiança. A princípio isolado dos demais colegas, Claude aos poucos vai ganhando sua simpatia - até que um dia o grupo resolve contar a ele o motivo de tamanha desconfiança: eles estão planejando uma fuga, e em um canto da cela está o túnel que já estão cavando há meses. Sem pestanejar, Claude se une ao plano - mas será que ele realmente é uma pessoa leal o bastante para ficar em silêncio a respeito? E se for, será que é capaz de manter segredo mesmo quando pressionado pelas autoridades locais? Com essa premissa simples, que une o suspense sobre a fuga com a pressão psicológica da situação, o filme "A um passo da liberdade" - ou "O buraco", em uma tradução literal do título original -, o último filme do diretor francês Jacques Becker, que morreu duas semanas após o término das filmagens, sem completar o trabalho de pós-produção. De narrativa simples e claustrofóbica, o filme é baseado em uma história real e se utiliza de atores amadores para criar mais autenticidade junto à plateia. O resultado é simplesmente sensacional.
Menos festejado que seus contemporâneos cineastas da nouvelle vague, Becker morreu antes da finalização da mixagem de som de seu último filme. Sua morte, porém, não impediu que o resultado ficasse como ele desejava: o único senão foi a eliminação de cerca de 24 minutos da metragem original, com o objetivo de atender as demandas do mercado internacional - uma perda significativa, uma vez que nunca mais se teve notícias das cenas cortadas na versão comercial. Apesar disso, "A um passo da liberdade" pode ser considerado o canto do cisne do diretor. Coautor do roteiro, baseado no livro de José Giovanni - por sua vez inspirado em uma tentativa de fuga real -, Becker demonstra total domínio do tempo, da atmosfera e da direção de atores, mesmo que todos os protagonistas sejam interpretados por atores não profissionais (um deles, Jean Keraudy, interpreta ele mesmo no filme, mesmo que com o nome disfarçado). A autenticidade da produção é perceptível também na direção de arte, que reconstitui a prisão em seus mínimos detalhes - crédito para dois membros da história real, contratados como consultores. Salvo raras exceções, todo o filme se passa dentro da cela dos presidiários e no túnel construído por eles para possibilitar a tão sonhada liberdade, ainda que tomada à força.
O protagonista, interpretado por Marc Michel é apresentado como um sujeito tímido, fechado em si e com uma clara diferença em relação a seus novos colegas: bem educado e perceptivelmente deslocado na prisão, ele se vê diante de quatro pessoas já acostumadas com a rotina do local e desprovidas de qualquer tipo de otimismo em relação a seu destino - ao menos até que seja revelado o plano de fuga. A partir daí, Becker convida o espectador a participar da trama, como uma testemunha privilegiada e - por que não? - simpática à causa dos detentos. Nesse ponto, o cineasta sublinha com precisão a tensão entre eles, abdicando de trilha sonora e enfatizando a opressão do silêncio que os cerca. Como um artesão competente, ele ainda consegue surpreender ao filmar, em tempo real, uma das incursões dos personagens ao túnel que está sendo cavado: sem cortes, o filme leva o público a sentir sua mesma sensação de cansaço e claustrofobia. O mesmo acontece em outros momentos, que desafiam a edição avassaladora do cinema comercial hollywoodiano: algumas cenas mostram pequenos acontecimentos do dia-a-dia, como a hora do jantar ou conversas pouco relevantes à trama central. É um estilo particular que pode incomodar a alguns e encantar a outros - tudo depende de quanto o espectador está disposto a embarcar em um gênero de filme normalmente associado à ação. "A um passo da liberdade", apesar do tema, jamais abandona seu DNA europeu.
Filmado em dez semanas, "A um passo da liberdade" acrescenta ainda mais "transgressões" às regras do cinema comercial: não há créditos iniciais, o filme é aberto com um dos atores (justamente um dos participantes da fuga, apresentando a trama) e a trilha sonora, quando acontece, é diagética (toda música vem de dentro dos cenários e não externamente, com exceção dos créditos finais). Além disso, Becker faz questão de retratar todos os personagens com um certo ar de mistério, que se avoluma nos minutos finais. O fato de os intérpretes serem amadores e sem experiência em cinema torna a experiência ainda mais rica: o público tem a impressão de estar assistindo a um quase documentário - beneficiado por seu talento em borrar as fronteiras do gênero e envolver a audiência com o mínimo de artifícios. Imperdível por inúmeras razões, "A um passo da liberdade" é a prova de que, se Jacques Becker é um diretor pouco reconhecido hoje em dia, precisa urgentemente ser redescoberto pelas novas gerações.
