Primeiro foi a onda de remakes de produtos orientais - que teve seu auge com "O chamado" e desapontou com o fraco "O grito". E depois veio a moda de refilmagem de "clássicos" do terror setentista, que começou com o surpreendentemente bom "O massacre da serra elétrica" - e que continuou com esse "Viagem maldita", revisão do apavorante "Quadrilha de sádicos", que Wes Craven dirigiu em 1977. Craven - que depois ficou rico com as séries "A hora do pesadelo" e "Pânico" - é um dos produtores dessa versão século XXI de seu filme, o que lhe dá, no mínimo, credibilidade. Mas o melhor mesmo é saber que o jovem Alexandre Aja (nascido em 1978) conseguiu dar cara e sangue novo (literalmente) ao original sem perder a sua essência cruel e violenta. "Viagem maldita" é um filmaço de terror que não deve nada à sua origem.
A maior diferença entre o filme de Craven e o remake de Aja - que escreveu o novo roteiro ao lado do amigo Gregory Levasseur - diz respeito à origem dos vilões da trama, que, de canibais no filme de 1977, tornaram-se vítimas dos testes radiativos realizados no deserto do Novo México - fato real cujas consequências podem ser medidas pelas angustiantes fotos reais exibidas nos créditos iniciais. São as pessoas deformadas e mentalmente perturbadas que irão aterrorizar uma família tradicional ianque durante as duas horas seguintes, grudando o espectador na cadeira até seu minuto final. Ajudado por uma maquiagem espetacular e uma edição de som fantástica, Aja constroi um suspense crescente que não poupa o público de sequências fortes - e lhe dá a oportunidade cada vez mais rara de se importar por seus protagonistas.

Aaron Stanford - o Piro de "X-Men" - é quem acaba assumindo a protagonização de "Viagem maldita", ecoando o Dustin Hoffman de "Sob o domínio do medo", um homem comum e aparentemente frágil que encontra forças desconhecidas dentro de si quando vê a si mesmo e à sua família ameaçados. Ele vive Doug Bukowski, que acompanha a viagem dos pais da esposa, que reuniram a família em uma viagem para comemorar suas bodas de prata. O detetive aposentado Bob Carter (Ted Levine) e sua esposa Ethel (Kathleen Quinlan) mantém uma relação saudável e, junto dos três filhos, do genro e da neta recém-nascida, pensam em chegar à California e curtir alguns dias de paz e sossego. Tudo começa a mudar, porém, depois que seu trailer tem os pneus furados em pleno deserto. A família se divide para procurar ajuda e passa, então, a ser brutalizada e assediada por um grupo de homens deformados e sádicos que vivem nas montanhas.
Quem nunca assistiu a "Quadrilha de sádicos" tem a seu favor o sabor de novidade, que permite mais sustos e choques. Mas é inegável que o roteiro dos jovens fãs do original não se furta a apresentar novos elementos e aprofundar-se no terror gráfico e psicológico. Ao eleger como protagonistas uma família saudável e amorosa - mas que mesmo assim demonstra discretos pecadilhos, como o tesão reprimido de Doug pela cunhada (Emilie De Ravin) - Aja os aproxima do público, que não apenas assiste ao filme, mas também sente-se parte integrante do clã, roendo as unhas e se torcendo na poltrona de medo e terror. A escolha do diretor em não fugir do desagradável - só a cena do estupro é muito mais chocante do que boa parte de toda a série "Jogos mortais" - também é certeira, refletindo o espírito de sua época, em que filmes de terror exploram muito mais o visual do que o subjetivo. No entanto, além de assustar, "Viagem maldita" também funciona dramaticamente como poucos filmes do gênero.
Contando com nomes consagrados em seu elenco - Kathleen Quinlan já concorreu ao Oscar e Ted Levine sempre será lembrado pelo antológico vilão de "O silêncio dos inocentes" - "Viagem maldita" apresenta personagens críveis, que vão se desenvolvendo conforme a história acontece, sempre de forma orgânica e verossímil. Esse pé na realidade - equilibrado pelo visual grotesco dos agressores - é talvez a maior qualidade do filme e o que o coloca como um exemplar acima da média. Para se ver com as luzes apagadas e no silêncio absoluto!
Um comentário:
Perfeito seu texto.
É um dos poucos casos de uma refilmagem do gênero que não perde nada ao original, inclusive apresenta um roteiro melhor.
Abraço
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