domingo, 20 de janeiro de 2013

MENINA MÁ PONTO COM


MENINA MÁ.COM (Hard candy, 2005, Vulcan Productions, 104min) Direção: David Slade. Roteiro: Brian Nelson. Fotografia: Jo Willems. Montagem: Art Jones. Música: Harry Escott, Molly Nyman. Figurino: Jennifer Johnson. Direção de arte/cenários: Jeremy Reed/Kathryn Holliday. Produção executiva: Jody Patton, Paul G. Allen, Rosanne Korenberg. Produção: Michael Caldwell, David W. Higgins, Richard Hutton. Elenco: Patrick Wilson, Ellen Page, Sandra Oh. Estreia: 14/4/06

Manter o interesse do público com uma história com apenas duas personagens em um cenário único não é tarefa das mais fáceis, principalmente para um diretor estreante. Então não deixa de ser admirável que "Menina má ponto com", primeiro filme de David Slade - conhecido por ter comandado videoclipes da banda Stone Temple Pilots - consiga tal façanha. Durante quase duas horas o cineasta novato conduz sua audiência rumo a uma trama tensa, dramática e calcada basicamente em longos diálogos e atuações de extrema competência. E também não atrapalha em nada o assunto de seu primeiro longa-metragem ser tão polêmico: pedofilia e justiça com as próprias mãos.

O filme começa com uma conversa via Internet entre um fotógrafo trintão e uma adolescente de 14 anos. Nota-se de cara que o papo já vem de outras ocasiões e culmina com a combinação do esperado primeiro encontro. Em seguida, Hayley Stark (Ellen Page) e Jeff Kohlver (Patrick Wilson) finalmente se encontram, e a conversa entre o charmoso fotógrafo e a esperta estudante os leva para a casa do rapaz, que lhe convence à visita com a desculpa de ouvirem música. Não demora muito para que um forte clima surja entre ambos, mas as coisas não são exatamente o que parecem. Jeff passa mal e desmaia. Quando acorda, está amarrado em uma cadeira e descobre que Hayley não é a mocinha indefesa e ingênua que ele pensava e está disposta a arrancar dele a confissão sobre o desaparecimento de uma outra adolescente que teclava com ele.



A partir daí, o roteiro de Brian Nelson encontra na direção de David Slade a combinação perfeita. Sem medo de parecer tedioso e sem a menor vontade de editar seu filme de maneira acelerada, Slade explora com prazer todas as nuances da trama, deixando sua câmera testemunhar silenciosamente o duelo entre vítima e algoz (dinâmica esta que se transforma diversas vezes durante a projeção). É brilhante a forma com que o Nelson se isenta de julgar suas personagens, sempre dando a ambas inúmeras possibilidades de defesa e empatia. Jeff, por exemplo, pode ou não ser o monstro apontado por Hayley, que, por sua vez, também se utiliza de métodos nada convencionais - e nada éticos - para tentar provar seu ponto de vista. O embate entre seus dois protagonistas é o cerne e a alma de "Menina má ponto com", e o diretor é inteligente o bastante para não deixar que nada mais importe a não ser as brilhantes atuações de seus atores.

Patrick Wilson - galã em "O fantasma da Ópera" - encontra o papel ideal para mostrar que, por trás de seu charme existe um excelente ator, capaz de despertar os mais variados sentimentos da plateia. Seu Jeff passa da sedução ao desespero, da raiva à apatia e de vilão à vítima com uma desenvoltura que poucos atores de sua geração possuem. E encontra em Ellen Page, aliás, uma parceira à altura. Com meros 17 anos de idade à época das filmagens, a jovem atriz, que concorreria ao Oscar por "Juno" pouco tempo depois, não se intimida diante de uma personagem forte e arriscada, que se perde em seu caminho rumo à justiça exatamente por causa de seu radicalismo. A combinação explosiva entre os dois é que dá ao filme de Slade uma força bastante incomum.

"Menina má ponto com" é o perfeito exemplo de como um bom roteiro, uma boa direção e atores inspirados são muito mais importantes para a qualidade de um filme do que orçamentos anabolizados e marketing agressivo. É uma pequena pérola que merece ser descoberta.

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