Em 1947, o jovem Claude Gaspard (Marc Michel) é transferido da cela onde está cumprindo pena por agressão à ex-mulher para uma outra, onde vivem quatro outros prisioneiros. Sua chegada inesperada cria um clima de tensão no pequeno espaço, cujos moradores nutrem um relacionamento de completa confiança. A princípio isolado dos demais colegas, Claude aos poucos vai ganhando sua simpatia - até que um dia o grupo resolve contar a ele o motivo de tamanha desconfiança: eles estão planejando uma fuga, e em um canto da cela está o túnel que já estão cavando há meses. Sem pestanejar, Claude se une ao plano - mas será que ele realmente é uma pessoa leal o bastante para ficar em silêncio a respeito? E se for, será que é capaz de manter segredo mesmo quando pressionado pelas autoridades locais? Com essa premissa simples, que une o suspense sobre a fuga com a pressão psicológica da situação, o filme "A um passo da liberdade" - ou "O buraco", em uma tradução literal do título original -, o último filme do diretor francês Jacques Becker, que morreu duas semanas após o término das filmagens, sem completar o trabalho de pós-produção. De narrativa simples e claustrofóbica, o filme é baseado em uma história real e se utiliza de atores amadores para criar mais autenticidade junto à plateia. O resultado é simplesmente sensacional.
Menos festejado que seus contemporâneos cineastas da nouvelle vague, Becker morreu antes da finalização da mixagem de som de seu último filme. Sua morte, porém, não impediu que o resultado ficasse como ele desejava: o único senão foi a eliminação de cerca de 24 minutos da metragem original, com o objetivo de atender as demandas do mercado internacional - uma perda significativa, uma vez que nunca mais se teve notícias das cenas cortadas na versão comercial. Apesar disso, "A um passo da liberdade" pode ser considerado o canto do cisne do diretor. Coautor do roteiro, baseado no livro de José Giovanni - por sua vez inspirado em uma tentativa de fuga real -, Becker demonstra total domínio do tempo, da atmosfera e da direção de atores, mesmo que todos os protagonistas sejam interpretados por atores não profissionais (um deles, Jean Keraudy, interpreta ele mesmo no filme, mesmo que com o nome disfarçado). A autenticidade da produção é perceptível também na direção de arte, que reconstitui a prisão em seus mínimos detalhes - crédito para dois membros da história real, contratados como consultores. Salvo raras exceções, todo o filme se passa dentro da cela dos presidiários e no túnel construído por eles para possibilitar a tão sonhada liberdade, ainda que tomada à força.
O protagonista, interpretado por Marc Michel é apresentado como um sujeito tímido, fechado em si e com uma clara diferença em relação a seus novos colegas: bem educado e perceptivelmente deslocado na prisão, ele se vê diante de quatro pessoas já acostumadas com a rotina do local e desprovidas de qualquer tipo de otimismo em relação a seu destino - ao menos até que seja revelado o plano de fuga. A partir daí, Becker convida o espectador a participar da trama, como uma testemunha privilegiada e - por que não? - simpática à causa dos detentos. Nesse ponto, o cineasta sublinha com precisão a tensão entre eles, abdicando de trilha sonora e enfatizando a opressão do silêncio que os cerca. Como um artesão competente, ele ainda consegue surpreender ao filmar, em tempo real, uma das incursões dos personagens ao túnel que está sendo cavado: sem cortes, o filme leva o público a sentir sua mesma sensação de cansaço e claustrofobia. O mesmo acontece em outros momentos, que desafiam a edição avassaladora do cinema comercial hollywoodiano: algumas cenas mostram pequenos acontecimentos do dia-a-dia, como a hora do jantar ou conversas pouco relevantes à trama central. É um estilo particular que pode incomodar a alguns e encantar a outros - tudo depende de quanto o espectador está disposto a embarcar em um gênero de filme normalmente associado à ação. "A um passo da liberdade", apesar do tema, jamais abandona seu DNA europeu.
Filmado em dez semanas, "A um passo da liberdade" acrescenta ainda mais "transgressões" às regras do cinema comercial: não há créditos iniciais, o filme é aberto com um dos atores (justamente um dos participantes da fuga, apresentando a trama) e a trilha sonora, quando acontece, é diagética (toda música vem de dentro dos cenários e não externamente, com exceção dos créditos finais). Além disso, Becker faz questão de retratar todos os personagens com um certo ar de mistério, que se avoluma nos minutos finais. O fato de os intérpretes serem amadores e sem experiência em cinema torna a experiência ainda mais rica: o público tem a impressão de estar assistindo a um quase documentário - beneficiado por seu talento em borrar as fronteiras do gênero e envolver a audiência com o mínimo de artifícios. Imperdível por inúmeras razões, "A um passo da liberdade" é a prova de que, se Jacques Becker é um diretor pouco reconhecido hoje em dia, precisa urgentemente ser redescoberto pelas novas gerações.
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